30/11/16

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Esquecer alguém de quem gostaste muito é mais do que apagar um número de telemóvel e bloquear as redes sociais - é preciso que deixes morrer bocadinhos de ti que, sem querer, foste entregando ao outro. É preciso que reaprendas rotinas e que te habitues que aquele vazio, aquela falta tão igual à morte, será assim mesmo: definitiva. É preciso que te lembres de como era a vida antes de alguém, que aceites o cair do pano na vossa história, na tua história, e que assumas que não há nada a fazer. Seguir em frente, dizem. Esquecer.

Menti-te há uns meses - desculpa-me por isso, mas menti a mim mesma também. Quis crer que a raiva, a frustração e a mágoa eram sinónimos de esquecimento. Achei que poderia sarar uma ferida profunda se lhe tapasse a superfície e fingisse que ela não estava lá. Convenci-me de que, seguindo em frente, poderíamos voltar atrás. Sermos o que éramos antes desse tempo em que gostei demasiado de ti. 

Dois anos depois, dizer-te como acabei a gostar tanto de ti continua a ser similar a tentar explicar-te o sabor da água - nunca fez sentido nenhum, e talvez seja exatamente por isso que gostei tanto. Sempre contra as regras, sempre contra o mundo, não poderia ser de outra forma. E foi por isso que não te soube perdoar por te teres esquecido de mim tão depressa - gosto tão inteiramente que me custa compreender a leveza com que me deixaste ir. Ainda hoje me atormenta, ainda hoje me magoa - continuo à espera de uma explicação porque não sou capaz de aceitar o teu silêncio. Não sou capaz de lidar com a tua covardia.

Tu não sabes, mas continuas a ser a primeira pessoa em quem penso quando algo de bom ou de mau me acontece - ainda é contigo que eu quero partilhar a minha vida. Ainda é a ti que eu quero contar - já não sei quem és, mas lembro-me bem de como a pessoa que eras foi capaz de me arrebatar. De como eras tão desconcertantemente doce que eu acabei viciada em ti. Foste uma das minhas pessoas favoritas durante demasiado tempo, ricardo, para que eu consiga aceitar o ponto a que chegámos de ânimo leve.

Esquecer alguém é, provavelmente, uma das coisas mais tristes que temos de fazer - e eu não queria que tivéssemos chegado a este ponto. Queria que tivesses sido capaz de falar comigo, de me dizer a verdade. Que não me tivesses feito chegar a um ponto em que os pensamentos me sabem a automutilação, em que meto tudo em causa, em que coloco as memórias de dois anos em alvoroço e acabo, inevitavelmente, cada vez mais baralhada, cada vez mais zangada, e cada vez mais sedenta de respostas. E magoada, sim - continuas a ser demasiado egoísta para perceber o mal que me faz o teu silêncio. Continuas a achar que tens motivos válidos para não me falar. Continuas a não acreditar que gostei demasiado de ti para conseguir não sofrer com o facto de te ter perdido de vez - continuas a não conseguir compreender que nunca deixei de gostar. Nunca.

2 comentários:

Zé do Pipo disse...

Talvez o Alzheimer um dia te faça esquecer. lol

Agridoce disse...

Não assumas o que ele sente e pensa. Não permitas que os teus sentimentos sejam influenciados por aquilo que tu acreditas que é o que ele sente. Não o sabes.

Não sabes se ele te deixou partir de ânimo leve, não sabes se ele está a ser verdadeiramente egoísta, não sabes o que ele sofreu no meio deste processo, não sabes, sequer, se ele já te esqueceu.

Segue em frente, mas não o faças com esta mágoa e este rancor assentes em meras suposições. Tenta pôr-te no lugar dele. Ou, se não o conseguires fazer, gere os teus sentimentos, sem pensar nos dele.

É uma merda. É uma grandessíssima merda. Mas, na maior parte dos dias, só podemos mesmo contar com o que depende de nós.

Beijinho!