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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

quanto vale o dinheiro?

Quero começar por dizer que estou ciente de que, infelizmente, ter mais do que um emprego não é uma escolha para algumas pessoas, e que há quem faça por real necessidade. Também já me cruzei com pessoas assim, e guardo-lhes todo o respeito. Aos outros... seriously?

Acredito que isto não faça sentido a toda a gente mas, para vos situar, posso explicar algo sobre mim: quis ser enfermeira durante muitos anos, assim, sem quaisquer dúvidas ou hesitações. Depois, fui trabalhar para um hospital e, ao fim de pouco tempo a praticar horários de loucos que nem ao diabo lembram, percebi que essa não é a vida que quero para mim. Ah, sua cachopa fútil, folgada, preguiçosa, não sabes o que é a vida!, and so on. Bem sei que há quem o pense - já eu, estou muito contente por contrariar a mania portuguesíssima de me prestar à infelicidade só para poder choramingar pelos cantos.

Descobri que, afinal, eu quero uma família. Daquelas a sério, das que não são constituídas por vinte e sete gatos e um ser humano, do sexo feminino, gordo, com bigode e um ar duvidoso. Nada temam: a cinderela não tenciona arrendar o útero a um monstrinho de berço nos anos mais próximos. Mas, e ainda que isto seja uma novidade até para mim, um dia quero poder sentir orgulho nas minhas próprias crias, ainda que o maior feito delas seja comer ranho e riscar a parede. E quero estar lá para ver isso - a este ponto pode uma pessoa mudar, vejam lá.

Não me venham dizer que estou a ser parva, que o que não falta são enfermeiros com filhos, porque disso sei eu bem. Foi exatamente por ter trabalhado a par com eles que percebi, bastante depressa, que não quero estar naquele lugar. Que, por mais que goste da profissão, sou incapaz de me imaginar a procriar para ver as criaturinhas só às vezes, quando os horários lá casam uns com os outros.

Ainda bem que há gente cujas vidas funcionam perfeitamente nesses moldes, mas não o quero para mim.

Posto isto, e correndo o risco de ser apedrejada em praça pública, não consigo perceber os segundos e os terceiros empregos. Não consigo; por mais que me esforce, sou incapaz de entender como é que alguém pode pensar que matar-se a trabalhar só para os putos poderem ter o último grito em tecnologia ou o número de países visitados aos três anos ser superior à quantidade de dentes que têm na boca, é dar-lhes uma vida melhor. Se calhar sou só chata e tenho uma alma de pobre sem remédio, mas é-me inconcebível colocar o luxo à frente do amor, preferir dormir três horas para que os putos nunca tenham de comprar roupa no lidl (olhem só a boquita para mim mesma), em detrimento de passar tempo com eles. Nem que seja a fazer nada.

Na volta, sou mesmo eu quem está enganada, os valores estão todos no sítio, mas eu continuo a preferir a ideia de ter de aproveitar as promoções para comprar shampõ, se isso implicar ter a oportunidade de passar tempo a fazer coisas que gosto, com as pessoas de quem gosto. São manias.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

o que se ganha ao perder

Foi na semana passada.
Num desses dias mais tristes, escolhi uma mesa para tomar o meu café, e sentei-me. Não me apetecia ler - levo sempre um livro comigo, mas há dias em que não lhe toco porque não quero. Limito-me a observar, essa mania antiga e, talvez, assustadora, de observar os outros. Sou apaixonada por tudo quanto não conheça.

Na mesa do lado, estavam duas miúdas. Na do fundo, um grupo de rapazes. Reparei neles em primeiro lugar porque eram, indubitavelmente, barulhentos, e eu não gosto de pessoas que fazem demasiado barulho em cafés - é muito fácil transformar-se um momento calmo na feira da ladra. Depois, reparei nelas: os cappuccinos não vieram juntos e resolveram esperar pelo segundo para fotografarem as chávenas fumegantes. Modernices.

Uma delas é muito bonita, a outra nem por isso. Conversavam, e não me perguntem sobre o quê porque não vos saberia responder; não me esforcei por ouvir. Estava mais concentrada nos gestos, num histerismo mal contido, naquele fulgor próprio da adolescência. Passou-me várias vezes pela cabeça que era aquela a figura que eu fazia quando tudo em mim fervilhava, quando era cheia de expectativas tantas, tantas, vezes irrealistas e quase impossíveis quando, também eu, não tinha mais do que 16 ou 17 anos.

Um dos rapazes aproximou-se e cumprimentou-as; não foi difícil de perceber. A mais bonita ficou ainda mais histérica, corou, e começou a abanar-se como se o ar não lhe estivesse a chegar em doses suficientes ao cérebro. Provavelmente, não estaria mesmo. Tentou conter-se quando ele passou do lado de lá do vidro, e depois voltou a entregar-se à euforia que lhe trouxeram dois beijinhos na bochecha, e não falaram noutra coisa durante o resto do tempo.

De repente, voltei a ter 16 anos, a estar sentada naquela  mesa, ou noutra qualquer, de coração acelerado e olhinhos brilhantes enquanto contava e tornava a contar, vezes sem conta, histórias insignificantes, momentos banais, como se de grandes progressos se tratassem. Nunca o foram - a minha vida sentimental ainda tinha muito que penar até se resolver.

Pensei em mim mesma, e no quando a versão adolescente de mim se parecia com aquelas miúdas ali sentadas a quem, se tivessem reparado em mim, eu não teria parecido muito mais velha. E depois dei-me conta de que é como se existisse um abismo entre mim e elas, como se se tivessem passado mil anos desde que estive naquele lugar das felizes trivialidades, em que me senti daquela forma. 

Parece que cresci. 
Que a forma como a minha vida aconteceu me obrigou a despir essa pele de miúda tonta e que, no final das contas, ter largado algumas mãos me permitiu a avançar mais depressa do que se me tivesse deixado ir ao mesmo ritmo. Há ritmos que não funcionam em outros mundos, em outras vidas, e volta e meia torna-se imperativo que se cresça mais depressa. Se calhar envelheci ao invés de crescer, mas continuo contente com a maturidade que ganhei. São manias.

Não senti saudades daquela quase-inocência, dos tempos em que os dias maus eram todos aqueles em que não nos cruzávamos com o rapazinho. Ou em que, pura e simplesmente, ele não olhava para nós. Ainda que agora os dias me pesem mais nos ombros, ainda que agora os meus dramas tenham tendência para serem mais sérios, ainda que a minha vida não esteja perfeita, não há nada pior para uma boa noite de sono do que uma cabeça adolescente e desassossegada. 

Nem mesmo o café.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

da saudade

Nos primeiros tempos é mais difícil.
A saudade recém instalada é mais dolorosa e tem tendência de nos trazer à memória os dias mais felizes para, logo em seguida, nos relembrar de que esse pedaço de mundo acabou para nós. Que aquele sorriso não volta, aquele par de olhos azuis não tornarão a fitar-te, aquela mão não mais se levantará para te acenar de lá de cima, da janela mais alta. E tens de viver com isso.

Vive-se. Custa a crer ao início, mas vive-se; a saudade bruta abranda e transforma-se numa dor miúdinha que não tira férias mas, com um bom jogo de cintura, é possível fingir que ela não está lá até que se canse de ser ignorada e volte a mostrar a sua força - continua-se. Em círculos, mas continua-se.

Com o tempo, deixei de assinalar as datas importantes porque me apercebi de que de nada me valem; nada me acrescenta somar meses aos meses intermináveis, à certeza irrefutável de que pouco interessa o tempo que passou desde que a vi pela última vez ao lado da consciência de que não a voltarei a ver. Mas às vezes finto a idade, e finjo que me esqueço de que a morte das coisas e das pessoas o mais irreversível de todos os males, tento acreditar que ainda a vou encontrar sentada no pátio, numa tarde quente, a ralhar-me por andar sempre descalça.

Já não me pesam os dias vinte e cinco, o último da nossa contagem decrescente que deveria ter culminado no nosso reencontro e não no dia em que a perdi, perto, tão perto, do abraço que lhe queria dar. Já não conto os vinte e oitos da minha vida a partir daquele em que me sentei, durante horas, diante do caixão e me permiti a chorar a morte de uma das minhas pessoas mais importantes, ciente de que seria a última vez que poderia olhá-la. 

Os dias importantes já não me pesam no peito mais do que qualquer outra data no calendário - estou certa de que sentirei a falta dela para sempre, mas que não há forma de a curar; deixo-me ser atacada, volta e meia, pelas recordações felizes. Às vezes, fazem-me sorrir, outras fazem-me chorar, mas também me fazem sentir grata por ter tido a sorte de ter uma avó extra, dessas boas avós que o sabem ser, e a saudade que lhe tenho é uma pequena consequência do amor que lhe guardo.

Como disse, deixei de dar uma importância especial aos dias que se tornam agora, e cada vez mais, banais - mas hoje, só hoje, apercebi-me de que há precisamente dois anos atrás, acordei, pela última vez, no quarto do fundo da casa dela - e quem me dera ter-me demorado um bocadinho mais na cama, e ter sabido que aquela seria a última vez que tomaria o pequeno almoço com ela, no cantinho da mesa, enquanto me contava as histórias antigas. Já as sabia todas de cor, mas nunca me cansava de as ouvir mais uma vez.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

sobre o rancor

Nunca fui rancorosa: tenho, inegavelmente, feridas profundas que fui tapando com pensos rápidos ao longo do tempo, sem que nunca chegassem a sarar, e que condicionaram, em grande parte, a minha vida e as minhas relações interpessoais mas, ainda assim, não lhes desejo mal nem guardo ódios de estimação. Já nem quero saber.

Claro que não nos esquecemos do que nos marca e nos molda, e não confiaria cegamente em qualquer uma dessas pessoas que, no passado, me fizeram mal, mas essa é uma das vantagens do que nos fere: ensina-nos algo, se estivermos dispostos a aprender. No meu caso, levou-me a desaprender também - esqueci-me de como se faz para confiar, em mim e nos outros, e tem sido uma longa caminhada para tentar recuperar essa capacidade. Já surtiu efeito, em parte, mas não totalmente.

Em contrapartida, foi isto o que eu ganhei: há dias em que é uma bênção, e outros em que é uma praga. Acreditem quando vos digo que gostava genuinamente de conseguir afeiçoar-me e construir amizades sólidas com pessoas de quem eu goste, mas a verdade é que desconfio tanto de toda a gente que, na maior parte do tempo, eu nem quero saber. E são cada vez menos as criaturas de quem eu consigo gostar, também. A parte boa é que me são tão indiferentes que eu já nem quero saber do que me fizeram de errado.

segunda-feira, 27 de março de 2017

há uns dias

Uma senhora toda enxuta, após uma cirurgia ao joelho, perguntou-me se eu sabia o que lhe tinham feito porque o médico lhe havia dito que não estava a planear meter-lhe uma próstata* para já, mas provavelmente teria de a colocar - no fundo, a senhora só queria saber se já tinha a próstata no sítio. Espero que não, minha senhora, espero que não.

*prótese, entenda-se

domingo, 22 de novembro de 2015

«o que mudou no último ano?»

Antes de mais - não, este não é um desses posts de fim de ano que servem, essencialmente, para as pessoas fazerem um review e decidirem o que vão recolocar, pela vigésima vez, na lista de coisas que querem fazer no ano seguinte. Ainda é cedo para isso e, de qualquer forma, ainda não cheguei a esse ponto da minha vida.

A pergunta surgiu há umas semanas e foi feita a cada uma das pessoas do meu curso - dei uma resposta vaga, mas a verdade é que me fez pensar porque, à primeira vista, não consegui encontrar mudanças concretas neste último ano. Mas elas existiram.

Não foi o melhor ano da minha vida, mas também não foi o pior - foi instável na maior parte do tempo, deixou e continua a deixar-me à nora volta e meia e não sei muito bem como gerir tudo o que me tem acontecido, tudo o que sinto. Tenho sido posta à prova de cinco em cinco minutos, por todos os lados.

E mudei, sim - como poderia não ter mudado? A passagem dos meninos da escolinha para o mundo dos adultos foi um balde de água fria que não poderia ter tido outro efeito senão mudar-me quando vi que isto é mais um salve-se quem puder do que um somos todos amigos e vamos ajudar-nos uns aos outros. E, entenda-se, há muitos anos que deixei de esperar muito das pessoas, mas nem isso me impediu de me desapontar. Passei toda a minha vida escolar a queixar-me delas mas, agora que saí da redoma onde estive 13 anos, percebi que, salvo raras exceções, aqui fora as melhores pessoas são as piores que encontrávamos na escola e não dá para confiar em ninguém.

Num ano consegui passar de explosiva a retraída e voltar a explosiva outra vez - demorei a ambientar-me à nova realidade, demorei a perceber que, se vou fazer parte desta selva, os outros têm de me ouvir tanto quanto eu os ouço a eles. 

Num ano fiz coisas que julguei que nunca faria, e não me orgulho de algumas delas. Tornei-me mais solitária também - habituei-me a tardes inteiras sozinha à beira mar, e percebi que isso me fazia incrivelmente bem. Também olhei para o lado e percebi que me estava a afastar, cada vez mais, daquilo que fui um dia e, consequentemente, das pessoas com quem me identificava.

Ganhei pessoas e perdi pessoas como se, no fundo, eu não passasse de uma estação de comboios onde as pessoas só estão de passagem. Podia sentir-me como um monumento, mas não - isso só me fez sentir como uma estação velha e podre, com um ar tão duvidoso que as pessoas a evitam o mais que podem. Mas também perdi pessoas que não estavam só de passagem e essas são as que me pesam mais, mais pela desilusão do que pela perda. Mais pela sensação de que nunca mais seria capaz de perdoar do que pela falta que me fazem todos os dias. 

Num ano, deixei de ter medo de dizer o que sinto; depois de uma vida inteira a escondê-lo e a fazer os possíveis para que ninguém se apercebesse, aprendi a dizer gosto muito de ti e adoro-te tantas vezes quantas me apeteça - porque eu mereço poder dizê-lo, apesar de ter achado que não durante todo este tempo, e ele merece ouvi-lo. Ainda assim, um ano não me chegou para perder as inseguranças com vinte anos de raízes, nem estou perto disso - sou chata, desconfiada, dramática. Faço das coisas mais simples um bicho de sete cabeças e continuo realmente dificil de lidar.

Talvez precise de mais um ano para melhorar isto.
Ou de mais oitenta, talvez.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

vou só deixar isto aqui



Parece-me importante anotar que:

1) as minhas skills para fazer montagens são exatamente o que se vê: sei fazer desenhos no paint, só;
2) limitei-me a cortar nomes e comentários e tudo e tudo - as hashtags foram mesmo colocadas ali pela criatura;
3) estou a perder a fé no mundo;
4) vou só ali tirar uma foto no bidé, até amanhã.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass pelos corredores do hospital - take6

No seguimento do post anterior, ainda tive uma senhora que me disse que estava muito feliz por estar no hospital, que estava a gostar muito e ainda não queria ir para casa. Nada de novo, portanto.

Começou foi a assustar-me ligeiramente quando a criatura disse que até gostou de ser operada porque a acordaram com festinhas na cara e ela achou muito divertido. Foi e veio ao bloco sempre a rir.

Seriously, mas agora as pessoas são anestesiadas com cocaína?

cinderela desfila o fat ass pelos corredores do hospital - take5

É sempre curioso ver como, enquanto alguns doentes estão mortinhos por ter alta, outros quase imploram aos médicos para que os deixem ficar mais uns dias porque ainda não estão preparados para enfrentar o dia a dia fora do conforto do hospital, onde tudo está à distância de uma campainha.

Mesmo assim, volta e meia ainda há alguém que consegue animar o circo e mostrar que há sempre mais alguma coisa quando se pensava que não podia piorar.
Desta feita, temos um jovem de 86 anos a chorar e a perguntar que mal fez ele aos médicos para eles o quererem mandar para casa.

Não se compreende, de facto - uma pessoa a tratá-los com tanto amor e carinho e os filhos da puta ainda dão altas. Irra!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass nos corredores do hospital - take1

Não vos posso dizer que ser auxiliar de saúde seja uma profissão de sonho - não é. Não desempenhamos as funções mais importantes e interessantes do mundo, mas somos parte de um todo; mesmo que hierarquicamente sejamos o elo (ou um dos elos) mais fracos, o hospital não funcionaria sem este gang dos azuis, como decidi chamar-lhe aqui.

Já se sabe que tenho desejos de fuga, que estou ávida de fazer outra coisa da vida e que ando aqui cheia de sonhos e planos e tudo e tudo - mas, por agora, isto vai-me acalentado o espírito e controlando a ânsia. Se lido com merda diariamente? Lido. Se há gente chata, chatíssima? Há. Mas volta e meia aparece um par de olhos doces que precisa quase tanto de atenção e carinho quanto cuidados médicos - ou, por outras palavras, talvez estes se complementem, mas acabem por estar ao nosso encargo, os que andam no terreno mais tempo, os que estão lá para satisfazer as necessidades deles. E eu gosto disso - quem diria? Quis ser fria durante tanto tempo, tentei ser tão indomável, fiz de tudo para não sentir, mas hoje sou toda coração e tento ao máximo que isso se note.

Há dias difíceis - há! Há dias em que estou tão cansada que chego a casa e acho que vou adormecer sem sequer jantar. Mas já vi sorrisos de pessoas que nunca sorriem a mais ninguém. Já vi alguém só aceitar comida dada pela minha mão. Já ouvi dizerem-me que era a preferida e elogiarem-me por ostentar um sorriso de orelha a orelha como se fizesse parte da farda.

E, para mim, faz.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

e está para breve, está para breve

Tenho-me cruzado todas as manhãs com pessoas que se dirigem para o comboio depois de uma noite de farra - e, entenda-se, não foram eles que me contaram que tinham tido uma noite louca: nota-se.

Geralmente andam devagar, com ar de quem veio da guerra e o cheiro nauseabundo inerente às discotecas. Encostados porque sabe deus o quanto aqueles passeios são incertos e o quanto custa fazer aquele percuro de manhã, de pézinhos no chão, depois de mais uma sessão de eu-sou-um-barril.

E isto foi triste. Foi triste perceber o quão fácil é identificá-los e o quão miseráveis parecemos naquele percurso infernal que parece nunca ter fim, a desejar tanto uma cama quanto uma viagem às maldivas com tudo pago e bar aberto, e dei por mim a repensar todas as vezes que me lembro de ter tentado fazer o meu ar mais normal enquanto me cruzava com pessoas conhecidas, naquele estado.

Percebi que não resulta e que dá para perceber a léguas que não estamos assim vestidos àquela hora da manhã porque decidimos madrugar e ir dar uma voltinha e que ninguém fica alheio ao facto de ainda termos mais álcool do que sangue.

Foi triste, mas fiquei com raivinha dos dentes.
Preciso de uma noite assim.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

never too old

Cruzei-me com um velho - não sou boa a avaliar idades mas acreditem, era um velho bem velho - que tresandava a erva e estava já a enrolar outro.

Deve ser este o segredo da longevidade.

sábado, 18 de julho de 2015

we could have had it all

Ultimamente, quase encontro o amor em cada canto - hoje foi na equivalenza. 
Depois de quase me ter cobrado um euro a mais pela recarga de um perfume, o rapazinho - giro e simpático - comentou que teria de me levar a beber um café para compensar.

Não levou.
Foi pena.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

quando conhecemos um nerdzinho e não o podemos levar para casa

Não é que eu seja a pessoa mais sociável do mundo - que não sou - mas, lá pelo meio do sunset, conheci um mocinho giro e gostoso que eu sei lá, simpático como tudo e um claro candidato a pai dos meus filhos, que tinha acabado de se licenciar em engenharia informática.

Perguntou-me a idade; menti-lhe. Tentei convencê-lo de que era mais velha, muito mais velha, mas o meu arzinho de quem ainda arrota ao bolo do batizado não engana.

Confessei-lhe que tenho vinte anos. Responde-me, passado um bocado, com um tom profundo: tenho mais um quinto da tua idade.

Senti o amor.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

my precious

Podem pensar que eu não valho nada mas, hoje, um vendedor de fruta disse que me dava um melão se eu me casasse com ele.
Gosto mais de melancia. E vim-me embora solteira.

terça-feira, 30 de junho de 2015

ontem

A menina está sempre a dizer coisas engraçadas, parece o manzarra.

Not sure if it was a compliment.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

não disse nada

Sou má com datas  - não me esqueço delas. 
Fico a moer, a roer as unhas até ao sabugo, a roer dedos, mãos e braços, fico com raivinha dos dentes e a tentar ignorar. Tento fazer-me de indiferente mas é fogo de vista; eu lembro-me. E ontem não me esqueci.

Nunca saberemos a importância que uma pessoa terá nas nossas vidas quando as olhamos pela primeira vez - mas, mais tarde, visto de longe, é impossível não nos espantarmos com o conjunto de banalidades que nos levaram até onde estamos agora. E que nos mudaram para sempre.

Há um ano atrás, era sábado - o sábado a seguir à sexta feira 13 - e eu cheguei a casa de manhã, a sentir-me meio esquisita e sem fazer ideia de que as coisas nunca mais seriam o que eram antes. Parece exagero? Mas não é.

Conhecê-lo mudou tudo. Mostrou-me um mundo que eu não conhecia, abriu-me os olhos. Fez-me mais eu. E, sobretudo, nunca lhe poderei agradecer o bastante por me ter levado até onde estou agora. Se acabou bem? Definitivamente, não. Mas, posso jurar, nunca me vou esquecer dele e da importância que ele teve na minha vida. 

E, a cada sexta feira 13, será um novo e eterno obrigada - não pelo que fomos, mas por aquilo em que ele me transformou. 

domingo, 7 de junho de 2015

tequilla, votos de castidade e morte aos gajos

Por um conjunto de motivos pouco relevantes e que não me interessa mencionar, na sexta feira à noite acabei, muito pouco sóbria, sentada no chão à porta de uma casa de banho e sentou-se um tipo ao meu lado.

Disse-me desde logo que estávamos na boa, que tinha uma namorada há cinco anos e que não queria nada de mim, e acabámos por ficar a conversar durante imenso tempo, sobre tudo e mais alguma coisa, sobre o porquê de eu estar a deprimir numa discoteca, sobre tudo no geral. E eu devia ter percebido antes que o facto de ele se chamar joão não era um bom presságio, que eu já tinha tido o suficiente disso para uma vida inteira, mas deixei-me ficar.

O rapaz era adorável - juro por tudo que, em momento algum, se fez a mim ou deu a entender que queria mais do que uma conversa. Depois de lhe ter confessado os meus dramas todos, que o álcool tem destas coisas, acabou por me abraçar e deu-me um beijo na testa, antes de me arrastar de novo para a pista.

Correu tudo bem e, se calhar, podíamos ter sido bons amigos - mas, já na rua, pouco antes de eu me vir embora, o rapazinho apanhou-me distraída, agarrou-me de repente e beijou-me mesmo ali, à luz das sete da manhã. Mas beijou-me é eufemismo - na realidade, o tipo enfiou-me a língua pela goela abaixo sem pedir licença e, de resto, não fez mais do que o trabalho de uma centrifugadora.

Afastei-o uns dois segundos depois e entrou a adele a cantar we could have had it aaaaaaall enquanto eu olhava para ele, de olhos esbugalhados, e lhe dizia tu tens namorada! como se ele não soubesse. Foi triste, enfim - qualquer pessoa sabe que uma saída à noite ou uma ida à selva não são muito diferentes, mas quero acreditar que aquilo não foi mesmo premeditado e o mocinho reagiu a um impulso e que se arrepende tremendamente de o ter feito, ainda por cima quando a namorada é gira que se farta.

Por outro lado, eu voltei para casa com a certeza de que os gajos sabem ser os melhores amigos do mundo mas que eu estou mesmo bem é solteira e o melhor é virar freira antes que seja tarde, porque as gajas são tão cabras que nem virar lésbica compensa.

sábado, 30 de maio de 2015

we could have had it all

Não é por mal mas, já se sabe, gaja que é gaja não desiste - foram só precisas umas quatro frases para que eu me apaixonasse pelo mocinho das massagens e o quisesse trazer para casa mas, infelizmente, o rapaz não está disponível para adoção. E foi então que eu me lembrei de uma forma de descobrir o fb da criatura; de tão empenhada que estava, nem cinco minutos demorei.

Provavelmente, ele vai só ficar assustado quando descobrir o meu pedido de amizade e esconder-se debaixo dos cobertores durante, no mínimo, uns três dias, só com medo de que eu o persiga - mas note-se, o único problema do rapazinho é ser mais baixo do que eu e passar-me pouquinho do nível do mamaçal; de resto, apesar de ter todo o ar de quem ainda arrota ao leite da mãe, descobri que é uns míseros cinco dias mais velho do que eu e isso significa que até podemos fazer uma festa conjunta dentro de pouco mais de um mês, para comemorar os vinte anos, e tudo o que ele tem de me oferecer é uma massagem de, sei lá, dez horas, ou coisa que o valha.

Depois também temos o pequeno senão de o rapaz ter namorada, mas tudo bem.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

ai angústia

Descobri hoje que há um requisito mínimo para qualquer potencial namorado: ser massagista.