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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

meus queridos hipopótamos,

Aquando do primeiro confinamento, esta que vos escreve estava viciada no ginásio, focadíssima no corpo que nunca terá, a treinar religiosamente de segunda a sábado, volta e meia com dose dupla no mesmo dia. E depois, o drama, o horror, a tragédia: confinámos. Confinámos e fecharam os ginásios para podermos ficar gordos e culpar o governo.

Durante dois meses e meio, rebolei pela casa. Só. De vez em quando, procurava vídeos de treinos de 10 ou 20 minutos só para tirar o peso da consciência, mas surtia tanto efeito quanto beber água com limão em jejum - e voltei para o ginásio no mesmo dia em que reabriram estes antros do demónio, jurando a mim mesma que não o abandonaria até que nos proibissem novamente.

Não aconteceu - ali por meados de outubro, vi que os números estavam a subir e os cuidados a descer, e achei por bem informar que não mais lá colocaria os chispes enquanto julgasse que me estava a expôr desnecessariamente. E meio que achei que era o fim, que iria voltar aos bons velhos tempos de obesa flácida porque o passado dizia-me que eu não sou um bichinho de treinos naquele pouco mais de um metro quadrado da sala lá de casa. Mas... enganei-me. E foi por isto que julguei que poderia ser útil para alguém que também tenha passado o primeiro confinamento debaixo de uma rocha, tal como eu, e tenha descoberto isto tardiamente.

Foi um acidente. 
Não sei como aconteceu, mas apareceu-me um vídeo de alguém a mostrar os resultados obtidos com os treinos da Chloe Ting, e sem querer eu estava a fazer binge watching em todos os vídeos do género. To-dos. E ao 3021º vídeo, pensei: será que não funcionaria melhor se eu tentasse de facto os treinos?

Da Chloe, fiz dois diferentes: comecei com o 2 weeks shred challenge de 2019, e depois o de 2020. E foi a revolução: percebi que esta coisa de ter um treino estruturado me ajudava a ser mais disciplinada, porque se fosse por autorrecriação eu faria apenas um daqueles vídeos de 10 ou 15 minutos, nunca faria 3 ou 4, nem treinaria com aquela frequência. Em suma, passei a permitir que uma desconhecida me controlasse. Confiei-lhe este corpitxo.

Em relação a resultados, não posso mentir: do primeiro desafio, foram nulos em termos visuais, mas senti que fui melhorando muito a minha resistência. É bom para começar porque é fácil de seguir, e lá para o quinto ou sexto dia, já nem apetece tanto chorar quando ouvimos "up and down planks". No segundo, sim: o meu corpo mudou, vi resultados engraçados e todo o plano em si é mais intenso e mais prazeroso. Pelo menos para mim: se acordo às 6h para treinar (sim... continuo a só funcionar de manhã), é para me cansar mesmo e acabar nojenta. Caso contrário, continuaria a dormir.

Claro que isto dos resultados foi giro, mas acabei esse plano a 23 de dezembro e entretanto meteu-se o natal. Pois.

Comecei outro plano da Miss Ting, mas não gostei porque não me parecia suficientemente intenso: nem uma gota de suor. Fazer o treino ou ficar no sofá era praticamente o mesmo, e iniciei toda uma busca por outros planos do género.

Tentei a Pamela Reif: semanalmente, ela faz planos que publica no instagram, para vários gostos, entre 30 a 45 minutos. Tentei o que eu achei que seria mais próximo do que gosto - o sweaty - mas desisti ao terceiro dia também. Não estava a sentir nada e, again, eu acordo demasiado cedo para sentir que o que fiz não valeu a pena. 

No entanto, a Pamela tem a vantagem de não falar nos vídeos. Vai direita ao assunto e pronto: um vídeo de 10 minutos é mesmo um treino de 10 minutos. Fácil e prático. 

De volta à busca desenfreada, li muito sobre a Sidney Cummings que, ao contrário das outras duas, é uma profissional da área e sabe o que está a fazer. Pequeno problema: é meio impossível seguir os planos dela sem ter pesos, e a 'çoa não tem porque a 'çoa acha esse equipamento absurdamente caro. 

Ela tem muitos vídeos sem equipamento mas são vídeos aleatórios, de vários planos diferentes, o que, infelizmente, eu sei que não funciona comigo porque me aborreço demasiado facilmente e preciso de me comprometer a seguir determinado desafio, ou iria começar a procurar o mais fácil porque não me apetecia, ou a saltar dias porque me faltava motivação. No entanto, para quem não for como eu, ou tenha pesos, acredito que valha a pena tentar.

De momento, estou a testar os planos da Lilly Sabri
So far so good: em poucos dias, estava de volta aos resultados que tinha tido antes do natal, e gosto de como fico com os treinos dela no geral. Não transpiro tanto quanto gostaria, mas sinto que me desafio todos os dias.

Um contra: vídeos demasiado longos porque, na sua maioria, são lives gravadas onde ela pára para conversar - como treino em contra relógio para poder tomar banho e chegar ao trabalho a horas, nem sempre é muito simpático. Outro ponto contra, é que, também por ela fazer live, às vezes tornam-se meio confusas as variações para principiantes, intermédios e avançados.

Não acho que funcione para quem só agora está a começar - se são como eu e têm uma camada de gordura tal que até os vossos abdominais se esqueceram de que aí estão, acho que a melhor, inicialmente, é mesmo a Chloe. Os treinos são simples, com modificações para que seja acessível para todos, e servem para começar a mexer. Para quem não gostar de repetição, talvez não ache grande piada porque consiste em repetir os mesmos vídeos praticamente todos os dias.

Pelo contrário, os treinos da Lilly são sempre diferentes, embora tenham quase todos em comum... os burpees. Pessoalmente, deixei de detestar burpees quando descobri as up and down panks e os plank jacks - mas é com vocês. Não deixa de ser mais difícil de seguir para quem está a começar: ainda que não seja exatamente a intensidade de que eu gosto, é possível que já seja demasiado para quem só está habituado a mexer os dedinhos no comando da televisão.

Agora, só para clarificar, os títulos que as moças colocam são bastante fofinhos, mas não vamos mesmo acreditar que basta fazer um vídeo de 5 minutos durante 7 dias que vamos despertar a Carolina Patrocíno que há em nós, certo? Certo. Os títulos são sensacionalistas, mas é importante manter em mente que milagres não existem se não houver cuidado com a alimentação também. Assim como assim, o importante é mexer, mesmo que se saiba que não irão chegar ao fim de 14 dias gostosonas.

Para acabar, e nem digam que vão daqui, não duvidem de que precisam de um tapete de fitness/pilates/yoga/o que caralho lhe queiram chamar. Eu achei que a carpete da sala seria o suficiente, até que comecei a ficar com nódoas negras a assinalar exatamente onde vive cada uma das minhas vértebras, e com os cotovelos queimados de tantas pranchas. Menos essencial, porém importante: bandas de glúteos. Acreditem que faz a diferença.

E com isto tudo... ainda não senti nem uma pontinha de saudades do ginásio. Sinto-me a um tiquinho de começar a gostar mesmo mais de treinar em casa.
Manias.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

espécies de pessoas no ginásio

Apesar de adorar treinar, ontem estava num daqueles dias em que parece que fui para o ginásio com a bateria a 5% e a ameaçar desligar a qualquer instante. Vi-me obrigada a aceitar que, por algum motivo, estava demasiado cansada e a encurtar o treino.
 
Meio que danada comigo mesma, dei por mim a olhar à volta e a pensar nos vários tipos de gente com quem já por lá me cruzei, e na forma como nunca lhe dei o devido uso. Posto isto, segue-se uma compilação das espécies mais curiosas que frequentam o ginásio.

Espécie 1: O Parturiente 

O primeiro teria de ser sempre este - e quem não é capaz de identificar esta criatura mítica do ginásio, é porque nunca entrou num ginásio. Não há volta a dar. Isso... ou vocês são o parturiente do vosso.
Esta criatura, geralmente do sexo masculino, está sempre em trabalho de parto. Sempre. Possivelmente, julga ser sensual gritar enquanto levanta muito menos peso do que aquele que os meus bracitos suportam quando quero levar todas as compras, do carro para casa, numa só viagem, mas é só ridículo.
Adoram exibir-se e dizer que o treino é para doer, e muitas vezes acabam a mamar no biberon da whey. Ainda não consegui confirmar, mas desconfio que deixarão o ginásio também num seat ibiza rebaixado com a kizomba no volume máximo.

Espécie 2: As Comadres

Grupo de duas ou mais pessoas, podendo ser do sexo feminino, masculino, misto ou confuso, que se movem em bloco: se um quer ir para a passadeira, o outro vai para a passadeira também, se o primeiro quer mudar para a bicicleta, vão os dois para a bicicleta, and so on. Geralmente, estão a conversar sobre coisas que não interessam a mais ninguém, mas são particularmente irritantes numa fase em que o número de equipamentos está limitado.

Espécie 2.1: As Comadres Amantes

Exatamente o mesmo que as comadres, mas além de se moverem em bloco, fazem todo o treino juntinhos. Se um está a puxar ferro, o outro está atrás, à espera. Depois trocam de posição mas nunca, nunca, se largam.

Espécie 2.2: As Comadres Espiãs

Variante da anterior mas, no caso, as comadres formam mesmo um casal e uma delas parece só ter ido para se certificar de que o outro foi mesmo ao ginásio e não deu a desculpa do treino para se ir encontrar com a/o outra/o. 
A comadre espiã limita-se a seguir o tutxuzinho, praticamente sem treinar, antes que ele vá comer a porca da dona Amélia, que só anda no ginásio para fazer passadeira, enquanto ela não estiver a olhar.

Espécie 3: Os Esperançosos

Pessoa, podendo também ser do sexo feminino, masculino, misto ou confuso, que se pesa a meio do treino, completamente vestida e calçada. Aceito outras teorias, mas a minha é a de que estão a ver se já chegaram ao peso pretendido e podem dar o treino por terminado.
Se eu seguisse o mesmo método, viveria eternamente no ginásio.

Espécie 4: O Sonhador Artístico

Espécie, felizmente, rara que se senta no parapeito da janela e fica a olhar para a rua com o ar sonhador com que em 2009 se tirava aquela foto "desprebenidah", que toda a gente fazia de conta que não percebia ser uma selfie no tempo em que ainda nem se falava em selfies. Estão a ver a cena, não é?
O tipo que se acha sensualão e quer ser observado a sensualizar desprevenidamente. Só que de sensualão tem muito pouco. Ou nada.

Espécie 5: Os Trombudos

Odeiam treinar, odeiam pessoas e odeiam a vida no geral. Já chegam com ar de mal fodidos, olham para os outros com ar de mal fodidos, e tentam que os outros ouçam, por meio dos olhares assassinos, os "com licença" que lhes deveria sair pela boca, se não estivessem só com aquele ar... de mal fodidos.

Espécie 6: Os Caseiros

Estão em casa, é tudo deles! Estacionam numa máquina e pouco se importam se existem outras 59 pessoas à espera para a usar. Aproveitam para se sentar a descansar, a enviar mensagens, a olhar para o nada e tenho para mim que, não tarda, até as unhas dos pés cortam. 

Espécie 7: Os Carentes

Desconhecem o significado de distância social e de respeito pelo espaço vital do outro no geral. Deixam os pertences no parapeito da janela, para onde se dirigem a cada 30 segundos, mesmo que isso implique andarem a roçar o cu na máquina que outra pessoa está a usar. 
Pessoas: não é assim que se fazem amigos.

Espécie 8: Os Sovinas

Se pagam ginásio e o ginásio tem balneários, eles querem aproveitar a experiência na sua totalidade! Fazem-se acompanhar de todos os produtos de beleza e higiene pessoal possíveis, incluindo a máscara para o cabelo e... a gilete.

Espécie 9: As Estilosas

Sempre maquilhadas a preceito, nem quer seja para irem transpirar que nem porcas - ou então sou só eu quem transpira que nem uma porca e as outras moças vão ao ginásio só como quem vai desfilar. Deve ser por isso que, há uns dias, me cruzei com uma moça com um iluminador tão potente naquelas bochechas (ou maçãs do rosto, meninas de bem!) que me ia ferindo as vistinhas.

Espécie 10: Os Índios

De todas, esta é possivelmente a espécie que mais confusão me faz. Mais até do que os próprios parturientes!
Geralmente, esta espécie vai para as aulas de grupo gritar coisas como Uh-Uh, por motivos que creio que nunca saberei explicar, mas que me fazem sentir vergonha alheia do mais profunda possível.
Gente, não façam isto.

É por isto que esta que vos escreve nunca, por nunca ser, vai para este antro de espécies raras sem estar devidamente munida de fones para se esquecer de onde está. Na verdade... ainda gostava de ver em que categoria me colocariam aqueles que comigo se cruzam diariamente. Ou talvez não.

sábado, 11 de junho de 2016

felicidade é

Depois de ter estado três meses fora do ginásio, voltei esta semana: três treinos e quase 40 km de bicicleta depois, a única coisa que me dói é o cu, graças ao filho da puta do selim.

domingo, 5 de junho de 2016

portuguesismos

Entre a recuperação do acidente e a recuperação da cirurgia e dos últimos acontecimentos, já lá vão mais de dois meses e meio desde que esta lontra obesa meteu o cu no ginásio. Dois meses e meio que poderiam, perfeitamente, ter sido aproveitados para coser duas das leggins que uso no ginásio - mas é óbvio que não aconteceu.

Se é amanhã que eu volto, então é hoje, a esta hora, já com sono e com a consciência pesada graças ao pouco estudo para o teste de amanhã, que decido coser as leggins descosidas.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

no que uma pessoa se torna

Tenho alma de lontra obesa desde que me lembro de mim, e uma tendência terrível para engordar; não fui presenteada com aquela lombriga que permite comer por oito obesos e continuar com a barriga colada às costas; a pessoa engole um bocadinho de ar sem querer e engorda logo três quilos.

Deixei o ginásio no início de fevereiro; não definitivamente mas porque contava ser operada muito em breve e porque me apercebi que, se não parasse, se não conversasse com pessoas, ia acabar por enlouquecer. Saltitar de casa para o estágio, do estágio para o ginásio e do ginásio para casa cansava-me o suficiente para que eu adormecesse cedo mas não mudava a forma como eu me sentia nas horas em que estava acordada e completamente entregue a mim mesma.

Foi a pior decisão que eu tomei; além de ter enfofinhado porque voltei para as aulas e continuei a comer, comecei a trepar paredes a meio do mês mas não quis dar o braço a torcer e pagar o mesmo, por duas semanas, que pago por um mês inteiro. Estacionei o cu e fiquei a contar os dias.

Isto para vos dizer que hoje me sinto uma prisioneira a fazer risquinhos na parede e a contar os dias até à liberdade - ainda é só depois de amanhã e eu já estou a morrer de vontade de arrumar a mala para voltar a levar o cu de lontra a ver o que é que é bom para a tosse. Oh deus.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

ser gaja é isto

Ao fim de uns tempos de lontra obesa no ginásio, a principal conclusão a que eu cheguei foi que a minha dignidade é ainda mais gorda e preguiçosa do que eu; não há maneira de eu a convencer a ir comigo.

Agora a minha pt lembrou-se de me fazer um plano que inclui três séries de 45 segundos de jumping jacks - faz-se na boa, que faz, mas a única coisa que me passa pela cabeça enquanto estou ali a saltar e a esbracejar como se não houvesse amanhã é the boobs on the bus go up and down, up and down, enquanto agradeço a um deus qualquer por ter as mamas pequenas, ou acabaria com o queixo negro. 

Contudo, não deixa de ser humilhante ver as pequenas ali a lutar pela vida com tanta gente à volta. Eu sofro, que sofro.