Quero começar por dizer que estou ciente de que, infelizmente, ter mais do que um emprego não é uma escolha para algumas pessoas, e que há quem faça por real necessidade. Também já me cruzei com pessoas assim, e guardo-lhes todo o respeito. Aos outros... seriously?
Acredito que isto não faça sentido a toda a gente mas, para vos situar, posso explicar algo sobre mim: quis ser enfermeira durante muitos anos, assim, sem quaisquer dúvidas ou hesitações. Depois, fui trabalhar para um hospital e, ao fim de pouco tempo a praticar horários de loucos que nem ao diabo lembram, percebi que essa não é a vida que quero para mim. Ah, sua cachopa fútil, folgada, preguiçosa, não sabes o que é a vida!, and so on. Bem sei que há quem o pense - já eu, estou muito contente por contrariar a mania portuguesíssima de me prestar à infelicidade só para poder choramingar pelos cantos.
Descobri que, afinal, eu quero uma família. Daquelas a sério, das que não são constituídas por vinte e sete gatos e um ser humano, do sexo feminino, gordo, com bigode e um ar duvidoso. Nada temam: a cinderela não tenciona arrendar o útero a um monstrinho de berço nos anos mais próximos. Mas, e ainda que isto seja uma novidade até para mim, um dia quero poder sentir orgulho nas minhas próprias crias, ainda que o maior feito delas seja comer ranho e riscar a parede. E quero estar lá para ver isso - a este ponto pode uma pessoa mudar, vejam lá.
Não me venham dizer que estou a ser parva, que o que não falta são enfermeiros com filhos, porque disso sei eu bem. Foi exatamente por ter trabalhado a par com eles que percebi, bastante depressa, que não quero estar naquele lugar. Que, por mais que goste da profissão, sou incapaz de me imaginar a procriar para ver as criaturinhas só às vezes, quando os horários lá casam uns com os outros.
Ainda bem que há gente cujas vidas funcionam perfeitamente nesses moldes, mas não o quero para mim.
Posto isto, e correndo o risco de ser apedrejada em praça pública, não consigo perceber os segundos e os terceiros empregos. Não consigo; por mais que me esforce, sou incapaz de entender como é que alguém pode pensar que matar-se a trabalhar só para os putos poderem ter o último grito em tecnologia ou o número de países visitados aos três anos ser superior à quantidade de dentes que têm na boca, é dar-lhes uma vida melhor. Se calhar sou só chata e tenho uma alma de pobre sem remédio, mas é-me inconcebível colocar o luxo à frente do amor, preferir dormir três horas para que os putos nunca tenham de comprar roupa no lidl (olhem só a boquita para mim mesma), em detrimento de passar tempo com eles. Nem que seja a fazer nada.
Na volta, sou mesmo eu quem está enganada, os valores estão todos no sítio, mas eu continuo a preferir a ideia de ter de aproveitar as promoções para comprar shampõ, se isso implicar ter a oportunidade de passar tempo a fazer coisas que gosto, com as pessoas de quem gosto. São manias.