24/09/16

frustração

É passar a semana a contar os dias que faltam para o dia de voltar a estar com o moço. É ficar com um sorrisinho tolo de cada vez que penso nisso. É planear tudo, organizar tudo, para poder estar com ele em paz.

E os planos irem todos por água abaixo no último momento.

18/09/16

sexta feira

Velhinho, pequenino, frágil, sentado numa cadeira de rodas na sala de espera, chorava. Chorava muito. Olhei-o, renitente; sei que não gostam da ideia de irmos a correr falar com os doentes, sei que, num hospital, chorar é tido como um comportamento normal, tão banal que não vale a pena abandonar os nossos afazeres. Olhei-o outra vez e não pude resistir.

Era o desespero de se ver doente, numa cadeira de rodas. A sensação de ser inútil, de só trazer problemas, de ser aquele o seu fim - e chorava, aquele velhinho pequenino e frágil. Chorava porque preferia morrer a ver-se assim, a dar trabalho. Um par de olhos azuis marejados de lágrimas e cheios de sofrimento; não sei que doença ali o levou, mas vi a dor que carregava e isso foi mais do que suficiente para mim.

Na sexta feira foi a primeira vez que me fui embora por não aguentar sentir as lágrimas nos meus próprios olhos.

15/09/16

peixonei-me!



Por uma música.

14/09/16

percebe isto

A minha confiança é como um castelo de cartas construído em cima de um vibrador em funcionamento. 

E tu teimas em metê-lo no máximo.

12/09/16

- Podemos ficar assim para sempre?, sussurraste.

[Houve mil e uma tempestades antes de chegares à minha vida, mil e um dias em que me questionei sobre o mal que eu teria feito a esse deus de quem tanto falam para me sair sempre em sorte tanto azar. Houve mil e uma preces por dias mais felizes, por pessoas melhores, por momentos em que alguém me fizesse crer que todas as tormentas são recompensadas, mais tarde ou mais cedo. Mas, perdida no teu abraço, não existem dores nem tempestades, nem dias maus nem recordações dolorosas: existe uma espécie de paz. Um refúgio.

No teu abraço, não há fantasmas: existes tu a plantar-me beijinhos na testa, na cabeça, na bochecha, e a lembrar-me de que não preciso de ter medo, a dizer-me que gostas de mim e que vai correr tudo bem. Não me sobra espaço para temer o que me fazes sentir quando sussurras, junto aos meus lábios, que eu sou especial. Que sou bonita. E, pela primeira vez, sinto que alguém me vê realmente dessa forma. Pela primeira vez, acredito - e essa vai ser sempre a tua maior vitória.

Ajeitei a cabeça no teu ombro e apertei-te mais contra mim: fomos rápidos a acertar o passo, a aprender a encaixarmo-nos um no outro, a entrar em sintonia. Descobrimos gostos e manias com a sagacidade de quem tem pressa de absorver tudo num instante - e, no entanto, deixámos tanto, mas tanto, para depois. Para não esgotar as hipóteses, para não estragar o encanto. Para apreender com o tempo. Para precisarmos de mais tempo - e eu estou a adorar passá-lo contigo. Gostar de ti é um desafio constante: ainda temos muito de nós para domar. Ainda há muito de nós que falta enquadrar - e, mesmo assim, já está quase perfeito. 

Nunca te poderia agradecer o suficiente por não me teres deixado ir na altura em que te tentei fugir - espero nunca fazer com que te arrependas disso. Espero que te orgulhes por me teres feito ficar. E fazer-te tão bem quanto me tens feito a mim.]

- Por mim sim - respondi-te. Por mim, ficávamos assim para sempre.

11/09/16

e fez-me sorrir, que fez

Armados em casalinho piroso, nojento e horrível, puxou-me para ele e beijou-me, no meio de uma praça cheia de gente a assistir, de cuzinho refastelado nas diversas esplanadas.
De repente, passa uma criatura, com uma crista esquisita, e diz:

é o amor, é o amor! tem de ser mesmo assim. e são um casal bonito, ela é linda!

Isto serviu essencialmente para mostrar que:

a) se correr mal com o mocinho, há um gajo esquisito que me acha bonita, é só procurar;
b) definitivamente, estar acompanhada faz com que me vejam com outros olhos;
c) se calhar estava na altura de parar de achar que sou um patinho feio.

08/09/16

dos hospitais

Fiz os dois primeiros estágios numa enfermaria, mas tinha o coração nas urgências; a minha alma irrequieta e desassossegada andava sedenta de novidades, de imprevisibilidade, de adrenalina. De desafio: o desafio da minha resistência, do meu sangue frio, da minha capacidade de lidar com situações caricatas.

Uma semana depois, confesso, ainda me sinto perdida volta e meia. Ainda não vi nada que me fizesse recuar, ainda não houve nenhuma situação que me causasse realmente impacto, ainda não fiz nada que achei que nunca faria - mas percebi que estou exatamente onde queria estar.

Gosto do facto de não haver tempo para pensar e que há uma diferença muito ténue entre ser-se auxiliar e psicóloga de corredor. Mas daquelas que fazem consultas de trinta segundos porque, logo a seguir, há mais três doentes que precisam de ajuda para ir à casa de banho, uma de que decidiu vomitar, quatro enfermeiros a chamar e uma corrida urgente para ir buscar mais uma maca. E é tudo urgente. E é tudo para ontem.

Volta e meia até o rigor falha porque não há tempo para se ser rigoroso, quase mesquinho; há correrias, há azáfama, há pressa, há atrapalhação. Volta e meia ainda me sinto perdida, volto a dizer, mas não queria estar perdida noutro lugar.

Conseguir não pensar em mais nada é, possivelmente, a melhor terapia de sempre.