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quinta-feira, 21 de maio de 2020

o dia em que atirei a toalha ao chão

Este período tem sido bom para toda a gente: não houve uma alma que não se tivesse redescoberto, que, por ser proibido encontrar outras pessoas, não se tenha reencontrado. Agora toda a gente encontrou a chave para a felicidade e o sentido para a vida. Até já sabem fazer pão! Ou então não, mas parece mal dizer que nos sentimos miseráveis.

Falhei.
Mais de dois meses depois, não sei mais do que sabia antes. Minto: intensificou alguns sabores amargos e envolveu-me num medo ridículo de ter de me voltar a entregar a eles. Porque vou. A vida alinhou-se para toda a gente, mas não me deixou escolha: foi hoje que atirei a toalha para o chão e me dei por vencida. Tenho todo o tempo do mundo e mesmo assim sinto-me exausta porque há uma ansiedade que me consome e não me deixa dormir, neste frenesim de uma existência em contra relógio e da pressa de ser mais feliz amanhã. Não consigo mais.

Hoje resolvi deixar de procurar, e deixar de viver com o telemóvel na mão à espera de que ele toque. Pela minha sanidade mental, desisto agora para me permitir a perdê-la dentro de pouco mais de uma semana.

Já não há nada a fazer.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

dizem que é carnaval outra vez

Não gosto do carnaval - eu sei, eu sei. A pessoa é tão azeda que esta afirmação se torna previsível, e estranho seria eu gostar de alguma coisa deste mundo de que toda a gente goste. São vidas.

Adianta reforçar que não é um ódio de estimação, é mais o nem sequer compreender a ideia. Especialmente dos carnavais que conheço e destas imitações rascas do carnaval brasileiro, que de si já não me parece minimamente interessante. É só parvo, mas muito fixe para quem quiser apanhar uma pneumonia.

Calma lá que isto não é recalque - não estou em sofrimento por não me ter mascarado em pequenina, porque tive sempre disfarces diferentes. O maior mistério, para mim, continua a ser o porquê de ainda ninguém ter reparado que o carnaval, em portugal, lá calha ser sempre no inverno e que aquelas fatiotas finíssimas só oferecem duas opções às crias e aos pais das crias: morrer de frio ou adicionar o fator chouriço a cada máscara, com 6 camadas de roupa por baixo.

Como sou das friorentas, optei por ser um capuchinho vermelho-chouriço, palhaço-chouriço, princesa-chouriço, and so on. Até ao dia em que me apercebi que, à medida que os anos passam, o fator chouriço vira fator puta, e os disfarces de carnaval das gentes adultas são, na sua maioria, também bastante adequados a filmes duvidosos feitos a pensar em pessoas com fetiches esquisitos. Deixei de me disfarçar antes de conhecer a realidade da enfermeira-puta, bruxa-puta, polícia-puta. Acho que dá para perceber a ideia.

Portanto, nos carnavais de agora, disfarço-me de ernesto, tal como nos restantes dias do ano - conto usar e abusar do conforto do meu sofá, que a idade já pesa e eu não estou para palhaçadas. Nem para o frio.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

a primeira vez nunca se esquece

Comecei por ouvir gritos na rua. Inicialmente, pensei que se tratava de um casal e já estava a preparar-me para erguer o punho contra a violência doméstica, quiçá mostrar as mamas no meio da rua por nenhum motivo em especial, mas porque sou mulher e as mulheres tudo podem.

Para minha grande desilusão, eram mesmo dois homens, mas lá calha que um ainda consegue ter mais voz de pita do que eu, e olhem que é bem difícil.

Estava um senhor franzino, com idade para ser meu avô, a agarrar pelo colarinho um homem mais jovem que poderia, facilmente, ter arrumado o outro ao canto com um sopro, mas que perdia toda a credibilidade de cada vez que abria a boca e parecia uma maria amélia. Aparentemente, a maria amélia tinha entrado em casa do homem e tinha-lhe roubado dinheiro. Muito dinheiro.

Ali, do outro lado da estrada, a situação era tão ridícula que chegava a parecer encenada. A pobre maria amélia só dizia que não tinha roubado o que quer que fosse, e o velho oscilava entre propostas eróticas e violentas; num momento gritava "se sais daqui, fodo-te todo", para no momento seguinte gritar "eu mato-te!".

Tendo isto acontecido à porta de um café, seria de esperar que alguém defendesse a criatura. Contudo, as pessoas apressaram-se a entrar e a fazer de conta de que não estava a acontecer - ainda houve um senhor que, entre baforadas, foi dizendo ao velho para não bater ao outro, mas acabou por desistir e ir embora de bicicleta.

Cansado de segurar a amélia pelo colarinho, obrigou-o a sentar-se numa cadeira, senão fodia-o todo, enquanto fumava.

Portanto, depois de alguma hesitação, peguei no telemóvel e... não, não comecei a filmar para postar em tudo quanto é rede social, apesar de ser uma alternativa mais engraçada ao circo de natal. Resolvi fazer alguma coisa para acabar com aquilo e liguei à GNR (sejam todos cinderela, fáxabor!).

Expliquei atabalhoadamente onde estava, porque o meu sentido de orientação ainda hoje está a jogar à bisca com a minha beleza, lá no útero da minha mãezinha, e eu não faço a mais pequena ideia do nome da rua onde passo os meus dias. Ups.

Não percebi o que aconteceu, mas a maria amélia conseguiu esquivar-se para dentro do café e o outro ficou cá fora a olhar para a porta. Imagino que o pobre tenha ido chorar para a casa de banho, mas são só suposições.

Fiquei a pensar que tinha ido inquietar a GNR para nada, até que eles chegam. Não um, mas dois carros da GNR. Não pude conter uma gargalhada e pensar que talvez devesse ter sido mais específica nos desacatos à porta de um café. Mas depois eles saíram dos carros e eu percebi que foi deus nosso senhor quem mandou um par extra para me animar a vista. Bem podem andar à pancada no café todos os dias, que eu estou completamente disponível para ligar para a GNR as vezes que forem necessárias. E, se for preciso, até me entrego de boa vontade.

Quanto aos outros dois, falaram com os agentes e acalmaram os ânimos. Ninguém soube que tinha sido eu a ligar.

(se soubessem, acredito que o mulherio residente me começasse a idolatrar, e eu nem tenho a letra bonita para dar autografos)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

a noite em que portugal não dormiu

Mais uma. Outra, entre tantas.

Desliguei a televisão há horas, convencida de que me seria mais fácil esquecer do que se passa para lá destas quatro paredes. No entanto, não fui capaz de parar de dar scroll nas redes sociais nem de fazer refresh no site dos fogos. É impossível dormir.

Há um misto de raiva, pânico e incredulidade dentro de mim. Não preciso dizer o quanto desejo uma morte lenta e dolorosa a cada criatura que se lembrou de contribuir para a fundação do inferno que hoje vivemos: creio que seremos mais de dez milhões a pensar o mesmo. Todos, menos os cabrões dos incendiários que escapam quase impunes enquanto destroem o país.

Estou desolada. 
Sinto-me pequena, inútil. Tenho cinzas na varanda e um nó no peito; aqui e ali vejo pedidos de pessoas que não conseguem contactar familiares encurralados pelo fogo - a dor e o desespero expressos em palavras de desconhecidos são tão reais que acho que se tornam de cada um de nós. Tomo-as como minhas. Apetece-me chorar por gente que nunca vi na minha vida.

Enquanto isso, estou aqui: sentada no meu quarto, incapaz de dormir, ciente da minha pequenez perante este monstro que continua a consumir vidas inteiras. Não há nada que possa fazer neste momento, senão esperar. Não há sítio onde possa ir, não há ninguém a quem eu possa ajudar. Resta-me assistir, à distância, e esperar que o dia de amanhã seja melhor. E que possamos todos fazer alguma coisa para corrigir o de hoje, dentro do possível.

Hoje, houve gente que perdeu o trabalho de uma vida inteira, e gente que perdeu a vida numa batalha inglória. Dizer que lamento não devolve nada a ninguém. Dizer que tenho vontade de chorar ao ver o rasto de destruição em sítios que conheço desde que me lembro de mim, e outros tantos onde ainda há tão pouco tempo me senti feliz, também não apaga incêndios nem cura feridas. Mas é a verdade. E é uma dor que não me deixa dormir.

Socorro-me de uma fé que não é a minha e imploro a um deus qualquer para que a tão apregoada chuva não se atrase, e para que todos aqueles que deixaram as famílias para ir combater os fogos possam voltar para os seus. Sãos e salvos.

quarta-feira, 1 de março de 2017

gira a roda da sorte outra vez

Acordámos em março: o terceiro mês do ano, o primeiro a trazer-me datas de acontecimentos menos felizes; daqui a quinze dias fechamos a primeira porta, sopra-se a vela do primeiro acontecimento filho da puta - e, daqui para a frente, é sempre isto. Fechar portas. Ver um ano passado sobre as coisas e trancá-las a sete chaves no passado. 

Acordámos em março com uma vitória que é também uma lambada de luva branca: entregarem-nos as coisas de bandeja não é mau de todo... mas a sensação de que ganhámos algo pelo empenho e pela dedicação é impagável.

Acordámos em março... e que seja um mês melhor.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

este blog não é só desgraças

Os dias são o que queremos fazer deles - o dia de hoje poderia ter sido outro dia de desapontamento, mas não foi. Decidi que ia ser um dia bom: vesti roupa bonita, pelo menos aos meus olhos, meti o meu perfume preferido e saí a sorrir.

Bati a outra porta e fechei-a porque não gostei do que ouvi - hei de bater noutras e há de correr melhor. Mas hoje, finalmente, soube não desanimar; fiz um par de coisas que há uns tempos atrás não me imaginava a fazer e senti-me estupidamente bem com isso. Tenho muito para aprender ainda... a começar por mim mesma. 

Hoje foi um dia bom.
Foi mesmo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

hoje

É sexta feira 13 e eu acordei triste, outra vez. Demorei a levantar-me da cama como só se demoram os que vivem entediados, adiei o início das limpezas, que decidi serem a fundo, o mais que pude. E fi-las, com o pouco ânimo que tenho tido, com a falta de vontade de quem vê os dias arrastarem-se lentamente.

Depois, o telemóvel tocou. Hesitei. Pensei em várias coisas ao mesmo tempo, senti um arrepio. Questionei-me qual seria o caminho e onde me levaria - depois, desisti. Há de correr tudo bem! 
É sexta feira 13 e foi um bom dia. Um ótimo dia.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

foda-se

Podia dizer muita coisa, mas é só mesmo isto: foda-se.

sexta-feira, 18 de março de 2016

inté já!

Não faleci - mas, neste momento, dava-me um jeito danado que começassem a dar-me, sei lá, 100€ de cada vez que eu começo um post com «não faleci», naquela de justificar uma ausência de forma dramática. 

Não vou explicar porque não me apetece e vocês não têm nada a ver com isso. Posso dizer-vos que me caíram os colhões nos últimos dias e que ando aqui à procura deles porque sabe deus a falta que me fazem. Estou vivinha, que estou, e hei de voltar quando tomar uma dose de paciência e três de inspiração. 

Até lá, não chorem, não se matem e, sobretudo, não tirem macacos do nariz em público. É feio e nojento.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

esta pessoa

Gostava, adorava, não transformar o pobre do cinderela no muro das lamentações mas a verdade é que os meus dias têm sido tão maus e eu estou tão em baixo que não me resta disposição para escrever. Nem vontade. Nem assuntos. 

Se resumir o meu dia, resulta nisto: hoje chorei - e nos outros dias todos também. Mas chorei um bocadinho mais porque perdi as mensagens que tinha e que me faziam lembrar de que houve tempos bons, e porque me livrei de objetos que só me faziam lembrar dele e porque, foda-se, isto não fica mais fácil com o passar dos dias, só se torna mais real! E dói-me o estômago. Muito mesmo. Estou mal disposta e à beira de vomitar em cima do teclado.

Por hoje é só isto.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

sabes que cresceste quando

As promoções.
As promoções de todos os supermercados das redondezas; conhece-las quase melhor do que a tua mãe, e sabes que é difícil. Deliras quando as promoções coincidem com as tuas necessidades. Deliras também quando não coincidem. Tornaste mestre na arte de comprar barato; ficas frustrado quando percebes que te enganaste e podias ter poupado dois cêntimos.
As promoções, a febre das promoções - e uma veet spawax a metade do preço que me anda a fazer frenezim desde que vi o folheto, há não sei quanto tempo.
Mas é amanhã!

sabes que cresceste quando

Tens um dia que poderia ser de descanso e, em vez de assolapares a peida no sofá e ficares a devorar filmes ou livros como há uns anos atrás terias feito, aproveitas as horas de liberdade para lides domésticas divertidíssimas - e dás por ti a limpar, a arrumar e a organizar tudo para te tornar a vida mais fácil durante os outros dias em que não tens tempo.

I'm ready to be a mommy now.
(ou não. ou não.)

sábado, 23 de janeiro de 2016

não faleci

Escrever-vos-ia mais vezes de boa vontade se:

a) não andasse tão cansada, entre o hospital e o ginásio, que acabo por adormecer pouco depois das dez da noite;
b) a minha internet colaborasse um bocadinho e não desmaiasse de dois em dois minutos;
c) me acontecessem montes de coisas giras que originassem posts interessantes e cenas que tais.

Da maneira que as coisas andam, creio que só vou ter alguma coisa a dizer - e vontade de o fazer! - quando for eleita presidente da república (tino de rans ao poder!) ou, acidentalmente, encontrar a maddie debaixo de uma banca da fruta no mercado de domingo.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

é da praxe

A equipa do cinderela, constituída por uma única lontra obesa - mas esta coisa das equipas soa sempre bem - deseja a todas as alforrecas leitoras um feliz natal.

Eu vou só ali ganhar mais 1km de cu. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

mas, hey, dezembro também tem coisas boas!

Há o natal dos hospitais e o coro de santo amaro de oeiras tem oportunidade de ir mostrar que ensaiou o ano todo para cantar o a todos um bom natal, e ainda podemos ver, pela trigésima sétima vez, o sozinho em casa. 

Dezembro é mesmo o melhor mês do ano para hibernar e só acordar em janeiro.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

o dia em que a minha sanidade mental deu o peido mestre

Segunda feira. Teste de matemática. Frio terrível. Trabalho chato pra caralho. 

E tu, cinderela?
Eu tenho o spotify e tive a feliz - ou a infeliz - ideia de escolher a discover weekly; quando dei por mim, estava a ouvir a música mais estúpida de sempre com um sorriso de orelha a orelha: estamos quase no natal e essa é talvez a altura do ano que eu mais detesto mas, hey, lá vem a craudete, prepara o confete!

sábado, 28 de novembro de 2015

e acabei a jogar criminal case, se interessar

Estou de coração dividido - por um lado, há a cinderela responsável que gostava mesmo de fazer os resumos para o teste, preparar a apresentação do trabalho e, pelo menos, adiantar o outro que tem para fazer; há a cinderela fada do lar, que sabe que tem mais o que fazer do que estar aqui alapada a procrastinar; depois há a cinderela fútil, que quer ir pintar as unhas porque já vai para três semanas que não sabe o que isso é e, por fim, a mais forte é a cinderela couch-potato que está mortinha por aterrar no sofá a ler.

Ser eu não é fácil.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

cinderela, uma dona de casa desesperada

Não, não cheguei a ter tempo de tocar no trabalho se quero ir mais cedo para o ginásio - e aspirar o carro também vai ter de ficar para amanhã. Shame on me.

cinderela, a nova dona de casa

Uma pessoa percebe que cresceu quando tem uma tarde livre e, em vez de a dispensar a ver vídeos de gatinhos fofos no youtube - e acabar numa parte estranha onde mostram partos e borbulhas gigantes a ser espremidas -, a pintar as unhas, a ler (ai o murakami ali a chamar por mim) ou simplesmente a vegetar, chega a casa e dá por si a planear a tarde com uma to do list pouco animadora:

passar a ferro;
aspirar o carro;
arrumar o quarto;
adiantar o trabalho que já devia estar feito;
arranjar-me a tempo de ir a horas decentes ao ginásio, para ver se deixo de chegar a casa tão tarde.

Isto tudo em, mais coisa menos coisa, 2 horas. Uhm uhm.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

a saga continua

Isto também podia ser sobre como o spotify me trama de vez em quando - está aqui uma moça a amanhar um trabalho chato como tudo, de fones nos ouvidos e a tentar manter um semblante sério, como se estivesse a ouvir chopin ou o diabo a quatro, e isto vai de adele, que teve um efeito estranho em mim, a redfoo.

Fica um bocado difícil parecer normal quando se está sentada em frente a um computador, ao som da juicy wiggle.