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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

cartas que acabei por enviar

Neste momento, os dias parecem-me demorar semanas a passar - habituei-me tanto a ti em tão pouco tempo que me esqueci, em menos de nada, de como era acordar e não te ter na minha vida.

Dizer que lamento adianta? Dizer que estou arrependida adianta? Sei que não dás muito valor à palavra dita, e menos ainda à escrita, mas neste momento esta é a única ponte que ainda existe entre nós, e eu recuso-me a deixá-la ruir sem tentar que me ouças. Ou que me expliques o que se passou realmente. Por isso sim, lamento tudo o que disse e não podia estar mais arrependida. Eu disse-te que era uma cabra, lembraste? Era a isto que me referia. Ataco, sem pensar duas vezes, assim que me sinto ameaçada. E tu representavas um perigo enorme para mim.

Desde que desapareceste dos meus dias que eu vivo em sobressalto; uma mensagem, uma chamada, e o meu coração dispara - mas nunca és tu. Do outro lado, nunca é a tua voz, nunca são as tuas palavras, nunca são notícias tuas, e eu começo a estar cada vez mais consciente de que já não te importas. Isso magoa-me tanto, mas tanto!

Se houve alguma coisa que me ensinaste é que ainda há pessoas que valem a pena. Ainda há pessoas por quem vale a pena derreter, afinal. Ainda há pessoas de quem não se pode desistir sem oferecer resistência, e tu és uma delas - e aqui estou eu, a escrever isto a meio da noite, sem saber ao certo em que momento terei coragem de o enviar, mas certa de que o quero fazer. E não vou desistir, aviso-te já. Hás de receber tantas cartas minhas quantas me apetecer escrever, até que alguma delas te sirva de motivo para reagir. Ou até que entendas que estava a ser sincera.

Nunca te disse isto, mas passava a vida a perguntar-me quem é que teria sido suficientemente anormal para te fazer tanto mal. Para te perder. Um dia, tive a minha resposta - eu também o fiz. Desculpa. Devia ter-te avisado de que eu sou uma coleção interminável de problemas, mas tive medo de que desistisses de tentar resolver o quebra-cabeças em que os anos me foram transformando. À medida que te ia conhecendo, comecei a achar que poderias ser a chave. Queria que o fosses.

Lembro-me muitas vezes de ti. Da forma como te rias, dos momentos em que me parecias um puto indefeso e do quão adorável eu achava o amor que tens por essa cadela. Do quanto eu me surpreendia todos os dias, quando, como sempre, eu pensava o pior e, mais uma vez, tu me davas uma lambada de luva branca. De como foste a única pessoa em quem eu consegui confiar desde o início.

Estou certa de que já não pensas em mim como eu penso em ti, mas aprendi com o tempo que dizer o que sentimos por alguém é um dos presentes mais preciosos que lhe podemos dar - e eu sinto a tua falta. Todos os dias.

terça-feira, 11 de março de 2014

cartas que não vou enviar

Enquanto esperava pela boleia, fiquei perdida no meio da estação. Não literalmente, claro, mas perdida ainda assim, entre todas aquelas caras desconhecidas que iam passando por mim, vindas de lado nenhum, enquanto uma voz monocórdica e anónima ia anunciando a chegada de mais um comboio e a partida de  outro.

Tive saudades, imagina só - de resto, toda eu sou feita de saudades ou não fosse eu portuguesíssima, dessas sofredoras que quase juram a pés juntos que as pedras da calçada de coimbra também choram quando na rua se ouve fado. Tive saudades tuas e esperei, sem esperança, que saísses de um daqueles comboios, quase todos vindos de longe, e me fizesses sentir em casa outra vez.

À minha volta só se ouvia o arrastar das malas ao longo da gare, passos lentos de quem não quer partir, passos apressados de quem tem alguém à espera, silêncios de quem nem sabe se vai se fica. Acho que eu era uma dessas pessoas, das dos silêncios. Das indecisas. Das que, não tendo ninguém à espera de qualquer um dos lados da linha, continuam na esperança de que, como que por milagre, alguém lhes sinta a falta. E senti saudades tuas e desse futuro que inventei para nós mas não nos pertence. Senti saudades do tempo em que os meus sonhos faziam sentido e eu não lhes fechava os braços, com a alma em chamas pelo medo de me deixar ir assim.

Acabei por desistir; a cada nova partida, a cada nova chegada, eu sentia uma dor lancinante que nem sabia de onde vinha, nem sabia o que me doía. Talvez tivesse concentradas em mim todas as saudades de quem se despedia, todas as ânsias de quem recebia, de braços abertos, alguém que também daqui fugiu por uns tempos. E tive de acabar por aceitar que, por mais comboios que passassem, nenhum deles te traria até mim e que a espera, além de inútil, é injusta e tortuosa. Tive de aceitar que nunca virias, ora porque não queres, ora porque não podes, ora porque nem sabes que sempre te esperei. Na dúvida, posso ir ao teu encontro. Ou fugir de vez, na direção oposta.

domingo, 2 de março de 2014

cartas que não vou enviar

Talvez esta seja a última vez que te escrevo, talvez acabe por o fazer mais uma vez, no desespero do momento em que sei que a minha mão se desprende da tua e cairás para o abismo do esquecimento. Claro que nada disto faz o mínimo sentido, nem a minha mão está na tua, nem te te apago da memória em trinta segundos. Antes fosse assim.

Estou a tentar expulsar-te da minha vida. Estou a tentar despedir-me, porque não consigo continuar assim - esse mesmo jogo, dia após dia, começa a cansar-me porque ninguém ganha, ninguém perde, e nem sei se chegamos a estar empatados. Estamos estagnados, isso sim. A atrasar-nos. Estou a tentar expulsar-te da minha vida porque não tenho um pingo de coragem de sobra para te pedir que entres nela de uma vez, ao invés de ficares a encobrir a porta e, ainda que sem saber, não deixes ninguém entrar nela. Desculpa-me a expressão, mas és o típico português que nem fode nem sai de cima, e eu estou farta disso.

Há um milhão de perguntas que gostava de te poder fazer - se, por exemplo, ouves a minha voz dentro de ti enquanto lês isto, ou se nunca estiveste suficientemente atento para a absorveres. Ou se alguma vez eu fui a primeira pessoa em quem pensaste quando ouviste o meu nome. Se alguma coisa te lembra de mim. Se, por um segundo que seja, eu te mereci algum respeito ou se, de todas as vezes que falaste de mim, foi para gozar, para criticar, para deitar ainda mais abaixo. E, mais do que tudo, se estavas a ser sincero. Mas duvido que algum dia me chegues a responder - ou não tivesse já eu experiência mais do que suficiente nessa tua conísse aguda.

Estou a tentar expulsar-te da minha vida, porque parte de mim ainda acredita que tu possas ser suficientemente psicótico para te dares ao trabalho de perder todo este tempo só para gozar com a minha cara, e eu não suporto conviver com essa ideia. Na realidade, o que mais me custa em ti, é mesmo essa incerteza toda à volta do que raio queres tu de mim afinal. E eu perguntar-te-ia, se tivesse a mínima esperança de que me respondesses.

Estou a tentar expulsar-te da minha vida, porque nunca estiveste realmente nela, mas também nunca mais saíste desde que apareceste - e isso é talvez o mais estranho de compreender. Porquê tu? Não sei. Já desisti de tentar explicá-lo, já não falo de ti a ninguém; ninguém entende. Nem mesmo eu. Ou muito menos eu. E é verdade que eu não tenho medo das palavras - mas tenho medo dos sentimentos. Correrei contigo a paus e pedras, se preciso for, mas nada do que eu disser será verdade. Estou a tentar mandar-te embora, mas quero ir contigo.

O problema é que já passou tanto tempo que eu já me esqueci de como era a vida antes de ti, de como eram as coisas antes de teres aparecido - no dia em que te expulsar da minha vida, vou sentir a tua falta. E a minha também.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

cartas que não vou enviar

Já desisti de tentar explicar aos outros porque é que gosto de ti. Em parte, porque não lhes interessa. Em parte, porque eu também não sei. Não entendo como é que isto foi acontecer - juro que estou tão perdida quanto tu.

Não me lembro de como aconteceu. Lembro-me do dia, mas não do mais importante - como. Essa razão que me escapou da memória. Acho que foi distração; não sei se te apanhei distraído, ou se fui eu quem se distraiu - bastou um momento, um descuido, puro azar, e eu já nem me lembrava de quem era nem o que queria. E eu acho que nos perdemos sempre um bocadinho no dia em que nos começamos a apaixonar, mas, nesta altura, já nem sei bem onde estou. É um tanto ou quanto parecido com estar a dormir em pé, transformarmo-nos em zombies, ou então em simples acéfalos que não entendem nada do que se passa, mas estão felizes. E está a tragédia montada. A verdadeira cegueira dos que veem.

Tenho feito o que posso para me manter à tona, mas acredita que tem sido difícil. Mesmo no meio de toda a peculiaridade da situação, eu ainda arranjo espaço que chegue para viver uma paixão vulgar. E então, sim - o teu sorriso também me parece o mais bonito de todos, mesmo que viva convencida de que, cabrão trombudo, faltaste à aula em que te iam ensinar a sorrir. E o teu nome dá-me cabo dos nervos por ser tão vulgar - entre todos os pedros do mundo, é sempre em ti que eu penso em primeiro lugar. Anormal. És como um veneno sem antídoto. Como uma doença letal. Como um vício para o qual já não há reabilitação. E eu detesto isso. Detesto que me controles, qual marioneta, sem ter noção disso. Odeio sentir-me presa, domada, e com a certeza de que, por mais que diga que sim, não saberia resistir-te durante mais do que um nanossegundo.

Não é que te veja como o gajo perfeito - calma lá, doce, cega sim, mas não tanto! Conheço as mentiras que não sei se perdoaria, desconfio de verdades com que talvez nem conseguisse lidar, se algum dia as confirmasses. E detesto que sejas tão domável, tão dormente, que te deixes levar pelos outros. Acorda, meu maria-vai-com-as-outras! Já vai sendo tempo de despertares desse soninho de princesa e ver se descobres que és, em princípio, dotado de um par de colhões. Às vezes és tão conas que chego a crer que gostar de ti faz de mim lésbica. Estúpido. Anormal. Mexe-te, pelo amor da santa!

Nota que és, talvez, o gajo mais estúpido com quem já me cruzei. Ou talvez não - não me leves a mal, às vezes sinto-me obrigada a meter-te defeitos, a denegrir um bocadinho a imagem de gajo adorável, a ver se pega. Não pega nunca, meu grandessíssimo animal. Se eu algum dia descubro como fizeste isto, juro que te mato. Acredito cada vez menos que algum dia chegue a entender - mas não quero saber. Por mais vezes que me perca, por mais vezes que te perca, sei que acabo sempre por te encontrar. Seja onde for. Seja como for. É uma questão de tempo.

domingo, 19 de janeiro de 2014

cartas que não vou enviar

Fui ganhando com o tempo essa mania imperdoável de esperar que as coisas dêem certo - de esperar que o jogo se jogue por si próprio e me seja permitido ficar apenas sentada na plateia, qual adepta ferrenha, da minha própria vida. Habituei-me, imagina só, a esperar. Eu, que nunca me lembro de ter tido paciência.

Está errado esperar-te na mesma esquina todos os dias, ainda que muitos deles já nem o faça de propósito, só porque sei que, mais minuto menos minuto, acabarás por passar lá. Eu sei de onde vens. Porque não te procuro nesse sítio? Na verdade, nem eu tenho resposta para isso. Ou tenho, mas não gosto dela e passo os dias a tentar rabiscar mais desculpas plausíveis para a minha falta de coragem. Faço de conta que não me importa que o tempo passe e que eu sinta todas as respostas às minhas perguntas a afastarem-se cada vez mais de mim. Mas eu importo-me e preciso delas. É errado esperar que o vento, o destino ou qualquer outra identidade insubstancial, uma dessas que nos regem os dias, se é que elas existem, nos arraste de novo e nos meta frente a frente. É errado esperar que o que quer que seja nos será servido a troco de nada, que outras forças contrariem os nossos atos a favor da nossa vontade. Isso só acontece nos filmes.

Ou é por hoje estar especialmente cansada e com a sensação de que poderia adormecer a meio de uma frase, ou porque todos os dias percebo coisas novas que, ao invés de me levarem ao tão esperado entendimento, só me baralham ainda mais, mas neste momento, mais do que em qualquer outro talvez, eu sei exatamente o que tenho de fazer. Só não sei como começar. Ou se me permitirás, sequer, que comece.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

cartas que não vou enviar

Não sei onde estás agora, nem o que é feito de ti, mas não tenho pressa de te encontrar. Mentiria se dissesse que não te sinto a falta nas horas mortas, que não dou por mim a procurar-te nos sítios mais improváveis onde, no fundo, sei que nunca te poderia encontrar - mas quem não o faz? É outro dos sintomas de se estar apaixonado e, por mais que eu fuja à pergunta, por mais que me faça desentendida, não posso negá-lo. Estou apaixonada. Estou apaixonada por ti. Mas, um dia destes, encontro-te por aí. Encontro-te quando calhar e vai saber-me às mil maravilhas.

Temos tempo. Não. Não temos tempo - mas andar em ânsias só fará com que ele passe cada vez mais lento e mais doloroso, e o medo de te ver ir embora se apodere de mim e me paralise; hoje é mais fácil acreditar que somos eternos e que temos todo o tempo do mundo para nos encontrarmos e desencontrarmos a vida toda até nos acertarmos de vez. É mais fácil acreditar nesse laço invisível ou num deus qualquer que nos devolva sempre ao caminho que nos leva de volta um ao outro. Ou a nós mesmos.

Ou talvez esse laço não exista, mas o azul do céu também é uma ilusão e a maior parte das pessoas passa a vida toda a contemplá-lo apaixonadamente sem fazer ideia de que o que olham nem sequer existe. E eu quero acreditar que nunca vou precisar de me despedir de ti, quero acreditar que serás sempre a presença segura na minha vida. Sobretudo, quero acreditar que voltarei sempre para ti e que, se fugires, fugiremos juntos.

Dizem-nos tantas vezes para sermos felizes, mas não nos explicam como. Sempre achei que é mais ou menos o mesmo que nos pedir que façamos um bolo sem nos darem a receita, mas finalmente percebi. O truque é sermos nós a inventar a receita. A nossa própria receita - com tudo o que mais gostamos. Acho que descobri do que quero fazer a minha felicidade de coisas erradas, e quero fazê-la contigo. Quero andar por aí a baralhar o mundo. Quero fazer tudo o que não for normal; tomar o pequeno almoço às três da manhã e jantar às duas da tarde. Passear um canguru com uma trela no meio de uma grande cidade. Quero ir para a praia em pleno inverno e passar o verão com  roupa polar. Quero fazer tudo o que não estiver certo para nos acertarmos de vez. Ou para, finalmente, os nossos erros parecerem as coisas mais certas do mundo.

Ou talvez nem precise de nada disto. Talvez só precise de ti. Onde estás?

sábado, 21 de dezembro de 2013

cartas que não vou enviar

Gosto das cores do entardecer, das horas silenciosas da madrugada e da paz do nascer de um novo dia. Acho que só percebi isso hoje, porque acordei cedo e quase dei por mim grata por isso mesmo. Apesar de tudo.

Sem querer, deixei que me assomasses a mente outra vez. Para te ser franca, e apesar do quão estranho isto te possa parecer, tenho pensado muito em ti nos últimos tempos. E últimos é um eufemismo de que não me orgulho; não me parece bem assumir que não me tens saído da mente nos meses que precederam o hoje. Devia ser um segredo meu.

Adiante. Permiti-me a pensar em ti enquanto olhava para a espessa camada de nevoeiro que tocava o chão à minha volta. De repente, soou-me a uma estranha analogia daquilo que sinto por ti; nunca saberei os perigos que esconde, se não avançar. E posso sempre ficar aqui sentada, a sentir cada átomo do meu corpo a ficar enregelado à medida que o tempo passa e o nevoeiro desaparece, mas sei que estou a perder. Estou a perder tudo o que ele esconde de bom e de mau, por medo de avançar. E às vezes perdemos tanto, mas tanto, só por esse medo absurdo de nos atirarmos. Imagina que dom sebastião está a esta hora à espera que lhe arranjem uns faróis de nevoeiro para o cavalo; na volta, ainda não chegou porque tem medo de enveredar por um caminho desconhecido que não sabe onde vai dar.

Soubesse ele quanto o esperaram aqui. Soubesse ele que valia a pena ter avançado, mesmo sem ver um corno à frente do nariz.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

cartas que não vou enviar

Tenho uma facilidade incrível em apaixonar-me e em desapaixonar-me. Pelo meio, sofro como se tivesse chegado a sentir um desses amores incomparáveis e o mundo fosse acabar. Depois passa. Arruma-se o mundo outra vez e estou pronta para recomeçar.

Contigo, foi diferente. Por mais que não entenda sequer o que raio me liga a ti, não consigo esquecer-te. E demorei mais tempo do que me orgulho a aperceber-me disto; nunca me esquecia de ti, mesmo quando ocupava os dias a fingir que já não me importava contigo. Tu farias qualquer outro desaparecer da minha vida em menos de dois minutos - e não merecias tal poder. Nem mereces.

O que se passa é que gosto demasiado de ti. Não ouso chamar-lhe amor - nem poderia fazê-lo, de jeito algum -, mas o que sinto por ti é demasiado peculiar. E posso vir a gostar mais de alguém, posso vir a experimentar conjugar o verbo amar na primeira pessoa, mas estou certa de que nada será igual ao que poderia ser contigo. 

Não consigo isolar em ti uma qualidade que me sirva de justificação plausível para estar apaixonada por ti há tanto tempo. Com sorte, arranjo-te mais facilmente meia dúzia de defeitos e, ainda assim, é de ti que eu gosto. É a ti que eu confundo com um trilião de outros rapazes porque, ainda que inconscientemente, é por ti que eu procuro. E também é contigo que sonho uma e outra vez - porque os meus sete derradeiros segundos antes de adormecer te são quase sempre dedicados. É de ti que eu gosto, e isso aterroriza-me. Ao contrário do que me disseram um dia, não és o meu porto seguro. És talvez o sítio mais perigoso onde algum dia atraquei - mas, ainda assim, é para ti que eu insisto em voltar.

Não consigo imaginar sequer o dia em que terei de te dizer adeus, sem ter direito a pronunciá-lo. Não consigo imaginar o dia em que terei de assumir que acabou e que não posso fazer nada quanto a isso. Não me quero afastar de ti - preciso dessa tua presença certa, ainda que silenciosa, na minha vida. E que se alguma coisa tiver de mudar, que seja esse silêncio cortante - porque eu acredito que hajam amores maiores, amores melhores, mas estou certa de que nunca mais vou encontrar ninguém que me desperte as mesmas sensações que tu, que consiga despertar dois lados opostos de mim mesma e deixá-los num eterno conflito, até que um deles mate o outro e eu perceba se fico ou se fujo.

E por mim, ficava contigo eternamente - um eternamente redesenhado todos os dias, que tanto podia durar duas semanas como para sempre. Bastava-me que tivéssemos direito a ele; a uma promessa de que tudo isto tinha valido a pena. À certeza de que não nos íamos perder.

sábado, 14 de dezembro de 2013

cartas que não vou enviar

Vivemos na ilusão de que o tempo é a resposta para tudo. De que o tempo cura tudo. Bem - não cura. Pode amenizar dores e atenuar paixões, mas não acaba com nada que tenha sido deixado pendente. O nosso mal é contentar-mo-nos com um ponto e vírgula e fingirmos para nós próprios, dia após dia, que pode ter o valor de ponto final, e nem nos apercebemos de que continuamos a remoer no mesmo assunto. De que insistimos em bater na mesma tecla.

Se, daqui a muitos anos, retomares essa mesma história, ela vai estar no ponto onde a deixaste, independentemente do tempo que tenha passado. Talvez te doa menos, mas também te pode doer o dobro. Nunca podes afirmar no presente o que te vai ou não trazer arrependimentos no futuro. Às vezes, as decisões mais loucas levam-nos para o abismo. Outras vezes, trazem-nos uma felicidade que nos seria, possivelmente, para sempre desconhecida se não tivéssemos arriscado. O que custa é sempre a escolha - porque temos medo de ser felizes, porque preferimos ficar onde sabemos que teremos sempre um lugar confortável.

Custa-me ver-te agir como se fosses do dono do tempo. Como se não te pesasse a passagem dos dias e a certeza de que, chegado ao fim, todas as tuas hipóteses se acabaram. Não compreendo do que é que estás à espera - meu amor, o tempo esgota-se ou a pessoa cansa-se de esperar. Se queres falar, fala já. Corre, antes que a coragem te passe, e diz tudo antes de saberes o que queres dizer. Às vezes, vale mesmo mais não pensar e deixar que sejam os sentimentos a falar por si. 

Se queres mesmo, despacha-te. Faz o que tens a fazer antes que ela se canse do impasse em que deixaste a vida dela. E talvez nem resulte - talvez ela não te perdoe - mas precisas de o ouvir da boca dela. Precisas de a ouvir contar-te sobre o quão idiota foste com ela, para ver se aprendes. Para ver se percebes, de uma vez por todas. Mas, se não quiseres, fica aí e não faças nada. Deixa-a ir embora. Talvez nem lhe sintas a falta - ou talvez percebas que nunca nada no mundo vai ser o mesmo sem ela.

domingo, 8 de dezembro de 2013

cartas que não vou enviar

Na maior parte do tempo, eu sinto-me muito grata por todo este meu alheamento do mundo no geral, essa tendência para não querer saber de nada, nem de ninguém. Não gosto de me entregar, por assim dizer, não gosto de dar aos outros a oportunidade de me deixarem perdida quando, inevitavelmente, desaparecerem da minha vida. E o problema começa aqui - eu não sei se é verdade que as pessoas nunca se cruzam por acaso mas, de alguma forma, sinto que fiquei presa a ti. Ainda que não compreenda como. Ainda que não compreenda porquê. 

Percebi que te transformaste no meu robin - a tal pessoa de quem eu gosto muito mas com quem não posso estar. O que quer que eu faça, com quem quer que eu esteja, nunca nada será igual ao que seria contigo. E isto atormenta-me mais do que deveria, porque não gosto de me sentir presa a ninguém. Não gosto desta certeza de que deixaste marcas na minha vida que nem mil anos podem apagar porque, por mais que eu um dia te esqueça, estou certa de que não me vou esquecer de ti assim tão facilmente.

Mentiria se dissesse que não gostava que resultasse, mas não saberia lidar contigo porque nunca fizeste mais do que baralhar-me; não sei o que pensar sobre ti muito mais do que um par de horas. E, ainda assim, é mesmo desta confusão que eu gosto, desse ser ou não ser, ter ou não ter. Nem sei porquê, nem como. Nunca sei porquê nem como.

Queria saber-te melhor. Queria compreender-te a ti e aos efeitos que tens sobre mim, para poder pará-los já; não gosto disto. Não gosto da forma compassiva como reajo em relação a ti - a forma como, um por um, tenho arranjado justificações para todos os teus erros, mesmo os mais injustificáveis, mesmo aqueles que, em condições normais, eu nunca perdoaria. Nem tão pouco gosto de te sentir como um regresso a casa, porque não quero e não posso precisar de ti. Ao mesmo tempo, sei que és o carrossel onde eu tenho medo de andar mas, ao mesmo tempo, de onde não quero sair porque o medo também sabe bem de vez em quando.

Não sei até onde vamos ou se algum dia chegaremos a ir a lado algum, mas sou incapaz de me imaginar a deixar-nos quietos. Não suportaria a ideia de te deixar ir e ficar o resto da minha vida a perguntar-me porque não te pedi que ficasses; em contrapartida, também não suporto a ideia de te pedir que fiques e te expliques. Deixo-te estar. Deixo-nos estar. Sabes onde me encontrar e eu não me importo de percorrer metade do caminho até ti, desde que te veja dar o primeiro passo na minha direção. Aliás, acho que não me importava de percorrer esse caminho todo, e é disso mesmo que tenho medo. Não quero gostar de ti. Não quero e não posso gostar de ti. Mas gosto. E não é pouco.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

cartas que não vou enviar

Quando se gosta de alguém, todos os caminhos levam a essa pessoa - ou é a letra de uma música que nos assenta como se fosse sobre nós, ou somos estranhamente parecidos aos personagens de um filme. Ou então nem acontece nada, e lembramo-nos pela maior das casualidades, sem que faça qualquer sentido ou saibamos explicar o porquê. Lembramo-nos porque, inconscientemente, nunca chegamos a esquecer.

E, diga-se de passagem, gostar é uma coisa complicada. Especialmente, quando se gosta de um idiota como tu - e eu que o diga. O problema é que talvez até seja isso o que me faz gostar mais - o que descubro por detrás do que deixas a descoberto. Dá-me mesmo muito trabalho gostar de ti, mas também me faz sentir como se valesse a pena porque nunca te vou compreender completamente. Falta-te sempre uma peça.

O que há contigo é que és um puzzle teimoso. Indecifrável. Impossível de concluir. De cada vez que acho que já quase tenho uma imagem formada, atiras-te de cabeça e baralhas-me as peças todas outra vez. Somos dois impossíveis. 

E o que há comigo, é que sei fingir que nunca me importo. Faço-me de indiferente, faço-me de despercebida, e vou tentando convencer-me de que não quero saber de ti - enquanto vou arranjando desculpas para os teus atos. E vai continuar assim. Vou perdoar-te tudo, vou perdoar-te um trilião de vezes. Vou deixar-te errar e vais convencer-te de que sou um porto seguro onde poderás sempre voltar. Bem, não sou. Mais tarde ou mais cedo, sem aviso prévio, vou cansar-me de tudo isto. Vou cansar-me de ti, das tuas manias, da tua maneira de ser, da tua falta de coragem - e vou cansar-me, sobretudo, de te perdoar tudo. Nesse dia, e ainda que talvez nem sintas a minha falta, quero que saibas que me perdeste de todas as maneiras possíveis - e quando eu bater com a porta, não volto mais.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

cartas que não vou enviar

As pessoas, tenho-me apercebido, só nos desiludem quando deixamos que isso aconteça. Isto é tão, mas tão simples, tão clichê, que provavelmente vais achar desnecessário que eu o constate, mas acho que nos esquecemos disto frequentemente - só nos desiludimos, se nos permitirmos a iludir.

Confesso, esta minha mania de dramatizar, de pensar o pior de cada um, já me tem deixado mal muitas vezes. Mas, deixa-me que te diga, que me sabe pela vida a emoção de ver alguém defraudar, entenda-se, pelo lado positivo, as baixas expectativas que crio à volta das pessoas - é fácil desarmarem-me. Por mais que me faça de durona, de cabra, é muito fácil levarem-me às lágrimas, se conhecerem as palavras certas.

Tu não és exceção. Pensei sempre o pior de ti, e fui adicionando pormenores com o tempo - gostos, manias, tendências. Não levei muito tempo a criar uma imagem sobre ti; talvez este esboço esteja errado, talvez ainda o deixe com demasiados talvez sublinhados a vermelho, mas acho que não te queria mais descortinado. O mistério também encanta.

Deixa-me que te diga que, na maior parte do tempo, sinto uma certa repulsa por ti. Nem sempre o sei explicar, mas às vezes não gosto da pessoa que és, das coisas que dizes, que fazes, que pensas. Às vezes enervas-me e tenho vontade de te virar as costas de uma vez por todas. De não deixar que me afetes, que me baralhes, que me vires do avesso. Não tens esse direito, por isso não devias ter esse poder. Ainda assim, quando tento parar, é sempre em vão.

Pode demorar dias, semanas, ou até meses, mas há sempre uma força invisível e inquebrável que me detém - eu gosto de ti. Gosto de ti até nos dias em que não gosto de ti, para veres bem. Percebo que não tenho motivo algum que o justifique, mas também não estou muito interessada em procurar explicações para o inexplicável. Seria inútil, e o básico eu sei, mesmo não o compreendendo; gosto da forma como me desarrumas o mundo, e do trabalho que me dás para voltar a meter tudo no sítio. Não me perguntes porquê - ou é porque uma pessoa se habitua à desarrumação ou porque ganha o vício de arrumar - mas tenho quase a certeza de que nada seria a mesma coisa sem ti. E isso assusta-me tremendamente - essa consciência de que não me consigo ir embora. Que, por mais vezes que bata com a porta, vou tentar voltar sempre. Talvez para sempre.

domingo, 1 de setembro de 2013

a última carta que não vou enviar

Pode ser certo que chorar sobre o leite derramado não seja completamente inútil, mas já se vai fazendo tarde para eu continuar a escrever sobre ti. Está na hora de arrumar as malas, rasgar as cartas e bater com a porta sem olhar para trás. Esta é só uma maneira de alimentar o que me resta de ti - e, enquanto isso, essa tua existência ténue vai-me consumindo a mim. É por isso que esta é a última vez que te escrevo.

Não vou deixar de sentir a tua falta, para já. Costumo lembrar-me de ti pelas razões mais insignificantes, por autênticas banalidades que, por alguma razão, te queria poder contar, e acabo por dar por mim de lágrimas nos olhos outra vez. Sei que isto é o desespero de saber que não te voltarei a ver a falar mais alto, ou então é a minha falta de assuntos interessantes para falar a revelar-se. Quando sabes que não poderás voltar a falar com alguém de quem gostas, até a perspetiva de lhe perguntares as horas parece suficiente para te fazer feliz. 

Às vezes, tenho medo do que possas pensar de mim agora. Não que mude alguma coisa, ou que eu tivesse poder sobre isso, mas essa dúvida tortura-me. Não queria que ficasses com uma ideia errada, ou que te repugnasse a ideia de, entre tanta gente por quem te podias interessar, ter sido eu a apaixonar-me por ti. E é por isto que sinto tanta necessidade de te pedir desculpa - se eu pudesse não gostar de ti, juro que não gostava. E, é certo, também podia muito bem ter ficado calada, mas a ideia de desapareceres da minha vida como se nunca por cá tivesses passado, tomou conta de mim. Não consegui lidar com a ideia de esconder tudo outra vez. Nunca fiz mal a ninguém, para ter de negar o que sinto, quando o sinta. Embora agora reine o sentimento de culpa - desculpa-me outra vez, por te ter importunado. 

Claro que isto passa. Mais tarde ou mais cedo, acabas por ser só alguém que um dia conheci, e que teve o azar de se tornar importante para mim sem o querer. E talvez até ainda o sejas. De maneira diferente, mas talvez mantenha esse carinho todo, mesmo que me cruze contigo mil vezes, e faça de conta que não te vi. Não ousaria voltar a cruzar a tua vida outra vez, não tentaria nunca essa aproximação impossível, por mais que a quisesse mais do que tudo. Quando disse que gostava de ti, estava a falar a sério. Aliás, como em tudo o resto que por aqui escrevi; não podia ser mais sincera do que isto. Tudo o que se podia dizer, está dito, e o que fica por contar, também não importa. Não precisas de te preocupar comigo - não terás de voltar a ouvir o meu nome. 

Desta vez, não te peço que me perdoes por ter tentado entrar na tua vida, arrombando a porta da frente. Nem tão pouco direi que deixei as chaves da minha debaixo do tapete - continuam e continuarão lá, mas não lhes darás uso, e por isso não faz mal que seja um segredo meu. Só quero que saibas, que há pessoas que é mesmo um prazer conhecer, e tu és uma delas. És mesmo. E, ao contrário do que possas pensar, não guardo o mínimo ressentimento, e espero mesmo que sejas muito feliz. Eu não saberia fazê-lo, e reconheço isso. Não há nada a fazer, e um dia eu também acabo por me acostumar com essa ideia. Deixa-me pedir-te desculpa por tudo, mais uma vez - pela última vez. Por mais que eu goste de ti, isto não pode continuar. E já que é assim que me despeço de ti, depois de tudo o que fiz errado, deixa-me acabar com as palavras certas. É a última vez que o digo; eu gosto de ti.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

cartas que não vou enviar

Às vezes dou por mim a pensar no antes e no depois de ti, como se tivesses marcado um ponto de viragem. Uma chegada, e uma partida logo de seguida. Para te ser franca, é estranho pensar em como era antes de te conhecer. Há pessoas que sentimos que conhecemos a vida toda, mesmo antes de as conhecermos. Outras, porém, só nos fazem sentir pena por não as termos conhecido antes.

Não sei em qual dos grupos te quero enquadrar mas, na dúvida, encaixo-te no segundo. Se bem que, se te tivesse conhecido antes, talvez não tivesse conseguido reconhecer o que de bom havia em ti. Precisava de todas aquelas más experiências, de todo o desapontamento, de toda a descrença que alguém me causou, para que tu mudásses isso. Sim. Talvez tenhas chegado na altura certa.

Talvez agora esteja tão mal quanto estava antes, mas estou mais calma, e devo-te isso. Mesmo que nunca o chegues a perceber – mesmo que nem eu consiga entender nunca o efeito que tiveste sobre mim, creio que não me interessa. Não espero absolutamente nada de ti, e não te cobro nada. Nem sequer que entendas o que raio me leva a escrever para e sobre ti vezes e vezes sem conta, para repetir palavras que vão perdendo cada vez mais o sentido.

Não acredito que algum dia me esqueça de ti, mas é óbvio que, mais tarde ou mais cedo, acabarei por te esquecer. E, sinceramente, isso não me assusta. Sei que não se esquece alguém à velocidade que seria aconselhável. Não vou acordar um dia e já mal me lembrar do teu nome. É preciso que se deixe passar o tempo, e no momento certo, as coisas começam a acontecer. Começo a perder os pormenores.

O problema é que, a primeira coisa que a distância elimina, são os defeitos. Confesso que não me consigo lembrar daquilo que me irritava em ti, das coisas que não gostava. E elas existiram, como é óbvio, mas esqueci-me. Talvez porque não eram importantes, talvez porque a memória também não decidiu jogar a meu favor. Não sei. Resta-me a esperança de que não tardará muito a que esqueça todos aqueles pormenores que absorvi em menos de nada.

Nesse dia, talvez comece a deixar de escrever sobre ti, mas neste momento não consigo. É a única maneira de aliviar a falta que me fazes. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

cartas que não vou enviar

Nunca sei como iniciar uma carta. Especialmente destas, que de carta só têm o título que arranjei à pressa uma noite qualquer, e fui deixando ficar para não ter de pensar noutro melhor. Afinal, importa-me mais o que eu sinto do que aquilo que realmente consigo escrever.
 
Seria bom se eu conseguisse dar-lhe um início bonito. Podia dizer, por exemplo, que esta noite me tinha lembrado de ti, quase por descuido, quando abri o estore e vi a lua. Podia inventar uma dessas explicações românticas, dizer que, quando a contemplei, pensei se não estarias tu também, aí no sítio onde estás, a olhá-la. E que me senti perto de ti enquanto a brisa me acariciava os cabelos. Em tempos, eu poderia mesmo ter escrito alguma coisa assim, nos tempos em que entrava em devaneios que, ainda que considerasse ridículos, me pareciam bonitos quando estavam encaixados. Depois deixei-me disso. Deixemo-nos de floreados, porque as coisas são o que são, e eu já gosto de ti o suficiente, mesmo sem estar com cara de parva a olhar para a lua.

O amor assim só existe nas palavras desses grandes românticos que gostam de imaginar o universo a compactuar com o tão grandioso sentimento. O amor a sério não precisa de grandes alaridos. Talvez por isso, os ache tão ridículos agora; porque esse amor perfeito não foi feito à nossa medida. Aliás, nem amor nenhum. Gosto de ti, não ouso chamar-lhe amor. Para te ser franca, nem gosto de lhe chamar nada. Fica só assim, indefinido. 

Só não acredito que seja menos verdadeiro do que todos esses amores tão bem desenhados por palavras pensadas por quem sabe. Eu não sou essa pessoa. Sou atabalhoada, digo o que me vem à cabeça - nunca conseguiria viver um desses amores bem estruturados, dignos de um filme daqueles bem lamechas. Não conseguiria dar-te mais do que respostas tortas, porque páro de pensar quando me dedico a sentir, e perco o controlo. Não saberia viver um desses amores caros regados a vinho francês, com meios sorrisos doces e cheios de significados. Não. Eu viveria um amor amador, cheio de cerveja e arrotos em público. E, ainda assim, não acredito que seja menos capaz de gostar de ti do que os outros, cheios de palavras caras e tiradas inteligentes. A diferença é que, mesmo sabendo sentir, não sou ninguém de quem se possa aprender a gostar. E é isto que me magoa. Pelo menos, é o que me magoa mais. 

Ainda assim, eu pergunto-me onde estás. Pergunto-me se estarás bem, ou se algo te preocupa. Lembro-me de ti quando reparo em alguma coisa que creio que também fosses capaz de gostar - mas depois sei que não te posso mostrar. Sei lá. Houve sempre imensas coisas que te quis perguntar, mas tive medo. Não me queria intrometer. Como disse, nunca foi minha intenção entrar de rompante na tua vida, e por isso, preferi não perguntar nada. E mesmo agora, nem sei se seria melhor tê-lo feito. Não que tivesse algo a perder - mas não precisava de manchar ainda mais a imagem que tens de mim, com perguntas estúpidas que poderiam ser mal interpretadas. 

De qualquer forma, não há já nada, absolutamente nada, que me ligue a ti, e pouco importa o que eu digo ou deixo de dizer. Mais tarde ou mais cedo, também começarei a perder-te na memória, a deixar-te para trás. Pelo menos, que não me esqueça das marcas boas que me deixaste. E que um dia, eu fale de ti a alguém com um sorriso. Sim, sim, conheci-o. E ele era fantástico.

sábado, 24 de agosto de 2013

cartas que não vou enviar

Disseram-me um dia que não se roubava um coração; era preciso conquistá-lo com calma, manejá-lo com as pontas dos dedos até que ele se entregasse de livre vontade. Nunca soube esperar mas, confesso, também nunca tentei chegar até ti dessa forma, porque sabia que não valeria a pena. 

Agora, à distância de tudo e com uma visão mais nítida, começo a lamentar não ter tentado mesmo e, pelo contrário, ter feito os possíveis por me manter distante. Tinha medo que me descobrisses, imagina. Como se, no final de tudo, não tivesse sido eu a entregar-me. Nunca devi muito à inteligência, como podes ver. Mas, e apesar de nunca me ter sentido digna de, sequer, tentar, tenho muita pena por não ter tido mais um bocadinho de ti. 

Não és mais nem menos do que ninguém, mas vi em ti mais do que algum dia vi noutra pessoa. Não és o melhor – és só diferente da maioria e, só por isso, transformaste-te numa das melhores pessoas que algum dia conheci. Se for verdade que ninguém entra na nossa vida por acaso, mas sempre por uma razão qualquer, então tu deves ter aparecido para me fazer acreditar outra vez que ainda aparecem pessoas boas de vez em quando. Pessoas capazes de nos mover com um sorriso. 

O problema é que a tua estadia na minha vida foi curta, e quando eu me dei conta do que realmente sentia por ti, já tu estavas de partida. Habituei-me a ti demasiado depressa, mas não consigo abandonar o vício. Sinto saudades até mesmo dos teus silêncios, ainda que na altura eles me irritassem tanto, porque ao menos sabia-te perto. Agora, parece-me que não soube aproveitar bem o que tinha, quando o tinha, porque mesmo os dias maus, mesmo os dia em que estava quase certa de que te cruzavas comigo sem dar pela minha presença, eram melhores do que isto. Qualquer coisa é melhor do que nada. E, sobretudo, não podia ser pior do que saber que é definitivo. 

Aconteça o que acontecer, se te voltar a encontrar, é obra do acaso. Sinal de que o tal deus brincalhão que faz de nós marionetas, fez das suas outra vez e decidiu testar os meus limites. E então, tu farás de conta que não me vês, e eu farei de conta que não me importo. Um dia, há de deixar de importar mesmo. Um dia destes, ainda havemos de partilhar essa indiferença toda.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

cartas que não vou enviar

Nunca fui daquelas pessoas que sentem necessidade de ver a vida traçada com régua e esquadro em papel milimétrico. Antes pelo contrário, sempre tive uma paixão pelo imprevisível, pelo logo se vê. Sempre gostei de ter o prazer de poder deitar-me a adivinhar o que se seguiria, em vez de ir caminhando por trilhos que já todos sabiam onde iam parar. Não sou assim.
Contudo, preciso de incentivos. Preciso da confirmação de que vai valer a pena dar o primeiro passo, de que, de uma forma ou de outra, tirarei alguma vantagem de saltar de cabeça. Preciso de ter uma réstia de esperança de que algo pode ainda correr  bem. É isso que me faz falta neste momento. Talvez nunca tenha estado tão mal quanto agora, tão sem esperança, tão desamparada. Para qualquer lado que eu me vire, há alguma coisa errada. Demasiado errada para que eu tenha vontade de continuar.
Tenho tentado deixar de escrever para ti, mas não consigo. Tudo o que me resta de ti, são memórias que vão ficando distorcidas dia após dia, e ao menos quando te escrevo – ainda que já mal conseguindo distinguir a realidade da imaginação – é a única forma de me sentir mininamente perto, e não consigo despedir-me de ti já. Na realidade, não queria ter de me despedir de ti nunca.
Sei que não te voltarei a ver, e é essa ideia que me consome lentamente. Claro que, se algum dia lesses isto, te pareceria um drama absurdo. Tal como parecerá a todos os outros que nunca tenham gostado de alguém que sabiam que não voltariam a encontrar. Um dia passa, é óbvio que passa, mas enquanto por cá está, é dos piores sentimentos que me lembro de algum dia ter sentido, porque sei que não há absolutamente que eu possa fazer nada para mudar isso. Resta-me conformar-me, que é uma das muitas coisas em que eu sou má.
Faz-me falta uma data. Podia ser uma data distante – podia ser, sei lá, a 20 de dezembro. Neste momento, isso bastar-me-ia. Contaria os meses, os dias, as horas se preciso fosse – mas sabia que dia 20 de dezembro, eu ia ser um bocadinho mais feliz. Poderia empregar a frase mais marcante do principezinho, porque se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz. E então, eu começava a ser feliz com um mês de antecedência. Começava a imaginar o reencontro de mil maneiras, mesmo sabendo que nenhuma delas seria a real. Sei lá. Mas assim não. Assim não dá. Nunca mais é tanto, tanto tempo, para alguém que tem saudades.
Dava tudo por um bocadinho mais de ti. Mais cinco minutos. Um olá. Não me perguntes porquê, mas preciso de te ver, talvez mais agora por tudo o que se tem passado, por me sentir mais vulnerável, por estar assustada. Não faço ideia. Mas sinto a tua falta, mesmo sabendo que pouco ou nada farias estando presente. Acho que é mesmo isso. Só precisava da tua presença. 

sábado, 10 de agosto de 2013

cartas que não vou enviar

Nunca te disse, mas reparei em ti no primeiro momento. 
Por mais que soe a clichê, daquelas coisas que só se dizem para embelezar histórias de amor, juro que é verdade. Reparei em ti ainda antes de saber o teu nome e, de alguma forma que não consigo explicar, percebi nesse momento que podia gostar muito de ti. Somos as personagens erradas da história de amor perfeita. 
Nunca procurei ninguém. Nunca tive um ideal. Contudo, percebi agora que, se o tivesse, encaixarias perfeitamente. Fui descobrindo com o tempo que serias a pessoa que eu teria sonhado se algum dia tivesse traçado um desses ideais absurdos. E digo isto porque quem o faz, acredito que nunca encontre ninguém à medida certa, e eu encontrei-te sem querer e soube que eras tu quem eu não procurei. Foi tão fácil aprender a gostar de ti, que comecei a apanhar-te as manias e os trejeitos, e a apaixonar-me por cada um deles em menos de nada. 
Aconteceu demasiado rápido, se queres que te diga, mas na altura eu nem queria pensar no quanto isso me ia magoar mais tarde. Estava realmente feliz por te ter conhecido. Por ter conhecido alguém como tu, embora me custasse a crer que fosses real. Achava que tinha de estar errada em relação a ti, embora me pareça inútil tentar explicar porquê. Isto porque, se me perguntarem porque gosto de ti, talvez eu nem saiba responder. Talvez eu lhes diga que és de riso fácil e que o teu sorriso desarma qualquer um. Talvez eu lhes diga que ficas adorável quando estas com vergonha, e que és a única que eu conheço capaz de se atrofiar mais do que eu. Talvez eu lhes diga que tens uma voz bonita e que tocas insistentemente na testa quando estas nervoso. Talvez eu lhes diga que pareces ignorar o mundo, mas que qualquer pessoa atenta percebe que és mais sensível do que demonstras. Talvez eu lhes diga que tens gostos diferentes e que não deixas que interfiram no teu mundo. Posso dizer-lhes tantas coisas que eu nem sei. Se calhar, se disser que gosto de ti por isto, é mentira. Não acho que alguma delas seja capaz de justificar o que me fazes sentir - ou talvez precise de todas elas para dizer a verdade. E talvez o possa resumir; gosto de ti, porque és tu e não te mudava por nada deste mundo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

cartas que não vou enviar

Nunca liguei aos entendidos que juravam a pés juntos que as pessoas entravam todas na nossa vida por alguma razão. Sei lá, não me parecia lógica essa necessidade de atribuir um significado a um qualquer encontro casual. Até que te conheci. 

Talvez eu não te volte mesmo a ver o que, infelizmente e mesmo nos momentos em que estou otimista, ainda me parece a hipótese mais provável, mas fizeste a diferença na minha vida. Fizeste mesmo. Se eu algum dia te pudesse explicar porquê, se valesse a pena fazê-lo, ficarias surpreendido com as voltas que o mundo deu, e com toda a estranheza da situação. Culpa a febre ou culpa o meu estado mental nos últimos dias, mas agora eu acredito mesmo que tenhas entrado na minha vida por uma razão.

No meio de tantas decisões erradas, tu chegaste para me resolver. Desculpa se não consigo fazer-me entender, mas não consigo explicá-lo de outra forma. Percebi contigo - ou graça a ti - que estava presa a alguém que não tinha nada mais para me oferecer senão sofrimento. Estava presa a uma ideia completamente errada. Tinha uma ideia errada das pessoas.

Não sei. Percebi graças a ti que há pessoas melhores do que aquela a quem me deixei prender. Que há pessoas que valem realmente a pena - e é exatamente por isto que me custa tanto saber que nunca me olharias duas vezes. Porque tu vales realmente a pena, apesar de eu não estar certa de que o saibas ou de que eu algum dia te conseguisse explicar porquê, e tenho a certeza de que me vou lembrar de ti com carinho, porque me marcaste de uma forma boa. Tão boa, que é ainda mais difícil assumir que acabou. Verdade seja dita, apesar de tudo, até eu o percebi tarde demais. Detesto deixar-me cair em clichês, mas tenho de confessar que só percebi o quanto gostava de ti, no dia em que percebi que não te voltaria a ver.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

cartas que não vou enviar

Onde estás tu?
Passou tanto tempo desde a última vez que te vi, que sinto os dias a passarem por mim lenta e dolorosamente. Custa-me tanto não saber nada de ti, custa-me tanto ter essa certeza de que não vou voltar a saber nada de ti, que me sinto a sufocar nos meus próprios pensamentos. Tenho tentado não pensar em ti. Espanta-te - há momentos em que funciona. Há mesmo momentos em que, delicioso engano, pareço estar a recuperar. Mas não estou. Ainda não. Ainda dói demasiado.

Lembro-me de ti uma e outra vez pelos mais pequenos motivos, recordo conversas completamente insignificantes. Descubro coisas que te queria contar. Houve sempre tanto que eu te queria dizer, mas perdia sempre a coragem quando olhava para ti e percebia que não ia importar. O meu maior erro é que aprendo mais facilmente a gostar dos outros do que de mim, e quanto mais gostava de ti, mais detestava tudo em mim. Além de detestar todo o meu exterior, revoltava-me sempre um bocadinho mais de cada vez que te tentava falar e fazia asneira. Desculpa. Nunca fui boa com as palavras. Nunca fui boa com conversas, e tu entorpecias-me demasiado.

Não posso jurar que sei ser diferente. Aliás, não me adiantaria de nada jurar o que quer que fosse agora. Não importa. Tenho tentado convencer-me disto uma e outra vez, mas não consigo deixar de ter vontade de te falar. Venho aqui escrever, mas sinto que as palavras começam a perder a força e o sentido, que começam a escassear as minhas próprias forças. Pela primeira vez, eu sei que este é um beco sem saída. Sei que nada mais posso fazer, mesmo que quisesse. E de nada me adianta pensar que fiz tudo o que podia, bem mais do que podia até. Sobra-me o arrependimento e a vontade de me desfazer em desculpas. E soma-se a dor de saber que nem isto importaria - porque, foda-se, em algum momento importou, ou conseguiste esquecer-te no dia a seguir? É a certeza de que enterraste o assunto no dia em que soubeste que eu era um caso mais do que arrumado, que me consome aos poucos.

Talvez eu esteja um bocadinho louca, para continuar a escrever-te. Talvez isto abra ainda mais a ferida, mas não consigo parar. Sei que não te disse tudo. Sei que, na realidade, nem te disse nada, e sinto falta disso. Sinto que preciso de me explicar, mesmo que nem nunca venhas a ler, ou mesmo que acabes a lê-lo com desprezo. Que posso eu fazer? 

Acho que nunca te agradeci o suficiente. Para ser franca, nem o posso fazer, porque não posso explicar o quanto me fizeste bem. Apesar de tudo, não te culpo de nada. Mostraste-me que aquilo que sentia por alguém que eu jurava a pés juntos ter sido a pessoa que mais me marcou, não era nem uma migalha do que conseguia sentir por alguém. E ensinaste-me isso talvez da pior forma, dadas as circunstâncias, mas ainda assim, devo-te a certeza de que aquela pessoa não vale absolutamente nada quando comparada contigo. Desculpa, mas ainda me pareces uma das melhores pessoas que eu algum dia tive o prazer de conhecer. E só lamento não conseguir retribuir nunca aquilo que me fizeste sentir. 

Sei que um dia isto não vai ter qualquer significado para mim, que vou acabar por esquecer-me de quem tu eras e do que eu senti, mas agora eu sinto cada palavra que escrevo para ti. Não é exagero nem clichê. É a verdade. Tenho saudades tuas, mesmo que nem consigas compreender em que medida é que me poderias fazer falta. E eu até te explicava, mas creio que não valha a pena. Tenho saudades tuas, e dou por mim a procurar-te mesmo em sítios onde sei que não estás. Vejo-te noutros corpos, ouço a tua voz noutras pessoas. Sei lá. E, de cada vez que ouço o teu nome, sinto o coração em alvoroço, e viro-me à tua procura. Olho em volta, mas tu não estás. Tu nunca estás, e preciso de me convencer que não estarás nunca mais. Mas... onde estás tu?