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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

nao será à toa que é dos meus preferidos.

Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprimindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram.

José Saramago,
a viagem do elefante

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

o drama dos livros e dos escritores esquisitos

Um dos fenómenos que escapam o meu entendimento é o facto de eu ter uma lista gigante de livros para ler mas, ainda assim, insistir em reler: não me vou alongar sobre o harry potter e a quantidade  absurda de vezes que já li e reli a saga, mas ontem terminei, mais uma vez, o sexto livro. Guardei o sétimo para quando acabar os que trouxe da biblioteca, que já não tenho idade para andar com dois ou três ao mesmo tempo.

Na sexta, aproveitei a hora de almoço para uma fugidinha até à biblioteca mais próxima: de todas as opções disponíveis, peguei nas minhas velhas escolhas e resolvi que era altura para segundas oportunidades.

Minto: o ensaio sobre a cegueira não precisa de uma segunda oportunidade porque já é, indubitavelmente, um dos meus livros preferidos e, por isso mesmo, guardei-o para o fim tal como reservo o que mais gosto, no prato, para comer em último, por ser o sabor que quero preservar na boca.

Reli a metamorfose de um trago só: passaram uns anos desde o meu primeiro encontro com o kafka e, quando escrevi por aqui que não tinha gostado, aconselharam-me esperar uns anos e tentar outra vez. Foi o que fiz - sinto que tinham razão quanto à perceção que teria do livro, que o interpretei de uma forma bastante diferente e que me fez mais sentido desta vez, mas continuo a não conseguir dizer se gosto ou não.

Agora, entre o kafka e o saramago, ando aqui a debater-me com o antónio lobo antunes; tentei ler o eu hei de amar uma pedra há uns anos, mas desisti por não me entender com o tipo de escrita. Desta vez trouxe o que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, e continuo a não perceber como é que alguém se queixa do saramago quando isto existe: estou determinada a não desistir, mas confesso que não consigo encontrar grande prazer em ler um livro confuso, cujo autor muda de assunto ainda mais rápida e bruscamente do que eu, e eu sempre achei que seria difícil alguém me ultrapassar nesse dom.

A ver vamos se não me chateio.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

tinha isto aqui sublinhado

descobriu, como noutras ocasiões tinha sido já descoberto, que um acontecimento que ela tinha esperado com impaciente desejo, ao ocorrer, não tinha afinal trazido toda a satisfação que ela tinha prometido a si própria. Era portanto necessário definir outro momento para o começo da felicidade real, ter outro ponto no qual os seus desejos e esperanças podiam fixar-se, para poder, através do prazer da antecipação, consolar-se pelo presente e preparar-se para outra desilusão.

Jane Austen,
orgulho e preconceito 

domingo, 19 de junho de 2016

sobre as boas pessoas

Um vendedor de livros, numa feira de velharias, vendia livros a 1€ cada. Peguei em dois: o fogo e as cinzas e o homem que era 5º feira. Remexi na carteira, para pagar - só tinha 1€ em moedas, teria de de pagar com uma nota de 10€.

- não tenho troco, menina. paga para o mês que vem.

Recusei por saber que nunca mais me lembraria. Ofereci-me para deixar um livro e procurá-lo de novo noutra altura. Talvez no mês que vem.

- fazemos assim: leva os dois por um euro.

Por um euro, trouxe dois livros e um sorriso: um livro de um euro pode não parecer grande coisa mas, se a intenção não fosse vendê-los a troco de dinheiro, o homem certamente os distribuiria por aí. E ainda há boas pessoas.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

uma verdade inconveniente

Na verdade não há nada a que possamos recorrer para nos orientar na vida, a não ser o nosso passado. Não se pode começar de novo. Só podemos apanhar os cacos que alguém deixou ficar.

Jodi Picoult,
ilusão perfeita

sobre o amor.

Dorothea levara anos a compreender, mas agora acreditava convictamente: o amor é assim. Não se pode pintar a preto e branco. Acabava sempre por ser uma mistura estranha de tons de cinzento.

Jodi Picoult,
ilusão perfeita

domingo, 28 de fevereiro de 2016

acertou-me no fígado

As consequências dos nossos atos são sempre tão diversas e complexas que prever o futuro se torna numa coisa muito, muito difícil...

J. K. Rowling,
harry potter e o prisioneiro de azkaban 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

para acabar,

Uma corda estica até ao seu comprimento, mas pode passar uma vida inteira dobrada sobre si mesma, enrolada  para dentro. Uma corda comprida pode não passar de um pequeno rolo. A nossa vida também é assim, como uma corda. Por vezes estende-se sobre o abismo, por vezes está enrolada na arrecadação. Pode unir dois lugares distantes ou ficar arrumada, sobre si mesma.

Afonso Cruz,
jesus cristo bebia cerveja  

domingo, 21 de fevereiro de 2016

sobre os leitores

Nunca consigo compreender o que vai na alma das criaturas que me dizem que eu devia aproveitar os meus tempos livres para descansar e não para me enfiar no meio dos meus livros - ler é a minha forma de descansar. Quando leio, os problemas da história só existem até eu fechar o livro.

E, depois, voltam os meus.

vão por mim, o livro é bom

Rosa nunca se sente única. Isso nunca lhe acontece na vida. Todos os seus momentos são minimizados com um "isso também já me aconteceu". A vida de rosa é partilhada por todos e não tem nada de único. Todos os seres humanos são únicos, menos rosa. Ela pertence a todos, como o pão da missa que se divide pela humanidade.

Afonso Cruz,
jesus cristo bebia cerveja 

dos melhores de sempre

... querendo dizer que as nossas dores nos acompanham até morrermos, como cães fiéis atrás dos donos. E, quando olhamos para baixo, vimos esses cães horríveis que nunca nos abandonam, que nos são leais até à morte.

Afonso Cruz,
jesus cristo bebia cerveja

a pausa no harry potter

- Olha, trouxe bolinhos de canela - diz rosa.
Ari está com os olhos cheios de montanhas e flores da primavera e não ouve nada, pois os olhos repletos de coisas dão cabo do que se ouve.
- Trouxe bolinhos...
Ari levanta-se e sorri, pega em três ou quatro de uma vez e empurra-os para dentro da boca.
- Não sabem a canela.
- Estes não sabem.
- Não há bolos de canela que não sabem a canela.
- Claro que há. Tal como há pessoas velhas que morrem novas e há horas que passam em segundos e há sonhos que acontecem quando estamos acordados, há bolos de canela que não sabem a canela.

Afonso Cruz,
jesus cristo bebia cerveja

sobre as pessoas que nos morrem em vida

A vida das pessoas acaba assim, e matilde nem sequer tem consciência de que morreu uma das suas mortes. De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.

Afonso Cruz,
jesus cristo bebia cerveja

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

oooops

Depois de ter lido o ugly love e o maybe someday, comprei o hopeless numa crise de preciso-mais-disto - agora estou aqui toda frustrada porque só lhe peguei ontem à noite e já o li quase todo, mas percebi a história sozinha e isso é chato. Queria que o livro me tivesse conseguido surpreender e fiquei rabujenta, que fiquei.

Ser eu é difícil.

domingo, 22 de novembro de 2015

ainda sobre o if i stay

Eu também já fui uma dessas velhas do restelo que juram a pés juntos que nunca nesta vida hão de trocar os livros físicos por livros digitais - hey, eu sou assumidamente apaixonada por livros velhos e tenho mais do que me orgulho de assumir, mas confesso que sofro de binge reading e sou demasiado pobre para alimentar esta minha compulsão num país onde os livros estão ao preço do ouro.

Por isso sim, apedrejem-me: neste momento, já tenho o if i stay e o where she went em ebook e apetece-me devorar o resto do maybe someday ainda hoje, só para poder ler estes dois.

domingo, 25 de outubro de 2015

e só mais isto

As nossas vidas são uma partitura complexa, pensou Tsukuru. Cheia de semicolcheias e fusas, entre outros sinais crípticos e anotações de significado obscuro. Interpretá-la corretamente revela-se uma tarefa árdua e, mesmo que se consiga fazê-lo e produzir os sons corretos, não significa forçosamente que as pessoas captem e compreendam o sentido implícito. Não há garantia de que isso traga felicidade. Por que razão a vida tem de ser tão complicada?

Haruki Murakami,
a peregrinação do rapaz sem cor

e isto

No mais profundo do seu ser, compreendeu por fim. O que une o coração das pessoas não é apenas a harmonia. Os corações humanos unem-se através dos desgostos sofridos. Ferida com ferida. Dor com dor. Fragilidade com fragilidade. Não existe silêncio sem um grito de dor, não existe perdão sem derramamento de sangue, não existe aceitação sem a inevitável passagem pelo sentimento de perda. É aqui que se encontram as raízes da verdadeira harmonia.
Haruki Murakami,
a peregrinação do rapaz sem cor

mais ou menos isto

Aquilo não lhe saía da cabeça. Talvez o meu destino seja ficar sozinho, chegou a pensar. As pessoas aproximavam-se dele, mas depois, no fim, acabavam sempre por partir. Vinham ter com ele à procura de alguma coisa e, ou porque se mostravam incapazes de encontrar o que pretendiam, ou por ficarem desencantadas com o que encontravam, davam-se por vencidas e desapareciam. Um dia, subitamente, volatilizavam-se. Sem uma palavra de despedida, sem grandes explicações. Como se um machado afiado cortasse de um só golpe os vínculos que os uniam, pelos quais ainda continuava a correr sangue quente que fazia palpitar as veias.
Havia nele qualquer coia que afastava os outros, qualquer coisa de primordial.

Haruki Murakami,
a peregrinação do rapaz sem cor

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

mais ou menos isto

Love isn't always pretty, Tate. Sometimes you spend all your time hoping it'll eventually be something different. Something better. Then, before you know it, you're back to square one, and you lost your heart somewhere along the way.
Colleen Hoover,
ugly love

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

talvez meio-meio

O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma autoestrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas. 
José Saramago,
a viagem do elefante