sexta-feira, 9 de junho de 2017

pára tudo!

Não foi por acaso - há uns meses que andava a choramingar que queria voltar para o ginásio mas, na roda viva em que ando, não tenho tempo. E também há uns meses que me diziam ah, mas podes sempre fazer exercício em casa!, e podia, que podia, mas, respondia eu, não é bem a mesma coisa.

Talvez tenha ensandecido, talvez tenha esgotado o lote de desculpas: incentivada pelo moço, que por acaso é um moço das corridas, fiz-me à estrada e comecei a correr. Deixem-me que vos diga que foi meio louco inicialmente - eu, a eterna lontra obesa, a gorda que era sempre a última a ser escolhida, a primeira a ser apanhada no futebol humano, aquela que não dava duas voltas ao campo seguidas sem quase cuspir um pulmão e desistir da vida, estava a correr. Por gosto. Wow.

Entenda-se que, nos tempos de ginásio, a corrida só me servia de aquecimento e eu levava a coisa pouco a sério - em boa verdade, andava mais do que corria, porque simplesmente não me apetecia e eu dava-me ao luxo de me arrastar para passar o tempo. Agora é diferente: desafio-me todos os dias. E já (me) falhei algumas vezes, mas também já me senti estupidamente orgulhosa de mim mesma - para quem não conseguia correr dois minutos seguidos sem caminhar durante os dez minutos seguintes para se recompor, vinte minutos sem parar já é uma maratona. 

Há quem diga que agora todos querem correr porque é moda - tanto me faz. Desde que vi sapatilhas com pompons que tenho a certeza de que há modas bem piores; eu demorei, mas acabei por perceber porque correm eles. Acabei por descobrir que há um prazer especial na superação dos próprios limites, nas pequenas vitórias, nessa quase loucura que é correr-se para lado nenhum quando se passa os dias a correr para todo o lado. 

E - como ele diz - agora é sempre a melhorar. E não desistir, nunca.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

deixem-me que vos diga

Uma das perguntas que me fazem mais vezes, quando me veem a trabalhar no hospital, é se não quis estudar mais. Conto-lhes que quis ir trabalhar antes, que quero poder financiar o meu futuro - e esta, apesar de ser a verdade, nunca deixou de ser o meu calcanhar de aquiles.

Fui procurar emprego com um sonho empoeirado guardado numa caixa trancada a sete chaves, com ânsias de me realizar profissionalmente e de me esquecer de que sou pessoa fora do trabalho - percebo-o agora. Cresci a querer ocupar-me, a tentar não desejar uma vida normal, um amor, uma família. Mascarei a solidão de felicidade e aprendi a querê-la acima de qualquer outra coisa. E, um dia, a minha vida mudou - exatamente no meu primeiro dia de trabalho.

Talvez isto não faça sentido - ainda não escolhi o que quero mas, com algum traquejo e uns meses de caos, percebi exatamente o que não quero - aos 21 anos sinto-me incapaz, pela primeira vez, de responder à pergunta o que queres ser quando fores grande? Aos 21 anos, vi as minhas ideologias desmoronarem-se como um castelo de cartas e dei por mim a sonhar com uma vida diferente daquela que imaginei desde que me lembro de mim.

Sinto-me perdida, na maior parte do tempo; há uns dias, dei por mim cansada, desmotivada, a correr em direção ao mar. Só parei quando senti a água a enregelar-me as pontas dos dedos e a entorpecer-me os sentidos; os meus pés eram os únicos desenhados na areia molhada e o meu rasto desesperado em direção ao único sítio que me acalma, fez-me lembrar de que, onde quer que eu vá, hei de ter sempre para onde voltar.

As ondas não me trouxeram respostas, mas foram o analgésico perfeito para as dores da alma - estou grata pelo que tenho agora. Um dia destes descubro o caminho que quero explorar a seguir - e enquanto houver mar, há de correr tudo bem.