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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

a um 2016 que não deixa saudades

Comecei o ano de lágrimas nos olhos e esse devia ter sido o primeiro sinal de alerta para a merda que se seguia. Vi uma das minhas pessoas definhar diante da minha negação: não queria acreditar que fosse assim tão mau, que ela estivesse assim tão doente. Não queria pensar que a podia perder. Chorei por uma dessas pessoas que criaram raízes na minha vida; chorei-lhe a pouca sorte, chorei-lhe o futuro ainda mais incerto do que os nossos. Sofri, com ele, as dores de uma vida injusta, demasiado injusta. Sofri por ele me afastar da vida dele de forma cruel. Tive um acidente de carro. Acabei nas urgências, semi nua, coberta de lama e confusa. Ainda hoje não me lembro do que me aconteceu, mas recordo-me o suficiente do despiste para continuar a sentir medo. Fui operada pela quinta vez: fiquei sem vesícula e, no dia seguinte, soube que o meu problema era mais grave do que se pensou. Passei um mês a sofrer, em silêncio, com o medo que tinha do resultado da biópsia: foi só um susto. Safei-me desta. Dei uma fujidinha até frança - a minha ansiada fujidinha até frança foi o mais amarga que poderia ter imaginado: a data da partida coincidiu com o dia em que a morte me roubou uma das minhas pessoas a escassas horas do nosso reencontro. Passei horas a chorar, sentada ao lado do caixão, e ainda hoje me custa acreditar que tenha sido real. Chorei ainda mais nos meses que se seguiram: primeiro, sempre que estava sozinha. Depois, mesmo quando estava acompanhada. Chorei a perda, chorei o desamparo. Chorei o sentimento de abandono por parte daqueles a quem tentei dar sempre o melhor de mim - chorei os medos, os traumas de um acidente que me custou a ultrapassar. Chorei outros tantos sustos, menores, na minha família. E um dia resolvi que não podia continuar - dei-me conta de que já tinha perdido 10kg e que gostava um bocadinho mais de mim, Esforcei-me por continuar. Conheci pessoas - umas fizeram-me bem, outras fizeram-me mal. A minha vida foi mais estação de comboio e menos cais. Pouco porto seguro. Fui feliz nos intervalos da dor: abracei muito. Fui abraçada. Beijei mais e descobri que gosto mais de momentos pirosos do que poderia imaginar - chorei outra perda. Agradeci por ela, mais tarde. Achei que tinha perdido alguém de vez e passei meses atrás de uma resposta. Ganhei alguém capaz de passar horas a olhar para o mar ao meu lado, sem me julgar. Decidi que não me queria apaixonar tão cedo - e também percebi que essa não é uma decisão minha. Encontrei um par de braços onde gosto de me perder durante horas; tentei fugir-lhe porque me assustei com essa ideia, porque é isso que eu sou. Mas não fugi. Descobri que já perdi 20kg e estou realmente feliz com essa mudança na minha vida - ainda não estou satisfeita, mas estou mais feliz. Acabei, finalmente, o curso e estou um passo mais perto de poder entrar em enfermagem. No último dia do ano, chegou a resposta que procurei durante meses. Regressou a voz, do outro lado da linha, que eu julguei que não voltaria a ouvir - e passou-me a raiva. Senti as lágrimas nos olhos outra vez, mas não era de tristeza. Nem de alegria. Era mais como um regresso a casa melancólico. Agradeci por isso também. À meia noite, outra voz que me transmite tanta calma quanto o abraço onde gosto de estar: trouxe essa felicidade para 2017. Esse conforto. Essa calma. Isso e o meu vestido - o tal amarelo que comprei num dos dias mais tristes da minha vida. O meu vestido amarelo sol para os dias cinzentos.

2017 vai ser bom.
Eu sei que vai.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

a apontar

Cheiras tão bem, só o teu perfume é logo meio namoro!,
(penso que a outra metade em falta seja a parte da beleza, mas é só uma desconfiança)
 
 
 
 

domingo, 6 de novembro de 2016

sobre o que se perde

[perder alguém é como perder um pedaço de nós. como se nos dissessem que, daí em diante, há algo que sempre foi nosso mas com o qual nunca mais poderemos contar. é como se as nossas memórias deixassem de fazer sentido por não as conseguirmos enquadrar num tempo presente, por causarem dor todos os dias.
a morte é um lugar vazio na mesa e uma casa sem donos: é rasgar cinco folhas no calendário com a fúria de quem quer rasgar o tempo à procura de dias mais felizes, e continuar tudo igual, para sempre. é ver janelas fechadas, portas fechadas, escuro, silêncio, vazio. são as saudades de um par de olhos que nunca mais fitarão os nossos - é uma fuga até ao cemitério e uma conversa com uma lápide fria onde, algures, uns palmos mais abaixo, jazem os restos de uma das minhas pessoas preferidas: se me viu, lá de cima, riu-se com certeza. conhecendo-me desde sempre, nunca me poderia ter imaginado a fazer tal coisa: eu, a descrente, a desligada, a indiferente. fi-lo: sinto a falta de me sentar com ela à mesa, durante horas, em conversas intermináveis sobre nada de especial, sobre tudo, regadas com café e com amor.

fi-lo porque às vezes ainda me esqueço de que ela não vai voltar, e outras vezes não acredito.
fi-lo porque as saudades são tantas que já não cabem em mim - às vezes, transbordam.]

sexta-feira, 15 de julho de 2016

pequenas vitórias

O dia em que o ódio de estimação que sentias pelas balanças é substituído por orgulho: estás a mudar, caramba. Decidiste, finalmente, fazer alguma coisa por ti, perdeste 12 quilos em dois meses e continuas determinada a parar só quando fores feliz.

O peso deixa de ser motivo de vergonha e passa a ser uma vitória. E é.
Hoje ganhei coragem e comprei uma balança.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

apontamentos mais felizes

Preciso de não me esquecer das pessoas cuja presença me abraça o coração: uma amizade desde os tempos de berço, resistente aos mais de 2000 km que nos separam na maior parte do tempo. Resistente à erosão do tempo, às pessoas melhores, aos mais presentes. Uma amizade que volta e é sempre igual ao que era na altura em que éramos só duas meninas travessas que fugiam de casa para apanhar amoras.

há uma primeira vez para tudo

Como a primeira vez que sais à noite e voltas para casa, já o sol vai alto, absolutamente sóbria. 

Não, não te tornaste abstémia: foi só a tua vez de conduzir e, apesar de tudo, és uma gaja responsável e com muito amor à carta e ao carro.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

habemus progresso

Eu nunca achei piada àquelas gajas que parecem treinar só de soutien, é verdade. Mas, por acaso, ofereceram-me um crop top para treinar - não, não fiquem a pensar em patrocínios e cenas, porque foi mesmo uma oferta da minha dona mommy.

The point is: eu achei sinceramente que nunca o iria usar porque as lontras obesas não são feitas para crop tops. Ou os crop tops para lontras obesas. No entanto, dei o benefício da dúvida.

Hoje foi a primeira vez que tive coragem de treinar com um crop top: possivelmente, não aconteceria num dos meus treinos solitários no ginásio mas, uma vez que hoje fiz um treino especial com duas pessoas com quem me sinto confortável, fui capaz de o usar ao ar livre.

Na falta de mais onde me agarrar, resta-me agradecer a um deus qualquer por me ter estourado com a vesícula: a dieta forçada teve as suas vantagens e estou certa de que, há dois meses atrás, nem o espelho eu deixaria que me visse naquela figura. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

silly me

Na fugidinha do mês passado, trouxe de frança um vestido amarelo. Um vestido amarelo-sol, comprado na minha viagem mais triste, mais sombria, mais dolorosa. Num dos períodos mais difícieis que passei até hoje: e, ainda assim, no meio de todo o cinzento da minha vida, é um vestido amarelo. Amarelo-sol.

Foi por isso que o escolhi agora: os meus dias zero têm falhado redondamente, os recomeços têm de começar de dentro para fora, e não tem sido fácil. E lembrei-me do vestido como um hino à esperança. Amarelo-sol, para esses dias em que o sol não brilha, para esses dias em que eu me esqueço de que o sol vai sempre voltar a brilhar.