13/12/17

essa coisa dos beijinhos e dos abraços

Vamos começar pelo ponto fulcral da coisa: eu nunca gostei de beijinhos, e não há nada a fazer quanto a isso. Essa coisa de andar por aí a espalhar encostos de bochecha ou, mais dramático ainda, haver aquele contacto lábios-bochecha, não é para mim. Especialmente quando eu nem tenho assim tanta confiança com o ser humano que se propõe a invadir o meu espaço pessoal.

Por mim, cumprimentávamo-nos todos com um olá e um sorrisinho afetado ou, no máximo, um aperto de mão à homem do tasco. Deveria haver um protocolo que estabelecesse o número de horas mínimo de convivência para que se passasse à próxima fase.

Isto chegou a acontecer-me numa entrevista de emprego; mal entrei na sala, a mulher apanhou-me desprevenida e espetou-me as beiças na bochecha, sem pedir licença, e eu sem fazer a mais pequena ideia de que já estávamos nesse ponto da relação. Entretanto, não fiquei minimamente convencida com o que me disse em relação ao emprego e, à saída, quando se preparou para repetir a proeza, estiquei a mãozinha e apertei-lhe o bacalhau. Espero, pelo menos, ter-lhe ensinado alguma coisa.

E os abraços?
Se, por um lado, dar beijinhos a (alguns) familiares ou quaisquer outras pessoas com quem mantenha uma relação mais próxima, é na boa, abraçar-me é um direito exclusivo do monsieur. Qualquer outra pessoa que me tente agarrar, por melhor que seja a intenção, é só estranho. Eu não ando assim a encostar as mamas ao peito de qualquer um. Este é, definitivamente, o meu lado mais gato: se eu quiser festinhas e miminhos, tudo bem. Se não estiver para lá virada, é melhor nem chegarem perto, caso contrário... caso contrário, vou ter de fingir que está tudo bem porque não posso eriçar o pelo e espetar-vos as unhas na cara. É pena.

12/12/17

a saga das entrevistas: cinderela e o público

Com o meu currículo à frente, onde estava explícito que trabalhei num hospital e descritas algumas das minhas funções, que envolviam cuidados ao utente, pergunta-me:

- mas nunca lidaste com o público, pois não?*

...
...
...


Acredito que o meu choque face a esta pergunta não seja compreendido por muitos de vós mas, não querendo puxar a brasa à minha sardinha, parece-me que trabalhar num hospital seja o teste mais violento à nossa resistência e capacidade de lidar com o público. Há doentes que são uns doces, mas também os há bem filhos da puta - geralmente, esses são os que ficam por lá mais tempo, a tentar enlouquecer os mais variados profissionais de saúde. E sim, há que ser simpático e prestável, mesmo com aqueles que nos tiram do sério e estão, claramente, a gozar com as nossas caras.

Quem aguenta aturar um paciente que nos maltrata durante meses, meus caros, aguenta qualquer guerrinha momentânea em qualquer outro tipo de emprego.

11/12/17

nu e cru

Foi numa terça feira, e eu estava doente. Contra a vontade da minha mãe, que me disse que seria melhor não ir às aulas, resolvi que iria mais tarde. E fui. Ou tentei ir.

Tinha chovido mais cedo.
Por essa altura, conduzia já há mais de dois anos, e estava mais do que habituada àquele percurso. Era o meu caminho de todos os dias mas, naquele em específico, tinha uma surpresa reservada para mim.

Aconteceu tudo muito rápido, e eu não tenho uma explicação: de um momento para o outro, perdi o controlo do carro e essa, posso jurar-vos, continua a ser a sensação mais aflitiva que algum dia tive na minha vida, e que ainda hoje é capaz de me deixar com o coração acelerado. Por mais que tentasse, o carro não me obedecia, não ia para onde eu queria. E, depois disso, o vazio.

Na recordação seguinte, estou descalça, na estrada. Tenho vários homens à minha volta, e eu não sei porquê. Estou confusa e assustada, as minhas botas estão no chão e dói-me muito a cabeça. Sinto uma pressão enorme do lado esquerdo e vejo tudo baço, como se fosse desmaiar. Pedi-lhes que ligassem à minha avó; disse-lhe que tinha tido um acidente, e depois fiz reset na memória: esqueci-me do acidente e do telefonema.

Mais tarde, estava dentro da ambulância a perguntar o que me tinha acontecido. Descobri três dias depois que estava em hipotermia, embora não me lembre de ter tido frio. Nem sequer me dei conta de que estava encharcada dos pés à cabeça, coberta de lama, com rastas no cabelo, até ter chegado ao hospital.

Tudo o que sei, foi-me contado mais tarde: havia uma óleo e lama na estrada molhada, o que foi a junção perfeita para que me despistasse na curva onde tantos e tantos outros se têm despistado. Mas não acontece só aos outros.

Capotei e caí num campo de arroz - o carro só parou quatro voltas mais tarde, e acreditem que é aterrador imaginar que a primeira foi de frente. Estive sempre consciente, apesar de o meu cérebro ter decidido que não valia a pena guardar essa informação - mal o carro se cansou de rebolar na lama, eu saí, calmamente, pelo meu próprio pé. Tudo o que era meu estava espalhado na lama, o meu computador debaixo do carro, a minha coragem estilhaçada como os vidros.

Saí ilesa. 
Meia dúzia de escoriações, vários hematomas, um braço com o dobro da grossura, uma dor de cabeça que não me deixava dormir e tonturas horríveis que só passaram um mês depois, mas estava bem. O carro faleceu ali mesmo; só tive coragem de o ver algum tempo depois, e não vos consigo descrever a sensação de o ver completamente destruído, saber que estava dentro dele quando aconteceu, e não me lembrar de nada. Zero. Deixem-me que reforce que o meu anjo da guarda é mais fixe do que os vossos.

Passou mais de um ano.
Na verdade, vai quase em dois mas pesa-me menos na consciência se não assumir para mim mesma que já era mais do que tempo de ter arrumado este assunto, de não o reviver de cada vez que conduzo, de não pensar nisto todos os dias. Mas é o que acontece. Não consigo evitá-lo.

Se o escrevo hoje, é porque este episódio continua a ser o elefante no meio da sala. É porque, por mais que tente, não consigo ultrapassar isto: todo este tempo depois, eu continuo com um medo absurdo de conduzir - e, mais ainda, de andar com qualquer outra pessoa a conduzir. A sensação de que não posso controlar o que acontece dá cabo de mim, muito embora - se culpados houver - eu tenha sido a única culpada do que me aconteceu. Mas não consigo.

Quase dois anos depois, eu ainda fico ansiosa em curvas, ainda me assusto se o vento me abana o carro e eu temo estar a perder o controlo, ainda acho que vou ter um acidente a qualquer momento. Imagino-o a toda a hora, para vos ser franca: vejo cada carro como uma ameaça, tenho crises de ansiedade em situações que deveriam ser naturais. Isto consome-me, de uma forma que não cabe em palavras e, na maior parte do tempo, sinto-me só ridícula por isto: caramba, há quem tenha acidentes bem piores, e na verdade eu nem sequer me lembro da pior parte. Como é possível não conseguir esquecer? 

Passaram-se quase dois anos, mas eu ainda hoje sonho com despistes.

06/12/17

a saga das entrevistas: cinderela inexperiente

Lembro-me de ter entregue o currículo numa loja de roupa, que estava a precisar de uma funcionária, e a rapariga ter dito mas não tens experiência na área, com ar de quem tinha pena de mim. Claro que nunca cheguei sequer a ser chamada para uma entrevista. Não tinha experiência.

Na verdade, eu nem estava assim tão interessada naquela vaga em específico, mas a verdade é que isto é comum à maior parte das vagas de emprego. Ninguém parece disposto a dar a oportunidade de alguém mostrar que pode ser tão bom, ou melhor funcionário ainda, do que outro com mais experiência. Porque pode, meus caros, e o que não falta por aí é gente irresponsável com bons trabalhos.

Acho absolutamente incrível que as pessoas tenham tanta facilidade em esquecer-se de onde vêm. Todos, absolutamente todos, desde a empregada doméstica ao médico, desde o pedreiro ao arquiteto, por mais que tenham graus de formação bastante diferentes, tiveram de começar do 0. Sem experiência - não sei se estarei a dar uma novidade a alguém. Talvez andem por aí boas almas convencidas de que já se nasce doutor.

Curiosamente, acabei num sítio onde o que tive de aprender foi bastante mais complexo do que dobrar camisolas e separar calças por cores. E aprendi rápido, vejam só! Não me fecharam a porta por terem de me ensinar tudo do zero, ainda que não fosse coisa que se aprendesse num dia. Deram-se ao trabalho de apostar em mim pela pessoa que mostrei ser na entrevista, e não pelo currículo.

Contudo, infelizmente, pessoas assim são cada vez mais raras.

05/12/17

a primeira vez nunca se esquece

Comecei por ouvir gritos na rua. Inicialmente, pensei que se tratava de um casal e já estava a preparar-me para erguer o punho contra a violência doméstica, quiçá mostrar as mamas no meio da rua por nenhum motivo em especial, mas porque sou mulher e as mulheres tudo podem.

Para minha grande desilusão, eram mesmo dois homens, mas lá calha que um ainda consegue ter mais voz de pita do que eu, e olhem que é bem difícil.

Estava um senhor franzino, com idade para ser meu avô, a agarrar pelo colarinho um homem mais jovem que poderia, facilmente, ter arrumado o outro ao canto com um sopro, mas que perdia toda a credibilidade de cada vez que abria a boca e parecia uma maria amélia. Aparentemente, a maria amélia tinha entrado em casa do homem e tinha-lhe roubado dinheiro. Muito dinheiro.

Ali, do outro lado da estrada, a situação era tão ridícula que chegava a parecer encenada. A pobre maria amélia só dizia que não tinha roubado o que quer que fosse, e o velho oscilava entre propostas eróticas e violentas; num momento gritava "se sais daqui, fodo-te todo", para no momento seguinte gritar "eu mato-te!".

Tendo isto acontecido à porta de um café, seria de esperar que alguém defendesse a criatura. Contudo, as pessoas apressaram-se a entrar e a fazer de conta de que não estava a acontecer - ainda houve um senhor que, entre baforadas, foi dizendo ao velho para não bater ao outro, mas acabou por desistir e ir embora de bicicleta.

Cansado de segurar a amélia pelo colarinho, obrigou-o a sentar-se numa cadeira, senão fodia-o todo, enquanto fumava.

Portanto, depois de alguma hesitação, peguei no telemóvel e... não, não comecei a filmar para postar em tudo quanto é rede social, apesar de ser uma alternativa mais engraçada ao circo de natal. Resolvi fazer alguma coisa para acabar com aquilo e liguei à GNR (sejam todos cinderela, fáxabor!).

Expliquei atabalhoadamente onde estava, porque o meu sentido de orientação ainda hoje está a jogar à bisca com a minha beleza, lá no útero da minha mãezinha, e eu não faço a mais pequena ideia do nome da rua onde passo os meus dias. Ups.

Não percebi o que aconteceu, mas a maria amélia conseguiu esquivar-se para dentro do café e o outro ficou cá fora a olhar para a porta. Imagino que o pobre tenha ido chorar para a casa de banho, mas são só suposições.

Fiquei a pensar que tinha ido inquietar a GNR para nada, até que eles chegam. Não um, mas dois carros da GNR. Não pude conter uma gargalhada e pensar que talvez devesse ter sido mais específica nos desacatos à porta de um café. Mas depois eles saíram dos carros e eu percebi que foi deus nosso senhor quem mandou um par extra para me animar a vista. Bem podem andar à pancada no café todos os dias, que eu estou completamente disponível para ligar para a GNR as vezes que forem necessárias. E, se for preciso, até me entrego de boa vontade.

Quanto aos outros dois, falaram com os agentes e acalmaram os ânimos. Ninguém soube que tinha sido eu a ligar.

(se soubessem, acredito que o mulherio residente me começasse a idolatrar, e eu nem tenho a letra bonita para dar autografos)

a saga das entrevistas: de cinderela a escrava

Infelizmente, esta não teve tanta piada quanto a primeira, mas também me parece importante que se fale destas coisas.

Escassos dias depois da tal entrevista, recebi outra chamada. Vi-me e desejei-me só para descobrir quem era, porque a qualidade da ligação estava ali ao mesmo nível da minha beleza, e porque tudo quanto é recrutador neste país acredita piamente que uma pessoa à procura de emprego se candidata a uma única vaga, numa única empresa, e fica três meses à espera de obter resposta antes de partir para outra. Portanto, não vê a necessidade de se identificar convenientemente e explicar a que raio de vaga se refere; nós adivinhamos.

Procurei, pelo pouco que tinha conseguido perceber, por entre os meus emails enviados e acabei por me aperceber de uma coisa curiosa: no espaço de, exatamente, um mês, eu tinha-me candidatado duas vezes à mesma vaga, na mesma empresa, mas com referências diferentes. Achei estranho, mas não tinha nada a perder, e podia ser algo interessante.

Chegada ao local, converso com um casal. Descobri mais tarde, e porque sou uma stalker competente, que são marido e mulher - contudo, não se deram sequer ao trabalho de se apresentar na entrevista e eu descobri os nomes deles através do facebook.

Algo não estava a bater certo.
Candidatei-me àquela vaga porque, apesar de não ter formação na área nem ter experiência, preenchia os requisitos mínimos. Acredito mesmo que poderia ter tido aquele trabalho, uma vez que envolvia, em grande parte, escrever, e não era exigido mais do que o 12º ano. Contudo, a entrevista foi conduzida por forma a diminuir-me ao máximo, realçando a minha inexperiência a cada 30 segundos, referindo que tinha poucos estudos, que estavam a correr um grande risco ao apostar em mim.

Tudo certo até aqui. Ou mais ou menos, mas a questão da inexperiência dá todo um outro post.
O que começou por me parecer mesmo muito estranho foi a incoerência: rebaixavam-me como se eu fosse acéfala e tivesse passado os últimos 22 anos a viver numa gruta, mas pareciam mais desesperados para que eu aceitasse ficar com o emprego do que eu estava por o aceitar. Chegaram a referir que tinham mais uma entrevista a seguir, mas não colocavam sequer a hipótese de gostarem mais do outro candidato; o lugar era meu, bastava eu querer.

E porquê?, perguntam vocês.
A ideia era fazer um estágio profissional. Honestamente, isso não me incomoda; por ser uma área interessante e bem diferente daquela em que tenho formação, acredito que seria bom para mim. O problema é que, e dada a minha inexperiência, poucos estudos e tudo e tudo, a sugestão deles seria que eu passasse um mês à experiência, até eles pedirem o estágio profissional. Isso, sem receber. Um mês, diziam eles, até que o estágio profissional fosse aprovado. 

Por não gostar de fechar portas sem ter a certeza, disse-lhes que responderia mais tarde, alegando que precisava de conversar com os meus pais, uma vez que passar um mês a deslocar-me para o local teria custos, e aceitar não ser remunerada não era uma decisão que eu pudesse tomar de cabeça quente.

Eu sabia que o processo de aprovação dos estágios profissionais era lento, beeeem lento, mas resolvi dar o benefício da dúvida e informar-me com quem de direito. No centro de emprego, foi-me dito que agora os estágios só podem ser pedidos entre 15 de novembro e 31 de dezembro, e que só após o término desse prazo é que estes começam a ser avaliados. Ou seja, contas bem feitas, e já que eles não pensavam pagar-me até que o IEFP aprovasse o estágio e, sendo otimista, talvez começasse a receber alguma coisa pelo meu trabalho lá para fevereiro ou março. 

Posto isto, e porque eu sou uma pessoa de palavra, enviei-lhes um email a explicar que tinha resolvido informar-me e que, apesar de não ser uma entendida no assunto, até porque não tenho muita experiência nem muitos estudos, a minha sugestão, já que tinham tanta urgência em encontrar uma pessoa para o lugar, passaria por experimentarem pagar a alguém para trabalhar para eles.

Despedi-me desejando-lhes a melhor das sortes na busca de alguém disposto a trabalhar para aquecer; responderam-me, novamente, com os ataques subtis da entrevista, que não era nada assim, que nunca foi dito que não me pagariam após esse mês de experiência - o que é verdade. Decidiram dar a entender que o estágio seria aprovado quase imediatamente. Acabaram a resposta com a brilhante conclusão de que tinham ponderado correr o risco de apostar em mim, mas eu tinha perdido todas as hipóteses ao redigir aquele email em tom jocoso.

Como se eu quisesse ter a mínima hipótese numa empresa que faz de um trabalho, com um nível de complexidade mínimo para qualquer pessoa que saiba ler e escrever um bicho papão, ao ponto de ter de trabalhar um mês à borla. For sure.

Agora lamento não me ter ocorrido concluir a resposta com chave de ouro; acredito que aquele email tenha dito o suficiente acerca da minha perspicácia e proatividade. E, vejam só, não demorei um mês a escrevê-lo.

04/12/17

a saga das entrevistas: de cinderela a barbie

Há uns meses, tive uma entrevista de emprego num local onde eu sabia de antemão que iria trabalhar rodeada de homens. Isso não me desagradou, bem pelo contrário, porque - a verdade tem de ser dita -, as mulheres são quase sempre umas cabras umas para as outras e eu não sou a pessoa com mais pachorra neste mundo para aturar os mexericos desnecessários. Uma pessoa fica cansada só de tentar acompanhar o jornal do maldizer.

Posto isto, lá estava eu, ainda antes da hora marcada, sentada numa cadeira confortável à espera de que o senhor chegasse. E nervosa, claro está. Bem vestida, como se quer numa entrevista de emprego, ainda que simples - com uma camisola do lidl - e maquilhada como em todos os outros dias em que me apetece maquilhar: base, sombra castanha, eyeliner e rímel, no more, no less. E esta informação só me parece relevante porque, de facto, não quero que imaginem uma boneca de cera deste lado, para o que se passou a seguir.

Os minutos passavam e eu continuava a não entender muito bem o que se estava a passar. As pessoas - tudo macho, quase todos jovens - iam passando por lá, mas eu não fazia a mais pequena ideia de quem era quem e por quem deveria aguardar. 

Entretanto, passa um senhor com idade para ser meu avô; pensei que seria O Tal. Sorri quando o jovem simpático, e giro, da receção lhe diz que eu estou para a entrevista. O ansião comenta:

- Ah, não, não pode ser. Eu estou velho e o meu coração está fraco, não me podem meter aqui estas coisas lindas, senão acabam comigo.

Tudo bem. 
A pessoa lida mal com elogios, mas não é de vidro. Eu sei que isto já era capaz de fazer saltar umas quantas Capazes para o caminho, a gritar assédio e porco nojento, mas até achei piada na altura.

Mais tarde, finalmente, chega um casal que se dirige a mim: eram eles, os recrutadores. Depois de ter deixado o nervosismo a fermentar durante um século e meio, estava no ponto. Mal se tinham apresentado, o senhor voltou. Repetiu a ladainha, dizendo que coisas lindas acabam com ele e acrescenta:

- Os rapazes iam ficar todos excitados. O que talvez fosse bom, trabalhavam mais, não sei...

Para aumentar o meu nível de conforto, o recrutador decide responder, como se eu não estivesse a ouvir, e diz:

- Barbies há muitas. Vamos ver o que ela sabe fazer.

Não fiquei com o trabalho, mas nunca cheguei a descobrir se por não ser uma barbie competente ou por, na entrevista, ter sido sincera quanto a algumas das condições não me serem, de todo, convenientes. Para vos ser franca, não posso dizer que fiquei triste por não ter sido a escolhida. Muito menos agora que, ao recordar a situação, me apercebi de que esta entrevista poderia muito bem ser para um lugar na indústria pornográfica.

(nada temam, seres desse lado, que esta pessoa trabalha vestida e as únicas câmeras são as de vigilância)