terça-feira, 3 de novembro de 2015

o dia em que a cinderela parece ter andado mesmo nas drogas

Torna-se percetível que a minha vida não está a atravessar a melhor fase quando o ponto alto do meu dia foi encontrar um gato na rua, fazer-lhe uma festinha e a criatura nunca mais me largar.

Quando dei por mim, estava sentada num banco há não sei quanto tempo, numa praça, com um gato ao lado a pedir festinhas enquanto eu falava com ele com uma voz ainda mais apitalhada do que a que já me é característica.

E sim, passaram pessoas entretanto.
Várias.
(a avaliar pelo sorriso de «coitadinha, é retardada», podia ter tirado uma bota e ficado à espera que a começassem a encher de moedas)

também pode ser #acinderelaémámastambémseapaixona

[há dias em que gostava de poder voltar atrás, de regredir, se quiserem, mas de voltar a esse tempo em que era mais feliz. há dias em que me apetece voltar a ser pequena, esquecer os saltos altos e o eyeliner preto e sentar-me outra vez na cadeira do médico a balançar as pernas, ainda demasiado curtas para chegar ao chão. há dias em que me apetece voltar a ser essa menina, encostar a cabeça ao ombro da minha mãe e esperar, sempre atenta, sempre curiosa, sempre a questionar o mundo ao meu redor - queria crescer nessa altura. queria ser grande e ir aos sítios sozinha, saber ser sozinha, poder ser sozinha. hoje posso pegar no carro e ir a qualquer lado mas, na maior parte do tempo, não me apetece ir a lado nenhum - apetece-me um abraço quente e um beijo na testa. talvez dois - talvez não na testa. apetece-me o amor puro, esse em que eu jurava a pés juntos não acreditar ainda há uns três ou quatro anos atrás, e hoje ainda não sei se acredito mas percebi que não há definição nem fé que o faça desabar sobre a minha cabeça. é esperar - ou não esperar, deixar estar, as coisas inesperadas também sabem bem. há dias em que me apetece esquecer-me de que cresci mas que mantive intacta a intensidade com que sinto tudo, sempre sem meios termos, sempre sem filtros. há dias em que gostava de voltar aos dias em que a gravidade me era sempre alheia e eu não ia para a cama a temer o dia seguinte por não saber muito bem o que esperar  - e acabar por me aperceber de que estou a sofrer pelos dois.]

domingo, 1 de novembro de 2015

sobre isso de gostar em tempos de dor

[passei o dia todo a vigiar o telemóvel, à espera que me ligasses - achava que só ia conseguir sossegar quando ouvisse a tua voz mas, quando ouvi, apeteceu-me chorar por perceber que é pior do que me dizias, que vai demorar, que não posso fazer nada. e que estou longe, sempre longe, sem poder sentar-me ao teu lado e esperar contigo que um dia destes a vida te sorria como mereces, meu amor. e desliguei quase sem falar, sem dizer que te adoro, sem dizer o quanto sinto a tua falta, sem te prometer que vai correr tudo bem e que eu vou estar aqui, à espera, porque é isso que se faz quando se gosta. não te soube dizer nada disto - resumi-me num fogo... quando o que eu queria dizer era foda-se!, foda-se para esta vida, foda-se para a nossa sorte, foda-se para o mundo que parece estar sempre a conspirar. e foda-se para o quanto eu gosto de ti porque há dias assim, em que isso é realmente fodido.]