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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

destes dias, destes tempos.

Há uma beleza mórbida em tudo o que nos está a acontecer - não é a primeira vez na história da humanidade, mas espero que seja a primeira e a última na história das nossas vidas, que temos esta sensação de união, de que todos tememos o mesmo. Com contornos diferentes, com posições diferentes, com medos diferentes, mas um bicho papão em comum.

Curiosamente, é neste momento em que estamos mais unidos que é imperativo que nos afastemos, que não podemos chorar nos ombros uns dos outros as mágoas comuns, que não podemos afagar as costas de quem também sente as nossas dores. Ou as próprias, mas incrivelmente semelhantes às nossas.

Desta vez, não estou confinada ao meu T1 minúsculo, a vaguear entre divisões sem saber muito bem em que dia da semana ou do mês é que vamos ou a que refeição pertence a taça de leite com cereais que estou a comer: agora eu saio de casa, semana sim, semana não, para trabalhar e sou obrigada a manter alguma sanidade no meio de toda a loucura mas, ainda assim, há momentos em que dou por mim a chorar, sem conseguir respirar. Tenho medo. Tenho todos os dias um bocadinho mais de medo.

Quase todas as pessoas mais importantes da minha vida são portadoras de alguma condição que as torna mais vulneráveis à partida - e, por esse mesmo motivo, temo que perdessem na luta por um ventilador. Temo que pudessem fazer parte do grupo daqueles que, lamentavelmente, ficam pelo caminho. E este pânico enrola-se no meu peito e não me dá um segundo de paz. 

Não visito os meus pais e os meus avós há semanas. Falo-lhes pelo telefone e desvalorizo a distância, como quem diz que o importante é estarmos todos vivos - mas desligo o telemóvel de lágrimas nos olhos: e se estiver a perder tempo? E se a distância que mantenho só me fizer perder tempo com eles? Se contraírem o vírus nos empregos ou nas compras, ou se qualquer outra coisa acontecer - e se os perder? E se estiver semanas sem os ver e no fim não me sobrar nada?

Acredito que sejam os medos de todos mas nem por isso me sinto menos angustiada com os meus - também há uma certa dose de egoísmo nesta união perversa, e um ódio crescente por todos aqueles que continuam a desrespeitar as regras e a agir como se nada fosse, colocando em risco os que já perceberam que é a sério. Que se estão a perder vidas todos os dias que não teriam de se perder - quer das covid, que parecem ser o centro dos nossos dias, quer das não-covid, que acontecem quando não tinham de acontecer por falta de assistência. Por falta de tempo e de meios.

É a sério - e não, não vamos todos morrer, mas vamos todos perder pessoas se alguns seres iluminados não perceberem entretanto o que está a acontecer. 

Protejam-se e, sobretudo, tenham juízo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

o post que vocês vão mostrar às vossas amigas grávidas

Eu não sei quando a vocês mas, no último ano, de cada vez que ouvi falar na taxa de natalidade baixa, tive vontade de ligar (não sei para quem, não levei o plano tão longe assim) para começar a denunciar uns quantos bebés que, para continuarem a dizer que não há crias a nascer em Portugal, só podem não estar declarados. Uma espécie de mercado negro de bebés, tipo "pari mas o governo não sabe", que ainda está sob a minha investigação atenta.

É que o povo anda todo de barriga cheia! As que não estão grávidas, é porque já expeliram a criança, e as outras que não se enquadram numa categoria nem na outra, é porque ainda não fizeram o teste - como é óbvio, eu estou só a fazer de detetive e não vou dar o meu contributo para a natalidade tão cedo.

Portanto, isto leva-nos a um problema óbvio: só se fala em bebés por todo o lado. Já estamos todos fartinhos de papas cerelac e promoções da dodot no feed de tudo quanto é rede social, e isto é  meio chato porque começa a dar uma certa vontade de desamigar as pessoas quando já damos por nós a passar a mão na própria barriga só de tanto ler sobre gravidez.

Para vos ajudar, decidi escrever uma lista com as coisas que as grávidas deste planeta precisam de saber.

1 - todos sabemos que as crianças passam 9 meses na barriga da mãe, portanto não é necessário um lembrete diário de que que têm a cria no bucho - a não ser que, por qualquer motivo, a criança tenha migrado para uma perna ou coisa que o valha, nós vamos saber exatamente onde ela está só de saber que estão no estado de graça;

2 - quando alguém - no caso, eu - pergunta de quanto tempo estão, respondam em MESES, repito, ME-SES, que essa cena das 23 semanas é muito gira mas eu chumbei a matemática;

3 - não façam de conta de que a gravidez é só fantástica e maravilhosa - ao invés de frases feitas e imagens pirosas, façam posts sobre as noites sem dormir, os enjoos, as hemorróidas, a incontinência, etc, que pelo menos sempre torna a coisa um bocadinho mais educativa e - quem sabe? - atua como método contracetivo nas não-prenhas;

4 - se já eram pequenas orcas antes de engravidarem, não usem a cria como desculpa para parecerem duas grávidas numa;

5 - só meto gosto na tua publicação na página da dodot se jurares a pés juntos que fazes o mesmo na durex;

6 - tens uma criança na barriga, ok, fixe - mas isso não te dá equivalência a um mestrado em maternidade avançada e continuas a não ter voto na matéria na educação dos filhos dos outros. Faz o melhor que puderes com a tua, educa-a o melhor que souberes, mas não te aches um ser superior só porque fizeste xixi num pauzinho e deu positivo;

7 - ainda bem que achaste que era o momento certo para procriares, mas isso não faz de ti a proprietária do útero das outras e portanto não o tentes arrendar por elas - não, nem todas as tuas amigas te querem seguir os passos, e não, nem todas estão ansiosas para ter a roupa bolsada, lida com isso;  

8 - faz um bocadinho de confusão imaginar-te a manejar um recém nascido com 5 cm de unhas-garra bicudas e cheias de berloques gigantes e saídos - tipo coroas e laços e merdas do género - mas uma pessoa tenta nem se meter (corta essa merda antes que tires uma vista a alguém).

Se tiverem mais alguma sugestão para fazer às grávidas vossas conhecidas, sintam-se à vontade para partilhar e acrescentamos a esta lista. Parecendo que não, isto é serviço público.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

cinderela, a benanosa - take 2

Ainda só vamos no segundo dia do ano, e eu já tomei uma decisão importante e inovadora, que irá mudar toda a educação das minhas futuras crias: sempre que não quiserem comer a sopa, que fizerem uma birra descomunal, que não me deixarem dormir, não as vou ameaçar com a história do papão. Vou dizer-lhes que, se não se comportarem, o pai vai começar a usar aquilo a que a malta fancy chama man bun, mas que para mim é só azeite mesmo.

E porquê? 
Porque estamos em 2019 e hoje eu cruzei-me com um destes aspirantes a teletubbie da loja dos chineses.

A cinderela explica: se fores um gajo e tiveres uma cabeleira farta, podes prender o cabelo. Se fores um gajo e tiveres menos cabelo na mona do que a madonna tem nos sovacos, vais ficar só ridículo. É mais ou menos como quando as mães têm monstrinhas de berço quase carecas e lhe tentam fazer aquela palmeirita no alto da pinha, onde só se vê o elástico com dois ou três fiozitos de cabelo a tentar resistir à pressão - só que, no caso das crianças, até pode ficar mais ou menos fofinho.

No vosso, não. 
That's not how you'll get laid.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

cinderela ensina #1 - o verniz

Sendo eu uma referência para todos vocês no que à moda e beleza diz respeito, não faz qualquer tipo de sentido não vos transmitir os meus vastos conhecimentos nesta área. 
Para primeiro tutorial, achei que poderíamos começar pelas unhas, essenciais na arte de catar piolhos, coçar picadas de mosquito até fazer ferida, apanhar agulhas do chão, espremer borbulhas, and so on. Que ninguém duvide de que as unhas de uma mulher são um autêntico canivete suiço, e merecem ser mimadas como tal.

Se algum destes passos falhar, não quero que se sintam frustradas. Lembrem-se de que demorei muitos anos a aperfeiçoar a técnica até chegar ao que hoje vos ensino.
Vamos começar!

1º passo
A escolha. 

Deixo com vocês: há toda uma panóplia de vernizes à escolha, com os mais variados preços. Compreendo que gente pelintra possa optar por algo mais acessível, mas eu não abdico dos meus ricos cien, como pessoa endinheirada que sou. Nem todos temos tantas posses; deixo com vocês!


2º passo
A preparação.

Escolhido o verniz, está na hora de relaxar e alinhar os chakras. Nunca inicio este processo sem ter, no mínimo, três semanas livres pela frente, para poder fazer isto com calma. O meu conselho é meditar, pelo menos, meia hora.
Às vezes tento fazer um bocadinho de yoga também. Ando a tentar treinar-me para entrançar o cabelo com os pés, enquanto espero que o verniz das mãos seque.

3º passo
O ataque.

Começa sempre com o grito do ipiranga, por nenhum motivo em particular. Nesta fase, vocês têm de se sentir seguras da borrada que estão prestes a fazer. Vão com tudo, migas!
*inserir uma espécie de palminhas com os dedos, voz estridente e sorriso retardado*
Peguem no pincel que quiserem. Pessoalmente, prefiro aqueles que cobrem toda a unha - ou toda a mão mesmo - numa só passagem, mas ninguém é obrigada a ter uma trincha em casa! Uma dica super importante e que revolucionou por completo a minha vida é esta: não se preocupem em pintar dentro das linhas. A escola primária já lá vai, e essa competição ridícula também: usem e abusem. Até porque o verniz sai muito bem da pele, quaisquer 3 mesitos devem chegar.

4º passo
A seca.

Este é o ponto crucial. A seca do verniz e a seca que vocês apanham.
O conselho da tia Cinderela é que se coloquem naquela posição de cãozinho a pedir festas na barriga, dedos alargados como se fossem um pato e tivessem uma membrana interdigital a separá-los, e muita fé nessa hora. Se possível, fiquem assim por três horas, mais coisa menos coisa. Talvez seja o suficiente.

5º passo
A desgraça.

Eu sei, vocês sabem, todos nós sabemos. Vai haver uma ida à casa de banho de emergência, alguém vai tocar à campainha, vão receber uma chamada, o gato vai ficar com a unha presa no tapete, vai ficar frio, ou calor, e vão ter de fazer a dancinha do casaco, vai cair um avião na casa ao lado, o bruno de carvalho vai, finalmente demitir-se, ou tudo isto ao mesmo tempo. Nunca se sabe muito bem o que será, mas é certo e sabido que alguma coisa terá de ocorrer.
Vão levantar-se de repente e, num gesto imponderado, vão confiar demasiado na alegada rapidez do verniz a secar, e vão estragar tudo. Talvez seja só uma unha, talvez quatro, talvez todas.
Vão olhar para elas. Elas não vão olhar para vocês, mas faz de conta. Vão perceber tudo naquele momento: todo o trabalho, todo o tempo perdido, todo o verniz gasto, foi em vão.

6º passo
A depressão.

Ainda não é tempo de quebrar: sejam corajosas. Peguem no vosso removedor de verniz favorito, no algodão, e livrem-se daquela vergonha. Se tiverem seguido o conselho da trincha, talvez vos poupe tempo despejar o frasco num pano de cozinha e tentar salvar as mãos. Vocês conseguem!
Quando se livrarem das manápulas de avatar, cortem as unhas curtas, enrolem-se ao cantinho e permitam-se a chorar com as mesmas mãos de maria saloia do costume.

Repitam o processo dentro de 6 meses, ou quando reunirem a coragem necessária para passar por tudo isto novamente.
Boa sorte!

terça-feira, 19 de junho de 2018

agora já posso voltar a entrar no coche

Dizia eu, há uns tempos, que tenho uma certa dificuldade em lembrar-me de meter creme nos pés, e é mesmo esta a verdade - enquanto no resto do corpo é só preguiça, dos pés eu só me lembro quando olho para eles e percebo que não há sandália que ponha estes cascos a parecer apresentáveis.

Ora, eu não saí agora da gruta, a pessoa sabia da existência da dr scholls, mas tinha pouca fé de que fosse muito mais eficiente do que aquela lima e a cena que parece um ralador que eu utilizo sempre que me cai a ficha e eu tento ter um pézinho mais parecido com o da cinderela, e menos com o do cavalo. Portanto, gastar dinheiro nessas cenas, 'tá quieto!

E quem é que entra agora para salvar a princesa em apuros? Isso mesmo: o lidl. O lidl e aquele corredor do meio que é uma espécie de salva vidas da malta pobre, fã número um de cenas baratinhas e com qualidade. Tal como eu.

Imagino que os funcionários do lidl, mais do que habituados a ver-me desfilar o fat ass por aqueles corredores, tenham metido uma cunha - antes que eu lá fosse à procura de duas ferraduras - para que lá, no corredor central, aquele da perdição, se tenham lembrado de vender uma lima elétrica - suficientemente barata para que, depois de alguma pesquisa, a pessoa tenha decidido que valia o risco de gastar dez euros. É possível que já tenha estado em promoção antes e eu não tenha dado importância, ou tenha fingido que não vi porque, como já se sabe, gosto pouco de gastar dinheiro.

Isto tudo para dizer que a dita lima funciona muito bem, que fez aqui um pequeno milagre em poucos segundos e eu estou genuinamente satisfeita com o resultado. Não conheço os resultados da outra, da lima com pedigree, mas esta rafeirita vale muito a pena - e não, o lidl não me paga para dizer estas coisas mas, se quiser, aceito bem o pagamento em gelado de doce de leite.

terça-feira, 6 de março de 2018

cinderela, a insuportável

Falei-vos, há uns tempos, da minha obsessão pelo meu peso - não vamos fingir que isso é algo positivo, porque não é. Atualmente, estou com o meu peso mais baixo em muitos anos, e continuo descontente - não faço ideia quando passei por este número na minha escalada para a obesidade mas, tendo em conta que tenho esta altura desde os meus 12, 13 anos e fui sempre gorda, diria que devia ter uns 10 ou 11 anos na última vez que a balança me indicou este valor. E não irei falar em números, para já. Um dia, lá chegaremos.

Contudo, este post não é sobre os meus problemas com o meu corpo - é mais um ataque de o rei vai nu, uma vez que ultimamente tenho lido e visto bastantes vídeos acerca do assunto, e deparei-me com outra realidade. Parece que, no extremo oposto dos padrões impostos pela sociedade, vive a brigada da aceitação. 

Espera lá... como assim? O quê?!

É que, enquanto de um lado do mundo vivem todos os que querem fazer passar a ideia de que nunca estaremos totalmente bem até nos conseguirmos enfiar numas calças 34 e conseguir continuar a respirar, do outro lado estão os que dizem que ninguém tem nada a ver com os corpos dos outros, que o importante é termos a capacidade de nos aceitarmos, que não faz mal se vestimos o 62 e precisamos de ocupar dois lugares no autocarro. E isto, meus caros, é absurdo.

Tudo bem, o corpo é vosso: tatuem uma pila na testa e perguntem-me se eu me importo. Agora, não me venham dizer que não há algo de errado convosco e que estão muito felizes com o vosso corpo quando têm de usar uma mão para levantar a barriga quando querem lavar a xaroca (adoro o termo, lidem com isso). Porque eu também vi isto: gente (muito) gorda a dizer que está feliz e bem resolvida com o corpo que tem. Ótimo, ainda bem! O único inconveniente é que, no caso de ninguém reparar, ser gordo, ser obeso, traz problemas bem maiores do que o drama estético da coisa.

Cinderela, sua falsa, pessoas fit também adoecem!
Claro que sim. E, imaginem só, também morrem! A questão aqui é que isto nunca deveria ser usado como argumento para não se fazer algo pela nossa saúde. Há gente gorda mais saudável do que gente magra? Há, sim! Eu fui uma delas, durante algum tempo: ao contrário de algumas colegas esqueléticas, estava tudo bem comigo. Ou, pelo menos, eu achava que estava, até ter ficado sem a vesícula aos 20 anos e ter, finalmente, percebido isto: estamos todos sujeitos a determinadas doenças, e ser magro não é sinónimo de nos tornarmos imunes, mas ser obeso há de sempre, sempre, trazer consequências a longo prazo. Para quê sujeitarmo-nos a isso? Não nos bastam as doenças que não nos dão opção de escolha? 

O mais aborrecido nos gordos é que as nossas desculpas são universais: ai, que até o ar me engorda, ai que não consigo emagrecer. Gente, eu disse isto durante anos a fio! Achava mesmo que tinha uma tendência natural para a engorda e que estes quilos não me saíam de cima por nada deste mundo. E sabem o que descobri também? Bem... era mentira. Eu é que não estava a tentar o suficiente; assim que os problemas de saúde me obrigaram a parar de comer tudo o que me apetecia, eu perdi peso sem dramas. Sem dietas loucas, sem batidos de repolho com beterraba, sem comprimidos mágicos. Na verdade, eu nem engordo assim com tanta facilidade - e, quando tento, quando me esforço, perco peso bem rápido.

Sou magra? Não. Ainda estou a meia dúzia de quilos do peso que quero porque, apesar de ter parado a dieta quando cheguei a um peso em que me sentia bem, há mais de um ano atrás, atualmente esse número já não me serve e eu preciso de perder mais. Ainda assim, toda esta experiência abriu-me os olhos: o importante é ter saúde, como diz a minha avó. E aceitarem-se, sim, mas não se acomodarem num peso que não vos faz felizes e que vos trará dissabores a longo prazo.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

mesa para dois

Tenho visto por aí muitas publicações a falar do dia dos namorados, do outfit ideal, da maquilhagem ideal, da prenda ideal, and so on. Lembrei-me de dar a minha colherada também, que isto nem era dia se eu não viesse aqui dizer que não gosto.

Apesar de uns momentos pirosíssimos amiúde, não somos propriamente lamechas - eu sei, eu sei: ninguém o diria, dado que 50% do casal ocupa os tempos livres a escrever textinhos pseudo-românticos e foficoisos, mas prometo que ao vivo somos mais fixes do que isto.

Ora, este é o nosso primeiro dia dos namorados juntos, a não ser que ele se lembre de me mandar pastar hoje ou amanhã, o que, vá-se lá saber porquê, coincide com a primeira vez em que eu tenho um valentim* comigo - que, graças a deus, não se chama valentim. Portanto, a pessoa está toda louca e mortinha por comemorar, certooooooo?

Errado.
Parece-me importante referir que me enche de orgulho confirmar que, afinal, não era uma dose de recalque e duas de dor de corno que me faziam revirar tanto os olhitos nos últimos 21 dias dos namorados, por não ter um tchutchuzinho com quem fazer um facebook de casal. É só mau feitio mesmo.

Não vou fazer de conta de que estou zangada por ir ver o meu rapaz a meio da semana, coisa que, infelizmente, só acontece de longe a longe - mas sem velas, balões ou ursinhos a dizer i love you. Confesso-me medianamente assustada com a perspetiva de sair de casa nesse dia, ou vá, noite, e ter de assistir a endoscopias, feitas com a língua, no meio da rua, pedidos de casamento, surpresas escandalosas, sabe deus. Ou nem deus sabe, que até tapa os olhitos para não ver.

É dia dos namorados mas, tal como nos restantes 364 dias, a pessoa só quer encher o bandulho sem outras declarações de amor que não as de todos os dias, daquelas que muitas vezes nem precisam de ser faladas. Basta-me a companhia, basta-me o carinho, bastam-me os gestos mais simples e a certeza de que afinal sempre estava certa a minha avó quando dizia que, quando deus faz uma panela, faz logo um testo para ela - afinal não sou uma frigideira, yay!

Aproveitem o amor sem preços, sem competições para ver quem dá o melhor presente, quem faz a maior surpresa só porque o mundo decidiu que a 14 de fevereiro é dia de estourar o ordenado para mostrar que se ama alguém. 

Estamos cá todos os dias e qualquer outro dia é um excelente dia para surpresas e comemorações que, além de ficarem muito mais baratas, quando não feitas todas ao mesmo tempo, tornam o mundo um local muito mais suportável. Sejam felizes, pá! 
(e preservem a língua dentro das vossas bocas em público.)

*somos todos traduções manhosas

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

(mas se me quiserem pagar, gente do lidl, aceito contribuições monetárias)

Ao contrário da maior parte do mulherio, esta lontra não ficou com o pito aos saltos quando farejou a black friday e, não, não arrastou o fat ass para o shopping. Também não gastei o equivalente a três ordenados mínimos em compras online - não comprei nada, basicamente. Desculpem lá o desgosto, mas esta cinderela é pobre e forreta.

Ora, e estou a dizer-vos isto para quê? Para que vos seja mais fácil situarem-me no mundo da moda e para me tornar numa fashion blogger interessante e credível. Ou porque se deu um milagre de deus nosso senhor e a pessoa sente necessidade de partilhar estas coisas. Foi hoje.

Fui ao lidl, numa correria desenfreada pelo balde de iogurte grego, armada em bolt nos corredores, mortinha para chegar a casa e poder sentir-me, finalmente, livre de perigo de entrar em hipotermia a qualquer momento. E, portanto, esbarrei nelas.

Em boa verdade, já as tinha visto no folheto, tinha gostado mas não tinha sequer decorado a data da promoção - erro crasso. Eu, a fã número 1 do lidl. Eu, a pobretona que se veste num supermercado - não literalmente, calma -, quase perdi A Oportunidade.

Vi um monte de calças de ganga, e estas lá perdidas. Eram as últimas - não havia mais nenhumas assim, com aquelas flores pirosas de que só as pessoas pirosas, como eu, gostam. Agarrei-as; foda-se. Um número abaixo do meu. Foda-se, foda-se, foda-se. 

Portanto, fiz o óbvio: comprei-as, não fosse o diabo tecê-las. 
Serviram-me na perfeição.
(deus, és tu?)

É preciso que se note que há já bastante tempo que queria umas do género mas ainda não tinha encontrado umas que me agradassem tanto a vista quanto a carteira. Estas custaram 11,99€ e, se dúvidas houver, fique claro que, infelizmente, o lidl não me paga para vos dizer estas coisas bonitas - é serviço público, porque eu sou boa pessoa e acredito que a minha avareza tem par neste mundo.

Falando a sério, serve este post para quebrar algum preconceito que ainda possa existir. Tenho várias peças de roupa compradas lá, todas usadas com bastante frequência (porque gente pobre não tem uma toilette para cada dia do ano), e a única que se estragou, até à data, foi a blusa mais gira de sempre que esta criatura queimou com o ferro. Yup.

Resumindo, a relação qualidade-preço da roupa é bastante boa. Pelo menos para mim.
Contudo, ainda não os perdoei por terem acabado com o pão de alho.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

o meu lado de gustavo santos

É engraçado.
Vivemos a dizer aos outros que nada é para sempre, que o que temos de mais certo na vida é a mudança constante, mas esperamos sempre que a nossa se comporte como uma menina de bem e siga em linha reta, tal como nos nossos planos. Ah, mas a vida, essa filha da puta... ela gosta mesmo é de nos baralhar as ideias.

Foi o que aconteceu comigo.
Em meia dúzia de meses, vi um par de sonhos a ir por água abaixo - não por se terem tornado, de repente, inconcretizáveis, mas porque deixaram de se enquadrar e de fazer sentido naquilo que percebi ser o que eu mais queria para mim. Lá está: nada é estático, nem mesmo esses desejos empoeirados dos quais jurámos a pés juntos que nunca nos iríamos desfazer mas, aí, tudo muda.

E depois?
Depois é um susto do caraças. Acho que continuo ligeiramente assustada, para vos ser franca: passar a vida toda a achar que se sabe perfeitamente o que se quer para, de repente, perder o pé e não se fazer ideia de para onde se está a ir, dá medo. Acredito que não estejamos sozinhos: no fundo, ninguém tem respostas concretas nem certezas definitivas, mas estamos todos mais ou menos convencidos de que o certo é aceitar uma qualquer verdade como sendo a absoluta e levá-la connosco ao longo dos anos. Eu não estava para isso.

Fechei portas que pensei que quereria sempre abertas de par em par; hesitei na hora de meter a mão na maçaneta, mas depois puxei-as com força. É precisa uma boa dose de coragem para cometer um par de loucuras em prol da felicidade. Mas lá está: é preciso. É imperativo que se lute sempre pelo que nos faz mais felizes, e não deixar que as vozes de um povo, que se quer eternamente sofredor, nos façam desistir: é verdade que é tudo muito difícil, mas não é por isso que temos de sorrir e acenar a condições que nos matam aos poucos. Não nascemos todos para ser a maria amélia a quem nada na vida agrada. Às vezes, as pessoas querem mesmo fazer algo por si: deixem-nas ir. Não sejam mal fodidos e aceitem que há quem não goste de choramingar pelos cantos.

E agora estou aqui.
Meio perdida, mas mais que salva da vida que planeei para mim mesma numa fase em que acho que não queria realmente viver; às vezes ainda tenho medo dos sítios onde o futuro me pode levar. Outras, apetece-me abraçar essa incerteza com toda a alegria de quem fugiu da previsibilidade dos dias arrastados: caramba, eu posso ir a qualquer lugar, posso ser qualquer coisa. Para quê ser outra coisa que não estupidamente feliz?

Tive medo. 
Tive muito medo ao início, mas ainda não senti o mais leve arrependimento. Vale a pena correr riscos, alforrecas. Vale a pena lutar por dias melhores, vale a pena não se conformarem ainda que pareça mais seguro e confortável não dizer nada e continuar infeliz - e, se está tudo a preto e branco, o melhor é pintar com outras cores. Só para complicar. E para ficar mais bonito.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

porquê?

Não consigo entender aquela mania dos casais dizerem estamos grávidos! Tenho uma novidade: ela está. Vocês, machos alpha, não estão - e, lá porque fizeram um depósito de esperma, ninguém vos garante que a moça não vai fugir com o pote sagrado e a vossa cria lá dentro.

Deixem-se disso, vá.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

cuidado com a escolha de palavras

Li um anúncio de emprego de uma senhora que se oferece para limpar, cozinhar e passar a ferro.

Estou a ponderar ligar-lhe. É raro, hoje em dia, encontrar pessoas tão generosas.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

cinderela aconselha

Se há coisa que eu não percebo é o que passará pela cabeça das pessoas que, tendo familiares hospitalizados, se dão ao trabalho de os ir visitar para os deixar ainda pior. A minha sugestão é esta: se não vão para os animar, fiquem em casa.

Este aconteceu no domingo, mas tenho mais uns quantos para exemplo: estava no quarto deste doente quando a tia dele chegou. Aproximou-se da cama, viu a mão ligada, após a amputação do dedo médio, e exclama:

- ai coitadinho... - logo aqui já dava vontade de lhe atirar com a cadeira às costas-  o dedo já foi! se não tens cuidado, a seguir vai o braço.

(tive de me meter)

- ó senhora, isso é lá coisa que se diga?
- então, é a verdade! a seguir fica sem o braço.

Em casa
Esta mulher devia ter ficado em casa. Ou isso ou ser muda - às vezes é melhor do que dizer estes disparates.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

pequeno tutorial sobre o que não publicar no facebook se quiserem provar quem têm um QI acima dos 20

A única altura das vossas vidas em que as indiretas são engraçadas e mais ou menos aceitáveis é quando vocês têm 11 anos e estão a usar o hi5 pela primeira vez. Depois disso são só ridículas.

Nunca entendi a piada de terem o mural do fb cheio de imagens brasileiras manhosas e descrições escritas pelos donos do fb em questão, descrições começadas, preferencialmente, por há pessoas que...

Há pessoas que deviam ter vergonha na cara; 
Há pessoas que deviam trabalhar mais; 
Há pessoas mesmo burras.

E há, que as há - mas a verdade é que este tipo de discussões, mais ainda quando não passam de monólogos facebookianos, fazem todo o sentido... mas, entretanto, a pessoa passa para o nono ano e começa a parecer um bocado mal tanta pequenez de espírito.

O que me assusta é isto partir de gente adulta - gente que, com idade para ter juízo, continua a preferir este meio para atingir  terceiros: se precisam de dizer alguma coisa a alguém, façam jus à idade que têm e digam diretamente - expliquem o problema, digam o que vos desagrada, repitam-no três mil e oitocentas vezes, se for preciso, até que haja um consenso. Ou, mesmo que não haja, safoda - mas não finjam que está tudo bem se depois vão encher as redes sociais com indiretas ridículas e infantis. Isso não vos torna fortes, não vos torna fixes - acaba com toda a credibilidade que poderiam ter, arruma-vos toda a razão numa gaveta funda e, se as pessoas forem como eu, ficam à beira de ver uma amizade encerrada com um bloqueio. 

Não há pachorra para revolucionários de sofá e muito menos para gente que, sentindo-se no direito de opinar sobre a vida alheia, gasta o seu tempo a escrever indiretas achando que engrandece dessa forma. Pelo contrário... tornam-se cada vez mais insignificantes. Cada vez mais desprezíveis.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

cinderela, a benanosa

Entendo os pais que decidem não publicar fotos das crias nas redes sociais - o que eu nunca vou entender é aqueles que acabam a fazê-lo, a partir de certa idade, porque já acham seguro.

Vamos lá ver uma coisa: a probabilidade de raptarem uma criatura que já anda, come e fala - além de ir à casa de banho sozinha - é maior do que raptarem um monstrinho de berço que só come e dorme, além de parecer um alien deixado na Terra por engano. Portanto, a não ser que o que vos leva a não partilhar a tromba da criança mal nasce seja uma certa compaixão por quem dispensa ver uma cara de joelho amarelada, não adianta esconderem nos primeiros tempos para depois publicarem fotos da cria de dois em dois minutos, já lavadinha e passada a ferro, com um ar mais apresentável.

a tia cinderela também dá conselhos

Se pediram desculpa a alguém, tentem não fazer exatamente a mesma merda a seguir; a pessoa vai ficar dividida entre a hipótese de vocês estarem só a gozar com a cara dela e a de vocês serem só uns perfeitos otários.

Either way, não acaba bem.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

serviço público - parte 2

No seguimento do post anterior, tenho mais um conjunto de questões que devem ser esclarecidas antes de se juntar os trapinhos com um qualquer ser do sexo masculino, baseadas nas minhas experiências pouco felizes.

Garantam que o tipo é dos que faz piscas nas rotundas.
Esta é fácil de perceber. Vocês não vão querer estar com uma das (muitas) pessoas a quem desejam uma caganeira descomunal todos os dias, muito menos vão querer viver com ela.

Mostrem-lhe um pêssego e um alperce, e perguntem se sabe o que é.
Se ele disser que os alperces são pêssegos pequeninos e insistir que é ridículo darem-lhes designações diferentes porque, por exemplo, uma laranja é sempre uma laranja, independentemente do tamanho, tentem enfiá-lo no útero da mãezinha dele o mais depressa possível. E, pelo sim e pelo não, falem-lhes das tangerinas e das clementinas, não vá o diabo tecê-las.

Dêem-lhe coca cola e pepsi, sem ele saber.
Se não notar diferença no sabor e disser que quem distingue a coca cola da pepsi está a mentir, este também poderá ser um sinal de alerta. No entanto, se forem mesmo más cozinheiras, esta deficiência das papilas gustativas poderá jogar a vosso favor.

Como quem não quer a coisa, dêem a ideia de criarem um facebook de casal e trocarem alianças.
Se ele disser que sim, corram como se a vossa vida dependesse disso. Não queiram que o pai dos vossos filhos seja o gajo que guarda quatro alianças correspondentes a cada ex namorada. Todas elas compradas nos chinesses - as alianças e, eventualmente, as gajas. Não queiram.

Assegurem-se de que ele é capaz de matar centopeias e aranhas, e não se chateia convosco por o acordarem às três da manhã para chacinar bichos incómodos, só porque sim.
Alguém tem de o fazer, não é? E ninguém dorme descansado com uma centopeia na parede a observar.

Investiguem o passado. 
Não há nada como estar na posse de todas as informações úteis acerca da pessoa que se deita ao vosso lado, ou em cima de vocês. É importante garantir que não é um presumivel traficante de orgãos, capaz de aproveitar o vosso sono de beleza para vos extrair uma peça ou duas.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

serviço público

A cinderela tem má fama mas até sabe ser amiga - como prova disso e em honra da minha vasta experiência em fracassos sentimentais, decidi elaborar um manual de instruções para a procura do tipo ideal, baseado em situações mais ou menos caricatas que me aconteceram ao longo dos tempos.

Perguntem-lhe se gosta de gatos.
Têm de garantir que o tipo gosta de bichinhos ainda antes do primeiro encontro, especialmente se estiverem há tanto tempo quanto eu à espera para poder ter um. A relação não pode avançar se não tiverem a certeza de que o gajo vos vai deixar ter um gato.
Além disso, quando ele vos deixar e vocês virarem cat ladies, é melhor que ele goste de gatos. Vai parecer-lhe menos mau que vocês vivam com 27.

Assegurem-se de que o rapaz sabe que não tem ovários.
Ou, se forem azaradas como eu e tiverem uma queda por gajos conas, assegurem-se de que ele não os tem mesmo. Há alturas em que começamos a duvidar disso também.

Expliquem-lhe que só os homens é que têm próstata, e que as mulheres também têm pâncreas.
Pessoalmente, também acho que deus não pensou bem a coisa. Isto de fazer homens e mulheres com orgãos diferentes estava-se mesmo a ver que ia dar confusão. Especialmente quando se é demasiado limitado para entender quem é que tem o quê.

Questionem-no sobre o nome daquele buraquinho que ele tem na barriga.
Se disser que é o embigo, fujam daí e vão a fátima para se purificarem de tal maldição.

Entendam que eles são tão ou mais estúpidos do que nós.
Às vezes um segue-em-frente-porque-eu-já-não-gosto-de-ti-e-só-quero-ser-teu-amigo é mesmo sinónimo de atreve-te-a-andar-engalfenhada-noutro-e-vais-ver-se-não-amuo-e-deixo-de-te-falar-do-nada. 

Aceitem que eles vão continuar a fugir de conversas sérias que nem o diabo foge da cruz.
Se começarem a ver na senhora do voicemail um ombro amigo e acharem que ela está prestes a tratar-vos por tu e a perguntar como estão, é porque o tipo continua com demasiado medo de vocês e ainda não está pronto para conversar. Não importa. 
Mostrem-lhe que são raça-gaja e insistam, já nem tanto pela resposta mas só para ele ver o que é ter colhões e odiar covardes.

Mostrem-lhe os cantos da suite presidencial na friendzone.
Infelizmente, nem sempre um não-sinto-nada-por-ti surte o efeito desejado. Às vezes é mesmo preciso mostrar-lhes que estão instalados num excelente sítio, do qual não vão sair. E, ainda assim, nem sempre é suficiente também e continuam a lutar para ver se escapam. Epá... não.

Espero ter sido suficientemente elucidativa e que os meus ensinamentos vos ajudem no futuro. Se não ajudarem... aguentem-se. Eu passei pelo mesmo.

sábado, 29 de outubro de 2016

vinte e nove de outubro de dois mil e dezasseis

Mais depressa desce jesus, em pessoa, dos céus para dar uns açoites nuns quantos do que os gajos percebem que aquela conversa de ah, eu até costumo ter problemas com as miúdas porque tenho a pila demasiado grande não cola.

A sério, atentem: NÃO COLA. NÃO PEGA. NÃO ATRAI.
Se estão a falar com alguém, tentem ser mais do que aquela pendureza minúscula que guardam nos boxers. Tentem ser interessantes, sinceros, engraçados. Tentem usar a cabeça de cima e, acreditem, o tamanho deixa mesmo de importar.

Se começam logo a insinuar que são portadores de um adamastor... 


segunda-feira, 16 de maio de 2016

a sério

Se querem um conselho honesto e se tencionam, sinceramente, evitar provocar o ódio nos outros, nunca tentem dar lições de moral a alguém que está a perder uma pessoa que lhe é (muito) querida, com o típico ah, isso faz parte da vida, é mesmo assim, tens de ser forte!

Sim, faz parte da vida. E sim, eventualmente, a pessoa vai ter de ganhar forças para seguir em frente. Mas isso não faz com que doa menos, quando é dos nossos que estamos a falar; vão-se foder. Nunca queremos perder um dos nossos pilares, nem que eles estejam prestes a completar 290 anos; são os nossos, ponto.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

ou é do mau feitio ou da sinceridade bruta

A regra número um do código de conduta para uma convivência razoavelmente tolerável entre dois seres humanos devia ser, a meu ver, a proibição de fazer perguntas desnecessárias para as quais não se quer resposta. E, entenda-se, não estou a falar das habituais perguntas retóricas que todos fazemos em algum momento, tipo «quando é que eu fico rica?», ou «quando é que este gajo deixa de ser um conas?», porque todos sabemos a resposta: nunca.

Refiro-me àquela necessidade portuguesíssima de fingir que queremos mesmo saber como é que vai a vida de uma tia que só cumprimentámos para não sermos excomungados: o típico «olá, tudo bem?», proferido enquanto se caminha sem parar e se força um sorriso que só se assemelha ao que usamos quando estamos em público, rodeada de mocinhos apetecíveis, e de repente aparece uma crise de gases que nos deixa a comprimir os glúteos um contra o outro como se estivéssemos a tentar segurar a paz, a saúde e o amor de toda a humanidade. 

Esse tipo de perguntas. Vocês cruzam-se com a pessoa na rua, perguntam se está tudo bem e continuam a andar; vão convencidos de que fizeram a coisa certa e ficam muito contentinhos, mas a verdade é que a pessoa fica ali, sozinha, portuguesíssima que só ela e com todo um rol de desastres para contar: são as contas para pagar, a subida do preço dos combustíveis, o furúnculo no sovaco, a candidíase da avó e a dificuldade em dormir porque a vizinha de cima tem um bar de alterne montado na sala de estar. Mas enquanto a criatura vos conta isso tudo, vocês continuam a caminhar, indiferentes e sem a mínima pachorra para ouvir fosse o que fosse; já estão vocês a chegar à rússia, a pé, quando a pessoa entende que não valia a pena ter dito mais do que «olá» e retribuído o sorrisinho falso.

A sério... para quê perguntar?