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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

nem sempre uma pessoa é para o que pensa que é

O impensável acontece exatamente quando achamos que as coisas vão correr bem.
Por exemplo, tudo indicava que pessoas do meu curso, na mesma fase de aprendizagem, seriam, pelo menos, capazes de medir a tensão arterial - meteram-me a braçadeira no antebraço e tão laça que rodava à volta do mesmo.

Tentei dizer-lhe que estava mal; olhou-me como se fosse louca.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass pelos corredores do hospital - take8

Pensando bem, eu tornei-me estupidamente mais calma desde que fui para o hospital - paciente para ouvir, paciente para aceitar o ritmo de cada um, paciente para caprichos, que os há, dos doentes que viam em nós a única fonte de mimo. E, sobretudo, paciente o suficiente para me contentar com um revirar de olhos discreto sempre que alguma coisa me aborrecia.

Depois apercebi-me de que não gosto de mim assim, embora só tenha pensado nisto mesmo a sério quando, depois de ter pintado o cabelo de vermelho (finalmente, o vermelho que eu ando a tentar encontrar desde os 16 anos!), uma enfermeira me disse que não conseguia enquadrar a minha personalidade naquela cor, e eu dei por mim a perguntar o que raio ando eu a fazer à minha vida e em que momento é que me deixei transformar em alguém que passa por uma pachacha mole assim.

No entanto, não tive muito tempo para refletir muito sobre o assunto porque aconteceu tudo à velocidade da luz - num momento eu estava na santa paz de nosso senhor, e no momento a seguir estava a mandar vir com uma auxiliar pela forma como tinha tratado o doente. Revoltou-se, fez queixa, assobiei para o lado. Fez queixa a toda a gente, conseguiu meter outra também a tentar irritar-me - teve azar; domino a arte de ser cabra a sorrir e a criatura acabou por desistir.

Agora perguntam-me: mas não tiveste medo das consequências?
Tive, que tive. Sei que não sou de lá, que sou uma mera estagiária que não tem voto na matéria, e tive mesmo medo que dois surtos de irreverência seguidos me podessem prejudicar muito. Mas depois falei com o meu tutor e percebi que está tudo bem - todos sabem o que as criaturas são e o que fazem. Todos sabem que eu tive razões para dizer o que disse.

O que eu continuo sem perceber é porque é que, tendo em conta que toda a gente sabe o tipo de comportamento que elas têm em relação aos doentes, nunca ninguém as confrontou.

Depois apareci eu e o meu feitio mansinho.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass pelos corredores do hospital - take7

Nem tudo tem sido um mar de rosas - há relativamente pouco anos, perdi um familiar naquele hospital, naquele mesmo serviço. Uma das pessoas que mais me doeu. E que ainda me dói.

Não há um único dia em que não me lembre disso: foi ali que ele morreu.
Surdo, fraco, completamente dependente deles para tudo - foi ali que definou aquele que me viu crescer, aquele que, mesmo não sendo sangue do meu sangue, sempre me assumiu como neta, como a neta mais velha. Mas nunca tinha pensado em como teria sido realmente.

Hoje eu sei: era só mais um a dar trabalho. Mais um para dar banho no leito porque, nos últimos tempos, já mal abria os olhos, quanto mais andar. Mais uma fralda para mudar, mais uma cama para fazer - borrada, talvez. Mais alguém para obrigar a comer - oh, ups, se não comer, não comeu, azar. Mais um que todos desejaram que morresse no turno a seguir, para não lhes dar trabalho. E dói-me ainda mais, como se me reabrissem agora uma ferida que estava quase sarada, e lhe mexessem uma e outra vez até sangrar de novo. Dói mesmo.

Nem tudo tem sido fácil - torna-se inevitável recriar o cenário da morte dele a cada comentário que ouço, a cada atitude que vejo. E hoje estou particularmente atónita, zonza, a rezar para ter visto mal ou para que tenha sido um caso isolado; não sou ninguém, sou só uma aprendiz, mas não é preciso saber muito disto para entender a paciência e a sensibilidade - o carinho, por assim dizer - devia estar incluído na folha de terapêutica.

Ou, pelo menos, as pessoas deviam entender isso. 
E quer eu passe a vida como auxiliar ou como enfermeira, espero conseguir ser o tipo de pessoa que as famílias gostariam que estivessem do lado dos que lhe são mais queridos até ao fim - quero nunca fazer com que ninguém sinta o que eu estou a sentir hoje.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass pelos corredores do hospital - take6

No seguimento do post anterior, ainda tive uma senhora que me disse que estava muito feliz por estar no hospital, que estava a gostar muito e ainda não queria ir para casa. Nada de novo, portanto.

Começou foi a assustar-me ligeiramente quando a criatura disse que até gostou de ser operada porque a acordaram com festinhas na cara e ela achou muito divertido. Foi e veio ao bloco sempre a rir.

Seriously, mas agora as pessoas são anestesiadas com cocaína?

cinderela desfila o fat ass pelos corredores do hospital - take5

É sempre curioso ver como, enquanto alguns doentes estão mortinhos por ter alta, outros quase imploram aos médicos para que os deixem ficar mais uns dias porque ainda não estão preparados para enfrentar o dia a dia fora do conforto do hospital, onde tudo está à distância de uma campainha.

Mesmo assim, volta e meia ainda há alguém que consegue animar o circo e mostrar que há sempre mais alguma coisa quando se pensava que não podia piorar.
Desta feita, temos um jovem de 86 anos a chorar e a perguntar que mal fez ele aos médicos para eles o quererem mandar para casa.

Não se compreende, de facto - uma pessoa a tratá-los com tanto amor e carinho e os filhos da puta ainda dão altas. Irra!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass pelos corredores do hospital - take4

- a menina teve sempre essa voz? ou treinou-a para ser assim, doce? tem uma voz tão infantil... tem mesmo a doçura de uma criança. até pensei que tivesse treinado.
Como é que eu espero que as pessoas me levem a sério? Como é que eu ainda acho que um dia destes os monstrinhos de berço me vão dar ouvidos? Como?

Depois uma pessoa tenta ser má, que tenta, mas ninguém teme uma pita armada em general machão. Vidas tristes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

por onde andas, cinderela?

Eu tenho tentado, que tenho, voltar aqui - mas entre as 8h nonstop do hospital, as idas ao ginásio entre 3 a 4 vezes por semana, a minha tentativa frustrada de meter as leituras em dia e tudo o resto que há para fazer em casa, desde limpezas a arrumações frenéticas só porque me estou a transformar em alguém muito chato que já não sabe estar quieto, e todos os recados e o vai-aqui-e-ali diário, chego a casa e apetece-me aterrar durante duas semanas seguidas.

Mas eu tento, que tento. Preciso é de baterias novas.

domingo, 4 de outubro de 2015

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

cinderela desfila o fat ass nos corredores do hospital - take2

Regra geral, as pessoas reagem bem ao facto de terem uma miúda a cuidar delas e acabam por achar piada à ideia - em contrapartida, há pessoas chatas que se convencem de que temos de fazer absolutamente tudo e encaram o hospital como um spa - e destas eu não consigo fazer nada.

Já não é a primeira vez que tenho de pedir ajuda porque não consigo fazer com que alguém - que podia perfeitamente levantar-se - se levante para que eu não tenha de fazer a força toda sozinha. E isto porquê? Eu tinha a vaga ideia de que deveria estar relacionado com o facto de ser nova e ter a «voz meiguinha» que eles tanto gostam de me gabar. Mas não fazia ideia de quem me achavam tão nova.

Hoje, uma senhora virou-se para mim e perguntou
 - tu tens quê, 14 anos?

Fiquei em choque, a hiperventilar e a chorar um bocadinho por dentro. A mulher deve ter reparado na minha confusão interior, e apressou-se a acrescentar  
 - se calhar nem tanto. tens mesmo cara de novinha!

Respirei funto e expliquei-lhe que não, que já ia nos 20.
Ainda em estado de choque, contei o sucedido a uma auxiliar, na presença de um rapazinho, também ele auxiliar, que já me conhece desde o primeiro estágio. Ao ouvir isto, a criatura apressa-se a dizer
 - eu também só percebi que tinhas mais de 18 anos porque te vi a conduzir!

...
...
...
...
...

Desisto.

cinderela desfila o fat ass nos corredores do hospital - take1

Não vos posso dizer que ser auxiliar de saúde seja uma profissão de sonho - não é. Não desempenhamos as funções mais importantes e interessantes do mundo, mas somos parte de um todo; mesmo que hierarquicamente sejamos o elo (ou um dos elos) mais fracos, o hospital não funcionaria sem este gang dos azuis, como decidi chamar-lhe aqui.

Já se sabe que tenho desejos de fuga, que estou ávida de fazer outra coisa da vida e que ando aqui cheia de sonhos e planos e tudo e tudo - mas, por agora, isto vai-me acalentado o espírito e controlando a ânsia. Se lido com merda diariamente? Lido. Se há gente chata, chatíssima? Há. Mas volta e meia aparece um par de olhos doces que precisa quase tanto de atenção e carinho quanto cuidados médicos - ou, por outras palavras, talvez estes se complementem, mas acabem por estar ao nosso encargo, os que andam no terreno mais tempo, os que estão lá para satisfazer as necessidades deles. E eu gosto disso - quem diria? Quis ser fria durante tanto tempo, tentei ser tão indomável, fiz de tudo para não sentir, mas hoje sou toda coração e tento ao máximo que isso se note.

Há dias difíceis - há! Há dias em que estou tão cansada que chego a casa e acho que vou adormecer sem sequer jantar. Mas já vi sorrisos de pessoas que nunca sorriem a mais ninguém. Já vi alguém só aceitar comida dada pela minha mão. Já ouvi dizerem-me que era a preferida e elogiarem-me por ostentar um sorriso de orelha a orelha como se fizesse parte da farda.

E, para mim, faz.