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domingo, 27 de dezembro de 2020

pelo natal

fomos (quase) sempre cinco no natal - e esse é o principal motivo para lhe ter perdido o gosto há tantos anos. sobravam demasiados lugares vagos à mesa, restava demasiado espaço para a saudade se sentar connosco e nos fazer relembrar que a distância só se quebra quando há vontade. este ano, foi o meu lugar que ficou vazio.

em vinte e cinco anos, este foi o primeiro em que puxei a cadeira noutra mesa, noutra casa, noutra vida, numa família que, não sendo aquela onde nasci, é aquela a que escolhi pertencer um bocadinho também. e doeu, não vou negar: na outra casa, de cinco passaram a quatro quando eu preferia que tivéssemos sido seis, eu e as minhas cinco pessoas favoritas neste mundo - mas este dezembro não é como os outros e está mau para a dança das cadeiras que não pertençam a uma só casa.

estive bem também. comi bacalhau à brás, bolo de bolacha e permiti-me a mergulhar nos sonhos molhados em calda de açúcar. faltou-me apenas o cheiro a café no ar à meia noite: foi sempre assim, nos outros vinte e quatro natais que vivi, menos naqueles em que ainda era demasiado pequena para os trazer na memória. faltou-me o cheiro a café mas não ousei pedir: sei que apareceria na mesa tão rápido quanto possível, mas isso seria trazer uma tradição de família para outra família e, de alguma forma, soou-me a traição. não é substituível. e não precisa de ser.

são sítios diferentes na vida, e sê-lo-ão para sempre - nem melhores, nem piores, mas diferentes. e se a maior parte do meu coração pertencerá sempre àquela casa onde éramos cinco em todos os natais e em todos os fins de semana, há outra parte que já se entregou à outra casa onde também eram cinco antes de eu chegar. e estou bem também.

e estou bem, mas o covid que se oriente porque para o ano eu quero a dança das cadeiras com as minhas pessoas, em todas as casas possíveis. quero até os abraços de que não gosto, a valer por dois para me compensar do buraco negro que me ficou no peito este ano.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Meu amor,

antes de ti, perguntei-me muitas vezes qual seria o passo a seguir às borboletas, e o que se seguiria quando o coração aprendesse a desacelerar e não estivesse sempre a tentar escapar-me do peito por um mero encontro acidental. Na altura, estava convencida de que vivia permanentemente apaixonada, numa fase tão negra da minha vida que um par de olhos fixos nos meus já se assemelhava quanto baste à luz ao fundo do túnel para onde eu queria correr para me salvar. Mesmo que fosse sem querer. Mesmo que, quem me olhasse, nem fosse realmente capaz de me ver: este, era o ápice da atenção de que me julgava merecedora. Nunca esperei mais do que isso, e portanto também não acreditava na vida depois da paixão. Achei que tudo perderia a piada no dia em que soubéssemos o outro de cor de tal forma que já se dispensassem as palavras para saber exatamente o que não foi dito.

Depois, tu. 
Repara como separo sempre a minha vida num antes e depois de ti: é como se tivesse renascido, como se o mundo se tivesse transformado e já nada fosse como eu tinha imaginado antes. Mudou para melhor. Transformou-se em tudo aquilo que não julguei existir.

Ensinaste-me o amor nu, aquela versão que já não disfarça, já não finge não querer, e o prazer louco de poder ser exatamente quem eu sou, sem quaisquer filtros, sem quaisquer barreiras, em todos os dias da semana. Em todas as horas do dia.

Fizeste-me perceber que também se ama pela manhã, mesmo com hálito de cão e cabelo desgrenhado - por estes dias, desgrenhado já é o estado normal - e que se ama ainda mais de pijama, ou com as calças de fato treino mais velhas, do que quando nos vestíamos para nos encontramos por aí. Há uma beleza selvagem na partilha por inteiro, na queda dos tabus, na abolição da vergonha. E, afinal, o amor não morre quando a rotina se instala e é necessário falar das contas para pagar, ou do aumento dos combustíveis, ou de absolutamente nada. 

Achei que dois anos e meio de relação à distância me teriam deixado imune às saudades nas tuas ausências temporárias, mas enganei-me: de cada vez que te vais embora, mesmo que seja só por uns dias, posso jurar que não me dói menos do que em cada domingo que fiquei a ver-te ir, à porta de casa, de lágrimas nos olhos e saudades já reinstaladas com sucesso. Talvez chegue a doer um bocadinho mais, porque já não estou habituada a adormecer sem te ter ao meu lado, ou a não te ter ao lado, na varanda, enquanto reparamos em coisas tão banais quanto a roupa nos estendais alheios ou os carros permanentemente estacionados nos mesmos lugares. Esta casa parece vazia nos dias em que não estás.

Habituei-me muito bem a partilhar a minha vida contigo, mesmo que não seja todos os dias fácil. Mesmo que não sejamos capazes de nos entender à primeira em todos os momentos, mesmo que tenhamos de encerrar batalhas num abraço. 

(Mais de) três anos depois, às vezes ainda não acredito na sorte que tive: olho para ti e derreto-me no teu sorriso, quase como se fosses um sonho inconcretizável, demasiado bom para ser real. Mesmo depois de todo este tempo, mesmo depois de não haver um milímetro de nós por revelar ao outro, há dias em que me perco no teu abraço como se ainda agora estivéssemos a começar e eu ainda não te soubesse de cor. Como se cada abraço não passasse de um passinho pequenino rumo a um amanhã que logo se vê: e é nesses momentos que tenho a certeza de que ainda me apaixono por ti quase todos os dias.

terça-feira, 9 de abril de 2019

about love

[no sábado, julguei que te perderia de vez - de repente, sentada na beira da cama, senti-me vazia. completamente vazia, como se um bocadinho de mim tivesse acabado de morrer para sempre. como se os dias nunca mais pudessem fazer sentido se não tivesse o teu abraço à minha espera. como se todos os sonhos que me permitia a construir depois de teres entrado na minha vida, estivessem definitivamente enterrados, no mesmo sítio onde os deixei durante os 21 anos em que não soube que me era permitido sonhar também. devo-te tanto do que sou, daquilo em que me transformei, que não sei imaginar esta caminhada sem a tua mão a ajudar-me nas subidas mais íngremes ou nos terrenos mais acidentados, mesmo quando não preciso, mesmo quando só me queres relembrar de que estás ali e não me deixas cair. e, naquele momento, senti que não era capaz de seguir a viagem sem ti ao meu lado.
encontrar-te, foi o mais próximo que estive de ganhar a lotaria. já o escrevi tantas vezes que se começa a tornar banal, mas ainda não deixou de me fazer sentido: não te trocava por nenhum (outro) prémio milionário. preferia viver a vida inteira a comprar roupa na feira e a comer massa com atum de marca branca, a ser rica e não te ter comigo. é esta a verdade. é a este ponto que uma pessoa chega. e perder-te seria, como só poderia ser, uma experiência de semi-morte. especialmente depois de nos ter trapaceado já tantas vezes e não ter percebido o essencial.
quero não me voltar a esquecer de que não és perfeito, de que não adoro tudo em ti, e que está tudo bem com isso. que, volta e meia, não vais corresponder às minhas expectativas, mas a culpa não será tua: não há um guião, e eu não posso esperar que saibas o que quero que digas ou faças em cada momento, porque eu decidi que assim seria. mais ainda quando sei que, mesmo que o houvesse, arranjarias sempre uma forma de lhe passar por cima e de fazer melhor ainda do que tinha planeado. arranjas sempre uma forma de me surpreender, e eu arranjo sempre uma forma de me esquecer da sorte que tenho.
és peça rara. não o posso dizer demasiadas vezes, porque às vezes sinto que - quase sempre - te meto num pedestal e faço de mim mesma um trapilho. é esta falta de filtros, que nunca me deixa esconder o que quero dizer, quer isso implique termos a discussão mais ridícula de sempre acerca de um canal de televisão, ou declarar-me a ti, uma e outra vez, como se ainda agora tivéssemos começado esta viagem e ainda nenhum de nós estivesse certo do que o outro sentia. não sei ficar calada. não sei esconder. se te acho especial, quero que o sintas em todos os momentos - mesmo quando não mereces. e sim, meu amor, às vezes não mereces - mas também é normal. não julgues que és mais fácil de entender ou de lidar do que eu - às vezes, é preciso manejar-te com as pontas dos dedos, com uma calma, uma precisão e uma paciência que eu não tenho. depois lembro-me de que tens de fazer o mesmo comigo na maior parte do tempo, mesmo quando escolho fingir que não sou um quebra cabeças. antes isso que um quebra corações, não?
eu e tu somos um par do caraças - não, não seria por sermos demasiado parecidos ou por nunca discordarmos que daríamos melhores companheiros de viagem. estes últimos dois anos foram um carrocel demoníaco, e eu não poderia ter pedido alguém melhor para andar nele comigo. obrigada por tudo. por todas as horas de espera, por todos os abraços apertados, por todos os beijos na testa. por todas as vezes em que me deste esperança só por olhar para mim, e que me fizeste acreditar que tudo era possível enquanto me seguravas a mão. 
no sábado, julguei que te perderia de vez e senti que estava a viver aquele velho clichê de perder a minha metade. foi ao que soube. foi o que pareceu. não estava a mentir quando, há umas semanas, te disse que, se pudesse, não hesitaria em trocar de lugar contigo e sentir as tuas dores, só para te ver feliz. e essa foi a primeira vez na minha vida em que eu tive a certeza de que tinha encontrado a minha própria definição de amor. e foi surpreendentemente bom, apesar de ligeiramente assustador, perceber que era possível criar uma conexão tão forte com outro ser humano. é o auge da minha vulnerabilidade, o pico da confiança - ao entregar-me assim, entreguei tudo o que tinha.
o que percebi, finalmente, é que nunca vai correr tudo bem, que nunca vou estar completamente satisfeita com todas as atitudes. que, muito provavelmente, eu vou continuar a revirar os olhos de cada vez que levar com programas de comentadores de futebol, mesmo que eu não veja televisão no dia a dia, e me vá limitar a fazer zapping porque, por algum motivo, qualquer outro programa merdoso me parecerá preferível aos relatos de futebol. e talvez nunca sejamos capazes de acertar os relógios a cem por cento, e estejamos condenados a viver por entre atrasos e discórdias padronizadas pelos horários do resto do mundo. e não faz mal - entendi que estava, inconscientemente, a cometer o mesmo erro do resto do mundo, a querer um amor perfeito sem espaço para que um espinho me pique o dedo e me faça gritar foda-se. tu não és perfeito, e eu também não. talvez nem vá conseguir gostar de ti todos os dias, por mais que te ame - e está tudo bem com isso. não vale a pena zangar-me sempre que não fizeres o que espero, porque sei que fazes sempre tudo para me fazer feliz; prometo-te o mesmo prato, meu amor. tudo para te fazer feliz, mas com um bocadinho de sal.]

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

deux

[ia falar-de de como a minha vida era antes. do quão desencantada eu era pelo mundo, e por mim mesma. de todos os dias tristes em que achei que não valia a pena, que nunca preencheria as medidas, que nunca seria suficiente - mas, de repente, dei-me conta de que essas memórias, se vão perdendo e já não é tão simples assim construir esses paralelismos. de alguma forma, renasci quando te conheci. e a minha vida começou a contar aos 21 porque, finalmente, comecei a viver.
obrigada. e desculpa: não sou sempre a melhor namorada, não sou sempre a mais paciente, e talvez não te diga as vezes suficientes a reviravolta que deste na minha vida, a forma como me forçaste a olhar para mim de outra forma. a sonhar tão alto quanto todas as outras pessoas, porque podia, porque o mundo não me estava vetado. e porque eu não sou menos do que qualquer outro ser humano. obrigada por me teres obrigado a ver que merecia mais do que as migalhas que me iam satisfazendo a carência de afeto e de atenção.
volta e meia, pergunto o que fiz para te merecer. poderá soar a modéstia exagerada ou a tentativa de redenção por todas as vezes que pus o pé ao lado, mas não é: dois anos depois, eu ainda não descobri como é que te ganhei. eu, que acho sempre que não tenho sorte, ainda sinto que ganhei a lotaria de todas as vezes que olho para ti. mesmo quando estou zangada contigo pela maior patetice do mundo. zangarmo-nos também sabe bem - aprendemos sempre qualquer coisa nova um sobre o outro. e eu diria que é de estranhar duas pessoas serem tão idênticas que nunca entram em discórdia: gosto da nossa resmunguíce, também. do bater o pé, do querer levar a sua avante. de não fazer de conta só para evitar confusões. e, depois, gosto de me sentar contigo para encontrar o meio termo. ninguém ganha, ninguém perde. ou talvez eu ganhe mais vezes do que tu porque fazes batota para me ver feliz. e eu amo-te. mesmo quando perco.
há quem duvide da existência de amores perfeitos. eu só acredito porque, há coisa de duas semanas, me ofereceste uma saqueta de sementes - e eu relembrei-me do porquê de gostar tanto de ti: és diferente de todas as pessoas que eu conheci. e, se há momentos em que me apetece apertar-te o pescoço por isso mesmo, não há um único momento em que eu não tenha a certeza de que, se me fosse dado a escolher por quem me apaixonaria, mesmo com todos os dramas de um namoro à distância, mesmo depois de tudo o que passámos até chegar aqui, não hesitaria em escolher-te a ti. sempre. acima de tudo. acima de qualquer coisa.
estou contente por poder continuar a dizê-lo mesmo depois de o namoro ter perdido aquele cheirinho a novo e os defeitos terem ficado a descoberto: há coisas que não gosto em ti, e outras tantas em que eu acho que nunca vamos acertar o passo. literalmente: esses teus 20cm de perna a mais fazem-te andar, normalmente, a um ritmo que me obriga a correr para te acompanhar; nem eu o faço, nem tu abrandas e preferes parar, para me deixar chegar a ti, ao meu ritmo. e recomeçamos. mas chegamos sempre, sempre, ao mesmo tempo - acho que o amor é um bocado isso também.
obrigada por estes vinte e quatro dias vinte e oito das nossas vidas. atrevo-me a dizer que és a pessoa que melhor me conhece - talvez mais ainda do que eu própria. obrigada por não teres fugido.


mas sim, meu amor, eu meto sempre mais sal na massa quando tu não estás a ver.]

terça-feira, 28 de agosto de 2018

1.5

[nunca comemorámos o somar dos meses à nossa conta. não te escrevi sequer para comemorar o nosso primeiro aniversário: em boa verdade, também não sei o porquê mas nunca o julguei necessário, nunca achei relevante, porque o que se soma, mais do que os dias, mais do que os meses, mais do que os anos, é o amor, a cumplicidade, e o desapego da palavra, cada vez menos essencial para que saibamos o que o outro quer dizer. 
há muita estrada para andar, mas às vezes olho para nós e parece que estamos juntos há uma vida inteira, que já tivemos tempo para aprendermos os cantos à casa e a melhor forma de nos encaixarmos um no outro. depois não. depois não te conheço a cem por cento, sei tudo e não sei de nada e, de repente, descobrimos uma paixão nova, uma paixão comum, e volta o fascínio daqueles primeiros tempos em que tudo era novo. caramba, como eu gosto de ti! sei que não sei tudo, e sei que tenho de ter uma paciência sábia o suficiente para aceitar que só (te) vou descobrindo com o passar dos anos, mas às vezes fico em pulgas para saber o que se segue. para saber mais, para te saber ainda melhor. para aprender tudo como se estivesse a estudar uma criatura fascinante. e não estou? 
és diferente - eu sei, é o que todos dizem, mas és mesmo. estava ainda bem lúcida quando o descobri, e são essas diferenças que me fazem gostar de ti, da pessoa que és. e até da pessoa em quem me transformaste, talvez: fizeste-me crescer. e, de uma forma geral, fizeste-me ser melhor também.
dizes que não vergo por nada deste mundo, mas eu ainda não fiz mais nada do que dar o braço a torcer desde que te conheço. ok, talvez não sempre - calma, que às vezes não se pode - mas muito mais vezes do que me parecia possível. 
gosto de ti. gosto de ti porque tens tanto de adulto responsável quanto de criança inocente, e fazes-me cair de amores por ti outra vez sempre que te ouço rir - talvez por não seres de riso fácil como eu, uma vendida às piadas banais, talvez porque és genuíno.
tu vais além de tudo o que poderia ter sonhado para mim porque, em momento algum, ousei sonhar tão alto. 
se há um ano e meio atrás me tivesses dito que hoje iríamos estar aqui, diria que era impossível. tive medo muitas vezes de que acabássemos por desistir por ser tão difícil, mas nunca teria sido capaz de te deixar ir. teria sido o maior erro da minha vida. 
sejamos sinceros: termo-nos apaixonado um pelo outro não deu jeito nenhum, não fica em conta, não é fácil, e andamos com algumas horas de sono em dívida: mas, meu amor, valeu cada segundo - e tem de ser amor, mesmo. 
definitivamente, só pode ser amor.]

quinta-feira, 14 de junho de 2018

randomness.

Por mais estranho que pareça, quase todos os dias abro o editor de texto do blog; ensaio posts atrás de posts que nunca me satisfazem, e dou-me por vencida por falta de tempo. Deixo o cansaço levar a melhor, e chateia-me que me contente com isso. Que viva mais feliz por estar cansada, por me faltarem minutos nos dias, por nunca conseguir chegar a todo o lado. 

Não me lembro de algum dia ter estado tanto tempo sem escrever, e chateia-me a facilidade com que o fiz, e que as saudades que tenho de escrever palavras bonitas não sejam suficientemente fortes para vencer a inércia, para calar todos os escrevo amanhã que me têm passado pela mente. Todos os dias.

Mais de um mês, e já foi tanto: acalmou-se uma tempestade, seguiu-se um funeral. Logo depois uma entrevista de trabalho, e um sim. O universo é irónico.

Obriguei-me a uma rotina rígida desde o primeiro dia de trabalho. Acordo sempre uma hora mais cedo, vou sempre trabalhar com aquela felicidade genuína do pós-treino. Voltei a correr. Devagarinho, mas voltei - não sei porque ainda cometo a burrice de parar, mas desconfio que é pela alegria de voltar, por aquela sensação boa de redescobrir que tenho gostos mesmo esquisitos e, afinal, correr sabe mesmo bem.

Ainda que sejam sete da manhã e eu pudesse estar a dormir. Tranquilo.

Mais de um mês e uma mudança drástica em mim. Planos novos, planos melhorados, velhos sonhos a tomar forma - envolvidos numa certa nostalgia, naquela nostalgia que precede o fim do mundo como o conhecemos. O prenúncio de um recomeço. O medo, também, aquele medo bom de quem sabe que nem sabe onde se está a meter, mas que está estupidamente feliz com a partida à descoberta.

Está tudo igual e absolutamente nada é como antes. Conheci pessoas também - daquelas pessoas boas que já vêm com cheirinho a casa, e que nos fazem sentir que o que se segue só pode ser bom. Conheci outros lados do meu rapaz que me fizeram ter a certeza de que escolhi bem - sinto que vivo ansiosa pelos próximos capítulos da minha própria vida. Deve ser isto que as pessoas sentem com as séries - mas, acreditem, acho que é melhor quando se trata das nossas vidas.

Passou-se mais de um mês. Na minha vida, talvez tenham sido três anos inteirinhos - mas estou calma, estou tranquila, estou bem. E talvez um dia destes vos fale das coisas boas, e escreva coisas bonitas sobre os meus dias, mas hoje não. 

Amanhã. 
Amanhã eu escrevo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

it's kind of a love story

Quando o conheci, tinha o coração de férias - e, talvez por isso mesmo, por, pela primeira vez na minha vida, não ter essa sede de me apaixonar, de sentir, de fantasiar com futuros risonhos que nunca chegaram a sair do sonho, aconteceu. Pela primeira vez, o meu coração estúpido soube apaixonar-se como deve ser: devagarinho, a sorver os pormenores antes de dar o sinal de alerta, a render-se antes de bater descompassado. E, por tudo isto também, eu não me dei conta de que estava a acontecer.

Há precisamente um ano atrás, não nos falávamos. 
Zangámo-nos uma semana depois do (tão esperado) primeiro beijo; não fomos capazes de nos entender quando a minha insegurança apareceu para dizer olá e a personalidade peculiar dele decidiu que não estava para socializar com essa puta que sempre me tramou a vida. As conversas longas transformaram-se em discussões tão ou mais longas ainda e, mais tarde, em silêncios pesados. Não havia nada mais a dizer; eu não sabia confiar e ele sabia que não tinha feito nada que alimentasse a minha desconfiança.

Fui incapaz de desistir. 
As lembranças iam surgindo a conta-gotas e as palavras encadeavam-se por forma a decifrar aquilo que eu nunca havia sido capaz de ver. Aprendi mais sobre ele nessa altura do que me tinha permitido a perceber até então; as mentes inseguras têm este condão de só verem o que querem ver.  Demorámo-nos em lágrimas, em lamentos, em nuncas mais, em alternativas que faziam doer. E, depois, no primeiro vinte oito a que podemos chamar nosso, encerrámos as discussões num abraço, secámos as lágrimas e refizémos os laços que se haviam desfeito, com dois nós cegos desta vez.

Não somos fáceis de concretizar, mas tornámo-nos muito bons a fintar as probabilidades e a sermos sem se que saiba como é possível ser-se assim. E somos, já há muito tempo.

Gosto dele, e gosto de nós - somo-lo sem limites e sem medos, com uma confiança que aprendi a construir, graças a ele, e com a alma mais posta a nu do que os próprios corpos. Somos amigos, em primeiro lugar - daqueles escassos a quem podemos dizer tudo, sem vergonhas ou moralismos, e eu acho que não há maior liberdade do que esta. Fazemos um bom par porque sabemos que não sabemos tudo e que vale sempre a pena dedicar um bocadinho a aprender mais. Um sobre o outro, principalmente.

Nem todos os dias são bons - às vezes discutimos e é quase sempre por coisas que não estão, ainda, ao nosso alcance mudar; uma ou outra vez, achei que não iríamos conseguir continuar a suportar as dificuldades, os obstáculos, as diferenças, até cairmos nos braços um do outro outra vez e limarmos as arestas, acertarmos o passo, encontrarmos o equilíbrio. E conseguimos - tenho para mim que há pouco que não se consiga quando o sentimento é suficiente, e o nosso é um muito bom, assim escrito em letras grandes e gordas.

Estreei-me como ele no amor e, assim de repente, tenho a dizer que é uma corrida com barreiras - ainda não falhámos nenhuma.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

ele

É bonito. 
Não o tipo exageradamente bonito que é escolhido para fazer anúncios de shampõs e carros desportivos, mas bonito numa simplicidade sóbria que me embebece todos os dias. Está tão longe da perfeição quanto qualquer outro comum mortal, mas foi  o escolhido para protagonizar a minha vida a par comigo - e, volta e meia, ainda me questiono sobre como foi um gajo tão bonito olhar para mim.

É compreensivo. Tenta sempre entender os outros sem os julgar e nunca é mau - é, na realidade, muito melhor pessoa do que eu. Esforça-se por ver sempre o melhor lado de cada um, ainda que seja difícil.

Provavelmente, uma das pessoas mais desligadas dos bens materiais que eu conheço - prefere dar, sem receber em troca e, apesar de ser tão sovina quanto eu (quando deus faz uma panela...), está sempre atento, sempre a tentar perceber se preciso de alguma coisa, sempre pronto para me ajudar. E, apesar de ter trazido um orgulho filho da puta comigo do útero e me custar imenso deixar que ele me dê o que for, não posso senão admirá-lo. E gostar dele, cada vez mais.

Temos uma forma muito própria de sermos nós; não caprichamos no mel nem somos dados às celebrações banais. Somamos dias à história e histórias aos dias um do outro, todos os dias especiais, todos os dias com o mesmo sentido em nós, deixando que os meses se somem tranquilamente e em silêncio. Já lá vão uns quantos, mas nunca lhes damos ênfase, nunca escolhemos uma data oficial. Estranhos, nós. Estranhos felizes.

Somos diferentes, mas nunca tentámos deixar de o ser - às vezes concordamos um com o outro, outras vezes não. Discutimos também, volta e meia, quase sempre por assuntos triviais, quase sempre por querermos ser donos da razão até percebermos que não há uma razão universal e que tudo é relativo e variável. Nunca fomos demasiado parecidos, nunca quisemos sê-lo - caminhamos com as nossas diferenças, aprendemos a aceitá-las e encerramo-nos em abraços onde não resta espaço para dúvidas.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

o desapego, o tão falado desapego.

Se há coisa que eu não consigo compreender é a forma como o desapego se tornou numa moda, símbolo de superioridade e independência, como se fosse, de facto, uma coisa boa. Não me refiro, obviamente, ao desapego material, mas sim ao desapego das pessoas pelas pessoas.

Há já anos que lhe fui apresentada, sem cerimónias, num dia em que a minha vida foi virada do avesso e o mundo passou a girar ao contrário; nunca temos realmente a noção do quanto os nossos gestos podem marcar alguém, e estou mais ou menos certa de que, quem causou esta mudança em mim, nunca julgou estar a deixar-me marcas tão profundas e difíceis de sarar.

Nos últimos sete anos, poucas, pouquíssimas, foram as pessoas em quem consegui confiar, e menos ainda aquelas que conseguiram uma posição na minha vida que fizesse realmente a diferença a ponto de não me imaginar sem elas. Assim, de repente, só me lembro de duas pessoas - com uma delas já não tenho qualquer tipo de relação, e a outra é o monsieur. 

Isto não é motivo de orgulho para mim, é meio triste e medianamente sufocante - não é por não querer, é mesmo por não conseguir. Se sinto falta de uma amizade forte, além do meu rapaz que, antes de namorado, é o meu melhor amigo? Claro que sim. Mas tenho constatado, com alguma pena, que o afastamento de algumas pessoas que, até há bem pouco tempo, faziam parte do meu dia a dia, não me pesa. Não me custa. Não me causa qualquer mossa nem me faz querer tentar recuperar a ténue amizade perdida. Pura e simplesmente, não quero saber - e não sou pessoa de fingir. Ou bem que gosto, ou não há mesmo nada a fazer.

Contudo, não vejo algo de bom nisto e continuo a não conseguir entender porque raio alguém poderia almejar tornar-se desapegado. Tenham cuidado com o que desejam - este lado do mundo não é tão fixe quanto possam pensar.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

um dos melhores filmes de terror de sempre

Se eu gosto de ir às compras? Odeio.
Aquele veste-despe, estas calças comprimem-me o nalguedo, estas deixam-me as mamas ao pé da boca, estas não passam do tornozelo, esta camisola não me chega a tapar o soutien e esta não deixa respirar, enerva-me. Pior ainda quando uma pessoa tem de sair do provador, com trezentas peças de roupa penduradas nos bracitos, e faz aquele walk of shame até à funcionária (ou, pior, funcionário), entrega tudo e diz é para deixar, não cabe.

*introduzir música triste e muitas lágrimas*

Depois há a outra parte, que é a parte gira, e consiste, basicamente, em deambular pelos corredores da loja, olhar para todo o lado à procura de algo que seja exatamente aquilo que nós queremos. Simples, não é?

Não. Especialmente se estiverem acompanhadas por um macho. Eles são demasiado objetivos e acreditam piamente que temos a capacidade de os imitar nessa façanha. Volta e meia olho para ele e vejo-o a respirar fundo, antes de dizer: patrícia, pára e pensa: o que é que tu queres?, e uma pessoa fica ali, meio desorientada, e sem saber como lhe explicar que isto não funciona assim connosco. Não vai dar.

A nossa arte é mais a de correr a loja toda à procura de algo que nos agrade, dizer, aproximadamente, cinco mil vezes olha que giro... se fosse rica levava, mas não ou gastar dinheiro com isto porque nem preciso assim tanto desta merda, e sair daquele antro do pecado, sete horas depois, sem ter comprado nada e a resmungar que não há nada de jeito.

E fazê-los perceber isto? Oh oh.

[no fundo, no que toca a querer fugir da loja e especialmente quando está cheia de gente, sou igual ou pior do que ele, e não, nem sou moça de demorar assim taaaanto numa loja, mas shhhh]

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

my manic and i

Foi há um ano: encontrei-te na estação e levei-te ao meu sítio favorito. Avisei-te, com antecedência, de que não sou pessoa de barzinhos fancy ou esplanadas dignas de fotografias. Sou mais uma filha do mar, com toda a reverência e respeito que lhe guardo, e nunca me poderia apresentar de melhor forma do que num passeio pela praia, no frio de dezembro. Calhou bem: gostas do frio e partilhas do meu amor pelo mar.

Andámos pelo meio das pegadas de gaivota, falámos de tudo e calámo-nos. Sentimos as gotas de chuva a engrossarem e a enregelarem-nos até aos ossos. Pediste autorização para me abraçar, com o intuito de me aquecer, e nunca mais me largaste.

Foi há um ano que senti os teus lábios pousados na minha testa, o teu corpo contra o meu, a minha vida a par com a tua, pela primeira vez. Por esses dias já me obrigava a assumir, ainda que contrariada, que me tinhas furado os planos e feito tropeçar de amores por ti. Logo quando eu nem me queria apaixonar.

Um ano depois, esses dois na praia não parecemos nós, tu e eu, a tocarmo-nos a medo e sem fazer a mais pequena ideia de onde aquele primeiro passo nos iria levar, nem que teríamos ainda uns meses e muitas lágrimas a separar-nos do dia em que se sararam todos os medos, todas as inseguranças, e nos tornámos num par.

Demos mais de mil voltas às voltas que a vida nos tem tentado dar a nós- somos bons nisto. A contrariar as expectativas, a arrumar com as probabilidades. Obrigada por esta maravilhosa aventura. Louca, mas maravilhosa.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

tu.

Foi há um ano atrás que eu te obriguei a esperar pela meia noite, só para poder ser a primeira a dar-te os parabéns. E na altura eu nem sonhava que eu iria mudar a tua vida, tanto quanto mudaste a minha.

Os 25 foram uma aventura maravilhosa, um turbilhão de emoções e o estrear de sentimentos e palavras que eu achei que estavam reservados para os filmes e as histórias com finais felizes. Tu és o meu enredo feliz.

Resta-me desejar-te que os 26 sejam ainda melhores - e que eu faça parte deles.

Parabéns, meu amor.

domingo, 19 de novembro de 2017

ontem,

[uma das primeiras coisas que te ensinei sobre mim foi que deixei de gostar do natal há muitos anos atrás. e tenho-o repetido, amiúde, de cada vez que alguma coisa me relembra de que essa porra acontece todos os anos. cansa-me o espírito de amor e magia artificiais, as falsas simpatias, a obrigatoriedade solene de parecermos todos felizes. de mostrarmos que o somos.

pensei nisto ontem, enquanto caminhava ao teu lado, envolvidos pelo frio gélido de uma noite de novembro. o natal é já ali. daqui a menos de duas semanas, terei a árvore de natal feita, mais por ser tradição do que por gostar realmente de a fazer. não tarda, seremos brindados com músicas alusivas à época em todos os centros comerciais, decorados até à exaustão, como se isso tornasse tudo mais real, como se nos transportasse para uma realidade diferente da nossa.

depois, olhei para ti. 
agarraste-me, beijaste-me no meio da rua. de repente, tomei consciência de que não faz mal que estejamos quase em dezembro, que haja anúncios de chocolates e brinquedos por toda a parte. dei-me conta de que, pela primeira vez em muito tempo, não há felicidade fingida nem mágoas guardadas a uma época que me traz sempre uma profunda angústia. este ano, estou suficientemente feliz para lidar com a mariah carey e os wham! em looping, sem sorrisos forçados ou o coração aquecido à força - o meu já está aconchegado e tranquilo, cheio daquela matéria incompreensível que faz as pessoas felizes.

obrigada por me teres ensinado o amor da forma mais inocente, e por me fazeres um bocadinho mais feliz, todos os dias. que venha o natal, e o início de um novo ano ao teu lado - desta vez sim, tenho motivos para sorrir. e para comemorar.]

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

hoje, por alturas da tpm

A pessoa mete uma playlist bem deprimente a tocar e decide que hoje, só hoje, se pode dar ao luxo de debulhar-se em lágrimas porque as últimas 24h não foram nada fáceis e os últimos 22 anos foram piores ainda. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

[palavra de honra que, volta e meia, olho para ele e ainda não acredito que tenho um homem tão bonito ao meu lado]

O mundo gira todo à volta do mesmo, mas ninguém sabe bem o que é; somos todos leigos, somos todos estúpidos, mas todos falamos de amor com a mesma veemencia, crentes de que somos detentores da definição mais acertada, da verdade absoluta. E somos, no fundo. Cada um da sua - e tu transformaste-te na minha.

Disse-me sempre descrente no amor, mas essa talvez não seja a verdade mais honesta: no que eu não acreditava mesmo era nas pessoas. E ainda não acredito, tenho de admitir. O cocktail de bondade, respeito e simplicidade está a cair em desuso, e parecia-me cada vez mais impossível conseguir encontrar uma pessoa que fosse A Pessoa. Que me fizesse crer que ainda vale a pena entregarmo-nos. E depois apareceste.

Nunca concordamos sobre isto, mas eu juro que me apaixonei por ti sem pressa nenhuma. Eu nem me queria apaixonar! Tinha delineado a minha vida a régua e esquadro quase como uma sentença. Ou uma redenção. Já não queria saber, só queria livrar-me do desassossego constante de nunca conseguir confiar. Mas tu... tu salvaste-me dos planos maquiavélicos que tinha para mim mesma. Fizeste-me ver que ainda existia mais vida além dos limites que me impus e que poderia ser muito mais feliz do que achei sempre que merecia. Obrigada. Já te tinha agradecido hoje?

Devagarinho, mostraste-me uma inocência que eu jurava a pés juntos já não existir. A calma. A despretensão. A inteligência combinada com a humildade de quem está sempre pronto a aprender mais. A bondade de nunca troçares, seja de quem for, de nunca seres indelicado, de tentares sempre ver o mundo segundo os olhos de quem te observa. E uma sensibilidade a cada história que ainda não deixou de me surpreender. Tornaste-te, em primeiro lugar, no meu melhor amigo. Depois, no meu namorado - é ou não é a combinação perfeita?

Ensinaste-me o amor sem medos. Fizeste-me perceber que não há mal nenhum em expressar o que sinto e que há uma dose de carinho especial em cada tem cuidado. Em cada abraço, em cada beijo na testa, em cada eu vou-te proteger sempre. É assim mesmo que me sinto: protegida. Segura. Pela primeira vez na minha vida, não tenho medo porque sei que posso confiar em ti. E isso... amor, meu amor, vale ouro. 

Hoje é dia 28 outra vez. 
Talvez não seja a data mais certeira para assentar o nosso início, nem um beijo num parque de estacionamento a forma mais romântica de se consumar o princípio de uma relação, mas depois de todas as curvas da nossa história, mas nunca nos demos ao trabalho de fingir que precisámos de um dia para decidir que queríamos ficar juntos, e na verdade foi nesse momento que eu percebi que era a sério. E que ia correr tudo bem. 

A ti, só posso desejar o melhor. E que continuemos a somar dias 28 pela vida fora, juntos.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

sobre a febre das corridas

Se, há 3 meses, me tivessem dito que em algum momento da minha vida eu iria publicar fotos minhas numa poça de suor e com o ar feliz de quem sente dores em músculos cuja existência desconhecia, ter-vos-ia chamado, no mínimo, parvos. Mas já o fiz, mea culpa.

Diz-se por aí que correr é moda - vivo melhor com isso do que com aquela dos ténis com pompons. Pouco importa o que leva alguém a calçar as sapatilhas naquele primeiro dia em que está mais ou menos certo de que vai correr 200 metros e cuspir um pulmão. O importante é que, ainda assim, as calcem e vão para a rua; quanto ao pulmão cuspido, relaxem e rezem para que o que sobra não salte fora nos 200 metros seguintes. Era chato.

Eu comecei quase por acaso. Durante muito tempo, preferi queixar-me da incompatibilidade dos meus horários loucos com os do único ginásio cuja mensalidade não me custava um rim e metade da família. Talvez por preguiça, talvez por ter ainda demasiado presentes as memórias daquela pequena lontrinha que não era capaz de dar duas voltas seguidas a correr ao campo da escola, descartei sempre a melhor e mais maravilhosa de todas as hipóteses: treinar às horas que bem me apetecesse e totalmente grátis. 

Provavelmente por estar cansado de me ouvir, um dia perguntou-me por que raio eu não começava a correr - nesse momento, foi como se tivesse visto a luz e descoberto a cura para todas as doenças e o caminho para a paz no mundo. Não que nunca me tivesse passado pela cabeça, mas faltava-me a coragem para começar - se não tivesse sido ele, ainda hoje andava por aí a choramingar pela falta de exercício físico. Eu não acreditava em mim, mas ele acreditou por isso safoda. Vim dar ao mesmo lugar.

Lembro-me do meu primeiro dia: saí do turno da noite, depois de 17 horas de trabalho, e fui correr. Ao fim de 15 minutos, tinha desistido da vida e estava pronta para tomar banho e enfiar-me na cama. Depois, nunca mais parei - minto. Esta era a frase perfeita, mas não é a verdadeira. Engonhei durante algum tempo. Senti-me estupidamente orgulhosa quando corri 20 minutos sem parar. E depois quando consegui fazer os meus primeiros 4km - deixei-me estar por aí. Já era um marco histórico na minha vida de lontra, e duvidava sinceramente que fosse capaz de mais.

E não é que era?
Frustrada por me sentir estagnada e demasiado lenta, procurei uma aplicação com um plano de treino diferente que me pudesse ajudar. Encontrei - faz hoje, precisamente um mês, e fez toda a diferença.
Se calhar eu nem precisava realmente de um senhor brasileiro a viver dentro do meu telemóvel e a dar palpites sobre como devo viver a minha vida mas, estranhamente, deu-me um novo fôlego e fez-me não desistir.

Descobri o prazer da competição contra mim mesma: todos os dias me tento superar, e todos os dias me surpreendo com essa versão de mim que vivia escondida por baixo das três mil camadas de banha - mais uma mentirinha. Também tenho dias maus, dias em que fico zangada porque não consigo cumprir o objetivo - mais do que o da aplicação, o meu. Outro há em que me dou ao luxo de meter a meta onde bem me apetece e fazer-me ir mais longe do que da última vez - hoje foi um desses dias. Eu não sabia que conseguia correr 5km, quanto mais 10! Mas sou. Caramba, este corpo, que tanto desprezei, é capaz de coisas que eu nunca pensei.

Não sou a melhor. Não tenho grandes ambições no que a provas diz respeito - tenciono melhorar-me a mim mesma, só. E, quando acabo um treino exausta, com dores em todo o lado, a gotejar suor, sinto-me tão bem que fui capaz de me tornar numa dessas pessoas que publica fotos nesse estado. Podem não ser as mais bonitas, mas é onde estou mais genuinamente feliz - o orgulho assenta-me mesmo bem.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

o meu lado de gustavo santos

É engraçado.
Vivemos a dizer aos outros que nada é para sempre, que o que temos de mais certo na vida é a mudança constante, mas esperamos sempre que a nossa se comporte como uma menina de bem e siga em linha reta, tal como nos nossos planos. Ah, mas a vida, essa filha da puta... ela gosta mesmo é de nos baralhar as ideias.

Foi o que aconteceu comigo.
Em meia dúzia de meses, vi um par de sonhos a ir por água abaixo - não por se terem tornado, de repente, inconcretizáveis, mas porque deixaram de se enquadrar e de fazer sentido naquilo que percebi ser o que eu mais queria para mim. Lá está: nada é estático, nem mesmo esses desejos empoeirados dos quais jurámos a pés juntos que nunca nos iríamos desfazer mas, aí, tudo muda.

E depois?
Depois é um susto do caraças. Acho que continuo ligeiramente assustada, para vos ser franca: passar a vida toda a achar que se sabe perfeitamente o que se quer para, de repente, perder o pé e não se fazer ideia de para onde se está a ir, dá medo. Acredito que não estejamos sozinhos: no fundo, ninguém tem respostas concretas nem certezas definitivas, mas estamos todos mais ou menos convencidos de que o certo é aceitar uma qualquer verdade como sendo a absoluta e levá-la connosco ao longo dos anos. Eu não estava para isso.

Fechei portas que pensei que quereria sempre abertas de par em par; hesitei na hora de meter a mão na maçaneta, mas depois puxei-as com força. É precisa uma boa dose de coragem para cometer um par de loucuras em prol da felicidade. Mas lá está: é preciso. É imperativo que se lute sempre pelo que nos faz mais felizes, e não deixar que as vozes de um povo, que se quer eternamente sofredor, nos façam desistir: é verdade que é tudo muito difícil, mas não é por isso que temos de sorrir e acenar a condições que nos matam aos poucos. Não nascemos todos para ser a maria amélia a quem nada na vida agrada. Às vezes, as pessoas querem mesmo fazer algo por si: deixem-nas ir. Não sejam mal fodidos e aceitem que há quem não goste de choramingar pelos cantos.

E agora estou aqui.
Meio perdida, mas mais que salva da vida que planeei para mim mesma numa fase em que acho que não queria realmente viver; às vezes ainda tenho medo dos sítios onde o futuro me pode levar. Outras, apetece-me abraçar essa incerteza com toda a alegria de quem fugiu da previsibilidade dos dias arrastados: caramba, eu posso ir a qualquer lugar, posso ser qualquer coisa. Para quê ser outra coisa que não estupidamente feliz?

Tive medo. 
Tive muito medo ao início, mas ainda não senti o mais leve arrependimento. Vale a pena correr riscos, alforrecas. Vale a pena lutar por dias melhores, vale a pena não se conformarem ainda que pareça mais seguro e confortável não dizer nada e continuar infeliz - e, se está tudo a preto e branco, o melhor é pintar com outras cores. Só para complicar. E para ficar mais bonito.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

nua e crua

[somos um bom par: nunca contámos os meses, e os únicos dias que contamos são os que faltam para nos voltarmos a ver, mas às vezes lá me lembro e digo-lhe que somámos mais um mês à nossa história sem data de início. são poucos e parecem a vida toda.
volta e meia, ele abraça-me e exclama estás tão feliz! e eu estou mesmo. respondo-lhe que é por estar com ele, resmunga da minha resposta repetida tantas e tantas vezes - é por ser verdade, meu amor. porque é mesmo.
mais do que meu namorado, é o melhor amigo; não conheci muita gente tão sensível aos problemas que não são os seus, tão disposto a ajudar. a ouvir. e, no dia em que um desabafo meu o deixou a chorar, mais do que a mim própria, sou capaz de dizer que gostei dele mais do que nunca. e fiquei (ainda) mais consciente da pepita de ouro que cruzou a minha vida.
mas depois não somos um par perfeito: oscilamos entre um mar de opiniões semelhantes e outro de opiniões divergentes. de vez em quando, acabamos zangados, cada um com a razão do seu lado, em discussões que pouco mais são do que inúteis - eu perco-me nos meus pensamentos, a tentar desenrolar o novelo de palavras que se forma na minha cabeça, e não consigo falar. ele irrita-se ainda mais por eu não lhe responder - e nunca mais pára. até que paramos, respiramos fundo, metemos os pontos nos is, com calma. o fim é sempre a parte mais doce: não somos bons a domar-nos, mas até fazemos um bom trabalho no que toca a entendermo-nos, apesar de tudo.
encerramos cada luta com um abraço. um abraço de alívio por continuarmos juntos apesar de todas as nossas diferenças, de todas as vezes que parecemos (quase) impossíveis - mas eu não desisto facilmente.]

quinta-feira, 13 de julho de 2017

nem tudo foi mau

Desde que o somnii - ou sunset, para os amigos -  se mudou cá para a figueira, esta pessoa fez sempre questão de marcar presença a abanar o cu pelo areal, tirando o ano passado. E este ano lá estava a wild criatura outra vez, feliz e contente, a ser revistada duas vezes a cada entrada, qual criminosa, a esconder garrafitas de água como quem esconde droga - ainda assim, foram vistas e deixadas passar, aleluia! -, a passar horas em pé para o desespero desta coluna idosa que está, claramente, mais queixosa desde há dois anos atrás.

Fresca e fofa depois de ter passado a noite a trabalhar, fui para lá a tossir, em média, dezassete vezes por minuto, condição esta agravada pelo facto de estar constantemente a levar com o fumo dos que insistem em fumar quando estamos todos ensalsichados no meio de uma multidão aos saltos. Foi giro e correu tudo bem: contra todas as expectativas, consegui não cuspir nenhum pulmão. E, com sorte, contagiei uns quantos para verem o que é bom.

Agora, o que me fez alguma comichão foi olhar à volta e sentir-me velha. Palavra de honra: a maior parte das criaturinhas que desfilavam no meu campo de visão, a fumar e a beber, ainda não tinham pintelhos. Dançavam como se conhecessem cada música desde o útero o que, bem vistas as coisas, até nem é assim tão improvável. E eu ali: empurrão da direita, cotovelada da esquerda, pisadela sabe deus de onde, cheia de frio, de calças, sweat, encostada ao monsieur ao máximo a ver se me safava dali com vida, o ar de horror e a promessa secreta, uma vez mãe de filhos, só os deixar sair depois dos 18. Porra.

Cheguei a temer estar num concerto dos caricas, mas felizmente correu tudo bem - os miúdos deviam estar só a comemorar a positiva nas provas de aferição - isso ainda existe, não existe?

Quanto aos djs, já vi melhor a pagar bem menos. Tirando a tosse e as dores nas costas, senti-me quase a pessoa jovem que aparentemente deveria ser - e apesar do esforço hérculeo que tive de fazer para conseguir ser liberada durante o fim de semana para poder ir, apesar da desilusão por o festival em si não ter acompanhado a escalada no preço, fá-lo-ia outra vez. Mas só pela companhia.

(começo a parecer fofa e domável, socorro)

domingo, 25 de junho de 2017

4 mois plus tard

[antes de ti:
eu era má no amor. era mesmo, de verdade - se calhar eu era mesmo má na verdade, por levar uma vida regida pelo desamor próprio, pelo desamor pelo próximo, pelo desamor pela vida. antes de ti, eu dizia sempre que era mito, que isso do amor era coisa rara. era fruta cara diante do olhar de um pobre - uma dose de ceticismo e duas de cobardia. tinha medo de assumir que ambicionava um amor para a vida toda. tinha medo de crê-lo possível. e era.

antes de ti, eu não conhecia esta forma de ser feliz. não fazia ideia de que era possível gostar de alguém de uma forma tão livre, tão leve, tão sem medida, como se tivéssemos feito isto a vida toda. está tudo errado mas eu e tu batemos certo: temos virado as costas a todas as adversidades e prosseguido de mãos dadas. temos vencido obstáculos, temos ido ganhando medalhas atrás de medalhas na corrida em que se transformaram as nossas vidas; às vezes caminhamos, lado a lado, com a tranquilidade de quem já se acostumou a viver no holocausto. nos teus braços, meu amor, tudo parece possível.

antes de ti, eu tinha palavras guardadas no armário para mais tarde, todas elas por estrear. e acho que pensei sempre que nunca me chegariam a servir - depois apareceste tu e assentam-me que nem uma luva. assentam-nos. de repente, eu já não estava muito preocupada com o tempo, já não me desculpava com a história da paixão, já não dizia que não passava de tesão. percebi que o que sentia ia muito além dos meus limites. era algo que nunca antes havia experimentado - sentia-me atacada, de forma desmesurada, por um gostar para o qual eu não tinha nome. ou tinha.

perdi o medo. usei a palavra que melhor se adequava à situação - e volta e meia repito-a, certa de que se torna mais verdadeira a cada dia que passa.

antes de ti, eu já era eu - mas era indiscutivelmente menos feliz. e, quase todos os dias, digo que estou mortinha para te abraçar.
adivinha só: é sempre verdade.
sempre.]