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quarta-feira, 5 de março de 2014

insónia

Naquele dia, ele acordou tarde; os estores estavam ainda corridos e no ar não havia o aroma a café acabado de fazer, comum a tantas outras manhãs - ela foi-se mesmo embora, pensou. Era o início de uma nova vida.

Levantou-se de um salto; ainda não conseguia decidir se estava a viver o maior dos seus sonhos ou o pior dos seus pesadelos. Ela tinha-se ido mesmo embora, tal como dissera mil vezes antes que faria. Ele nunca acreditou, claro - onde iria ela? Ele era tudo o que ela tinha. Mas ela foi-se mesmo e era ele quem estava perdido.

Quando entrou na sala, teve de piscar duas vezes os olhos para tirar da cabeça a ilusão de que o sofá ainda conservava a forma do corpo dela deitado, como se ela tivesse acabado de se levantar e ainda fosse possível sentir o calor dela naquelas almofadas. Chegou mesmo a olhar à volta, expectante, porque estava capaz de jurar que lhe sentiu o perfume. Devia estar louco. Só podia estar louco.

Ela era obcecada com regras. Queria as coisas todas no lugar, queria tudo certo, era incapaz de se atrasar um minuto que fosse, nada de música alta, tudo tinha de ser equilibrado e perfeito - enfim, era uma dessas pessoas que apertam a pasta de dentes deste o fundo porque não gostam de a ver amachucada. Naquela manhã, ele podia fazer o que quisesse; deixou no player um álbum completo dos black sabbath que ela sempre odiou, no máximo, e foi tomar banho.

Fez de tudo para ignorar a estranheza de não encontrar mais do que um frasco de champô e um sabonete meio gasto, quando era hábito picá-la por usar todas aquelas coisas que ele nem sabia ao certo para que serviam - mas não lhe bastava o cabelo lavado? -, tentou ignorar o facto de a casa lhe parecer mais vazia do que no dia em que a compraram juntos, desprovida de qualquer móvel. E no fim, tentou vingar-se dela; atirou a toalha molhada para cima da cama, deixou a roupa espalhada pelo chão e nem sequer descarregou o autoclismo. A ideia de a irritar, animava-o - ou animou-o até ele se ter apercebido de que ela nunca descobriria. Ela já não queria saber.

No dia em que ela se foi embora, ele disse-lhe que nunca tinha gostado realmente dela. Que só a tinha usado pelo dinheiro. Mentiu. Ele convenceu-se desde o primeiro dia de que era essa a razão porque nunca se permitiu a assumir-se apaixonado. Achou sempre que isso era coisa de outros, não dele, que nunca deixaria que mulher nenhuma o destruísse - tão inocente. Não compreendia nessa altura que não se tratava de deixar ou não deixar, que isso de se estar apaixonado era pior do que uma doença contagiosa que ninguém conseguia controlar. E então, aprendeu a mentir a si mesmo. Que era pelo dinheiro. Que era pelo sexo. Que era pela companhia. Nunca foi.

Percebeu-o nessa manhã quando foi preparar o pequeno almoço - tirou distraidamente as duas canecas do armário, como sempre, e pousou-as em cima da mesa. Frente a frente, como sempre. Depois sentou-se, incapaz de pensar sequer em comer o que quer que fosse; não percebia porque raio estava a infligir aquela dor a si mesmo, porque razão tinha tido a ideia de se torturar ainda mais - e foi nesse lugar da cozinha, com o sorriso da caneca dela como que a observá-lo deleitado, que ele deixou cair a cabeça sobre a mesa e começou a chorar como nunca se lembrava de ter feito.

Partiu a caneca. Ela não iria voltar.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

ali às voltas sempre

Há alturas em que a ideia de marcar um encontro a horas certas me parece a ideia mais apetecível do mundo - encontrar-te sem ter de esperar que seja o acaso, ou a sorte, a trazer-te, mas não acho que fosse capaz disso. Não gosto desse controlo, não gosto do mundo a girar à volta de três ponteiros, ou só dois, que insistem em girar também, mesmo quando deviam parar, voltar atrás, atrasar-se, sei lá. Afinal, só preciso de mais cinco minutos - mais cinco minutos para sair da cama, mais cinco minutos para me vestir, só mais cinco minutos para respirar fundo e pensar se é isto que quero. Só mais cinco. Então, acabaríamos sempre por nos desencontrar. Não temos nada de regular, de controlado, de normal - não saberíamos como caminhar sobre uma linha. Deixemo-nos ir. Lá acabaremos por nos encontrar, ou por desencontrar, vais para norte e eu para sul, voltemos atrás, encontramo-nos no centro um dia destes. Se calhar.

domingo, 15 de setembro de 2013

o amor é outra coisa

Costumo dizer que não acredito no amor mas, reconheço que à semelhança do que faço com deus, é só uma maneira de simplificar a resposta. Sei que, no fundo, acredito tanto num como no outro, mas não da mesma forma que toda a gente à minha volta parece acreditar, e então prefiro nem dizer nada.

Juro que sou incapaz de compreender aquelas pessoas que encontram o amor da vida delas cinco vezes no mesmo ano. Ou as que acham que o amor de hoje, é o amor eterno. Sei lá. Acho que este tipo de projeções não tem qualquer tipo de cabimento. Se durar para sempre, ótimo. Mas se acabar amanhã, é ótimo na mesma porque um dia existiu, e à falta de melhor, sempre dá para o curriculo.

Claro que na vida real, isto não faz sentido. Acho que só estou a tentar dizer que me enjoam as pessoas que confundem qualquer tipo de afeição com amor. Não me parece justo. Talvez eu tenha lido muitos livros e visto muitos filmes para ainda ousar crer que tenho uma visão realista, mas não me parece certa a forma como as pessoas banalizaram um sentimento que era suposto ser especial. Confundem-no com paixão. Aliás, acho que o chegam a confundir só com a tesão. E, de alguma forma, isto está errado.

Eu acredito que um amor possa realmente durar. A sério que acredito que, alguns dos casais da minha idade, consigam mesmo aguentar-se ao longo dos anos. Mas também sei que, na maior parte dos casos, isso não vai acontecer, e se há coisa que eu acho parva é desperdiçar palavras quando não são verdadeiras. Um amo-te não devia ser dito com o desprendimento de um bom dia, mil e quinhentas vezes por dia. Ou, ainda pior, escrito no final de cada mensagem. Isto não é amor, é uma trela para prender o outro. O biscoito de recompensa que faz o cão ir buscar a porcaria do pau. Ou é só estúpido.

Desculpem-me se estou armada em tia conservadora, mas eu valorizo cada palavra, e não me parece certo que as vandalizem desta forma. Ainda acredito que o amo-te deve ser especial, dito apenas quando é verdadeiro, e não dito como que por obrigação, só para que a pessoa não se esqueça. Se a pessoa for realmente amada e a outra o demonstrar, ela não se esquece, mesmo que passem meses até que a volte a ouvir. Mas se for dita de forma vazia, tanto faz que a digam mil vezes por dia. Não terá qualquer valor. Ou então, tem, mas não o certo, e nascem músicas com o nome o amor dá-me tesão. Se o souberem demonstrar, não é preciso dizê-lo.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

e eu posso escrever coisas estranhas se me apetecer.

Costumava vê-la passar pela minha rua. Não a conhecia de parte alguma, e pouco me importava de onde pudesse estar a vir - talvez da biblioteca, ali ao virar da esquina, já que a via sempre com dois ou três livros debaixo do braço.

Durante muito tempo, aquelas súbitas aparições da mulher, pouco ou nada me diziam, tirando os dias em que a vida me corria mal e os saltos altos dela me enervavam. Um dia, num desses dias maus, sentei-me na soleira da porta a olhar para o nada. Era um hábito meu, quando precisava de tomar decisões importantes. Simplesmente, não tomava, e esperava que alguém, nem que fosse o destino, as tomasse por mim.

Nesse dia, ela passou. Distraído do meu não pensar, reparei melhor nela e, pela primeira vez num desses dias fodidos, o barulho dos saltos altos dela não me enervaram. Olhei-a melhor. Não era bonita, mas havia algo nela que me prendia. Não conseguia deixar de olhá-la.

Descia a rua como se nem chegasse a meter os pés no chão. Não sei explicar. Tive de piscar os olhos várias vezes para me conseguir voltar a concentrar no som dos passos dela, ou estaria aqui agora a jurar que ela deslizava. O vestido negro parecia mal lhe roçar na pele, de tão solto que estava. E, no entanto, parecia ter sido feito para ela.

De repente, algo aconteceu. Ela deteve-se no meio da rua. Apercebi-me de que a tinha chamado, contra a minha vontade, ou talvez por vontade própria, o que justificaria a minha estranheza perante a ousadia em gritar ó menina! Ela começou a virar-se lentamente. Percebi naquele gesto demorado que ela devia estar a tentar imitar um filme qualquer, mas não desgostei completamente disso. Era mais frequente um filme com um final feliz do que a vida real, e eu só queria saber o que me prendia nela.

Quando ela me olhou nos olhos, senti um arrepio. Os olhos, que até então não tinha conseguido ver, eram ainda mais negros do que os cabelos, e de uma intensidade que me fez acreditar, ainda que por breves instantes, que me perscrutava a mente, que sabia exatamente o que eu queria. 

Não tinha um ar simpático, tinha antes um ar assombrado, de quem sofrera demasiados desgostos para ainda se dar ao trabalho de fingir que é feliz. Procurei, desesperado, por uma desculpa para a ter chamado e - oh, que maravilhosa oportunidade! - com a pressa, ela nem tinha reparado que tinha deixado cair uma folha que vinha entre os livros. 

Sorriu-me, talvez grata por lhe ter salvo um número de telefone ou uma morada importante, e foi-se embora sem dizer mais nada, com o rubor a fazer-se notar no rosto. 

Nos dias que se seguiram, sentava-me na soleira da porta à espera que ela passasse. Quando isso acontecia, fingia que não a via, de tão absorto que estava a ler o jornal - uma ou outra vez, de pernas para o ar. Creio que ela percebeu depressa a minha farsa, porque um dia se ajoelhou ao meu lado e falou-me, com um timbre estranhamente grave, para uma mulher tão delicada: há tantos anos que esperava pelo momento em que te apaixonarias por mim! Sabia que me reconhecerias, mais tarde ou mais cedo.

Devo ter ficado com um ar meio aparvalhado. Nunca tinha pensado muito no que me levaria a ficar horas sentado no chão, à espera dela. Sorri-lhe, até me ter apercebido de algo estranho. Espera lá... anos?! Reconhecer? Ela não pareceu embaraçada, antes pelo contrário. Sim, desde o 7º ano que te tentava dizer, mas tu nunca parecias interessado em mim, estavas sempre interessado em... O meu pensamento andava por longe, quase não a ouvia. Sempre tive uma excelente memória, lembrar-me-ia dela se a conhecesse. Desculpa, mas deves estar enganada, eu não te conheço de lado nenhum, disse-lhe, meio desapontado. Fez-se um silêncio constrangedor. Acho que nunca vou esquecer o que ela disse a seguir.

Conheces sim. Eu era o teu melhor amigo, na altura em que eu ainda me chamava joão.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

sad but true

Tenho-me apercebido de que tenho passado a vida em busca de algo que insiste em escapulir-se-me por entre os dedos, ao ponto de nem eu saber o que é. Como se estivesse a correr para um sítio indefinido, e soubesse que esse e o sítio certo. Não sei porquê.

Estou sempre revoltada com tudo. Revolto-me porque as pessoas não entendem os meus gostos estranhos. Revolto-me porque todas as pessoas estão felizes e eu não. Revolto-me porque insistem em meter as colherzinhas do café no cesto dos talheres da máquina de lavar louça no sítio errado, e assim demoro mais a tirá-las de lá. Se isto faz algum sentido? Não. Mas irrito-me com tudo isto e com mais ainda, como se os dramas que me são alheios e estas perdas de tempo, me estivessem a desviar do que eu realmente tenho para fazer. De onde quero ir. Como posso compreender-me? Nem eu sei.

Também me revolto com pessoas, mas quase que gosto disso. Quase que gosto das que me tentam chamar a razão, só pelo prazer de lhes poder responder, de as fazer saber de que as irei contrariar só por prazer. E fingirei odiá-las, mesmo sendo dessas - as que me odeiam - aquelas de quem eu gosto mais. Provavelmente, porque não querem de mim mais do que aquilo que estou disposta a dar-lhes - o desprezo. Não esperam que lhes pergunte como vai a vida la em casa, ou se se tem alimentado bem. E então, não me custa tê-las por perto.

O truque é mesmo este. Manter estas pessoas sempre bem pertinho, para que eu possa sentir essa revolta, essa raiva incontrolável, mascarada de ódio puro. O truque é fingir que ainda sou capaz de gostar menos de alguém ou de alguma coisa, do que gosto de mim mesma.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

divagações das 3 da manhã.

Deixa-me reescrever a nossa história, a história que nunca foi a nossa, mas deixa-me inventar-lhe um final feliz desta vez. Somos dois estranhos. Não, não somos dois estranhos. Somos os dois estranhos. Acordamos a meio da tarde e comemos coxinhas de frango ao pequeno almoço. Depois vamos dançar para o meio da rua, uma melodia criada por nós e inaudível aos demais. Deitemo-nos no chão para sentirmos tudo ao máximo, e esperaremos que alguém nos diga que é perigoso; em vez de lhe pedirmos que se meta na sua vida, sugerimos-lhe que se deite connosco, que sejamos três loucos juntos. Mas três loucos felizes. De seguida, vamos para a praia. Deitamo-nos na areia e esperamos que o sol que já se pôs nos bronzeie. E podemos ir nadar depois. Nadaremos pela madrugada fora, até estarmos cansados. Por fim, voltamos para casa. Podemos dormir em cima da mesa da cozinha, ou mesmo na banheira, se preferires. Eu prometo não me queixar. Eu deixo que me desacertes o passo, que me desarrumes o mundo, que me desorientes ainda mais do que aquilo que já sou por natureza, desde que, lá para o fim, acabemos por nos acertar. Por sermos as pessoas certas.

sábado, 6 de julho de 2013

coimbra tem mais encanto

Sou completamente apaixonada por cidades. Escolho coimbra para minha favorita, por ser a minha cidade, mesmo nunca lá tendo vivido. Sinto-me em casa porque me perco. Faz sentido? Não. Só para quem, como eu, gosta de estar confusa.

Se me perguntassem do que gosto mais, eu não saberia responder. Gosto dos pormenores. Gosto daqueles candeeiros velhos, presos às paredes, pintados de verde mas deixando ver parte da ferrugem que lhes ofereceram os anos. Gosto das ruas estreitas marcadas pelo intenso cheiro a fruta, em pequenas mercearias com caixas amontoadas e vendedores que ainda sabem sorrir a quem passa. Gosto daquela rua que tem sempre música, geralmente fado, e uma lojinha a vender livros em segunda mão, autênticos tesouros, a cheirar a velho. E do cego que se senta sempre no mesmo sítio, e que repete a mesma cantilena desde que me lembro. Costumo deixar-lhe uma moeda, sempre que por lá passo, mas não o tenho visto. Onde andará ele? 

Também gosto dos velhos - um preto e um chinês - que já várias vezes vi a jogar xadrez no meio da rua. É-me tão, mas tão fácil gostar de quem não conheço, que soube na primeira vez em que os vi que mais valia nunca lhes falar. As palavras só estragam, e eu gosto deles assim, sem saber mais do que aquilo que posso ver. Sorrio-lhes e vou embora. Mesmo que eles não me tenham visto, mesmo que ninguém se tenha dado conta da minha presença - eu sinto-me muito bem quando pareço ser invisível.

Se algum dia alguém der por mim, talvez me julguem louca graças a esta minha mania de sorrir aos estranhos. Mais louca me julgariam se soubessem o que me passa pela cabeça enquanto vagueio por aquelas ruas. Ninguém imagina o quanto sou apaixonada pelo som do acordeão misturado com as conversas que me são alheias, e pelas gargalhadas de quem não conheço, do quanto me tocam realmente as tunas no meio da cidade. E ninguém sonha a vontade que tive de chorar no dia em que tive a sorte de ouvir uma mulher a tocar violino sem que ninguém parasse para a ouvir. Eu podia tê-la ouvido tocar o dia todo.

Tento imaginar os segredos que cada rua esconde. As palavras que ainda ecoam nas ruas - ou na cabeça de quem por lá as ouviu - anos depois de terem sido proferidas. Tento adivinhar as dores e as alegrias ali escondidas, quantas pessoas ali terão vivido o melhor dia das suas vidas - ou o pior. Quem o sabe? Em cada parede, encontro uma promessa. Em cada esquina, alguém pode ter sofrido um desgosto - e ninguém o saberá. Quantas lágrimas não terão caído nas pedras da calçada que os meus pés agora pisam? Ouço então uma melodia triste, que não vem de lado nenhum; vem de mim, e deixo que as minhas lágrimas se misturem com as outras que o chão guardou. Nunca ninguém saberá, e por isso as minhas mágoas estão bem escondidas, porque o que há mais na cidade, é silêncio. 

aconteceu

Não há quem nunca tenha feito festinhas no ombro do amigo e dito que estava tudo bem, que ia tudo correr bem. O que não se conta é que, muitas das vezes, essas são as desejadas palavras que vêm despoletar mais desgraças. Sabemos que temos de dizer alguma coisa, mas é raro ocorrer-nos que era melhor sermos sinceros.

Nunca ninguém é capaz de nos dizer que às vezes, quando as coisas estão más, ainda há uma maneira de ficarem piores. Nem sei porque o fazem - ou porque o fazemos, porque eu não sou melhor do que os outros e também me deixo arrastar pela corrente. É injusto até. Devíamos ter coragem para admitir que há pessoas que são realmente infelizes a vida toda. Que há histórias que, por mais que se tente, não terão nunca um final feliz. E tentativas que estão destinadas a arrastar-nos para o fundo de um poço, antes ainda de as tomarmos sequer como hipóteses. Acontece. 

Mas não. Nós vamos dizer que nada pode piorar. E aí a pessoa toma medidas drásticas, parece enlouquecer, deixar de se importar, e faz tudo à toa. Nada pode piorar, não é? Mas pode. Pode sempre.
E eu devia ter percebido isto antes.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

o que de mais certo o incerto tem

Enerva-me essa gente que tenta controlar tudo. Que marca encontros a horas exatas e que não se atrasa nem um segundo, não vá isso ser um mau presságio; essas são as mesmas pessoas que não conseguem ver uma madeixa de cabelo fora do sítio e que entram em pânico quando têm o verniz lascado. Ainda se dão ao luxo de apagar e voltar escrever várias vezes a mesma palavra, só porque a letra não ficou bonita. Como se isso fosse o mais importante. Como se o mundo parasse de girar por tudo não estar perfeito. Como não fosse melhor chegar atrasado do que não chegar nunca. Sei lá. Mesmo os que fazem tudo errado, em algum momento, acabam por acertar. E mesmo esses que não chegam a lado nenhum à hora marcada, acabam por chegar a algum lugar. É uma questão de tempo até que aprendam a acertar o relógio e o passo só pelo prazer de se desacertarem outra vez. Ouça-nos. Eles sabem. Eles sabem que mesmo esses que andam desencontrados, um dia também se encontram.

Só não têm pressa.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

this

Matei-nos uma vez para nos crer mortos, para não voltar a sentir essa tentação de te voltar a escrever. Mas não consegui. Não consigo deixar-te morrer nas minhas histórias de amor mal contadas, porque ainda ocupas o papel principal.

Não resisto a escrever-te de novo, a alinhar ideias que nunca conseguiria articular em voz alta, porque tenho medo de ti. Perdão, não é a ti que temo; temo o que sinto por ti. Assusta-me gostar tanto de alguém. Não te rias, não o digo por ser o que se diz nesses filmes de domingo à tarde, acredita em mim. Só me falta a coragem para ouvir estas palavras a saírem da minha própria boca, porque as perderia para sempre nesse imenso abismo que sempre existiu entre nós.

Começo a falar em códigos, e não queria isso. Desculpa-me outra vez por não saber ser melhor do que isto. E outra vez ainda, por citar eugénio de andrade quando todas as palavras aqui deveriam ser minhas; quem me dera que tivéssemos gasto as mãos à força de as apertarmos. Ao invés, contentei-me com a ideia de ser uma presença quase anónima na tua vida. Contentei-me com pouco, porque não saberia pedir mais. Para te ser franca, porque sabia que não podia pedir nada. Fizesse o que fizesse, eu continuaria a ser eu, e tu continuarias a ser tu, como se pertencêssemos a mundos diferentes. Quem me dera poder ser uma dessas meninas bonitas e interessantes de quem tu pudesses gostar. Mas não sou e, de alguma forma, isto faz-me senti culpada por aquilo que sinto por ti.

Tenho-me perguntado muitas vezes o que aconteceria se eu te dissesse. Talvez pudesse ser simples; eu e tu podíamos fumar, e entre duas baforadas, eu comentava, com um meio sorriso, que gosto de ti, que sempre gostei. Tu olhavas-me com a mesma indiferença de sempre, e eu inventava uma desculpa qualquer para sair à pressa, talvez estivesse atrasada para o autocarro, talvez me tivesse esquecido de entregar um papel importante, não sei, saia. Saíamos. Virávamos costas um ao outro e era um até nunca mais. Assim não. Por mais adeus, por mais despedidas, ficará sempre algo que poderia ter sido dito e não foi. Não podia ser fácil? Talvez, mas a realidade não é assim. A realidade nunca é como imaginamos.

De cada vez que tento imaginar como seria, arrepio-me; dói-me só de imaginar a tua reação. Já disse que sofro por antecipação, que começo já a morrer aos poucos só de imaginar que um dia ainda hei de levar com uma bala. Não devia, eu sei, mas está tudo tão errado aqui que me parece injusto que o mundo continue a girar, e o tempo a passar, como se eu estivesse pronta para avançar - ou, pelo menos, para tomar a decisão consciente de não me mexer mais. Mas que estou eu a fazer? Nada faria com que eu fosse o suficiente. Ainda assim, há momentos em que só penso em dizer-te, em libertar-me disto.

Quero acreditar que é como saltar de pára quedas; que o perigo de algo correr mal e nos estatelarmos no chão não faça com que deixe de valer a pena aproveitar aqueles segundos de queda livre em que ainda não sabemos se o pára quedas vai ou não abrir. Sei lá. Já nem sei o que digo, ou se calhar, nunca soube. Só queria poder dizê-lo uma vez - uma vez bastava, e depois podias voltar à tua vida como se nunca nada tivesse acontecido - que gosto de ti.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

finais reinventados

À minha volta, tudo me lembra de ti. Quase que sou capaz de sentir as paredes a emanarem o teu perfume, como se algum dia aqui tivesses estado. Sinto-me a enlouquecer, meu amor, sinto-me louca nos escassos momentos em que ainda sinto alguma coisa. Nos outros, eu nem sei. Estou aqui, algures em lado nenhum, quero chorar e não consigo. Que mal fiz eu a esse deus para me mandar sempre com o mesmo fim?

Decidi queimar tudo o que te diz respeito, mas não consigo fazê-lo já. Preciso de te ter comigo mais um bocadinho, mesmo que não sejas realmente tu, mesmo que sejam só papéis e fotos e objetos inúteis que te me devolvam – que me devolvam a felicidade escassa dos dias em que não soube reconhecer que estava feliz. Sei lá. Só preciso de ti mais um bocadinho, para ter a certeza de que és real.
Não tenho a certeza se isto é real ou se é só imaginação, mas de repente dou por mim a correr na rua. Está a chover, tinham dito que chovia hoje e estavam certos. Tenho ainda o meu pijama cor de rosa e estou descalça; completamente gelada e com os pés já ensanguentados, mas não sinto o frio nem as dores. Diria quase que não sinto nada, a não ser esse peso na consciência. Essa culpa.
Avisto-te ao longe e precipito-me para ti. Bem dizia a outra que o diabo era bonito. Só não pensei que o diabo fosse exatamente a pessoa por quem eu seria capaz de me apaixonar – estúpida! Não devia já eu ter percebido que tenho uma queda para tudo o que me faz mal?

Começo a falar, mas não consigo acabar a frase. Esse gosto de ti teima em não sair, porque no fundo sei que é  inútil obrigar-me a abdicar deste medo – porque no fundo sei que será pior deixar-te descobrir-me, ignorando – estúpida, sempre estúpida – que já o sabes demasiado bem.
É então este o nosso duelo final. O amor que sempre andou mascarado de ódio, está posto a nu e não há nada mais a fazer. Não me gritas, não me falas. Olhas-me e é como se me matasses lentamente. Nada poderia ser pior do que isto. Em que momento achei eu que merecia dizer-to, como se quisesses ouvi-lo? Em que momento achei que tinha o direito de gostar de alguém como tu? Odeio-me hoje ainda mais do que ontem, mas não te culpo. Culpo-me a mim. Estúpida!

De repente, já não é o olhar. Estou deitada no chão e tu estás ao meu lado - estarei a sonhar? Seguras uma faca que vais aproximando devagarinho do meu peito. Entendo-te. Entendo agora que sabes das minhas crenças – que acredito que um amor só morre quanto se mata parte de quem amou. Queres então matar o que eu sinto por ti de uma vez. A faca está cada vez mais próxima do meu peito, mas tu não tens pressa; queres ver-me sofrer - porquê? Em que momento te fiz tanto mal?

Não sei se estás arrependido, se maravilhado com o espetáculo, mas permaneces imóvel.Tento falar-te, mas não tenho coragem. Ao invés, agarro-te a mão com uma força que desconhecia, e invertem-se os papéis; é agora a faca com que quase me mataste que te mata, assim como será com ela que me matarei de seguida. No intervalo, rola-me uma lágrima mas confunde-se com a chuva, sussurro que te amo mas pareço muda, e olho a lua mais uma vez. É para lá que quero ir. Cravo a faca no peito, e assim me despeço de ti.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

podia lá eu gostar de alguém normal.

É errado dizer-se que não escolhemos a pessoa de quem gostamos. Acredito que, ainda que de forma inata, escolhemos. Talvez estejam essas teorias loucas meias certas; se calhar, a história das almas gémeas é verdadeira, se calhar também há almas alheias que nos assentam tão bem como se fossem as nossas próprias almas, e acabamos por entender que não as podemos deixar ir mais. Chamamos-lhe amor para simplificar a justificação. Ou se calhar nem é nada disto, mas não importa.

Acredito que o escolhi. Porquê, é difícil de explicar. Há algo nele que me fascina desde o primeiro momento, ainda que isto me pareça demasiado infantil para confessar em voz alta. Mas é isto mesmo; ele fascina-me e a única maneira de explicar porque é que gosto dele, é descrevê-lo com todos os pormenores - porque sim, os pormenores fazem diferença. Simplifiquemos. Gosto dele por ser ele. Gosto dele por ser estranho e não sei isolar uma caraterística, não consigo diminuí-lo a um só pormenor. E é isto - é isto que o torna (ainda mais) inalcançável por alguém como eu. Desse o mundo três cambalhotas que eu continuaria a não ser o suficiente.  

Não há nada a fazer. Daqui a pouco tempo, os nossos caminhos separam-se de vez, e ele nem se vai voltar a lembrar de mim. É melhor começar a habituar-me a isso.

terça-feira, 28 de maio de 2013

metáforas

Bebeu demais e perdeu a noção de tempo e de espaço. Caminhava agora, lentamente, em direção a casa, mas não o sabia ainda. Faltava-lhe aproximar-se do jardim para que zazu, o cão, lhe saltasse para cima e ela descobrisse que era ali o final da viagem.

Sentou-se no alpendre. As quase duas horas de caminhada, ainda que ela não faça ideia do tempo que andou, deram-lhe a oportunidade de se recompor o suficiente para voltar a si. E quem lhe dera não o ter feito! Zazu lambia-lhe as mãos, claramente feliz por a ver. Enquanto lhe afagava o focinho, deu por si a chorar. Aquelas lágrimas que só surgem em momentos inesperados, como este, em que tudo parecia ter corrido bem, até ela se ter lembrado do que estava mal. O choro dela era agora descontrolado, complementado com soluços sonoros.

Ninguém deu por ela ali, deitada no chão do alpendre, com o cão a lamber-lhe as lágrimas. Sentia-se só, e nem sabia explicar porquê. Diriam vocês que eram efeitos do álcool, e não nego, ainda que com a nota de que a única contribuição deste, foi para a sua libertação. Finalmente, chorava sem medo. Chorava por tudo, e perguntava a si mesma, ainda que baixinho, que mal teria ela feito a esse deus, se é que ele existe, para que ele lhe tivesse dado tanto azar na vida. De repente, o múrmurio deixou de o ser. Deu um grito que rompeu a noite e fez a persiana da casa em frente se abrir. Estava desesperada.

Lembrou-se subitamente da chave suplente debaixo do tapete da entrada, e resolveu entrar. Só aí se apercebeu dos pés ensanguentados, fruto da longa caminhada que ela não se lembra de ter feito descalça. No hall, o espelho mostra-lhe a sua figura; despenteada, de maquilhagem esborratada, vestido rasgado. Sentia-se nada. Pior que nada. Ela era nada. Queria partir o espelho, mas sabia que não valia a pena, porque ela continuaria ali, e continuaria a existir uma sombra para lhe mostrar o que ela não queria ver.

Odiava-se. Quando pensava em si em todos aqueles anos de existência, não se lembrava de uma única vez se ter achado bonita ou interessante, e cada vez mais lhe davam mostras disso. Odiava-se. Odiava aquele corpo e daria a sua vida atual de boa vontade, se soubesse que existiria a hipótese de se ver nascer diferente. Mas, desta vez, com uma diferença boa.

Atirou-se para cima da cama. Tinha o cabelo emprestado em cheiro de tabaco. Tinha começado a fumar há pouco tempo; não por prazer, mas por saber que lhe fazia mal. Agradava-lhe essa ideia de um suicídio lento,  inicialmente indolor, quase, quase prazenteiro. Queria matar-se, mas não tinha coragem para morrer.

Tomou uma decisão. Estava à beira do abismo e sabia que preferia atirar-se a deixar-se cair lentamente. Era então hora de tomar balanço. Pegou então num papel e numa caneta e começou a escrever cartas de despedida para todos; até para o rapaz a quem ela teimava tratar por homem, ainda que fossem da mesma idade e ela não se considerasse nem perto de ser mulher. Depois de muito escrever, apagou tudo e começou de novo. 

Esteve assim até que amanhecesse, e só faltasse a carta de despedida para ele. Por mais que tentasse, não conseguia que as palavras lhe parecessem coerentes, suficientes, justas. Há sempre mais um bocadinho a dizer quando gostamos muito de alguém, não é?

Quis tentar inverter o jogo a seu favor. Já que ia morrer, queria deixar-lhe a dor, queria usar as palavras como lâminas. Pegou então numa foto dele, e limitou-se a escrever na parte de trás tenho estado a tentar dizer-te que te amo, mas nunca me quiseste ouvir. talvez me queiras ouvir agora, que me encaminho lentamente para a morte que me fizeste desejar. adeus. 

Sabia que estava a ser injusta e, em última análise, infantil. Sabia que ele pouco tinha a ver com as razões que a levavam a querer suicidar-se, mas não conseguia, deixar de querer que alguém sentisse de facto a dor da sua perda. Nem que para isso tivesse de recorrer a algo assim.

Depois de abandonar as cartas em cima da cama, saiu de casa. Uns ainda dormiam, outros já tinham saído. Ninguém deu por ela.
Pensou no óbvio e encaminhou-se para a estação. Nada seria mais rápido e, quem sabe, menos indolor. Foi nesse curto percurso que lhe separa a casa da estação de comboios em que, caro leitor, aconteceu o óbvio e o inevitável; filipa teve aquele flashback a que tão bem nos habituaram os filmes, e compreendeu que não queria de facto morrer, queria parar de viver, e esta antítese não significa que uso morrer e deixar de viver necessariamente como antónimos. Ela só queria parar. Queria que tudo parasse. Queria organizar as ideias devagarinho, até que pudesse voltar a querer viver.

Ainda assim, não se desviou. Continuou na mesma direção. E chegou mesmo antes do comboio, o que a obrigava a decidir rápido. É aquela parte em que, se eu conseguisse que isto fosse uma história bem construída e minimamente interessante, vos deixaria a questionar-se se a filipa teria ou não morrido, e vos deixaria com pressa de ler o fim. Bom, voltemos à filipa; quando o comboio se começou a aproximar da estação, ela precipitou-se em direção à borda da gare, pronta a atirar-se no último momento. E, confesso-vos, eu ia mesmo matar a filipa, mas a esta hora quero um final feliz, só para dormir mais descansada. Ainda que isso implique encher-vos de clichês.

No último momento, no derradeiro momento - zás - era ele. Rui puxou-a por um braço e aninhou o corpo dela contra o seu. Abraçou-a como nunca ninguém antes a tinha abraçado. Nesses momentos, ocorreu a filipa a maldade que tinha feito naquela manhã, que rui nunca poderia ler aquela mensagem por detrás da sua foto, quando afinal foi ele quem a salvou. 

Quando o comboio se foi embora e rui se sentiu à vontade para a largar, estava a chorar. Ela estava demasiado fraca para perguntar porquê, e só agora se deu conta de que também ela chorava. Quase, começou ele, quase que te perdia sem te ter deixado saber. O quê?, perguntou-lhe ela. Eu amo-te. Desde sempre.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

what now?

De facto, se eu olhasse para nós do lado de fora, como simples espectadora e não como atriz principal, creio que talvez conseguisse mesmo interpretar a história de maneira diferente. Se calhar. O problema é que não o posso fazer, não posso fugir de mim e deixar outra no meu lugar até perceber se eu quero mesmo ser eu. E eu conheço tanto da trama quanto todos os outros, mas sabes como é, sou mais dada a dramas a pender para a tragédia.

E agora? O que é que eu faço contigo? O que é que eu ainda posso tentar fazer connosco?
Nada.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

a continuação da febre

Quando eu cheguei, eles já lá estavam. Ela, sentada na cadeira. Ele, de pé ao lado dela. Um casal jovem, só não arrisco uma idade porque não sou boa nisso, mas não diria que tinham mais de 30 anos.

Ela estava doente, com a cabeça encostada à perna dele e os braços a rodeá-lo. Parecia uma miúda pequena, apesar de ser exageradamente alta. Confesso que invejei um bocadinho. Mesmo dizendo que não, mesmo mostrando indiferença e descrença nos sentimentos, há dias em que eu também queria ser a menina de alguém. Paciência, não se pode ter tudo. Mas, voltando àqueles dois, eu não conseguia parar de os observar. O olhar de preocupação dele, o carinho com que a tratava, a insistência em ficar de pé porque, para se sentar, haveria alguém entre eles e ele não poderia segurar-lhe a mão, chamaram-me à atenção.

Não sei se o amor existe, não sei se eles se amam ou não, ou só se têm um ao outro para as horas vagas. Desculpem-me a desconfiança, mas nunca se sabe. Nunca se sabe se o toque insistente do telemóvel dele, não seria outra. Nunca se sabe se a forma como ele a olhava não seria o sentimento de culpa a falar mais alto. Eu sei lá. Dei por mim a imaginar toda uma vida paralela ao carinho óbvio que tinham um pelo outro, e isso chateou-me. Não queria pensar assim, juro que não.

Depois, ele baixou-se. As cabeças deles ficaram quase ao mesmo nível e eles olhavam-se nos olhos. Consegui distinguir-lhe nos lábios a formação da palavra amo-te. Amo-te muito, respondeu-lhe ele. Hoje, só hoje, vou acreditar que sim. Acreditemos que se amam, acreditemos que o amor existe e que é algo bom.

agendado

terça-feira, 7 de maio de 2013

e depois descobriu que ela o amou aquele tempo todo

Lembro-me bem dela. Melhor dizendo, nunca a esqueci. 

Costumava vê-la passar, sempre com aquele ar de quem não queria saber de nada, de quem não se importava com o mundo mas, ainda assim, amava viver. Estivesse a minha visão tão nítida como a minha memória, e ainda havia eu de ser um grande homem nesta idade... mas lembro-me tão bem dela, céus, chega a doer-me. Tinha aquele ar desalinhado de quem sabe o que quer mas parece andar sempre à deriva e parecia não se cuidar, não se preocupar minimamente com o que aparentava mas, ainda assim, estava sempre perfeita. Ou era eu quem a via assim. Sentia por ela uma espécie de adoração anónima que não saberia explicar a mim mesmo, se ousasse confessar que não podia viver sem aquela rapariga.

Certa vez, tive de o admitir. Vi-a a chorar e, de repente, o olhar dela que sempre pareceu querer roubar-me a alma quando pousado em mim, fez sentido. Não estava ela senão a pedir ajuda, a pedir que alguém a libertasse dela mesma, dos demónios interiores que a consumiam mais e mais a cada dia. E eu quis tanto levantar-me e abraçá-la. Não  falar - acredito na linguagem dos corpos, acredito que diria mais calado. De nada me adiantaria continuar a mentir a mim mesmo quando o meu corpo pedia por ela, e só não culpo o coração porque sei que o pobre é uma vítima das artimanhas do inconsciente. Contudo, não consegui levantar-me. O rasto negro que a minha menina deixava atrás de si, dizia tudo dela, e eu não tive coragem de a seguir e de lhe pedir que sorrisse. Lembro-me tão bem do sorriso dela, meu deus.

Um dia, já estava cansado de me esconder por detrás da indiferença que não sentia, e escrevi-lhe uma carta. Disse-lhe o quanto ela me parecia especial, o quanto era fácil apaixonarmo-nos por ela, o quanto eu queria que ela soubesse que dava tudo para ter alguém como ela. O quanto a queria, por assim dizer. Ainda assim, já de carta escrita e sentimentos no auge, não consegui enviá-la. Tive um daqueles momentos decisivos porque toda a gente passa na vida, aquele faço não faço, digo não digo, e, soube-o mais tarde, cometi o maior erro da minha vida. Deixei a carta perdida num livro que pensei oferecer-lhe. 

Não sei precisar o tempo que passou, mas sei que não foram mais de três meses, quando voltei a pegar naquela carta. Ia vê-la nessa noite, na inauguração de um restaurante de um amigo nosso. Olhei-me no espelho e convenci-me de que seria a derradeira oportunidade. Meti a carta no bolso e fui.

Quando lá cheguei, ela estava de costas a conversar com uns amigos. Não consegui aproximar-me deles. Sentei-me numa cadeira ao fundo da sala e fiquei a vê-la de perfil, sempre tão leve como se o mundo não lhe pesasse nas costas, sempre tão ela. De repente, ela virou-se. Lembro-me tão bem desse momento! Ela virou-se e, nessa altura que eu não acreditava no amor, soube-o; soube que, se fosse possível amar alguém mais do que a qualquer coisa num segundo, se fosse isso o apregoado sentimento, então o meu momento era aquele. Eu amava aquela rapariga que não era mais para mim do que um mistério. Levantei-me com a mão no bolso, pronto a entregar-lhe a carta que mudaria os nossos destinos.

Porém, as histórias de amor verdadeiro nunca acabam bem. Quando estava a uns escassos metros de a alcançar, ele agarrou-a pela cintura. Estavam juntos. Ela e aquele rapaz que eu não conhecia, tão mais bonito do que eu, estavam juntos. Quem estava em pedaços era eu. Ele nunca a saberia amar como eu, que tão recentemente tinha descoberto o amor e já estava na certeza de que nunca amaria ninguém assim.

E tinha toda a razão. Agora, ao fim de mais de 50 anos, ninguém me tira da ideia de que, se não fosse a minha cobardia na hora de enviar a carta, a minha menina podia estar aqui comigo, sentada ao meu lado, neste banco de jardim onde se fixam os velhos, quem sabe se não todos a pensar no amor que perderam, tal como eu. A vista já anda fraca, mas hoje ela passou por aqui e eu tive a certeza de que era ela. A minha menina é agora uma mulher, de rosto marcado pelo tempo, mas com o mesmo olhar, com o mesmo sorriso. Com a mesma paixão desinteressada pela vida. E o perfume - céus, aquele perfume inebriante! Ninguém me poderia dizer que não era ela, eu sei que era. Vinha de preto, a minha menina. Ouvi uma mulher comentar que tinha enviuvado há pouco tempo, o que não duvido. Quando passou, deixou o mesmo rasto negro de outrora e a mesma angústia de sempre. Tivesse eu entregue a carta, e ela não estaria viúva agora. Não. Se a minha menina tivesse sido a minha mulher, estaria aqui agora, sentada ao meu lado. Os dois velhos, os dois no fim da linha, mas vivos - porque com ela eu seria imortal, tal como o meu amor. 

sábado, 4 de maio de 2013

para acabar

Já não há palavras para nós. Não as gastámos, mas perdemo-lhes o direito com o tempo, no tempo. Fugiram-nos e nenhum de nós há de correr a agarra-las, porque não valeria a pena porque já não nos servem, já não há tempo para que inventemos uma estranha forma de amor que dê para nós. Não há.

De todas as vezes que te escrevo, tenho-me tentado convencer de que será a última, de que, pelo menos por uma vez, serei capaz de meter um ponto final na história sem lhe querer escrever mais um capítulo, sem lhe querer inventar reviravoltas impossíveis. Não consigo. Quando a noite volta, se é que a noite dos meus dias em alguma hora chega a clarear, volto a lembrar-me de tudo, volto a precisar de pensar. Então, deixo os meus dedos à solta sobre o teclado, e deixo-os ir registando o que penso, quando penso, sem me dar oportunidade de pensar melhor. E, mais uma vez, cá está o ponto e virgula deixado à toa no fim de uma frase; continuaremos esse capítulo porque ainda não estou preparada para me despedir de ti.

Tenho medo que me descubras. Tenho tanto medo que descubras como me sinto que passo a vida a tentar encontrar em ti indícios de que já o tenhas descoberto, e o pior é que às vezes encontro mesmo. E depois dizem-me que pense menos, que dou demasiada importância a coisas sem importância nenhuma, mas não consigo nem quero não o fazer. Não quero que me resolvam o drama, quero que entendam que é tudo o que me resta, e que o poderiam compreender se estivessem no meu lugar. Mas não podem. Nem tu podes. Também não me sei explicar, nem quero. Não adianta. 

Gastaram-se as palavras não ditas, gastou-se o nós que não poderíamos ser, desfizeram-se os nós tão mal dados, perdeu-se o que nunca se ganhou. Estou perdida mais uma vez e já de nada me vale essa intuição que raramente me falha de que pode haver algo certo neste novelo de coisas erradas, ou aquilo que não me sai da cabeça há semanas. Nada me vale de nada porque o fim há de ser sempre igual; não há felizes para sempre que me caibam, não há história com final feliz que me chegue. Só tenho pena que sejas parte de mais uma das minhas tramas infelizes. E de me sentir outra vez num abismo sem que ninguém me ajude a sair porque ninguém percebe porque caí.

domingo, 28 de abril de 2013

i'm sorry young man, i cannot be your friend

O que mais me assusta no futuro, é essa ideia de poder vir a ser um zombie igual aos outros. Levantar-me todos os dias às sete, tomar banho, sair de casa às oito em ponto. Cruzar-me com dezenas de pessoas sem as ver, por estar demasiado distraída com os meus pensamentos, provavelmente sobre a conta da luz ou do gás. Preocupa-me isso, sabes? Preocupa-me a possibilidade de chegar ao fim dos meus dias mas não conseguir contar mais do que uma rotina, repetida anos e anos a fio, sem que nada disso tenha sido importante. Tenho andado sempre a tentar desviar-me da linha, da forma certa de fazer as coisas, para poder contar que errei. Mas depois reparo que não tenho a quem contar, que ninguém me quererá ouvir. E penso em ti. Penso na infinidade de coisas que poderiam ser diferentes, mas na hora de o entender, não consigo sequer decidir se eu teria de ser diferente ou se teria de agir de forma diferente. Se teria de ser a menina bonita e interessante por quem te poderias apaixonar, ou se me bastaria agir como se fosse. Dizem os outros que isso é suficiente, que autoconfiança é tudo, mas eu sorrio-lhes e vou-me embora; não acredito neles, eles estão loucos. De nada me vale uma capa de super mulher se continuar a ser quem sou, e o que sou não é bonito, diga-se. Não te culpo por não gostares de mim, e acredita que até te compreendo se não me suportares; na maior parte das vezes, eu também não acho a convivência comigo mesma minimamente suportável. É mais difícil ser-se eu do que aquilo que algum dia imaginarias. Mas eu não espero que me resolvas os problemas, ou que decidas correr até mim, que me abraces como se ficasses para sempre, mas tenho medo do dia em que te irás embora. Temo esse dia em que te terei de dizer adeus, sabendo de antemão que não voltas, que não volto, que acabou o que nem esteve para começar. Não é culpa tua, mas os meus sonhos mal sonhados cairão por terra, e lá vem o mundo cair-me em cima outra vez. Só sobro eu para apanhar os meus próprios cacos, e tentar restaurar o que sobra de mim, cada vez com mais cicatrizes, cada vez mais incompleta. Mas não te culpo, já te disse. Não é o amor um jogo? Dizem que sim. Perdi as duas últimas jogadas e tenho medo de lançar os dados outra vez. Recuso-me a fazê-lo, deixo para depois. E depois será sempre tarde, porque mesmo que comeces a fazer parte da minha rotina, mesmo que te tornes o dono do café onde começarei a ir todos os dias tomar o pequeno almoço, de nada adiantará; entrarei todos os dias às oito e meia com um livro debaixo do braço; peço-te um café e um pastel de nata e sento-me na mesa mais distante do balcão para poder continuar a observar todas as tuas expressões inconfundíveis. Se me olhares, encontrar-me-ás a sorrir, inexplicavelmente. E eu ficarei envergonhada e voltarei a pousar os olhos no livro. Em algum momento, hás de me reconhecer, mas provavelmente nem dirás nada. Tal como eu. Serei a antiga colega arrogante que deixou de te falar por seres dono de um café. Mal tu sabes... mal tu sabes, meu amor, que só não te falaria porque estaria a sonhar com esse futuro que não será o nosso.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

até amanhã, lua

Costumo pensar todos os dias em todas as coisas que gostaria de te dizer, se soubesse como começar e se, de alguma forma, ainda tivesse esperança de que me quisesses ouvir. Contudo, diz-me o meu lado racional de que te fartarias de mim cinco minutos depois, se é que não estás já farto dos disparates que digo.

Desculpa. Desculpa-me pela forma como tropeço nas palavras, como falo sem parar quando estou contigo e se nada do que digo faz sentido. Desculpa. Não sei lidar tão bem com o que sinto como penso, deixas-me nervosa, demasiado nervosa, e, na maior parte do tempo, nem eu sei do que falo. E desculpa-me outra vez, se sei ser boa atriz no que toca a sentimentos, se sei fingir que detesto algo que adoro tanto quanto a ti. Desculpa. Já te disse que não sei lidar com o que sinto, e gostar tanto de alguém amedronta-me.

Quando estás perto, só consigo pensar no quão bom seria chegarem-me esses tão falados 20 segundos de coragem louca, e dizer-te tudo de uma vez. Pegar na tua mão, e dizer-to. E nem me perguntes porque quereria eu pegar-te na mão, também não sei. Acho que só queria poder sentir que estavas mesmo ali, que não era um sonho, como o sonho que tive há dias. Não te disse, mas senti o meu coração em alvoroço nesse momento. Mas de que estou eu a falar? São só sonhos. São só ilusões.

Pudesse eu mudar-me para o outro lado do mundo, para um país onde estivesse trocada, onde os meus dias fossem as tuas noites e as minhas noites os teus dias. Onde estivesse certo caminharmos na direção errada e, de qualquer maneira, acabássemos por ir ter ao mesmo lugar. E onde eu não desse por mim a observar o céu negro salpicado de luzinhas brilhantes, a questionar-me se não estarias tu a observar o mesmo céu. E, nos noites mais loucas, se não estarias, também tu, a desejar ter-me ao teu lado. Mas não posso. Não posso fugir, nem me posso esquecer do mais importante; são só sonhos. São só ilusões.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

valeu a pena ler

ANNA’S STORY
Anna was just so tired of this. Tired of being put down, and tired of having people talk behind her back and having rumors spread about her. No one cared about her, no one. She had pretended to be sick so her parents would let her stay home. It was the perfect plan. She went to her father’s medicine cabinet after she was sure that she was alone, and reached for the sleeping pills. Setting the bottle on the kitchen counter, she began to write her farewell notes; one for her parents, on for her sister, one for her boyfriend, and one for her best friend. She signed them and placed them in a single stack on her bed. When she went back into the kitchen she grabbed the bottle of pills, emptied it in her mouth and swallowed every single one of them. She waited 10 minutes, 30 minutes, an hour. Until she got too impatient and grabbed a knife from the kitchen and went to her bathroom. Staring at her reflection and being disgusted with what she saw, she took the blade to her wrist and cut deep, enough to hit a vein. She collapse to the floor and the blood poured out of her. She curled up on the bathroom floor in excruciating pain and clutched her right hand against her left wrist and let out a blood curdling scream. A scream of pure pain. Her world began to go dark as she whispered, “I’m sorry…”
The weeks leading up to this day were torturous; filled with rude comments from the people who only have one goal in life - to make her life a living hell. Every day she would wake up and put the fakest of smiles on her face just to please everyone, and try to survive the day. Day in and day out, people really did genuinely believe that she was okay, and she liked it that way. There were a lot of people who relied on her, and she didn’t want to let any of them down. She loved each and every one of them so much. The heartless people who have bullied her for years don’t care about her. They would never think that she’s the way that she is - depressed and helpless.
“Oh god no! No no no!” She faintly heard someone scream. It was the voice of her boyfriend, Ryan. She felt him grab her by her shoulders and shake her, “wake up Anna, don’t die on me! Please baby… I love you!” She heard him command. He shook her more and more violently, trying to get her to wake up. He wrapped her wound on her arm with his jacket. “ANNA!” he kept screaming louder and louder. She wished she was able to respond. She didn’t mean for him to find her like this. Tears are streaming down his face and he buries his face in her neck; sobbing.
When Ryan had noticed that Anna wasn’t at school or answering her phone, he decided that during his free period he would go over to her house with a bowl of his mother’s homemade chicken soup, and Anna’s favorite magazine. When he got there, what he saw wasn’t what he was expecting at all. Later that night, he was sitting at the hospital with her parents, sister, and best friend. They were all awaiting to hear the news that he knew wasn’t going to be good, but that all still were hoping for the best. The doctor came out and apologizes before he told them the awful news; that she hadn’t made it. Ryan couldn’t breathe, let alone comprehend that his love wasn’t on the earth anymore. Her parents sank into each other arms and cried inconsolably. Her sister and best friend screamed and went into denial; they didn’t believe what they had just heard. All of the other people in the waiting room stared at them, their hearts broke at the sight of a family who had just lost one of the most important person in each of their lives.
About a week later, a funeral was held for Anna. The whole school attended; even the teachers and other faculty were in attendance. Everyone at the ceremony was crying, even the people who had bullied her all those years, and even people who had never talked to her. When it was all said and done, she was buried. Her mother was now severely depressed, her father hadn’t said a word since the funeral. Her sister had dropped out of college and moved back home to focus on her mental issues caused by this whole thing. Her best friend failed all of her classes that year and blew any chances of getting into an ivy league school, which she always dreamed of. Ryan never married, he never fell in love again, and he visited her grave every week. No one ever forgot about Anna because although she thought that no one cared, and she was doing everyone a favor by killing herself, she wasn’t. People did care.

Não é meu, mas deixou-me a chorar.