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domingo, 27 de dezembro de 2020

pelo natal

fomos (quase) sempre cinco no natal - e esse é o principal motivo para lhe ter perdido o gosto há tantos anos. sobravam demasiados lugares vagos à mesa, restava demasiado espaço para a saudade se sentar connosco e nos fazer relembrar que a distância só se quebra quando há vontade. este ano, foi o meu lugar que ficou vazio.

em vinte e cinco anos, este foi o primeiro em que puxei a cadeira noutra mesa, noutra casa, noutra vida, numa família que, não sendo aquela onde nasci, é aquela a que escolhi pertencer um bocadinho também. e doeu, não vou negar: na outra casa, de cinco passaram a quatro quando eu preferia que tivéssemos sido seis, eu e as minhas cinco pessoas favoritas neste mundo - mas este dezembro não é como os outros e está mau para a dança das cadeiras que não pertençam a uma só casa.

estive bem também. comi bacalhau à brás, bolo de bolacha e permiti-me a mergulhar nos sonhos molhados em calda de açúcar. faltou-me apenas o cheiro a café no ar à meia noite: foi sempre assim, nos outros vinte e quatro natais que vivi, menos naqueles em que ainda era demasiado pequena para os trazer na memória. faltou-me o cheiro a café mas não ousei pedir: sei que apareceria na mesa tão rápido quanto possível, mas isso seria trazer uma tradição de família para outra família e, de alguma forma, soou-me a traição. não é substituível. e não precisa de ser.

são sítios diferentes na vida, e sê-lo-ão para sempre - nem melhores, nem piores, mas diferentes. e se a maior parte do meu coração pertencerá sempre àquela casa onde éramos cinco em todos os natais e em todos os fins de semana, há outra parte que já se entregou à outra casa onde também eram cinco antes de eu chegar. e estou bem também.

e estou bem, mas o covid que se oriente porque para o ano eu quero a dança das cadeiras com as minhas pessoas, em todas as casas possíveis. quero até os abraços de que não gosto, a valer por dois para me compensar do buraco negro que me ficou no peito este ano.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

moms know better

A minha mãe comprou-me uma blusa, gira que só ela, na h&m. Notem que a loja só é relevante para que se note que não se trata de um artigo da loja dos chineses ou da feira, onde um XXL facilmente se parece bastante com um XS, e vice-versa.

Experimentei; fica-me bem. Folgadita, até, mas exatamente como gosto.

Quando a despi, constatei que se tratava de um 34. Voltei a olhar; não estava com alucinações. Reparem que esta pequena lontra, por mais que até se ande a portar muito bem, nunca nesta vida há de caber num 34 - nem quero, honestamente!

Perguntei-lhe que raio de número era aquele.

- olha, não sei! este 34 era exatamente igual à 38, e eu trouxe esta.

E isto, pessoas, foi um breve tutorial para que todas pudessem saber como aumentar a autoestima das vossas crias - é assim, a tentar convencê-las de que desenfofinharam porque cabem num tamanho de roupa ridículo, onde nunca caberão a não ser que fiquem seis meses a pão e água.

(nada temam, que eu prefiro vestir o 38 e comer o que me apetece)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

upside down

As coisas nunca foram fáceis para mim - eu sei, eu sei. Frase típica de alguém cujas maiores decisões giram à volta da torrada de abacate ou dos ovos mexidos para o pequeno almoço, tanto que lhe tira o sentido e me faz parecer só mais uma menininha fútil e dramática. Que pareça. Quem me dera - neste momento - sê-lo!

Há alturas na vida em que tenho a capacidade de me rir das desgraças - depois, há outras em que não dá mais: é como se estivesse no mar e deixasse de ter pé por conta de uma onda maior do que o esperado. Eu não suporto a ideia de não ter pé, entro em pânico - assim, mal volto a sentir a areia, vem outra onda grande. E outra. Mais outra. Sempre, e cada vez maiores, sem me dar espaço para respirar ou para fugir - começa a ser um sufoco. Afogamento, se quiserem.

Estou numa dessas fases, em que as desgraças acontecem em cadeia e eu sinto que não sou capaz de suportar mais uma unha encravada que seja. Está difícil, está tudo do avesso, e o que está por vir é assustador: este é outro daqueles casos em que sei mais do que gostaria de saber. Conheço demasiado para conseguir assobiar para o lado e fingir que vai correr tudo bem. Não vai e, infelizmente, eu sei-o bem.

Os últimos dois meses foram caóticos: pareço estar a ser atacada por todas as frentes possíveis, parece tudo um plano engenhoso para me enlouquecer. Só que não é - é a vida real, e os problemas não podem esperar que eu esteja disponível para os abraçar. Há que saber manuseá-los, mas eu não sei gerir as emoções. Lamento, mas não sei - tenho esta mania horrível de tomar as dores alheias e, agora, além de todos os meus problemas, não estou a conseguir lidar com os dramas que poderiam não ser os meus se eu conseguisse ser suficientemente fria para sacudir a água do capote e seguir com a minha vida como se não estivesse a acontecer. Mas está. E é horrível que esteja.

Sinto-me a perder a esperança de dia para dia, a desistir de tudo aquilo em que acredito, a aceitar que não vai funcionar como gostaria. Já não dá. Já não tenho disponibilidade mental para travar lutas inglórias, para me fazer ouvir, para tentar mostrar que vale a pena lutar pela felicidade. Está tudo tão errado que, mesmo o que estava certo, perdeu o sentido.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

a minha avó é melhor do que as vossas

Ao telefone com uma prima, velha, aos berros:
- ó mulher, tu não assines mais nada, olha que estas a ser grelada! isso são pessoas a grelar.
Sobre burlas, entenda-se.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

about a potterhead

Depois de anos e anos a contentar-me a comer jelly beans e a imaginar que seriam os feijões de todos os sabores bertie botts, hoje foi o dia em que provei, realmente, jelly beans com os mais variados sabores.

Deixem-me que vos diga que, por mais que eu seja uma potterhead assumida, passava bem sem provar jelly beans com sabor a comida de cão, a toalhitas, a pasta de dentes, a meias sujas e a vomitado. Mas provei.
E foi nojento.

sábado, 27 de junho de 2015

preciso de dormir

Está um calor infernal e eu podia - que podia - estar na praia. Ao invés, levantei-me cedo para vir experimentar, ou re-experimentar, o inferno; passou apenas meia hora e eu já estou à beira de um colapso.

Elas gritam, elas puxam o cabelo uma à outra, elas puxam o meu também, elas estragam comida, elas batem na gata. Se eu pudesse, enrolava-me com esta última e esperava que elas se desmaterializassem, mas dizem que tenho de participar nos preparativos dos festejos.

Ao menos vai haver bolo.
(a fé nos salva, amén)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

dos dias das boas notícias

Gostava de ainda ter energia para escrever, mas mal tenho vontade de pensar quanto mais de articular ideias - mas não, nada disso. E então, só por estar estupidamente cansada e a precisar de aterrar, comunicam-me que vou ter um belíssimo fim de semana fora... a aturar as miúdas mais irritantes à face da terra.

Sou uma gaja de sorte.

domingo, 3 de maio de 2015

o dia em que as crias lambem as progenitoras

Não há nada de errado em haver um dia da mãe, um dia do pai, um dia do gato, um dia do peido. O que está errado é as respetivas crias só se lembrarem de que amam muito os progenitores nos dias que lhes são destinados - e hoje é outro desses dias de reflexão profunda, de ai que a mamã é a mais linda, a mais poderosa, a mais importante, a melhor do mundo e ai que eu sou tão má cria.

Que a minha mãe é melhor do que as vossas eu não duvido - mas, porra, é-o todos os dias, não é só hoje.
Levem lá o beijinho à mãe e nem digam que vão daqui.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

a minha sorte é que já se habituaram ao meu lado freak

Passo sempre por aquele momento de oh-hell-já-sei-o-que-vou-fazer-ao-cabelo-desta-vez e aquele é-desta-que-me-entregam-para-adoção. Mas já vão tarde, senhores, já vão tarde.

cinderela e as compras

Estou vagamente convencida de que a principal ideia da minha mãe quando me manda às compras é mostrar-me que, de facto, eu não sou assim tão alta - ou isso ou a minha progenitora desenvolveu uma estranha capacidade de escolher sempre produtos que estejam na última prateleira, de maneira a meter-me ali armada em foca amestrada numa dança esquisita em biquinhos dos pés e toda esticada, ou, numa vertente ainda mais deprimente, aos saltinhos. Vida de lontra não é fácil.

domingo, 8 de março de 2015

e eu sou uma pessoa que se enerva com os nervos

A principal desvantagem de ter uma família gigante e não gostar de metade é que, sim, é possível ir-se dar uma volta ao caralho mais velho e, mesmo assim, encontrar lá as tias e as primas como se fosse uma concentração oficial da real famelga.

E normalmente é sempre na parte chata e labrega da família que esbarramos. Oh vidas.

sábado, 7 de março de 2015

pânico

Dona mommy comprou uma caixinha para cuidar dos pezunhos - fiquei descansada enquanto a abri e só vi uma pedra pomes e uma superfície tipo lima, que deduzi que servisse para cuidar dos calcanhares. Só me assustei quando descobri que, tirando essa parte áspera, encontrava-se uma cena tipo ralador.

Tive medo, fechei a caixa e fugi.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

se não fosse a melhor avó do mundo, entregava-a para adoção

Não importa quantas vezes eu explique à minha avó como é que funciona o telemóvel dela - ela continua a preferir uma utilização freestyle. Basicamente, a senhora mete-se a carregar nas teclas à toa e vê o que acontece. Priceless.

Ultimamente, estou sempre a receber chamadas dela, ou vá, toques; na minha boa fé, retribuo a chamada não vá a mulher estar ali na pura da aflição. 

Atende e diz:
- o que é que tu queres? estás bem?
- eu estou, tu é que me ligaste...
- ah liguei? oh, é que eu vi o teu nome e carreguei. nem sabia que tinha chegado a chamar.

Breathe in, breathe out.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

tenho bem a quem sair

Estava a contar à dona mommy cá de casa que eu e duas raparigas tínhamos dado um sermão à miúda grávida porque ela não se alimenta convenientemente e o caramelo do namorado aka pai da criança ainda come a comida que lhe dão para ela.

Acho que soube o que ela ia dizer no momento em que ela olhou para mim:

- achas que ela precisa de comer? já engoliu um puto, agora tem a barriga cheia durante nove meses.

E foi assim que eu descobri que vou ter a companhia da minha mãe no inferno.

domingo, 25 de janeiro de 2015

sweet

Ontem, após meter as mãos ao pé da lareira e o verniz mudar de azul para branco, mostrei-as à avó. Ela, na maior das aflições:

tira as mãos daí, olha que o verniz sai!

Tenho a melhor do mundo.

terça-feira, 15 de abril de 2014

expelliarmus

1. ouvir um sermão de dona mommy à uma da manhã, a meu ver, sem razão;
2. passar à frente de uma loja de decoração e lembrar-me do meu amor por quadros e da necessidade de substituir um do quarto porque está meio estragado;
3. entrar na loja e ir ver os ditos quadros;
4. apaixonar-me, ver que saem em conta, mas não comprar nenhum para não gastar dinheiro;
5. encontrar umas almofadas, giras que só elas, que eu sabia que dona mommy queria há séculos;
6. pegar em duas, sem pestanejar;
7. perceber que ia gastar mais dinheiro do que se comprasse o quadro;
8. hesitar, mas trazê-las, ainda assim;
9. aproveitar o mau humor de dona mommy para lhas dar;
10. eu ralho contigo e tu ainda és fofinha para mim.


Ao menos sou boa a desarmar. Valha-me isso.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

lembrei-me

Eu já dei a mão a um preto a pensar que era a minha avó.

A minha avó não é preta. Nem é um homem.