terça-feira, 1 de dezembro de 2015

mas, hey, dezembro também tem coisas boas!

Há o natal dos hospitais e o coro de santo amaro de oeiras tem oportunidade de ir mostrar que ensaiou o ano todo para cantar o a todos um bom natal, e ainda podemos ver, pela trigésima sétima vez, o sozinho em casa. 

Dezembro é mesmo o melhor mês do ano para hibernar e só acordar em janeiro.

tudo a dizer olá a dezembro e eu a querer só acordar em janeiro.

Desde que me lembro de mim que faço a árvore de natal no dia um de dezembro - planeava fazê-la quando chegasse a casa, ver se aquela coisa toda de fitas, bolas e luzinhas pisca-pisca me faziam finalmente sentir alguma coisa de bom e entrar no espírito natalício ou coisa que o valha.

Não resultou - a árvore de natal gigante, velha que só ela, está com tanta vontade disto tudo quanto eu; tentei, durante mais tempo do que me orgulho, que ela ficasse direitinha mas a puta estava ainda mais difícil de equilibrar do que eu quando bebo demais e ando por terreno acidentado, e acabou por se deitar.

Agora estamos as duas aqui; eu no sofá e ela no chão. 
Se a minha sanidade mental já não fosse suficientemente duvidosa, até poderiamos trocar ideias sobre a melhor forma de parecer feliz e viçosa numa altura do ano que, se em anos normais já me deprime para caralho, este ano se avizinha, provavelmente, a pior de sempre, com as festas mais deprimentes de que há memória.

e o cancro continua a ser um bicho papão.

O cancro é um bicho feio - depois de já termos perdido alguém para esse filho da puta, quaisquer mostras de que ele anda a rondar novamente são meio caminho andado para o início de uma nova tempestade. E o cabrão está a declarar-nos guerra outra vez.

O cancro é um bicho feio - volta e meia vem chatear um dos meus e nunca se cansa de se meter connosco; rio-me: «vamos acabar todos a morrer de cancro, de qualquer forma!», e falo-lhes de como tudo hoje em dia parece ser carcinogénico, sobre como o mundo já é um cancro por si só e não temos muito por onde escapar. Digo-lhes que vai passar, que tem de passar. Talvez passe - talvez não o deixemos ganhar desta vez, talvez sejamos capazes de lhe fazer frente. Talvez ela seja mais forte do que parece. Talvez.

O cancro é um bicho feio - hoje veio estremecer o meu mundo outra vez, veio ligar todos os alarmes, veio lembrar-nos do sabor da eminência - não tive saudades deste nó no peito e deste travo amargo a saudade premeditada. Não tive saudades do contra-relógio e da vontade vã e absurda de congelar o tempo agora, só para não perder mais ninguém. Não tive saudades do medo, das lágrimas sufocadas, do meu falso otimismo. 

«Hoje em dia há cada vez mais casos de sucesso», relativizo. Pareço irritantemente calma, estranhamente fria – não gosto de me mostrar em pânico, não gosto de me mostrar preocupada, não gosto de me mostrar vulnerável mas, por baixo da mesa, cruzo os dedos enquanto repito para mim «não me leves mais esta, não me leves mais esta, não me leves mais esta».

É inevitável que aqueles que amamos vão ficando pelo caminho enquanto se espera que continuemos a caminhar, mas nunca estaremos realmente preparados para lhes dizer adeus – não posso dar-lhe a mão para ela não ter medo como ela fazia quando eu era pequenina. Também não basta mandar o cancro embora. Não basta querer que ele vá. Mas amanhã eu dou-lhe a mão e tentamos mandá-lo embora na mesma. Hoje não – estou demasiado derrotada, demasiado assustada, para isso. 

Amanhã, sim – ele não pode ficar com ela porque o cancro é um bicho feio.

(aos curiosos, expliquei quem é aqui.)