quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

não matem o pinheirinho de natal

Eu não ia desabafar sobre isto, mas não aguento mais.

Todos os dias, todos os santos dias, uma pessoa leva com fotos do pinheiro natalício da casa alheia. Palavra de honra que, no instagram, há quem tenha já mais fotos da árvore de natal do que a malta que vai levantar ferro para o ginásio tem dos biberons de whey. 

E qual é o mal?
As cores.
Alguém precisa de pôr um travão nisto.

Passamos do pinheirinho verde para a variante do pinheirinho verde com restos de branco - tudo bem, até aqui. Se neva na sala destas pessoas, o problema certamente não será meu. Mas daí saltámos para o pinheiro albino, todo branco, ali num sofrimento que nem pode ver a luz, e uma pessoa nem sabe se aquilo é de nascença ou se ficou assim por passar um ano enfiado numa caixa empoeirada, algures nos confins da divisão da tralha.

Depois disto, foi sempre a piorar.
Já vi pinheiros roxos, cujo fundamento não consigo entender. E vermelhos, completamente vermelhos, como se viessem diretos de uma chacina para o canto da sala, fazer as delícias das crianças e dos felinos habitantes do lar, qual criminoso amador. Não se percebe.

E agora, vêm as prateadas. E as rose gold que, imagino, sejam a perdição de tudo quanto é influencer - p'lamor da santa, quem é que não quer ter uma árvore de natal que condiz com os pingarelhos das portas dos armários e com o relógio? Pffff.

Faz todo o sentido. 
Em breve, o pai natal começa a vestir chanel e a vir com sapatos de pele de rena, a distribuir códigos promocionais da prozis e a pedir para tirar selfies com todos os meninos, como o tio Marcelo. As renas são substituídas por unicórnios porque está na moda, e o trenó passa a ser dourado, cravado de glitter. E, no dia seguinte, o pai natal publica um vlog no youtube.

Estamos bem.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

not so happy days

[quantas vezes já quiseste parar de viver? não necessariamente morrer, mas parar de viver por um bocadinho - só um bocadinho - para recuperar o fôlego?

tenho pensado nisso todos os dias. no jeito que me dava se o mundo pudesse fazer uma pausa, parar de girar e deixar-me ir ali acertar com as ideias. ou então ficar só a olhar para ele, como quem estuda o mapa de uma cidade, e tentar encontrar os pontos chave para me descobrir. para perceber, finalmente, o que raio há de tão errado comigo.

eu já fui diferente: já chorei menos do que agora, já tive uma personalidade mais vincada, já soube, na ponta da língua, o que queria ser quando fosse grande. só que agora sou grande e não faço a mais pequena ideia do que caralho estou a fazer no mundo - tenho uma vida morna que me entedia e me enche de raiva. é tudo mais ou menos: não sou alta nem baixa, não sou gorda nem magra, não sou bonita nem feia, não sou inteligente nem burra, não tenho o cabelo liso nem ondulado. está tudo ali no meio, numa posição chata que me faz sentir um figurino, como se nunca tivesse realmente direito a um lugar no mundo.

gostava que fosse diferente. de fazer a diferença - e não gostávamos todos?
só que às vezes, não.

nunca te apetece mesmo parar de viver?
a mim apetece. hoje.

sinto a vida do avesso, toda a alegria feita em água que se me escapa por entre os dedos: começam a faltar-me as forças, começo as esgotar as reservas. é sempre mais ou menos assim: ou está tudo razoavelmente bem, ou está tudo muito mal. nunca há meios termos quando chega a hora de desmoronar o castelo de cartas que é a minha felicidade.

apetece-me chorar. 
chorar compulsivamente como a menina perdida que me sinto, e não como a mulher desorientada que, de facto, sou: o que queria mais, era saber porquê. entender onde erro, em que capítulo cometo o pecado final que me destrói sempre a vontade de viver. queria perceber o porquê de acabar sempre abandonada, de uma forma ou de outra. de a minha vida ser, toda ela partidas e chegadas, e nunca um porto seguro. um hotel. melhor: um prédio de habitação, onde os inquilinos se instalassem e vivessem por anos a fio. olhem - quem sabe? - até que a morte nos separasse.

era bom, e eu era mais feliz.
só que hoje não - hoje só quero chorar até amanhã.]