Ontem, ia escrever-vos que esta febre das greves é mais contagiosa do que o sarampo e, nos últimos tempos, parece que a moda pegou mesmo - contudo, e curiosamente, não são os que se esfolam a trabalhar pelo ordenado mínimo que fazem estas birras.
Abortei a ideia quando precisei de recuperar do choque depois de, em conversa com uma conhecida, lhe ter dito isso mesmo e a criatura me ter respondido:
- quem ganha o ordenado mínimo não se queixa porque ele está sempre a aumentar, já vai quase nos 600€!
Wait... what?
Estaremos a insinuar que quase 600€ são suficientes para se viver decentemente e com dignidade? Talvez o sejam, para quem tem a vida feita e tudo pago. Ou para quem vive pendurada na carteira de alguém. Agora, tendo em conta que os quase 600€ são, na realidade, 580€, que os preços das rendas são uma atrocidade, juntando-lhe todas as outras despesas essenciais, como a água, a eletricidade, o gás, mantendo aquele vício absurdo de comer e, pior ainda, de tentar comer bem e não viver à base de pacotes de batatas fritas de marca branca, pelas minhas contas, o ordenado mínimo dá para viver confortavelmente numa gruta.
Estou a exagerar, claro. Ginástica bem feita, o ordenado mínimo dá perfeitamente para pagar todas estas despesas, mas sem margem para qualquer imprevisto, doenças e afins, e estando psicologicamente preparado para contar cêntimos até ao próximo salário, para repetir: trabalhar para sobreviver até que se morra, basicamente. Parecer-vos-á uma perspetiva exagerada? Se calhar até é, mas a ideia de viver para mais do que trabalhar sempre me agradou bastante. Excentricismos.
Para piorar o quadro, o pior argumento que podem usar comigo: ah, mas eu sou licenciada e só ganho mais 250€ do que o ordenado mínimo. Sou novita, que sou, mas já vi muita coisa, e coleciono revoltas que julgo não terem cura; gostava muito, mas gostava mesmo, que ser-se licenciado, mestre, doutor, fosse sinónimo de ser-se realmente bom, de ser-se competente, trabalhador, responsável. Merecedor, enfim, de um grande salário que faça jus ao tanto que estudou para chegar ali - mas, já se sabe, na prática a coisa não é bem assim, é chegar-se ao posto sem se saber muito bem como e querer ser remunerado pelo lugar que ocupa independentemente da mediocridade com que atua.
Não me lixem.
Façam o vosso trabalho, e não me venham dizer que é quase bem feito que quem não estudou tenha um trabalho duro onde lhe pagam uma miséria, só porque vocês são licenciados e não têm dinheiro para comprar um porsche. Se calhar escolheram mal o curso - em certos casos, para o que fazem, o que recebem já é demais. Mas isto sou eu, que conheço demasiados "profissionais".


