sexta-feira, 22 de maio de 2020

os machos e as virgens ofendidas

Há uns meses, numa entrevista de emprego, a rapariga perguntou-me se eu me achava preparada para trabalhar no meio de homens ligados à construção civil. Ri-me, e respondi que, se leu o meu currículo, deve ter percebido que venho do meio dos camionistas, e que por acaso esse foi o trabalho de que mais gostei. Espantem-se só: fui tão mal tratada, tão desrespeitada que, quase um ano e meio depois, ainda mantenho contacto com alguns deles. 

É importante defender as mulheres, é importante lutar pelo respeito, mas creio que o limite será quando se começam a desenvolver preconceitos sobre os homens, porque são pedreiros, porque são camionistas, porque têm um pêndulo entre as pernas. Calma lá que nós não somos todas santas, e eles não são todos cabrões.

Não sei se afinal é por ser mais sortuda do que sou capaz de entender, ou mais inocente, mas a verdade é que nunca me senti diminuída ou intimidada por ser mulher - chocante, eu sei. Nunca deixei de vestir uma saia ou um vestido por saber que iria frequentar um sítio com homens, nunca mudei uma vírgula da minha vida como que para me esconder desses seres mauzões portadores de pila. Imaginem só que nem tenho quaisquer problemas em levar o meu carro a oficinas ou à inspeção, e nunca pedi a um macho que o fizesse por mim por eu ser uma donzela indefesa. Porque... bem, porque não sou. Nunca me senti como tal.

Ontem, levei o meu carro à oficina.
Por ter alguma urgência na resolução de um problema elétrico e o eletricista da oficina a que recorro sempre - por ter mecânicos simpáticos, que entendem que eu percebo tanto daquilo quanto de mandarim mas explicam as coisas sem parecer que estão a falar com uma atrasada mental - acabei por ter de recorrer a outra.

Lembrei-me de uma onde, há uns anos, tive uma entrevista de emprego para a vaga de rececionista e o dono chamou-me barbie: suficientemente perto de casa para que me pudesse deslocar a pé, se tivesse de lá deixar o meu rico coche, não precisei de pensar duas vezes e fui até lá, ainda que a achar que, pela localização da dita, talvez tivesse de começar a decidir que órgãos estaria disposta a vender para pagar o arranjo.

Depressa percebi que o eletricista era, nem mais nem menos, o senhor que, no dia da entrevista, disse que eu não poderia ser contratada porque as coisas lindas acabavam com ele (têm o link para esse post ali em cima). 

Expliquei-lhe que um dos problemas era o botão dos quatro piscas que, pouco antes de toda esta situação, lembrou-se de avariar do nada: num dia igual aos outros todos, a minha pobre viatura, abandonada à porta do sítio onde trabalho, achou que estava na hora de dar um pouco de cor àquela rua sombria e ligou os quatro piscas, a meio da manhã, como que a convidar toda a gente para uma festa silenciosa. Anda, desde então, encravado com um gancho do cabelo, só numa de não passar a vida a piscar por todos os lados.

Chegou à conclusão de que se carregasse com um bocadinho mais de força, ele acabava por prender e não valia muito a pena estar a investir em peças novas nesta fase, principalmente por já ser um carro maior de idade.

Os outros problemas tinham imperativamente de ser resolvidos, ou o meu velhinho não iria passar na inspeção: deixei-o lá, e fui à minha vida.

Vi o tempo a passar: mais de duas horas depois, eu já pensava que talvez nem fosse má ideia tentar hipotecar os pêlos do buço, quando o senhor me disse que já estava pronto.

Explicou-me que a avaria se devia ao desgaste, mas que esta não é uma boa altura para andar a gastar demasiado dinheiro em peças novas e então tinha arranjado as velhas. Além disso, as meninas bonitas merecem uma atenção no preço, e então só me cobrou uma hora e meia de mão de obra em vez das mais duas em que esteve, realmente, a trabalhar.

Poupou-me bastante dinheiro: ajudou-me, numa altura em que também não me dá muito jeito investir muito, principalmente por o carro ser velho. Podia ter-me vendido peças novas, podia ter-me cobrado bastante mais do que apenas a mão de obra, e não o fez. 

Fez-me sentido escrever sobre isto porque vivemos numa altura em que os homens são todos uma cambada de filhos da puta e qualquer comentário relativo a uma mulher já merece ser punido: aposto que o comentário das meninas bonitas já faria umas quantas capazes gritarem assédio: o senhor ainda acrescentou, em tom de brincadeira, que sempre quis estar na receção, só para ter uma desculpa para pedir o número a todas as meninas lindas que por lá passam, mas nem por isso me senti minimamente assediada por um homem que tem idade para ser meu avô. 

Não me ofendeu. Não me tocou. Não me fez sentir minimamente desconfortável porque percebi que era só uma tentativa de me elogiar e ser engraçado ao mesmo tempo. Senti-me, isso sim, grata pela ajuda numa altura em que ela é bastante bem vinda, e com alguma fé na humanidade restaurada pela consciência de que ele escolheu poupar-me dinheiro, em vez de se limitar a querer vender.

3 comentários:

O último fecha a porta disse...

Acho que é tudo uma questão de bom senso. Chegou-se a um ponto de exagero em que qq coisa é logo assédio.

disse...

Pois... e na opinião de algumas mulheres, a partir de uma certa idade, os homens deviam cegar, para não terem o descaramento de olhar para uma jovem. Porque um dos pecados mortais cometido pelos "velhos", com toda a carga pejorativa que a palavra "velho" encerra, é ter olhos.
Preconceito? Não, um "velho" serve para quê? Para ocupar espaço e consumir oxigénio.
A velhice é um ferrete que só não marca aqueles que morrem novos.

Anónimo disse...

Acho que às vezes, mais do que é dito importa a maneira como é dito e toda a linguagem corporal envolvida. Ai reside a diferença entre assédio, e um elogio com piada.