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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

não matem o pinheirinho de natal

Eu não ia desabafar sobre isto, mas não aguento mais.

Todos os dias, todos os santos dias, uma pessoa leva com fotos do pinheiro natalício da casa alheia. Palavra de honra que, no instagram, há quem tenha já mais fotos da árvore de natal do que a malta que vai levantar ferro para o ginásio tem dos biberons de whey. 

E qual é o mal?
As cores.
Alguém precisa de pôr um travão nisto.

Passamos do pinheirinho verde para a variante do pinheirinho verde com restos de branco - tudo bem, até aqui. Se neva na sala destas pessoas, o problema certamente não será meu. Mas daí saltámos para o pinheiro albino, todo branco, ali num sofrimento que nem pode ver a luz, e uma pessoa nem sabe se aquilo é de nascença ou se ficou assim por passar um ano enfiado numa caixa empoeirada, algures nos confins da divisão da tralha.

Depois disto, foi sempre a piorar.
Já vi pinheiros roxos, cujo fundamento não consigo entender. E vermelhos, completamente vermelhos, como se viessem diretos de uma chacina para o canto da sala, fazer as delícias das crianças e dos felinos habitantes do lar, qual criminoso amador. Não se percebe.

E agora, vêm as prateadas. E as rose gold que, imagino, sejam a perdição de tudo quanto é influencer - p'lamor da santa, quem é que não quer ter uma árvore de natal que condiz com os pingarelhos das portas dos armários e com o relógio? Pffff.

Faz todo o sentido. 
Em breve, o pai natal começa a vestir chanel e a vir com sapatos de pele de rena, a distribuir códigos promocionais da prozis e a pedir para tirar selfies com todos os meninos, como o tio Marcelo. As renas são substituídas por unicórnios porque está na moda, e o trenó passa a ser dourado, cravado de glitter. E, no dia seguinte, o pai natal publica um vlog no youtube.

Estamos bem.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

terça feira

Acordei, como de costume como sempre que consigo dominar a lontra obesa que há em mim, uma hora mais cedo, para ir correr.

Dormi mal, passei a noite a acordar mas, ainda assim, a culpa não me permitiu a fazer orelhas moucas ao despertador e falhar ao treino longo da semana - notem que só escrevi isto para fazer bonito, porque o que é para mim um treino longo hoje, é 1/3 do que eu era capaz de correr há um ano atrás. [Note to self: sim, sua lontra, vais mesmo lamentar não ter tirado o cu da cama; tu gostas de correr, pá!]

Portanto, a pessoa está na rua, a arrastar-se, às sete e pouco da manhã, e dá de caras com um nascer do dia espetacular. De verdade. Só não tirei fotos porque isso é para gente que finge que corre e se dá ao luxo de parar para fotografar o percurso. Ou os pézitos. Mas estava bonito, que fique o registo, e a pessoa achou que só podia ser um bom augúrio.

Só que não. 
De regresso a casa, com a crina a pingar suor, pronta para ir de férias para as maldivas, durante duas semanas, para descansar do treino, o que é que esta amável criatura descobriu? Que não havia água quente por motivos misteriosos que ainda estão sob investigação. 

Ora, como infelizmente os meus pais me deram aquela educação chata que implica tomar banho e não chegar aos sítios - principalmente ao trabalho - a meter nojo, só me restava tomar banho de água fria gelada ou ligar para o trabalho a dizer que estou pior da unha encravada e não podia vir trabalhar. Optei por correr o risco de entrar em hipotermia, porque é sempre uma maneira mais animada de começar o dia.

Findo o banho, que me deixou gelada durante as duas horas seguintes e a desejar ter vindo de gola alta, acabo de me arranjar eeeet, voilá: chego ao carro em cima da hora. Não me bastasse isso, recebo uma chamada, relacionada com o trabalho, que me atrasa ainda mais.

Portanto, temos uma lontra enregelada, de mau humor, e em stress porque odeia chegar atrasada. Ou em cima da hora, que seja. Mas o que é que poderia piorar?

Exato. 
Só mesmo um papa reformas, que é a pior invenção que algum dia poderiam ter feito - se as pessoas não estão habilitadas para conduzir, não deveriam andar na estrada e ponto final. Qualquer dia, estes velhos também se lembram de fazer concorrência aos taxistas e criam a reformify: o seu meio de transporte com a máxima segurança a 20km/h.

Alguém precisa de explicar a estas pessoas que não precisam de andar no meio da estrada; já que vão devagar podiam, sei lá... deixar os carros a sério passar, não sei. Assim na loucura.

Não me bastasse todo este stress e ter esgotado o plafond mensal de pragas rogadas no segundo dia do mês, ainda apanhei novamente um susto, daqueles de verter um pinguinho de xixi, com um camião. Numa curva. 

Também acharia agradável alguém se lembrar de lhes explicar que, lá porque não se iriam magoar por aí além se engolissem um carro ligeiro, não significa que seja bonito andarem na estrada com a atitude de quem não se importa de levar tudo à frente. A sério. 

Eu gosto de viver. 
Obrigada.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

sexta feira

Foi há 8 anos. 
Apesar de não me lembrar do dia, sei que foi algures em setembro de 2010 que criei o meu primeiro blog, a poucos dias da grande reviravolta que marcou a minha adolescência. Aquela fase negra da minha vida em que me parecia impossível sobreviver e ser feliz, estão a ver?

Que ninguém me pergunte qual foi o propósito, porque também não o saberia explicar: gostava de escrever desde sempre, mas colocava os textos em itálico para fazer de conta de que não eram meus e o resto eram letras de músicas e imagens estúpidas. Tinha 15 anos e estava destroçada - acho que não se pode pedir melhor.

Com o tempo, encontrei-me. 
Descobri que escrever era a melhor forma de expor, de forma quase poética, tudo aquilo que eu não podia dizer.  Com mais ou menos jeito, tornou-se numa paixão, numa escapatória, na única coisa em que eu sentia que podia fazer a diferença. E continuei.

Há 7 anos, criei o Cinderela. 
Já quase o apaguei um milhão de vezes, já apaguei todas as publicações duas vezes, já passei os textos mais antigos para uma conta privada e já os devolvi ao antro: custa-me desfazer dos posts que contam a minha história, mesmo que nem sempre tenha sido de forma explícita, mesmo que existam muitas mensagens escondidas nos textos que só servem para eu me lembrar do porquê. E depois, comecei a abandoná-lo.

Escrevo-vos isto hoje porque ontem estive a reler posts antigos e fiquei com saudades da paixão com que escrevi, em tempos. Daquela vontade de me traduzir em palavras, de brincar com elas, de me sentir capaz - muitas coisas foram mudando ao longo do tempo, a minha vida mudou bastante, mas nunca consegui deixar de sentir saudades do meu blog. E de detestar um bocadinho o que lhe tenho feito nos últimos tempos: esta cinderela que só aqui publica textos longos e chatos, não sou eu. Pelo menos não a cinderela que eu quero ser.

Ontem tinha planos novos. 
Ia mudar bastante as coisas por aqui: contava iniciar, em breve, uma série de textos que iriam retratar uma nova fase, e que achei mesmo que poderia ser interessante. Ia voltar mais às origens - apesar de preferir mil vezes a interação e o feedback da página, o meu coraçãozito ainda está aqui, onde comecei, onde me descobri. Onde relatei dos momentos mais tristes aos mais felizes. 

E hoje?
Hoje acordei com vontade de apagar isto tudo e de fugir para uma gruta, longe da internet e da civilização. Ou "civilização". Estou farta, fartíssima, de gente que parece incapaz de encontrar a sua posição no mundo, que não aceita um não, que não percebe que impôr a sua presença nunca será o melhor caminho para que esta passe a ser desejada. Ou desejável.

Os últimos tempos têm sido um mar de stress que se tem refletido até a nível físico, e a última coisa de que eu preciso são de problemas relacionados com algo que apenas me deveria servir de escapatória. Hoje apetece-me apagar isto tudo e esquecer-me de que algum dia existiu - estou cansada de gentinha pequena e sem noção dos limites. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

vamos lá atear fogueiras mais uma vez

No domingo, perguntei(-me) se não há quem faça filhos com o único propósito de ter prioridade nas caixas dos supermercados. Isto, tal como quase tudo o que publico, foi escrito graças a alguma coisa que tinha acabado de me acontecer, porque a pessoa até pode ter imaginação mas aqui trabalhamos com a realidade.

O drama, o horror, a tragédia.
Se há coisa que eu adoro é a forma como as pessoas se preocupam com os direitos, mas nunca com os deveres. E muito menos em usar a cabeça e os olhitos para avaliar as situações e tentar perceber se, sei lá, se justifica ou não passar à frente.

Falo mais das grávidas/pessoas com crianças, por ser o que mais tenho visto. E o que mais me tira do sério também. Nunca estive grávida, mas não tenho a menor dúvida de que é um tanto ou quanto violento para o corpo da mulher. Porque é. E também não tenho quaisquer dúvidas de que, a dada altura, se torne realmente penoso estar em pé, à espera da vez para pagar um balde de gelado. Se for de doce de leite, ainda tem mais desculpa! Mas não... não somos todos Carolinas Patrocínios e não vamos todas estar a fazer agachamentos já em trabalho de parto mas... gravidez não é doença. Desculpem, mas não é - e se conseguiram encher um carrinho de compras sozinhas, certamente também conseguem aguentar cinco minutos até chegar a vossa vez.

Esta lei da prioridade devia ter vindo com alíneas, assim numa de explicar que, não, não faz assim tanto sentido armares-te em parva e passares à frente de toda a gente só porque acabaste de fazer um teste de gravidez e deu positivo. A prioridade é para ser usada, sim... quando precisas de facto dela. Fora isso, tudo o que consegues é contribuir para o aumento daqueles seres que fingem que não te estão a ver, mesmo que até estejas num estado em que se justifica deixarem-te passar. 

Entendo quando se trata de uma fila longa; caramba, até eu, que infelizmente desconfio que nasci com uma coluna em segunda mão e não consigo estar muito tempo parada, em pé, sem começar a ficar desesperada com dor de costas, tenho vontade de meter a mão na pança e ver se me perguntam se quero passar, mas não o faço. Agora, passarem à frente só porque sim, só porque podem, quando têm duas pessoas à frente com pouquíssimas coisas para pagar, desculpem, mas roça a estupidez.

Uma boa parte do problema começa no facto de a prioridade ser dada em todas as caixas, e as pessoas nunca se darem sequer ao trabalho de perguntar se podem passar. Às vezes, vou ao supermercado na minha hora de almoço, tenho os minutos contados para voltar a horas para o trabalho e, geralmente, isso significa que lá fui buscar algo muito específico e, portanto, tenho poucas coisas para pagar. Por que raio sou obrigada a deixar passar alguém com um carrinho de compras para o mês inteiro quando... eu tenho um ou dois artigos para passar e estou com pressa? Porquê, mesmo?

Isto já me aconteceu. Tudo isto, aliás.
Não há muito tempo, um casal lésbico tentou usar o facto de terem uma miúda, com uns três ou quatro anitos, num carrinho de bebé para me passarem à frente. Eu tinha, literalmente, duas coisas para pagar, no more, no less. A miúda estava calmíssima, uma delas já tinha pago e poderia simplesmente sair dali, mas nada impediu a outra de se dirigir a mim, quando eu era a próxima pessoa a pagar, e dizer "olhe, se não se importa...".

Se se estão a perguntar, a resposta é não, não deixei passar. Mas colocou as compras imediatamente atrás das minhas, e ainda se deu ao luxo de ir buscar mais umas quantas coisas, apesar de ter uma fila inteira a olhá-la de lado. Porque... porque podia. Não precisava, mas podia, e neste país é o vale tudo. Não é precisa noção, não é preciso respeito nem educação, e pouco importa se até havia ou não gente na fila com mais idade, que possivelmente precisava mais de passar. As leis são para ser interpretadas como convém, e raramente é quem mais precisa que usufrui delas.

Também já vi uma senhora começar a abanar um carrinho, onde a bebé dormia tranquilamente, enquanto dizia "não chores, não chores, já vais comer", para tentar passar(-me) à frente, ainda antes de isto ter virado coisa séria e lesgislada.

Como estas, tenho um sem número de histórias semelhantes, que têm em comum a estupidez alheia, e a falta de civismo e educação de que fui acusada, por ter escrito um post carregado de sarcasmo para evitar um texto mais longo, como este. Assim, levaram com os dois, e a culpa é da indignação da Luisínha.

Sinceramente, eu só gostava que as pessoas se preocupassem tanto com a prioridade na estrada quanto se preocupam nas filas dos supermercados. Haveria menos acidentes, com toda a certeza.
Brigada da prioridade: pensem nisso. Quando conseguirem um cérebro, vá.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

a arte subtil de dizer não

É preciso falar-se mais da diferença entre impôr respeito e intimidar alguém - começar assim logo de pequeninos, nas criaturinhas da creche, a ver se a coisa lhes fica na cabeça e se um dia destes passamos a ter adultos capazes de conviver de forma mais... saudável, vá.

Escrevo-vos por estar zangada comigo mesma, e também é preciso assumir as falhas e torná-las num exemplo a não seguir. Estou furiosa por não ter sabido dizer não... por medo. 

Só isso: medo.
Medo de consequências que nunca poderiam (ou deveriam) existir, dado eu estar a recusar algo ao qual não sou obrigada e que me deixa extremamente desconfortável, e essa minha falha não me sai da cabeça. Se eu não quero fazer algo e, só por acaso, não faz qualquer tipo de sentido tentarem obrigar-me... porque é que o vou fazer?

Nunca fui esta pessoa. Nunca a quis ser.
Ganhei uma sensibilidade que repudio um bocadinho, e não sei se me tornei adulta ou só conas - qualquer uma destas realidades me deixa desapontada comigo mesma, e a perguntar-me por que raio atualizei para esta versão sem querer. Já terei dito vezes suficientes que me quero esbofetear?

Então, aqui estamos nós: not-so-wild cinderela, contrariada desta vida, a ter de fazer algo que não quer, porque teve medo de puxar aquele não lá do fundo. E olhem que era um não singelo, apesar de verdadeiro, sem trazer aquele "vai p'ró caralho" em anexo, por mais que a vontade fosse grande e os motivos não faltassem, mas a pessoa até é bem educada e tem umas noções de respeito pelo próximo.

Serve isto para que não me esqueça de todos os nãos que quero - e tenho de! - dizer nas próximas semanas, e para vos dar uma forcinha extra naquele não - ou no "cai p'ró caralho" - que têm entalado na goela.

Por aqui, planeio amanhã contrastar umas trombas cerradas com o meu vestido amarelo - a outra pessoa já ganhou, de qualquer forma: vai ter-me, contra a minha vontade, a fazer o que ela quer, mas pelo menos não vai levar o meu melhor sorriso, só naquela de não a deixar acreditar que não me importo.

Importo, sim.
E vou (re)aprender a dizer não a tudo quanto não me agrade.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

as madres teresa de calcutá e a extinção aparente do bullying

Há uns dias - há mais do que me orgulho, mas o tempo não estica - encontrei um vídeo no facebook que me tocou particularmente. Mais do que pelo assunto em si, que me diz muito, foi a forma como o encontrei.

Imagino que a maior parte de vocês não o saiba, mas esta pessoa veio com um defeito de origem, curiosamente, o mesmo do miúdo: lábio leporino.

Vá, vão lá procurar imagens hediondas, eu espero aqui.
...
...
...
...

Já está? Boa.
É uma malformação congénita. Saltando 23 anos desde a primeira cirurgia, saltando a correção necessária nos dentes que se lembraram de fazer um ângulo de 90º, em termos práticos, e no meu caso, hoje em dia é uma cicatriz que vai do lábio ao nariz e não me incomoda minimamente. Nunca incomodou. Mas também é um nariz que nunca teve a sorte de se conseguir fazer simétrico, porque lá calhou faltar-lhe a base. Coisas da vida, acontece aos melhores. É só um bocado fodido quando tens 10 anos e não percebes porque é que gozam contigo se nunca fizeste nada para estares naquela situação.

Ou aos 12.
16.
18.

Foi isso que me chateou mais: aquele vídeo foi partilhado por alguém que, em tempos, gozava comigo. Depois a pessoa lê os comentários, e é tudo amor e paz, e ai coitadinho que não tem culpa, é um menino como os outros. Certo, mas onde andaram estes bons samaritanos em todos os anos que eu sofri com isto?

É bonito, que é, verem o vídeo de alguém que está a sofrer com isto e saltar-vos a lagrimita ao olho, mas o que vinha mesmo, mesmo, a calhar era, sei lá, pensarem duas vezes antes de se rirem de alguém que está numa situação que não pode mudar. Tipo esta - só nascendo outra vez e, mesmo assim, teimosa como sou, acho que voltava a vir defeituosa só por causa das tosses.

Se hoje falo disto a brincar, há uns anos eu sentia-o como uma condenação, a garantia de que nunca poderia ter uma vida normal porque, por mais que isto não seja minimamente incapacitante, era sempre o elefante no meio da cara, motivo de risinhos mal disfarçados, ou nada disfarçados por pura maldade, motivo para me gozarem porque tinha o nariz torto, porque era feia e o seria sempre. Porque nunca ninguém iria olhar para mim, nunca teria o direito de ser amada porque - c'mon - quem é que iria querer ser visto e, pior, apresentar uma miúda anormal como sendo a namorada?

Ouvi isto muitas vezes. Acreditei em todas elas.
Houve uma fase da minha vida em que almoçava às escondidas na biblioteca, para garantir que me cruzava com o menor número possível de pessoas. Tornei-me num bichinho do mato porque me era impossível confiar em quem quer que fosse - poucos, pouquíssimos, foram os que conseguiram entrar na minha vida, e não era por eu não querer. Não conseguia.

Sentia uma necessidade absurda de ter atenção, especialmente do sexo masculino. Entendo agora o quão deprimente era o facto de qualquer olhar na minha direção já fazer acelerar este coraçãozito despedaçado - queria, por força, que alguém me visse do outro lado, que me provassem que estavam todos enganados, que eu estava enganada, que havia algo de especial em mim, uma diferença boa. Mais do que uma malformação que me calhou na rifa. Mais do que tudo. Em parte, chego a sentir-me ridícula só por me lembrar.

Também demorei anos a conseguir sair à rua maquilhada, por mais que fosse só aquele risco preto na linha de água, que se usava naquela altura em que as miúdas de 12 anos ainda eram inocentes, saíam à rua de cu tapado e não se maquilhavam como se fossem a um casamento todos os dias. Eu era incapaz de ser vista com alguma coisa que me aproximasse daquela que seria a normalidade de uma miúda da minha idade, porque tinha medo de que pudessem pensar que eu me achava minimamente bonita. Foram muitos anos a querer deixar claro que eu me sentia tão anormal, tão feia, tão inútil, quanto davam a entender que eu era. E foram muitos anos a acreditar nisto também - embora, confesso, nunca me tenha passado na totalidade.

Este não é um post triste, porque eu já não sou esta miúda infeliz que se sentia presa a um corpo que odiava - cresci, entretanto. A minha vida mudou, a maioria das pessoas à minha volta já não tem uma idade mental de cinco anos, e os comentários maldosos já são cada vez menos - mas, posso garantir-vos, sofri p'ra caralho durante anos a fio. E sim, deixa marcas profundas, difíceis de apagar. 

Considerem-no um... abre olhos. Acredito que é preciso falar-se sobre as coisas, mostrar-se o backstage daquela miúda que faz de conta de que nada a afeta enquanto sente que não está a fazer nada viva, porque eu fui essa pessoa e eu tenho quase a certeza de que todos nós conhecemos, pelo menos, uma. Talvez, se tivessem visto o vídeo há uns anos atrás me tivessem torturado menos. Ou talvez tivessem tido a mesma reação ao vídeo, mas continuassem sem entender que esta gorda anormal também é de carne e osso, e estava a passar pelo mesmo que aquele outro miúdo que levou o povinho às lágrimas.

Querem rir-se? Riam-se das escolhas. Não se riam das coisas que não estão ao nosso alcance mudar.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

insólitos

Portanto, esta pessoa, esta amável criatura, saiu do trabalho danada da vida, quase uma hora mais tarde, porque há gentes neste mundo a quem deus nosso senhor se esqueceu de atribuir um cérebro e, infelizmente, a pessoa parece atrair tais seres.

Chego ao carro, a conversar com o monsieur, ao telemóvel, numa tentativa de salvar o meu humor de cão, e apercebo-me de que um ancião se tinha levantado do banquinho onde estava a conversar com outras duas velhotas, e se aproximava do meu carro.

E então, Cinderela? Veio dizer olá? Veio elogiar o outfit? Veio dizer-te que és uma retardada simpática e que acha bonito que digas boa tarde a toda a gente?

Não.

Veio resmungar.
Ao fim de mais de dois meses a estacionar o carro no mesmo sítio todos os dias, descubro que ando a causar raivinha dos dentes nos moradores porque estavam habituados a estacionar o carro no mesmo sítio há mais de 40 anos (presumo que o carro de mão, o carro de bois, o carro de linhas...). Dizia-me o senhor que as pessoas queriam ali estacionar o carro e não podiam. Expliquei-lhe amavelmente que eu também sou uma pessoa, mas não estou certa de que tenha compreendido. 

Pediu-me que o deixasse noutro sítio. Olhei melhor: não, continua a não ser estacionamento proibido. Continua a não ser estacionamento reservado e, até onde sei, o usucapião ainda não funciona com as ruas, portanto continuo a ter tanto direito de ali estacionar o carro quanto as pobres almas que ali deixam as viaturas há mais de 40 anos.

Amanhã certifico-me de que faço um estacionamento à patrão e ninguém mais lá consegue deixar o carro, só por causa das tosses.

sábado, 16 de junho de 2018

cinderela e o médico do trabalho

Pela primeira vez, tive de ir ao médico do trabalho - para ver se tenho os dentinhos todos, se o tico e o teco estão operacionais, se vejo bem ao longe e não tenho maleitas esquisitas, essas coisas. 

Cheguei antes da hora. Mal entrei, dei-me com três portas abertas: dois consultórios, um deles vazio, e uma casa de banho - confesso, que eu cá sou pessoa honesta e não tenho vergonha na cara, que comecei logo a fazer olhinhos à casa de banho, que a pessoa não vai para nova e bebe água até mais não. 

Fiquei ali, plantada no meio da sala de espera, sem um balcãozinho com uma moça de sorriso colgate para me receber, e sem saber se pareceria muito mal pura e simplesmente utilizar a casa de banho como se não me tivesse dado conta de que existia um ser humano ali, a quatro metros de mim.

Fui fazendo pequenos barulhinhos, enquanto remexia na minha mala sem fundo, até que o moço me notasse. E notou.

Apareceu na sala um doutorzinho - elucidem-me: são mesmo médicos ou é um qualquer outro curso? - com todo o ar de quem poderia ter sido da minha turma - e não, não estou a dizer que ele parecia do ensino especial, mas aparentava ainda arrotar ao bolo do próprio batizado, tal qual eu. Perguntou-me o nome, o nome da empresa, e acrescentou:

- aguarde um bocadinho que eu já chamo. tire um frasco e vá fazer a colheita de urina.

Não quero parecer rabugenta, mas não gostei. Isto não é assim que funciona! Chega ali e, sem qualquer introdução, manda-me fazer pontaria para um frasco. Fiquei danada. E feliz, que uma desculpa para usar a casa de banho, ainda que precedesse the walk of shame, de frasquinho em punho, era bem vinda.

Ainda que aliviada, entrei no consultório de dignidade ferida. 
Começou o interrogatório, a auscultação, a subida para a balança. Estava a piorar a cada minuto, e eu resolvi vingar-me, mostrar-lhe que era uma moça que sabia das coisas por mais que tivesse entrado por lá adentro com um frasquinho de xixi na mão. 

Perguntou-me se nunca tinha sido operada. Falei-lhe das quatro primeiras, e acrescentei que a quinta, há dois anos, tinha sido uma colecistectomia. Olhando para trás, ainda podia ter acrescentado que foi laparoscópica, por mais irrelevante que seja tal informação, só para lhe mostrar que sei o que é uma laparoscopia e ele não pensar que é assim às três pancadas que me dá ordens.

Ficou a olhar para o ecrã durante um bocado, antes de perguntar:

- colecistectomia... tirou a vesícula, certo?

Foi a minha saída triunfal.

quarta-feira, 21 de março de 2018

vamos atear fogueiras?

Ontem, ia escrever-vos que esta febre das greves é mais contagiosa do que o sarampo e, nos últimos tempos, parece que a moda pegou mesmo - contudo, e curiosamente, não são os que se esfolam a trabalhar pelo ordenado mínimo que fazem estas birras. 

Abortei a ideia quando precisei de recuperar do choque depois de, em conversa com uma conhecida, lhe ter dito isso mesmo e a criatura me ter respondido:

- quem ganha o ordenado mínimo não se queixa porque ele está sempre a aumentar, já vai quase nos 600€!

Wait... what?
Estaremos a insinuar que quase 600€ são suficientes para se viver decentemente e com dignidade? Talvez o sejam, para quem tem a vida feita e tudo pago. Ou para quem vive pendurada na carteira de alguém. Agora, tendo em conta que os quase 600€ são, na realidade, 580€, que os preços das rendas são uma atrocidade, juntando-lhe todas as outras despesas essenciais, como a água, a eletricidade, o gás, mantendo aquele vício absurdo de comer e, pior ainda, de tentar comer bem e não viver à base de pacotes de batatas fritas de marca branca, pelas minhas contas, o ordenado mínimo dá para viver confortavelmente numa gruta. 

Estou a exagerar, claro. Ginástica bem feita, o ordenado mínimo dá perfeitamente para pagar todas estas despesas, mas sem margem para qualquer imprevisto, doenças e afins, e estando psicologicamente preparado para contar cêntimos até ao próximo salário, para repetir: trabalhar para sobreviver até que se morra, basicamente. Parecer-vos-á uma perspetiva exagerada? Se calhar até é, mas a ideia de viver para mais do que trabalhar sempre me agradou bastante. Excentricismos.

Para piorar o quadro, o pior argumento que podem usar comigo: ah, mas eu sou licenciada e só ganho mais 250€ do que o ordenado mínimo. Sou novita, que sou, mas já vi muita coisa, e coleciono revoltas que julgo não terem cura; gostava muito, mas gostava mesmo, que ser-se licenciado, mestre, doutor, fosse sinónimo de ser-se realmente bom, de ser-se competente, trabalhador, responsável. Merecedor, enfim, de um grande salário que faça jus ao tanto que estudou para chegar ali - mas, já se sabe, na prática a coisa não é bem assim, é chegar-se ao posto sem se saber muito bem como e querer ser remunerado pelo lugar que ocupa independentemente da mediocridade com que atua.

Não me lixem. 
Façam o vosso trabalho, e não me venham dizer que é quase bem feito que quem não estudou tenha um trabalho duro onde lhe pagam uma miséria, só porque vocês são licenciados e não têm dinheiro para comprar um porsche. Se calhar escolheram mal o curso - em certos casos, para o que fazem, o que recebem já é demais. Mas isto sou eu, que conheço demasiados "profissionais".

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

quanto vale o dinheiro?

Quero começar por dizer que estou ciente de que, infelizmente, ter mais do que um emprego não é uma escolha para algumas pessoas, e que há quem faça por real necessidade. Também já me cruzei com pessoas assim, e guardo-lhes todo o respeito. Aos outros... seriously?

Acredito que isto não faça sentido a toda a gente mas, para vos situar, posso explicar algo sobre mim: quis ser enfermeira durante muitos anos, assim, sem quaisquer dúvidas ou hesitações. Depois, fui trabalhar para um hospital e, ao fim de pouco tempo a praticar horários de loucos que nem ao diabo lembram, percebi que essa não é a vida que quero para mim. Ah, sua cachopa fútil, folgada, preguiçosa, não sabes o que é a vida!, and so on. Bem sei que há quem o pense - já eu, estou muito contente por contrariar a mania portuguesíssima de me prestar à infelicidade só para poder choramingar pelos cantos.

Descobri que, afinal, eu quero uma família. Daquelas a sério, das que não são constituídas por vinte e sete gatos e um ser humano, do sexo feminino, gordo, com bigode e um ar duvidoso. Nada temam: a cinderela não tenciona arrendar o útero a um monstrinho de berço nos anos mais próximos. Mas, e ainda que isto seja uma novidade até para mim, um dia quero poder sentir orgulho nas minhas próprias crias, ainda que o maior feito delas seja comer ranho e riscar a parede. E quero estar lá para ver isso - a este ponto pode uma pessoa mudar, vejam lá.

Não me venham dizer que estou a ser parva, que o que não falta são enfermeiros com filhos, porque disso sei eu bem. Foi exatamente por ter trabalhado a par com eles que percebi, bastante depressa, que não quero estar naquele lugar. Que, por mais que goste da profissão, sou incapaz de me imaginar a procriar para ver as criaturinhas só às vezes, quando os horários lá casam uns com os outros.

Ainda bem que há gente cujas vidas funcionam perfeitamente nesses moldes, mas não o quero para mim.

Posto isto, e correndo o risco de ser apedrejada em praça pública, não consigo perceber os segundos e os terceiros empregos. Não consigo; por mais que me esforce, sou incapaz de entender como é que alguém pode pensar que matar-se a trabalhar só para os putos poderem ter o último grito em tecnologia ou o número de países visitados aos três anos ser superior à quantidade de dentes que têm na boca, é dar-lhes uma vida melhor. Se calhar sou só chata e tenho uma alma de pobre sem remédio, mas é-me inconcebível colocar o luxo à frente do amor, preferir dormir três horas para que os putos nunca tenham de comprar roupa no lidl (olhem só a boquita para mim mesma), em detrimento de passar tempo com eles. Nem que seja a fazer nada.

Na volta, sou mesmo eu quem está enganada, os valores estão todos no sítio, mas eu continuo a preferir a ideia de ter de aproveitar as promoções para comprar shampõ, se isso implicar ter a oportunidade de passar tempo a fazer coisas que gosto, com as pessoas de quem gosto. São manias.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

a era da estupidez

Velha do restelo apresenta-se ao serviço: isto já não é nada como antigamente.

Confesso que, possivelmente, a culpa será minha. Em 7 anos de blog, nunca me dediquei aos fashion blogs e, no que aos giveaway toca, nunca fiz mais senão troçar deles. Não sou muito fixe, é certo. Mas isto vai de mal a pior.

Comecei por preparar nisto nos youtubers - ainda estou para perceber como é que alguém chama trabalho a mostrar-nos o que comeu ao pequeno almoço ou um hamburguer servido numa tábua que, lá em casa, usamos para cortar a carne sem riscar as bancadas, mas isto sou só eu que tenho a mania do dinheiro honesto e dos trabalhos gratificantes.

Adiante.

Apercebi-me disto quando andei à procura de tutoriais de maquilhagem e me deparei com todo um outro mundo que, até então, eu desconhecia:o da vida fácil. Tudo é simples. Uma camisola de 60€ nem é muito cara. Se for uma paleta de sombras, menos ainda. E alugar/comprar/rechear uma casa? É só passar o cartão - eu é que sou uma pelintra.

Mea culpa: comecei a seguir alguns. Acho que se torna num vício ver a ignorância e a futilidade alheias; raramente vejo os vídeos, mas adoro os instagrams metodicamente pensados, para não destoar - sabiam que há uma app que serve só para verem como vai ficar aquela foto no vosso instagram? Se acharem que não fica bonita, é só guardarem para depois. São o meu guilty pleasure e, se revirar os olhos contar como tal, o meu exercício diário.

Em tempos, cheguei a ponderar associar a minha conta pessoal ao blog, mas a ideia não chegou a criar raízes - deve ser uma canseira ter de me preocupar com o que os meus queridos followers pensam do meu almoço, e eu gosto de me dar ao luxo de só me preocupar com coisas sérias. Além disso, eu uso o instagram mais como uma galeria pessoal do que outra coisa, e consigo estar muiiito tempo sem publicar o que quer que seja: está cheio de fotografias simbólicas que foram ali colocadas por um motivo, e que (quase) ninguém conhece.

Agora, o verdadeiro fenómeno são os anúncios. Por estas alturas, páginas do facebook, perfis do instagram, canais do youtube, blogs, são pouco mais interessantes do que os folhetos promocionais do lidl. É que chega-se ao ponto ridículo de se fotografarem as crias para publicitar uma merda qualquer que lhes pagou para aquilo, e anda o mundo revoltadíssimo com a supernanny - incluíndo essas mãezinhas extremosas que, além de se venderem a elas, vendem os filhos também. Tudo quanto é blogger, youtuber, instagramer, merd-er, tem um código promocional. Não tarda nada e as faculdades do nosso país decidem abrir o curso de influencer. Isso ou as escolas primárias, porque se se empinar bem o cu e se souber fotografar as mamas no ângulo certo, até o quarto ano serve.

Cá estou eu: sete anos de blog e nunca me vendi a uma marca. Também nunca me tentaram comprar, que eu não sou uma menina bonita nem me tento auto-promover com outfits fancy para as marcas julgarem que sou uma boa parceira - na verdade, eu até sou mais de vos falar dos achados da feira ou do lidl, porque às zaras e às primarks desta vida qualquer um vai. Ninguém me paga para escrever, e eu também não me zango se ninguém ler - continuo a fazê-lo por puro amor à escrita, e não há dinheiro que me faça trocar a liberdade de ser quem me apetecer só para vos levar a comprar merdas em que nem eu acredito.

Isto sou eu - a velha do restelo, demasiado old school para esta era digital da estupidez.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

os filhos dos outros

Uma das (muitas) coisas que me fazem confusão é constatar que, hoje em dia, há miúdos da escola primária a ter explicação. Claro que não me refiro a crianças que tenham, de facto, problemas cognitivos, dificuldades de aprendizagem, you name it - há casos e casos. Mas não consigo entender isto.

Dir-me-ão que as coisas estão diferentes, mais complexas, do que no meu tempo, ainda que o meu tempo ainda me esteja fresco na memória, mas lembrem-se de que, quanto mais novos, mais predispostos a aprender estamos. Não conhecendo o programa atual, arriscar-me-ia a afirmar que nele não constará nada que uma criança, com idades compreendidas entre os 6 e os 9 anos, não possa aprender.

O problema é que vivemos a era dos facilitismos, da inteligência artificial, e dos paizinhos raivosos, os mesmos das festas de aniversário espampanantes, que são incapazes de compreender que o joão, que tem suficiente a tudo, é tão válido quanto a maria que enche o peito de orgulho dos progenitores porque leva uma pauta corrida a muito bom para casa. Para quê sobrecarregá-los ainda mais? Em nome de quê?

Não tenho algo contra explicações a isto ou àquilo - nos últimos anos de secundário, eu própria tive ajuda para tentar resgatar a matemática, mas não surtiu grande efeito.  Contudo, e correndo o risco de acharem este argumento inválido, eu acho que há diferenças entre ter-se essa ajuda extra no secundário ou na primária: tenho sérias dúvidas de que uma criança que, logo no segundo ano, deixa de tentar procurar respostas para as suas dúvidas por si próprio, que deixa de estudar sozinho, algum dia o chegue a fazer.

Talvez isto nem vos faça sentido, talvez eu não tenha razão - para mim, é mais do mesmo: pais a tentar comprar a educação, a atenção, a ajuda, que deveria existir de forma gratuita e, principalmente, por vaidade. É sempre melhor exibir um filho que é o melhor da turma, não importa a que preço, assim feitos à pressa como quem engorda o porco antes de o matar.

Isto digo eu, que nem sou mãe nem quero arrendar o útero nos próximos tempos.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

lógica

Gozava comigo na escola. Agora mete like em todas as minhas fotos.

(e a parte gira é que isto aplica-se a uns três ou quatro gajos.)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

nunca entendo

Há uns três ou quatro meses atrás, jurava a pés juntos que não queria mais homens nem relações sérias na vida dela. Hoje publicou uma foto de casal, de aliança no dedinho.
Está certo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

no meu tempo é que era bom, dizia a minha avó

Contactar com as crianças faz-me temer a procriação: old school no alto dos meus 22 anos, olho para os monstrinhos de hoje como se tivesse nascido há três séculos atrás. Eu já não percebo nada disto; chamem-me tacanha, mas faz-me confusão ver criaturinhas, que ainda só têm dois dentes na boca, a manobrar um smartphone melhor do que eu. Choca-me, por assim dizer.

Quanto mais o mundo avança, mais os pequenos cérebros estagnam. Ficam emperrados com tanta falta de uso: somos todos pela lei do menor esforço e pelas crias sossegadas, conectamos os putos à internet mal nascem, para que possam ter um facebook antes do cartão do cidadão. É mais fixe porque se pode usar filtros, o que dá muito jeito quando expulsamos um pequeno alien pelas partes baixas. 

São todos príncipes, claro. Fazem sessões de fotos incríveis, todos nus, dentro de cestos, em posições de yoga, essas coisas todas. Aquilo de ir ao fotógrafo lá da rua e tirar uma foto num tapete de pêlo é coisa do passado: agora quer-se é tirar fotos com uma produção ao nível das grandes estrelas. E nem assim o puto fica bonito. Ups.

Faz-me confusão, desculpem lá. Os miúdos são cada vez menos miúdos e mais nenucos; as mãezinhas raivosas vivem empenhadas em mostrar que têm a cria mais bonita, com a melhor sessão fotográfica - pelo preço de três ordenados mínimos - a festa de anos mais escandalosamente ridícula. E, claro, o que melhor dominar as tecnologias: 10 pontos para ligar ao pai antes dos dois anos, 15 por abrir o facebook, 50 se souber utilizar filtros e hashtags no instagram. Tudo para que estejam calados e não dêem trabalho.

Eu tenho pena. 
Cresci naquela altura em que, o único contacto com um computador, era uma aula de informática, de quinze em quinze dias, onde nos ensinavam a criar um email e a abrir o paint. Brincava na rua, sentava-me na terra. Falava sozinha, com as minhas bonecas, imaginava cenários, histórias. Pensava - é uma coisa que os mostrinhos mais novos sabem cada vez menos o que é, porque as brincadeiras lhes são servidas de bandeja. Ou de tablet.

É assustador. Mas, pior do que tudo, é que de nada me vale dizer que vou ser diferente - vai ser cada vez mais difícil criar miúdos como miúdos, e não como robots produzidos em massa. Vai ser cada vez mais difícil afastá-los desse mundo maravilhoso onde não têm de pensar muito - e eu bem posso tentar convencer-me de que vou ser diferente, mas não vou. 

Quando chegar a minha altura de ser uma mãezinha raivosa, vou ser igual às outras todas.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

tenham pena dos que me veem a correr de manhã

Para vocês, comuns mortais, chegar à parte estranha da internet é começarem a ouvir uma música dos queen e acabarem a assistir ao parto de uma ovelha preta, no youtube. Para mim, é estar a ver a receita de uns bolos de côco saudáveis e descobrir, da mesma youtuber, um vídeo da rotina matinal dela, onde a moça mostra a maquilhagem que faz para ter um ar mais saudável a treinar. Em casa.

(e uma pessoa verte duas ou três lágrimas de sofrimento ao constatar que a criatura faz uma maquilhagem mais elaborada para acabar ensopada em suor do que eu faço para sair)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

nem tudo foi mau

Desde que o somnii - ou sunset, para os amigos -  se mudou cá para a figueira, esta pessoa fez sempre questão de marcar presença a abanar o cu pelo areal, tirando o ano passado. E este ano lá estava a wild criatura outra vez, feliz e contente, a ser revistada duas vezes a cada entrada, qual criminosa, a esconder garrafitas de água como quem esconde droga - ainda assim, foram vistas e deixadas passar, aleluia! -, a passar horas em pé para o desespero desta coluna idosa que está, claramente, mais queixosa desde há dois anos atrás.

Fresca e fofa depois de ter passado a noite a trabalhar, fui para lá a tossir, em média, dezassete vezes por minuto, condição esta agravada pelo facto de estar constantemente a levar com o fumo dos que insistem em fumar quando estamos todos ensalsichados no meio de uma multidão aos saltos. Foi giro e correu tudo bem: contra todas as expectativas, consegui não cuspir nenhum pulmão. E, com sorte, contagiei uns quantos para verem o que é bom.

Agora, o que me fez alguma comichão foi olhar à volta e sentir-me velha. Palavra de honra: a maior parte das criaturinhas que desfilavam no meu campo de visão, a fumar e a beber, ainda não tinham pintelhos. Dançavam como se conhecessem cada música desde o útero o que, bem vistas as coisas, até nem é assim tão improvável. E eu ali: empurrão da direita, cotovelada da esquerda, pisadela sabe deus de onde, cheia de frio, de calças, sweat, encostada ao monsieur ao máximo a ver se me safava dali com vida, o ar de horror e a promessa secreta, uma vez mãe de filhos, só os deixar sair depois dos 18. Porra.

Cheguei a temer estar num concerto dos caricas, mas felizmente correu tudo bem - os miúdos deviam estar só a comemorar a positiva nas provas de aferição - isso ainda existe, não existe?

Quanto aos djs, já vi melhor a pagar bem menos. Tirando a tosse e as dores nas costas, senti-me quase a pessoa jovem que aparentemente deveria ser - e apesar do esforço hérculeo que tive de fazer para conseguir ser liberada durante o fim de semana para poder ir, apesar da desilusão por o festival em si não ter acompanhado a escalada no preço, fá-lo-ia outra vez. Mas só pela companhia.

(começo a parecer fofa e domável, socorro)

domingo, 2 de julho de 2017

bring the old times back

Quando vejo festas de aniversário temáticas para os putos, uma parte de mim morre e a outra quer suicidar-se: sou do tempo em que as festinhas de anos eram à volta de uma mesa cheia de bolos, sandes de queijo e fiambre em pão de forma cortado ao meio, perninhas de frango e mousse de chocolate. Jogavam às escondidas, à apanhada, ao quarto escuro, à mamã dá licença - corríamos na rua e fodíamos os joelhos no alcatrão. E isso era fixe.

Agora não há festas para os meninos sem que se pense numa personagem qualquer, sem palhaços, balões de hélio e insufláveis. A comida é uma mistura de gourmet com labrego, porque não há como negar as origens, mas pelo menos há sereias engarrafadas espalhadas pela mesa e passeios de pónei pelo jardim. Carinhas pintadas. Bolos tão elaborados que dá pena comer. Fogo de artifício, música ambiente, after party. 

Elucidem-me: isto é para os putos ou uma competição de mãezinhas raivosas?

quarta-feira, 19 de abril de 2017

cinderela aconselha

Se há coisa que eu não percebo é o que passará pela cabeça das pessoas que, tendo familiares hospitalizados, se dão ao trabalho de os ir visitar para os deixar ainda pior. A minha sugestão é esta: se não vão para os animar, fiquem em casa.

Este aconteceu no domingo, mas tenho mais uns quantos para exemplo: estava no quarto deste doente quando a tia dele chegou. Aproximou-se da cama, viu a mão ligada, após a amputação do dedo médio, e exclama:

- ai coitadinho... - logo aqui já dava vontade de lhe atirar com a cadeira às costas-  o dedo já foi! se não tens cuidado, a seguir vai o braço.

(tive de me meter)

- ó senhora, isso é lá coisa que se diga?
- então, é a verdade! a seguir fica sem o braço.

Em casa
Esta mulher devia ter ficado em casa. Ou isso ou ser muda - às vezes é melhor do que dizer estes disparates.

quinta-feira, 23 de março de 2017

o drama das cabeleireiras

Desde que a minha cabeleireira, a santa padroeira dos cabelos bonitos, o anjinho capilar, a mãe das cabeleireiras, fechou o salão, que eu e sô dona mommy experimentamos cabeleireiras que nem dois velhotes a correr de tasca em tasca à procura do melhor vinho - estou a exagerar. Ela foi a um salão e eu a outro - já conheço aquele onde ela foi e tenho motivos para não gostar. Tal como arranjei motivos para desgostar daquele onde sentei o cu hoje.

Mal me sentei, comecei a tremer por dentro. A mulher estava a terminar uma manicure e ia-me lançando um olhar de assassina volta e meia, sabe deus porquê - só me apetecia sair dali a correr agarrada à cabeleira, não fosse ela pegar na tesoura e cortar aleatoriamente.

Assumo que falhei: a ideia era pintar de castanho, a fim de deixar de pintar mas, quando a senhora me entrega o catálogo e diz "entretém-te" eu vi demasiadas cores a fazer luzir os meus olhinhos para conseguir pintar de castanho. Pedi-lhe que fizesse o que lhe apetecesse - verdade seja dita, escolheu bastante bem. Juntou dois tons, algures entre o laranja e o vermelho, e ficou bonito. Só foi pena ter-se esquecido de pintar a raiz numa madeixa de cabelo... na testa.

Portou-se bem: percebeu que as pontas são só as pontas, e não voltei para casa com o pescoço ao frio. Mas esse foi um dos poucos pontos positivos porque, durante as duas horas em que lá estive, ponderei espetar a tesoura na carótida: apareceu uma velha, não muito velha, que estacionou a peida lá e ficou a conversar. Aos gritos - soube que comeu uma maçã vermelha ontem e uma amarela hoje. Vou guardar essa informação com carinho.

Esteve lá durante mais de metade do tempo - e, quando achei que não podia piorar, a mulher foi embora e a cabeleireira decidiu virar-se para mim. Não sei o que me enervou mais: entre o facto de me ter tentado impinjir produtos e tratamentos capilares e o facto de me ter feito um trilião de perguntas às quais não me apetecia responder porque sou pouco dada a fofocas, ainda não fui capaz de decidir qual é que me fez ter a certeza de que não volto lá.

Tenho de procurar uma muda ou que faça os clientes esperar na rua. Uma que se limite a prestar o serviço que lhe vou pagar... e em condições, se não for incómodo.