[só percebi ontem: despedi-me, voltei para casa e, de repente, não conseguia respirar.há cinco anos, despedi-me da minha terceira avó com um abraço - eu, que nem gosto de abraços - e voltei para casa com um nó no peito. iria visitá-la a frança daí a pouco mais de três meses, e varria do pensamento todos os e se ela não tiver tanto tempo?, para me proteger e porque, friamente, eu não acreditava que ela estivesse assim tão mal. tínhamos acabado de descobrir - e era no rim, caramba! não basta tirar o rim? é possível viver só com um! - e depois de consultas adiadas, alguma negligência e uns quantos azares, resolveu voltar para o país que a acolheu por tantos anos. mais uma vez, agarrei-me à boia da certeza de que teria melhores cuidados de saúde. a saúde é que já era pouca - no caso dela, não era possível retirar o rim e, quando deram por isso, o cancro já tinha conquistado o território dos pulmões também. e, a umas horas do reencontro, o coração dela desistiu da vida.só percebi ontem que é este o peso que carrego e que não me deixa dormir: o medo de estar a cometer o mesmo erro. de me estar a agarrar à esperança de que tudo vai ficar tudo bem, de que nem é assim tão mau porque afinal é possível operar e nem está espalhado. o medo irracional e exagerado de ontem, quando me despedi da minha avó com o aceno de longe que a pandemia permite, ter sido a última vez que a vi com vida.amanhã é o dia da cirurgia mas, ironicamente, não é com o cancro que estou preocupada - é com o coração dela, que já teve melhores dias, que já bateu com mais vontade e hoje... hoje é isso que me está a deixar com tanto medo. tudo o que quero é que ele não desista também.]
domingo, 14 de março de 2021
a véspera, parte dois.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
a véspera.
[foi há 18 dias que começámos a viver mais devagarinho: depois do choque inicial, encontrei, perdida no fundo de uma gaveta, uma força que eu não sabia que me pertencia. e tornei-me dura, talvez. ou uma pequena besta, para ser mais precisa.
em épocas de crise, entro em modo de sobrevivência e fico capaz de coordenar um exército inteiro. não admito lágrimas, não lido bem com a fraqueza - lembrem-me de pedir desculpas à minha mãe, quando tudo isto passar, por todas as vezes em que a meti em sentido. não permito que se demorem em lamúrias ou que deitem os olhos ao céu para perguntar "porquê a mim?" - o truque é percebermos que não haveria motivo algum para não ser connosco. não somos pepitas de ouro, não somos especiais: somos humanos, e por mais que seja uma merda, as pessoas adoecem, sejam boas ou más ou mais ou menos. o único pré requisito possível para se sofrer é estar vivo. e, na volta, se me esforçasse, ainda era capaz de encontrar uns quantos mortos que passaram as passas do algarve já depois de o serem. é a vida. e a morte.
há 18 dias que o relógio parece segurar um paradoxo - ora o tempo parece passar demasiado devagar entre consultas e exames, ora o tempo parece voar, porque parece sempre que estamos prestes a perder essa bênção ilusória que nos parece a ignorância quando estamos às escuras à beira de um precipício.
e eu, que tenho vivido entre uma calma estranha, quase inconsciente, e um nervoso miudinho que me ataca quando menos espero, hoje sinto um nó na garganta. não sei se quero adiantar o relógio ou atrasá-lo uns bons dias: dentro de coisa de 12 horas, se conseguir passar na barreira dos seguranças, estarei sentada com a minha avó, frente a frente com a médica. e, de alguma forma, não consigo deixar de sentir que é a hora da sentença final.
hoje, rezo a um deus em quem tenho de me obrigar a acreditar, para que amanhã ganhe a lotaria - uma frase, três palavras: não há metástases.
é rezar.]
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