segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

a véspera.

[foi há 18 dias que começámos a viver mais devagarinho: depois do choque inicial, encontrei, perdida no fundo de uma gaveta, uma força que eu não sabia que me pertencia. e tornei-me dura, talvez. ou uma pequena besta, para ser mais precisa.
em épocas de crise, entro em modo de sobrevivência e fico capaz de coordenar um exército inteiro. não admito lágrimas, não lido bem com a fraqueza - lembrem-me de pedir desculpas à minha mãe, quando tudo isto passar, por todas as vezes em que a meti em sentido. não permito que se demorem em lamúrias ou que deitem os olhos ao céu para perguntar "porquê a mim?" - o truque é percebermos que não haveria motivo algum para não ser connosco. não somos pepitas de ouro, não somos especiais: somos humanos, e por mais que seja uma merda, as pessoas adoecem, sejam boas ou más ou mais ou menos. o único pré requisito possível para se sofrer é estar vivo. e, na volta, se me esforçasse, ainda era capaz de encontrar uns quantos mortos que passaram as passas do algarve já depois de o serem. é a vida. e a morte.
há 18 dias que o relógio parece segurar um paradoxo - ora o tempo parece passar demasiado devagar entre consultas e exames, ora o tempo parece voar, porque parece sempre que estamos prestes a perder essa bênção ilusória que nos parece a ignorância quando estamos às escuras à beira de um precipício.
e eu, que tenho vivido entre uma calma estranha, quase inconsciente, e um nervoso miudinho que me ataca quando menos espero, hoje sinto um nó na garganta. não sei se quero adiantar o relógio ou atrasá-lo uns bons dias: dentro de coisa de 12 horas, se conseguir passar na barreira dos seguranças, estarei sentada com a minha avó, frente a frente com a médica. e, de alguma forma, não consigo deixar de sentir que é a hora da sentença final.
hoje, rezo a um deus em quem tenho de me obrigar a acreditar, para que amanhã ganhe a lotaria - uma frase, três palavras: não há metástases.
é rezar.]

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

destes dias, destes tempos.

Há uma beleza mórbida em tudo o que nos está a acontecer - não é a primeira vez na história da humanidade, mas espero que seja a primeira e a última na história das nossas vidas, que temos esta sensação de união, de que todos tememos o mesmo. Com contornos diferentes, com posições diferentes, com medos diferentes, mas um bicho papão em comum.

Curiosamente, é neste momento em que estamos mais unidos que é imperativo que nos afastemos, que não podemos chorar nos ombros uns dos outros as mágoas comuns, que não podemos afagar as costas de quem também sente as nossas dores. Ou as próprias, mas incrivelmente semelhantes às nossas.

Desta vez, não estou confinada ao meu T1 minúsculo, a vaguear entre divisões sem saber muito bem em que dia da semana ou do mês é que vamos ou a que refeição pertence a taça de leite com cereais que estou a comer: agora eu saio de casa, semana sim, semana não, para trabalhar e sou obrigada a manter alguma sanidade no meio de toda a loucura mas, ainda assim, há momentos em que dou por mim a chorar, sem conseguir respirar. Tenho medo. Tenho todos os dias um bocadinho mais de medo.

Quase todas as pessoas mais importantes da minha vida são portadoras de alguma condição que as torna mais vulneráveis à partida - e, por esse mesmo motivo, temo que perdessem na luta por um ventilador. Temo que pudessem fazer parte do grupo daqueles que, lamentavelmente, ficam pelo caminho. E este pânico enrola-se no meu peito e não me dá um segundo de paz. 

Não visito os meus pais e os meus avós há semanas. Falo-lhes pelo telefone e desvalorizo a distância, como quem diz que o importante é estarmos todos vivos - mas desligo o telemóvel de lágrimas nos olhos: e se estiver a perder tempo? E se a distância que mantenho só me fizer perder tempo com eles? Se contraírem o vírus nos empregos ou nas compras, ou se qualquer outra coisa acontecer - e se os perder? E se estiver semanas sem os ver e no fim não me sobrar nada?

Acredito que sejam os medos de todos mas nem por isso me sinto menos angustiada com os meus - também há uma certa dose de egoísmo nesta união perversa, e um ódio crescente por todos aqueles que continuam a desrespeitar as regras e a agir como se nada fosse, colocando em risco os que já perceberam que é a sério. Que se estão a perder vidas todos os dias que não teriam de se perder - quer das covid, que parecem ser o centro dos nossos dias, quer das não-covid, que acontecem quando não tinham de acontecer por falta de assistência. Por falta de tempo e de meios.

É a sério - e não, não vamos todos morrer, mas vamos todos perder pessoas se alguns seres iluminados não perceberem entretanto o que está a acontecer. 

Protejam-se e, sobretudo, tenham juízo.