segunda-feira, 27 de novembro de 2017

a gente habitua-se,

diz o povo.

Eu nunca fui boa nesse jogo, mas também nunca fiz muita questão de praticar; essa coisa de me obrigar a gostar de algo nunca fez sentido na minha cabeça. Só quando, cansada de só comer salada de alface, me obriguei a gostar de pepino - continuo a não conseguir lidar com os tomates. Façam piadas à vontade.

A verdade é que há demasiada gente descontente que faz questão de se certificar de que levas uma vida tão pouco prazerosa quanto a delas, e isso chateia-me bastante. Essencialmente, porque eu não quero mesmo saber da vida dos outros. Cada um faz o que pode por si, e se as pessoas são felizes a reclamar do quão infelizes são, eu não posso fazer nada quanto a isso. Eu escolhi a outra via. Aquela que seguem os que não querem passar a vida a lastimar-se.

Não quero arrastar-me por aí. Não quero ter de me obrigar a levantar, a vestir, a sair de casa. Quero querer fazê-lo, sem sentir que é um esforço hérculeo e pouco compensador. Se isto não vos fizer sentido, provavelmente poderão encaixar-se no grupo de cima - mais uma vez, não vos posso fazer nada, a não ser desejar-vos as melhoras.

A gente habitua-se, diz o povo. 
Esta frase é quase sempre proferida com o ar orgulhoso de quem aguenta as piores tormentas e é feliz nessa infelicidade consentida. Porque é assim mesmo, a vida é difícil, e a gente habitua-se.

Parece-me possível que a vida se torne mais difícil quando nos resta pouca vontade de viver. Quando sobrevivemos por aí, entregues ao destino, conformados com a ideia de que somos mais pessoas porque somos uns sofredores. Isto está demasiado errado para mim. 

Desculpem, mas eu não faço parte deste movimento.
Se temos de nos habituar a alguma coisa, que seja à felicidade. Seja onde for que a encontrarmos. Seja como for.

Eu procurei a minha. Procurei o que me fazia mais sentido e o que era melhor para mim.
Lidem lá com isso, ó povo infeliz.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

saudade

Para o estrangeiros é uma palavra bonita que não têm no país deles. Para nós, é o nosso nome do meio - e, por estes dias, tenho pensado no uso, tão errado, que lhe damos.

Não me interpretem mal - eu também tenho saudades de lugares e de pessoas. Mas às vezes pergunto-me se não se deveria guardar esse carimbo somente para onde ela seja imortal - como a certeza sufocante que carrego, há quase um ano e meio, de que não mais poderei abraçar um dos pilares da minha vida. Essa é a saudade justa, a incurável. A eterna.

Depois há as outras: a que nos carregam o peito de uma dor artificial, porque podemos matá-las mas não o fazemos. É quase como se gostássemos de sofrer.

Sentir saudades dos vivos só prova o quanto gostamos de levar a inércia e o orgulho avante. Ora porque sentimos a falta de alguém, mas recusamo-nos a ligar-lhe porque continuamos a achar que éramos nós os detentores da razão naquela discussão que tivémos em 2007. Ora porque até pensamos em ligar, mas nunca dá jeito. 

Ah, agora não posso porque vai dar a novela.
Hoje não, que joga o benfica.
Amanhã ligo, porque hoje está a chover.

Somos tão estúpidos que preferimos transportar as saudades desnecessárias até às derradeiras, só para depois nos podermos carregar de culpas e dizer quem me dera ter-lhe ligado, o que eu não dava para ter ouvido aquela voz mais uma vez!.

Bichos burros, povo saudosista - adoramos a lagrimita no canto do olho, não adoramos?