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quarta-feira, 21 de março de 2018

vamos atear fogueiras?

Ontem, ia escrever-vos que esta febre das greves é mais contagiosa do que o sarampo e, nos últimos tempos, parece que a moda pegou mesmo - contudo, e curiosamente, não são os que se esfolam a trabalhar pelo ordenado mínimo que fazem estas birras. 

Abortei a ideia quando precisei de recuperar do choque depois de, em conversa com uma conhecida, lhe ter dito isso mesmo e a criatura me ter respondido:

- quem ganha o ordenado mínimo não se queixa porque ele está sempre a aumentar, já vai quase nos 600€!

Wait... what?
Estaremos a insinuar que quase 600€ são suficientes para se viver decentemente e com dignidade? Talvez o sejam, para quem tem a vida feita e tudo pago. Ou para quem vive pendurada na carteira de alguém. Agora, tendo em conta que os quase 600€ são, na realidade, 580€, que os preços das rendas são uma atrocidade, juntando-lhe todas as outras despesas essenciais, como a água, a eletricidade, o gás, mantendo aquele vício absurdo de comer e, pior ainda, de tentar comer bem e não viver à base de pacotes de batatas fritas de marca branca, pelas minhas contas, o ordenado mínimo dá para viver confortavelmente numa gruta. 

Estou a exagerar, claro. Ginástica bem feita, o ordenado mínimo dá perfeitamente para pagar todas estas despesas, mas sem margem para qualquer imprevisto, doenças e afins, e estando psicologicamente preparado para contar cêntimos até ao próximo salário, para repetir: trabalhar para sobreviver até que se morra, basicamente. Parecer-vos-á uma perspetiva exagerada? Se calhar até é, mas a ideia de viver para mais do que trabalhar sempre me agradou bastante. Excentricismos.

Para piorar o quadro, o pior argumento que podem usar comigo: ah, mas eu sou licenciada e só ganho mais 250€ do que o ordenado mínimo. Sou novita, que sou, mas já vi muita coisa, e coleciono revoltas que julgo não terem cura; gostava muito, mas gostava mesmo, que ser-se licenciado, mestre, doutor, fosse sinónimo de ser-se realmente bom, de ser-se competente, trabalhador, responsável. Merecedor, enfim, de um grande salário que faça jus ao tanto que estudou para chegar ali - mas, já se sabe, na prática a coisa não é bem assim, é chegar-se ao posto sem se saber muito bem como e querer ser remunerado pelo lugar que ocupa independentemente da mediocridade com que atua.

Não me lixem. 
Façam o vosso trabalho, e não me venham dizer que é quase bem feito que quem não estudou tenha um trabalho duro onde lhe pagam uma miséria, só porque vocês são licenciados e não têm dinheiro para comprar um porsche. Se calhar escolheram mal o curso - em certos casos, para o que fazem, o que recebem já é demais. Mas isto sou eu, que conheço demasiados "profissionais".

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

as feministas, o sexo e o bacalhau

Contra o movimento feminista, tenho absolutamente nada. O que me enerva realmente é que este acabe por ser representado por gajas raivosas, que nos saltam para o caminho, em protesto, denegrindo e ridicularizando um movimento que tinha tudo para ser benéfico. Acalmem lá o pito!

As mulheres não são santas, desculpem. Não são pepitas e ouro, não são puros diamantes incompreendidos; são seres humanos, tão falíveis quanto o resto dos comuns mortais. Desculpem, mais uma vez, se se esqueceram disso algures durante o processo de beatificação de tudo quanto é portador de uma vagina.

Curiosamente, este grupo de criaturas iluminadas que tanto quer exaltar as mulheres como sendo seres superiores, começa por a inferiorizar tanto quanto pode; a mulher é sempre a coitadinha que precisa de trinta e sete gajas de mamas empinadas a dizer-lhe que é linda, poderosa, a maior, a melhor. É uma matemática curiosa esta: na luta pela igualdade de direitos, começam por reduzir o valor da mulher a pó só para, logo em seguida, mostrarem que ela é bem melhor do que o homem. A igualdade fica perdida algures entre a síndrome da coitadinha e o auge da presunção. Não entendo. A minha vagina deve ter vindo com defeito de fabrico e eu nunca notei.

Escrevo isto porque me surgem no feed do facebook, com maior frequência do que seria desejável, sabe deus porquê, publicações feitas por uma iluminada cuja página fala, essencialmente, mal dos homens e de sexo. Sobre como adora foder, sobre como poucos são os homens que sabem fazer um minete, sobre como adora fazer um bom broche - e não, esta não é a minha escolha de palavras habitual. Escusado será dizer que isto me parece uma velha saudosista a relembrar as memórias da juventude, porque, claramente, é falta de sexo.

Quando alguém reclama do conteúdo, a mulher, que é mal educada que dói, alega sempre que já lá vai o tempo em que a mulher tinha de permanecer calada e que tem todo o direito de falar de sexo, se lhe apetecer. E tem, mas vamos lá ver a coerência da coisa: querem colocar-se ao mesmo nível de qualquer homem mas, se as mesmas publicações fossem feitas por um macho, este seria um porco nojento que não tinha nada que andar a falar sobre essas coisas em público, e era o deus me livre.

Vejamos: eu gosto de bacalhau, adoro bacalhau. Bacalhau com natas, bacalhau à Brás, bacalhau com broa, bacalhau no forno, bacalhau à Gomes Sá - mas não é porque eu adoro bacalhau e me sinto livre para falar disso que vou passar a vida a chatear as pessoas com as minhas preferências na hora de comer bacalhau. Ou sobre como sou feliz quando alguém me faz um bacalhau com natas mesmo bom. Ou sobre como acredito que faço o melhor bacalhau com broa do mundo. Estão a ver? Era chato se eu vos dissesse isto todos os dias. O sexo é igual ao bacalhau. 

Não há nada de errado em gostar de sexo, nem tão pouco em falar-se de sexo. Mas limitar toda e qualquer conversa a esse tema porque agora as mulheres soltaram a franga e acham que essa é a melhor forma de se afirmarem, estraga tudo. Podem ser pessoas interessantes sem contarem ao mundo o que é que mais gostam na cama. Não têm de se deixar chegar a pontos ridículos para mostrar que uma mulher pode falar do que quiser. Não sejam badalhocas.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

saudade

Para o estrangeiros é uma palavra bonita que não têm no país deles. Para nós, é o nosso nome do meio - e, por estes dias, tenho pensado no uso, tão errado, que lhe damos.

Não me interpretem mal - eu também tenho saudades de lugares e de pessoas. Mas às vezes pergunto-me se não se deveria guardar esse carimbo somente para onde ela seja imortal - como a certeza sufocante que carrego, há quase um ano e meio, de que não mais poderei abraçar um dos pilares da minha vida. Essa é a saudade justa, a incurável. A eterna.

Depois há as outras: a que nos carregam o peito de uma dor artificial, porque podemos matá-las mas não o fazemos. É quase como se gostássemos de sofrer.

Sentir saudades dos vivos só prova o quanto gostamos de levar a inércia e o orgulho avante. Ora porque sentimos a falta de alguém, mas recusamo-nos a ligar-lhe porque continuamos a achar que éramos nós os detentores da razão naquela discussão que tivémos em 2007. Ora porque até pensamos em ligar, mas nunca dá jeito. 

Ah, agora não posso porque vai dar a novela.
Hoje não, que joga o benfica.
Amanhã ligo, porque hoje está a chover.

Somos tão estúpidos que preferimos transportar as saudades desnecessárias até às derradeiras, só para depois nos podermos carregar de culpas e dizer quem me dera ter-lhe ligado, o que eu não dava para ter ouvido aquela voz mais uma vez!.

Bichos burros, povo saudosista - adoramos a lagrimita no canto do olho, não adoramos?

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

os cães e os gatos à mesa (ou como perder seguidores num só post)

Não ia voltar a sacudir o tapete agora que a poeira assentou, mas ontem dei por mim a ler os comentários a um texto de alguém que é contra a lei que permite a entrada dos animais domésticos em cafés e restaurantes, e fiquei ligeiramente enojada com aquelas mentalidades. Mais revolucionários de sofá, desejos de morte e juras de que nunca entrariam num restaurante onde ela estivesse. A dada altura, tive esperança de que se tratasse só de gente muito brincalhona mesmo, depois quis acreditar que era doença. É um perigo coexistir com gente assim.

Esclarecendo: eu também não concordo. De forma alguma.
Para começar, há que ter em conta que os animais de estimação não são só cãezinhos e gatinhos; quem tiver um porco como animal de companhia, tem todo o direito de querer fazer-se acompanhar da criatura ao jantar. E quem diz um porco diz uma ovelha, aquela ovelha que o Xico Zé diz que só lhe falta o falar e é a companheira dos dias tristes. Uma cobra de estimação. Um canário amarelo.

Sim, faço parte daquele grupo de pessoas pouco habituada a ver o cão passar da soleira da porta. Felizmente, enquanto tive cães, sempre tive espaço para os ter fora de casa. E não consigo imaginar-me a viver de outra forma.

Tenho todo o respeito por quem os tem, e na casa dos outros não é da minha conta se o cãozinho borra o tapete ou lambe o lençol do dono. Não sou eu quem vai limpar, não sou eu quem vai dormir naquela cama. No entanto, e perdoem-me os ofendidinhos - estou a brincar, podem apedrejar-me que eu 'tou nem aí -, eu não gosto do cheiro a cão. Não há nada a fazer quanto a isso; tal como eu gosto do cheiro a gasolina e muitos outros detestam, eu não suporto aquele odor natural do cão, intensificado quando o pêlo está molhado. (Nem vou falar do que sinto quando vejo donos babados porque o cão lhes lambe a cara. A boca.)

Apesar de, aparentemente, pessoas como eu parecerem alliens num momento em que os protetores dos animais surgem em massa, não sou caso único. Há mais gente como eu. E, entenda-se, já me custa ir comer fora e ter de lidar com os guinchos das criancinhas, quanto mais ter de estar a ouvir 34 cães a arfar à minha volta, os donos a darem-lhe a comidinha do próprio prato, a deixá-los lamber a mão que depois levam à boca para tirar o caroço da azeitona e aquele restinho de carne nos dentes. Pior: pagar por isto.

Ah, então podes sempre ir a outro restaurante.
Claro. Porque os restaurantes agora são feitos a pensar nos animais e sou eu que estou errada, logo, sou eu quem tem de se mudar. Eu e todos aqueles que sofram de alergias ou fobias: somos nós que temos de evitar os cafés e restaurantes, sendo ou não os nossos sítios preferidos, porque os cães vão usufruir muito mais do que nós. E o consumo? Oh oh. Nós íamos só beber um suminho de laranja, e o bicho, se for preciso, até a empregada come. Tudo lucro.

Além disso, tenho para mim que esta é só mais uma das atitudes egoístas de quem se diz proteger os animais. Eles não estão naturalmente habituados a frequentar cafés e restaurantes, e não lhes faz falta - metam-nos a correr no jardim, na praia, no campo, e certamente vão estar bem mais felizes do que fechados numa sala com não sei quantos desconhecidos e não sei quantos animais. Há bichos que não se dão bem uns com os outros. Há cães que tentam brincar com qualquer pessoa na rua e há cães que rosnam só porque não gostam da nossa camisola de capuz. Resta-me uma ténue esperança de que haja o bom senso suficiente por parte dos donos para perceberem se aquele cão vai estar ou não sossegado num sítio desses. No entanto, depois do que li ontem, temo que estejamos, literalmente, entregues aos bichos.

Não consigo ver benefícios em levar os animais para estes espaços - mas se o objetivo é mostrar que somos todos iguais, que os animais são da família e não há motivo para diferenciar, sugiro-vos que comecem a dormir nos hotéis para cães e gatos também.

domingo, 24 de setembro de 2017

call me capaz

Espanta-me que, no meio de tanta feminista raivosa, ainda ninguém se lembrou de que nunca existirá igualdade de géneros enquanto não meterem urinóis também na casa de banho das mulheres.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

no meu tempo é que era bom, dizia a minha avó

Contactar com as crianças faz-me temer a procriação: old school no alto dos meus 22 anos, olho para os monstrinhos de hoje como se tivesse nascido há três séculos atrás. Eu já não percebo nada disto; chamem-me tacanha, mas faz-me confusão ver criaturinhas, que ainda só têm dois dentes na boca, a manobrar um smartphone melhor do que eu. Choca-me, por assim dizer.

Quanto mais o mundo avança, mais os pequenos cérebros estagnam. Ficam emperrados com tanta falta de uso: somos todos pela lei do menor esforço e pelas crias sossegadas, conectamos os putos à internet mal nascem, para que possam ter um facebook antes do cartão do cidadão. É mais fixe porque se pode usar filtros, o que dá muito jeito quando expulsamos um pequeno alien pelas partes baixas. 

São todos príncipes, claro. Fazem sessões de fotos incríveis, todos nus, dentro de cestos, em posições de yoga, essas coisas todas. Aquilo de ir ao fotógrafo lá da rua e tirar uma foto num tapete de pêlo é coisa do passado: agora quer-se é tirar fotos com uma produção ao nível das grandes estrelas. E nem assim o puto fica bonito. Ups.

Faz-me confusão, desculpem lá. Os miúdos são cada vez menos miúdos e mais nenucos; as mãezinhas raivosas vivem empenhadas em mostrar que têm a cria mais bonita, com a melhor sessão fotográfica - pelo preço de três ordenados mínimos - a festa de anos mais escandalosamente ridícula. E, claro, o que melhor dominar as tecnologias: 10 pontos para ligar ao pai antes dos dois anos, 15 por abrir o facebook, 50 se souber utilizar filtros e hashtags no instagram. Tudo para que estejam calados e não dêem trabalho.

Eu tenho pena. 
Cresci naquela altura em que, o único contacto com um computador, era uma aula de informática, de quinze em quinze dias, onde nos ensinavam a criar um email e a abrir o paint. Brincava na rua, sentava-me na terra. Falava sozinha, com as minhas bonecas, imaginava cenários, histórias. Pensava - é uma coisa que os mostrinhos mais novos sabem cada vez menos o que é, porque as brincadeiras lhes são servidas de bandeja. Ou de tablet.

É assustador. Mas, pior do que tudo, é que de nada me vale dizer que vou ser diferente - vai ser cada vez mais difícil criar miúdos como miúdos, e não como robots produzidos em massa. Vai ser cada vez mais difícil afastá-los desse mundo maravilhoso onde não têm de pensar muito - e eu bem posso tentar convencer-me de que vou ser diferente, mas não vou. 

Quando chegar a minha altura de ser uma mãezinha raivosa, vou ser igual às outras todas.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

2017

O mundo está minado por pseudo-feministas raivosas de sofá; popicam os posts referentes às criaturas asquerosas que os homens são, montam-se manifestações a proclamar a igualdade de direitos, mulheres querem-se com pêlo, mulheres querem-se a arrotar em público, mulheres querem-se a mijar em pé. Não faz sentido mas, se os homens podem, nós podemos! *palmas de um público histérico*

Somos tão boas quanto eles - perdão! -, somos mil vezes melhores do que eles! Tudo porque não deixamos a tampa da sanita levantada, sabemos de cor dois mil truques para tirar nódoas com vinagre branco e até já nascemos a saber que os putos não se podem lavar na máquina. Mulher que é mulher faz o que lhe apetecer, usa o que lhe apetecer, faz o que lhe apetecer, mas ai do cabrão do homem que a olhe durante mais de cinco segundos seguidos - elas juntam-se todas e gritam violação. Aparece a cmtv, aparece a polícia, aparece o marcelo e ainda vem o papa dar um ar de sua graça: tudo porque, aquele homem nojento, com idade para ser pai dela, violou os seus direitos ao observá-la. Sentiu-se violada, ultrajada, uma puta, coitada, sem ter feito nada por isso. E o pobre homem, que por acaso até via mal ao longe, vai preso, ela sente-se vingada e vem para as redes sociais escrever sobre como não precisa dos homens para nada.

No entanto, depois disto tudo... experimentem, mas experimentem só, serem o gajo e não se oferecerem para pagar a conta da princesa.
Ah, meus amigos, já se foderam - a gaja gosta muito de independência mas é só para o que convém.

(quase quase 22 anos depois... continuo a achar que devia ter nascido gajo)

segunda-feira, 15 de maio de 2017

portuguesíssimo

Se dúvidas houverem de que os portugueses são o povo que melhor se adapta às circunstâncias, ponham os olhos no caso salvadorable: quando se começou a ouvir falar do salvador sobral porque ganhou o festival da canção, foi o drama, o horror, a tragédia. Mimimi, o gajo é estranho - e é mesmo! -, mimimi, esta música não serve para um festival, mimimi, vamos perder mais uma vez.

Tenho para mim que foi só para chatear, mas lá calhou fazer-se história e o tipo ganhou mesmo a eurovisão; de repente, já toda a gente abanava o pézito, ainda no berço, a ouvir salvador sobral. E, mais tarde ou mais cedo, hão de surgir relatos de quem tenha dado a volta, ainda no útero, ao som de amar pelos dois.

Era meter um microfone de cristal pelo cu acima desta gente, é o que é.

quinta-feira, 23 de março de 2017

o drama das cabeleireiras

Desde que a minha cabeleireira, a santa padroeira dos cabelos bonitos, o anjinho capilar, a mãe das cabeleireiras, fechou o salão, que eu e sô dona mommy experimentamos cabeleireiras que nem dois velhotes a correr de tasca em tasca à procura do melhor vinho - estou a exagerar. Ela foi a um salão e eu a outro - já conheço aquele onde ela foi e tenho motivos para não gostar. Tal como arranjei motivos para desgostar daquele onde sentei o cu hoje.

Mal me sentei, comecei a tremer por dentro. A mulher estava a terminar uma manicure e ia-me lançando um olhar de assassina volta e meia, sabe deus porquê - só me apetecia sair dali a correr agarrada à cabeleira, não fosse ela pegar na tesoura e cortar aleatoriamente.

Assumo que falhei: a ideia era pintar de castanho, a fim de deixar de pintar mas, quando a senhora me entrega o catálogo e diz "entretém-te" eu vi demasiadas cores a fazer luzir os meus olhinhos para conseguir pintar de castanho. Pedi-lhe que fizesse o que lhe apetecesse - verdade seja dita, escolheu bastante bem. Juntou dois tons, algures entre o laranja e o vermelho, e ficou bonito. Só foi pena ter-se esquecido de pintar a raiz numa madeixa de cabelo... na testa.

Portou-se bem: percebeu que as pontas são só as pontas, e não voltei para casa com o pescoço ao frio. Mas esse foi um dos poucos pontos positivos porque, durante as duas horas em que lá estive, ponderei espetar a tesoura na carótida: apareceu uma velha, não muito velha, que estacionou a peida lá e ficou a conversar. Aos gritos - soube que comeu uma maçã vermelha ontem e uma amarela hoje. Vou guardar essa informação com carinho.

Esteve lá durante mais de metade do tempo - e, quando achei que não podia piorar, a mulher foi embora e a cabeleireira decidiu virar-se para mim. Não sei o que me enervou mais: entre o facto de me ter tentado impinjir produtos e tratamentos capilares e o facto de me ter feito um trilião de perguntas às quais não me apetecia responder porque sou pouco dada a fofocas, ainda não fui capaz de decidir qual é que me fez ter a certeza de que não volto lá.

Tenho de procurar uma muda ou que faça os clientes esperar na rua. Uma que se limite a prestar o serviço que lhe vou pagar... e em condições, se não for incómodo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

é carnaváu, dizem eles

Não quero que pareça que sou a hater que detesta o carnaval, porque não sou - para isso já basta o natal e o ano novo, que este ano conseguiram deixar mossas que teimam em não sarar. Eu não odeio o carnaval, mas também não gosto daquela imitação rasca e portuguesíssima do carnaval brasileiro. Isso sim: detesto.

Não tenho dúvidas de que lá para torres vedras a coisa seja gira. Aposto que é; no resto do país, do que conheço, os corsos são só chatos, pouco interativos para com o público, e as escolas de samba quase dão vontade de chorar. Desculpem, mas é verdade.

Vejo mais monos do que gente a dançar. As meninas só se preocupam em abanar o cu à frente dos jurados, e depois limitam-se a prosseguir com ar de enfado de quem decidiu fazer o favor de aparecer semi nua e com fatos cheios de plumas, sem piada nenhuma - ah, isto: detesto os fatos. De uma forma geral, são só feios e exagerados. 

Já para não falar das mais velhas ou mais gordas: tumbas, fato gigante que rodopia, rodam para um lado e para o outro, cantam, e arrastam-se. Isto não é carnaval: carnaval é o grupo de matrafonas que me fez rir de verdade. Os que puxam elementos do público para o meio deles e os fazem passar uma pequena vergonha enquanto os obrigam a desfilar e os enchem de beijos - a pessoa cora mas ri-se. Mesmo. 

O carnaval devia ser para brincar, e não para avaliar as estrias e a celulite de meia dúzia de cachopas que se esqueceram de dançar - párem lá com isso, porra!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

o mundo em círculos

Acho particularmente querido que 95% dos anúncios de emprego sejam direcionados a pessoas jovens mas exijam experiência. Quando era pequenina e ainda brincava com a minha vizinha costumávamos fingir que tínhamos um restaurante. Será que conta?

(se não te aceitam porque não tens experiência... como que raio é que é suposto que a ganhes? há de ser obra para o espírito santo, de certeza. esse é que gosta das inexperientes.)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

pequenos milagres

Tenho respondido a todos os anúncios de emprego que me parecem viáveis - há que ter tento: não tenho grande perfil para tratorista nem para servente -, mas já começa a ser hábito nem chegar a ter feedback. A pessoa envia, envia, envia, e nem chega a saber se ele chegou lá ou se até um pombo correio era mais seguro do que o email. E chateia, que chateia, nunca obter resposta.

Ontem respondi Ao Anúncio, o anúncio dos anúncios, o ferrari dos anúncios, porque estou certa de que era algo que eu iria adorar fazer - sem esperança, confesso, porque nem dava para perceber se preencho os requisitos mínimos ou não. Anyway, enviei, só para o caso.

E hoje... badum tsssss... eles responderam!


Os poucos neurónios que ainda não me abandonaram bateram palmas. Iniciei o meu discurso de agradecimento, aos meus pais, aos meus avós, ao google, à wikipédia, à dona maria da loja, à minha professora da escola primária, ao dermatologista que me tratou a verruga no pé. Aconteceu, caramba!



Não era sequer para marcar uma entrevista - era só para confirmar a receção da minha candidatura e para me informar de que estão a avaliar o perfil dos candidatos. Ainda assim, apeteceu-me responder-lhes a agradecer a honra de ter tido direito a uma resposta, mas contive-me como pessoa equilibrada que (às vezes) sou.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

chateei-me.

Na reportagem da sic, sobre a toxicodependência, ouviu-se a dada altura uma mulher a dizer algo do género: como podem ver temos condições muito precárias, é uma vergonha a forma como vivem os consumidores. De alguma forma, isto irritou-me profundamente: não consigo compreender como é que ainda têm a lata de se queixar. Juro que não.

Vivemos num país que só se lembra dos sem abrigo no natal e quando há vagas de frio, que faz cara feia aos refugiados porque, já se sabe, trazem todos um cinto de bombas por baixo da roupa e que julga, à priori, todos quantos cometam a ousadia de ter uma raça ou uma religião diferente - mas se são toxicodependentes tudo bem. Faz-se-lhes festinhas na cabeça e procuram dar-lhes condições para continuarem a fazer aquilo que sabem de melhor: drogar-se.

Desculpem-me o preconceito, mas não consigo compreender. As drogas são uma escolha, quer queiram quer não. Não é algo que não se possa mudar, não é algo de que as pessoas não tenham culpa: é, pura e simplesmente, uma escolha e ninguém é uma vítima de nada.

Se querem ajudar estas pessoas, que tentem a reabilitação - distribuir seringas com sorrisinhos condescendentes é quase um incentivo. Eles não têm de fazer nada porque são só uns coitadinhos: roubam para poder comprar droga, roubam para comer, dormem onde dá, e está tudo bem porque ainda aparece um grupo de pessoas com seringas novas e pancadinhas nas costas. Ninguém tem culpa de ter entrado neste mundo, ninguém sabia onde ia dar. Não faziam ideia de que iam ficar assim.

Acho triste que se apoie mais gente que fez uma escolha errada do que aqueles que não tiveram qualquer alternativa e acabaram na miséria. Acho ainda mais triste que, com toda uma panóplia de doenças que não podemos evitar, se premiem aqueles que abraçam problemas desnecessários. Escolhas.
É tudo sobre isso.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

o drama, o horror, a tragédia

Sempre vi e ouvi gente a queixar-se das cabeleireiras - ora porque lhes queimavam o cabelo, ora porque têm uma dificuldade imensa em perceber que é possível cortar só as pontas e não é necessário entrar no salão tipo rapunzel e sair uma beatriz costa. 

Eu nunca sofri disso.
A minha cabeleireira é uma santa, uma enviada especial de deus criada à medida das minhas exigências capilares: pode parecer um mito mas, acreditem, é possível dizer faz o que quiseres e sair de lá realmente feliz com o resultado. 

É, provavelmente, a única da espécie que eu vi a trabalhar com prazer, a gostar do que fazia. A esmerar-se para ter um resultado agradável, bonito - e tinha uma paciência de jó para me aturar. A mim e à minha tendência tola para as cores estranhas e para as misturas incomuns.

E agora?
Fechou o salão.


O que é que eu faço à minha vida, deus? O quê?

quinta-feira, 19 de maio de 2016

still 6 days to go

O que chateia mais neste tempo miserável é o facto de a vida ser tão injusta com a gente pobre.
A pessoa vende o cu e metade da família para poder ir meia dúzia de dias de férias em maio, e os céus decidem não cooperar e permitir à pessoa ganhar um bocadinho de cor que se veja, só naquela de compensar o facto de não poder sair de casa o resto do verão porque ficou ainda mais pobre.

Não me digam que a vida não é uma puta reles e invejosa, porque é.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

beijinho gigante para ti

Porque eu até posso estar enganada, mas parece-me que a pessoa que faz questão de me ignorar mensagens e chamadas, foi exatamente a mesma que fez o favor de me deixar com 125 visitas a esta hora.

(entenda-se que, em tempos áureos, isto já foi normal mas, atualmente, as minhas visitas diárias são pouco mais do que isto, e a contagem começa à uma da manhã.)

terça-feira, 3 de maio de 2016

ca nerbos!

Os velhos tiram todos um curso para aprender a fazer aqueles estalidos irritantes com a língua, ou isso é uma competência que se adquire naturalmente com o passar do tempo?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

e, a isto, eu assisto diariamente

Há uns meses, acusaram-me de ser sovina pelos motivos mais ridículos que possam imaginar - e hoje, a história das promoções fez-me refletir sobre isso novamente. Tenho a dizer-vos que, afinal, sou orgulhosamente sovina por motivos de que me orgulho.

Tenho dinheiro. Não muito, mas inteiramente meu e completamente à minha disposição para fazer o que quiser dele. Podia dar-me a pequenos luxos, podia permitir-me algumas futilidades, mas não o faço; ainda não sei bem o que quero fazer a seguir, mas sei que quero mais, muito mais, e que não o posso fazer sem dinheiro. Sou cheia de sonhos e objetivos, e não tenciono depender de ninguém para os atingir; não, não quero depender dos meus pais até aos 30. Pelo contrário, acho que começa a ser hora de retribuir tudo o que já fizeram por mim.

Desta feita, confesso, nunca gasto dinheiro sem pensar no abalo que será para a minha conta. Não passo o cartão sem pensar duas vezes, raramente compro coisas de que não preciso realmente, mas fico realmente feliz quando faço compras para casa. Fico contente quando sinto que estou a contribuir. Estranho? Não me parece.

É por isto que não entendo a necessidade que as pessoas têm de fazer de conta que têm mais dinheiro do que o que têm na realidade. As que, como diz o outro, vivem acima das possibilidades e acabam a depender de esmolas para conseguirem manter um estilo de vida que, claramente, não têm como sustentar. Gente que, assim que sabe que vai ganhar 10, já está a pensar onde vai gastar 30€. Gente que se queixa de que nunca tem dinheiro mas também nunca faz um esforço para poupar, que não sabe o que é ter dois euros porque gastou o primeiro assim que lhe caíu na mão.

Nunca emprestem dinheiro a pessoas que dependem das vossas moedinhas; perguntem-lhe antes onde gastaram o que falta, e porque é que insistiram em comprar aquilo que não tinham como pagar. Não confiem em gente que vos olha de lado por saber que poupam e que contam cada cêntimo que gastam: acreditem que não são vocês que estão errados por quererem ser autossuficientes, em vez de uns esbanjadores incapazes de compreender que ir a todo o lado, contando com dinheiro emprestado, que nunca chegam a devolver. Isso não faz deles fixes nem pobres coitados. Faz deles uns parasitas inúteis que só vão chegar onde a boleia os levar.

E, a sério, não é longe.

domingo, 3 de janeiro de 2016

cinderela, a benanosa.

O que eu acho mais triste nos concursos de talentos é que há sempre gente boa, realmente boa, que fica para trás para dar lugar a criaturas que não cantam um caralho mas contam as histórias da vidinha deles e depois puff: toda a gente chora e eles chegam à final.

Não por serem bons cantores, mas sim por serem bons contadores de histórias.
Great job.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

oooops

Depois de ter lido o ugly love e o maybe someday, comprei o hopeless numa crise de preciso-mais-disto - agora estou aqui toda frustrada porque só lhe peguei ontem à noite e já o li quase todo, mas percebi a história sozinha e isso é chato. Queria que o livro me tivesse conseguido surpreender e fiquei rabujenta, que fiquei.

Ser eu é difícil.