domingo, 4 de outubro de 2015

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass nos corredores do hospital - take2

Regra geral, as pessoas reagem bem ao facto de terem uma miúda a cuidar delas e acabam por achar piada à ideia - em contrapartida, há pessoas chatas que se convencem de que temos de fazer absolutamente tudo e encaram o hospital como um spa - e destas eu não consigo fazer nada.

Já não é a primeira vez que tenho de pedir ajuda porque não consigo fazer com que alguém - que podia perfeitamente levantar-se - se levante para que eu não tenha de fazer a força toda sozinha. E isto porquê? Eu tinha a vaga ideia de que deveria estar relacionado com o facto de ser nova e ter a «voz meiguinha» que eles tanto gostam de me gabar. Mas não fazia ideia de quem me achavam tão nova.

Hoje, uma senhora virou-se para mim e perguntou
 - tu tens quê, 14 anos?

Fiquei em choque, a hiperventilar e a chorar um bocadinho por dentro. A mulher deve ter reparado na minha confusão interior, e apressou-se a acrescentar  
 - se calhar nem tanto. tens mesmo cara de novinha!

Respirei funto e expliquei-lhe que não, que já ia nos 20.
Ainda em estado de choque, contei o sucedido a uma auxiliar, na presença de um rapazinho, também ele auxiliar, que já me conhece desde o primeiro estágio. Ao ouvir isto, a criatura apressa-se a dizer
 - eu também só percebi que tinhas mais de 18 anos porque te vi a conduzir!

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Desisto.

cinderela desfila o fat ass nos corredores do hospital - take1

Não vos posso dizer que ser auxiliar de saúde seja uma profissão de sonho - não é. Não desempenhamos as funções mais importantes e interessantes do mundo, mas somos parte de um todo; mesmo que hierarquicamente sejamos o elo (ou um dos elos) mais fracos, o hospital não funcionaria sem este gang dos azuis, como decidi chamar-lhe aqui.

Já se sabe que tenho desejos de fuga, que estou ávida de fazer outra coisa da vida e que ando aqui cheia de sonhos e planos e tudo e tudo - mas, por agora, isto vai-me acalentado o espírito e controlando a ânsia. Se lido com merda diariamente? Lido. Se há gente chata, chatíssima? Há. Mas volta e meia aparece um par de olhos doces que precisa quase tanto de atenção e carinho quanto cuidados médicos - ou, por outras palavras, talvez estes se complementem, mas acabem por estar ao nosso encargo, os que andam no terreno mais tempo, os que estão lá para satisfazer as necessidades deles. E eu gosto disso - quem diria? Quis ser fria durante tanto tempo, tentei ser tão indomável, fiz de tudo para não sentir, mas hoje sou toda coração e tento ao máximo que isso se note.

Há dias difíceis - há! Há dias em que estou tão cansada que chego a casa e acho que vou adormecer sem sequer jantar. Mas já vi sorrisos de pessoas que nunca sorriem a mais ninguém. Já vi alguém só aceitar comida dada pela minha mão. Já ouvi dizerem-me que era a preferida e elogiarem-me por ostentar um sorriso de orelha a orelha como se fizesse parte da farda.

E, para mim, faz.