08/08/17

nua e crua

[somos um bom par: nunca contámos os meses, e os únicos dias que contamos são os que faltam para nos voltarmos a ver, mas às vezes lá me lembro e digo-lhe que somámos mais um mês à nossa história sem data de início. são poucos e parecem a vida toda.
volta e meia, ele abraça-me e exclama estás tão feliz! e eu estou mesmo. respondo-lhe que é por estar com ele, resmunga da minha resposta repetida tantas e tantas vezes - é por ser verdade, meu amor. porque é mesmo.
mais do que meu namorado, é o melhor amigo; não conheci muita gente tão sensível aos problemas que não são os seus, tão disposto a ajudar. a ouvir. e, no dia em que um desabafo meu o deixou a chorar, mais do que a mim própria, sou capaz de dizer que gostei dele mais do que nunca. e fiquei (ainda) mais consciente da pepita de ouro que cruzou a minha vida.
mas depois não somos um par perfeito: oscilamos entre um mar de opiniões semelhantes e outro de opiniões divergentes. de vez em quando, acabamos zangados, cada um com a razão do seu lado, em discussões que pouco mais são do que inúteis - eu perco-me nos meus pensamentos, a tentar desenrolar o novelo de palavras que se forma na minha cabeça, e não consigo falar. ele irrita-se ainda mais por eu não lhe responder - e nunca mais pára. até que paramos, respiramos fundo, metemos os pontos nos is, com calma. o fim é sempre a parte mais doce: não somos bons a domar-nos, mas até fazemos um bom trabalho no que toca a entendermo-nos, apesar de tudo.
encerramos cada luta com um abraço. um abraço de alívio por continuarmos juntos apesar de todas as nossas diferenças, de todas as vezes que parecemos (quase) impossíveis - mas eu não desisto facilmente.]

02/08/17

daqueles posts que ninguém percebe.

É engraçada a forma como nos queixamos, sempre que nos sentimos encostados à parede, da falta de escolha - por outro lado, quando temos todos os caminhos possíveis à nossa disposição, hesitamos em escolher o que, à priori, nos parece melhor, resmungamos da indecisão e quase sentimos saudades do pouco, ou nenhum, trabalho que dá quando temos de nos resignar à nossa fraca sorte.
Foi o que me aconteceu há um mês atrás.

Na hora de tomar uma decisão, ponderei todas as hipóteses possíveis. Coloquei todos os prós e contras em cima da mesa, debati o assunto durante dias a fio com todos os que me eram mais chegados. Deixei os pratos da balança oscilarem demasiado, umas vezes a pender para o lado da minha felicidade e outras do da segurança. Tinha medo de escolher aquilo que sabia ser o mais certo para mim mas, ainda assim, o mais arriscado. Então, em lágrimas, resignei-me. Fiz o que alguns esperavam que eu fizesse, e o que outros esperavam que nunca me passasse pela cabeça fazer.

Contudo, uns dias depois, deu-se aquele maravilhoso click que mudou a história: 
Estava a escolher por mim? Não. 
Estava feliz com a escolha? Também não.

Sem que desse por isso, tinha mudado de ideias. Com a impulsividade que me serve de cartão de visita, comuniquei a decisão antes sequer de me ter apercebido de que a tinha tomado. E já está.

Ainda que com algum receio do futuro e com pouca paciência para os eu avisei-te que se fazem prometer, estou medianamente feliz com aqueles 20 segundos de coragem louca - a única decisão errada possível seria continuar infeliz com algo que eu poderia mudar.

E agora? Logo se vê.
Há de correr tudo bem.

hoje

[arriscar-me-ia a dizer que ainda não houve um dia, um único dia, em que as saudades que tenho dela não me tivessem pesado no peito, mas alguns doem mais do que os outros, e os verões vêm com o travo amargo das recordações emaranhadas: eu devia atravessar a estrada descalça, depois de almoço, entre a casa dela e da minha (outra) avó. deveria tocar à campainha, subir a correr, para nos instalarmos, mais tarde, as três nas escadas, eu e ela com uma caneca de café, que de café tem muito pouco, mas que seria sempre o melhor do mundo.. elas deveriam rir-se de mim: no pico do verão, iria estar enregelada, a fugir das sombras, e eu iria meter-lhe as mãos frias nas faces. de uma e de outra.
iríamos falar sobre tudo: sobre a tola da vizinha que dizia, orgulhosamente, que tinha uma saia há 15 anos e só a tinha lavado uma vez, sobre as idas à praia e os pic-nics à sombrinha uma vez que a família estivesse reunida. e iríamos especular, sim, sobre a chegada dos nossos, daquela outra parte de nós que vive longe, e que insiste em mentir-nos sobre a data da chegada - iriam insistir comigo, certas de que eu saberia a verdade. e, às vezes, eu não iria saber. outras, iria mentir, fiel às minhas promessas. 
mexer-lhe-ia nos caracóis. gostava de a (des)pentear. de lhe pintar as unhas. de a fazer sorrir, no geral. e, em agosto, seríamos todos um: os churrascos no pátio, as caminhadas tardias em pelotão. ela, feliz porque tinha uma família grande que a ama... e nós felizes porque a tínhamos a ela.

passou mais de um ano: arriscar-me-ia a dizer que não há um único dia em que não tenha pensado nela... mas às vezes, só às vezes, finjo esquecer-me de que não a voltarei a ver.
e às vezes, muitas vezes, sonho com o abraço que não lhe cheguei a dar.]

13/07/17

nem tudo foi mau

Desde que o somnii - ou sunset, para os amigos -  se mudou cá para a figueira, esta pessoa fez sempre questão de marcar presença a abanar o cu pelo areal, tirando o ano passado. E este ano lá estava a wild criatura outra vez, feliz e contente, a ser revistada duas vezes a cada entrada, qual criminosa, a esconder garrafitas de água como quem esconde droga - ainda assim, foram vistas e deixadas passar, aleluia! -, a passar horas em pé para o desespero desta coluna idosa que está, claramente, mais queixosa desde há dois anos atrás.

Fresca e fofa depois de ter passado a noite a trabalhar, fui para lá a tossir, em média, dezassete vezes por minuto, condição esta agravada pelo facto de estar constantemente a levar com o fumo dos que insistem em fumar quando estamos todos ensalsichados no meio de uma multidão aos saltos. Foi giro e correu tudo bem: contra todas as expectativas, consegui não cuspir nenhum pulmão. E, com sorte, contagiei uns quantos para verem o que é bom.

Agora, o que me fez alguma comichão foi olhar à volta e sentir-me velha. Palavra de honra: a maior parte das criaturinhas que desfilavam no meu campo de visão, a fumar e a beber, ainda não tinham pintelhos. Dançavam como se conhecessem cada música desde o útero o que, bem vistas as coisas, até nem é assim tão improvável. E eu ali: empurrão da direita, cotovelada da esquerda, pisadela sabe deus de onde, cheia de frio, de calças, sweat, encostada ao monsieur ao máximo a ver se me safava dali com vida, o ar de horror e a promessa secreta, uma vez mãe de filhos, só os deixar sair depois dos 18. Porra.

Cheguei a temer estar num concerto dos caricas, mas felizmente correu tudo bem - os miúdos deviam estar só a comemorar a positiva nas provas de aferição - isso ainda existe, não existe?

Quanto aos djs, já vi melhor a pagar bem menos. Tirando a tosse e as dores nas costas, senti-me quase a pessoa jovem que aparentemente deveria ser - e apesar do esforço hérculeo que tive de fazer para conseguir ser liberada durante o fim de semana para poder ir, apesar da desilusão por o festival em si não ter acompanhado a escalada no preço, fá-lo-ia outra vez. Mas só pela companhia.

(começo a parecer fofa e domável, socorro)

02/07/17

bring the old times back

Quando vejo festas de aniversário temáticas para os putos, uma parte de mim morre e a outra quer suicidar-se: sou do tempo em que as festinhas de anos eram à volta de uma mesa cheia de bolos, sandes de queijo e fiambre em pão de forma cortado ao meio, perninhas de frango e mousse de chocolate. Jogavam às escondidas, à apanhada, ao quarto escuro, à mamã dá licença - corríamos na rua e fodámos os joelhos no alcatrão. E isso era fixe.

Agora não há festas para os meninos sem que se pense numa personagem qualquer, sem palhaços, balões de hélio e insufláveis. A comida é uma mistura de gourmet com labrego, porque não há como negar as origens, mas pelo menos há sereias engarrafadas espalhadas pela mesa e passeios de pónei pelo jardim. Carinhas pintadas. Bolos tão elaborados que dá pena comer. Fogo de artifício, música ambiente, after party. 

Elucidem-me: isto é para os putos ou uma competição de mãezinhas raivosas?

dois de julho

Sempre gostei do meu aniversário - por alguma razão tola, gosto da data. Dois de julho: soa bem, soa bonito. Parece a melhor combinação possível aos meus ouvidos; o dois e o julho. Marca o meu início, o meu dia zero, um recomeço a cada ano novo.

Hoje, são 22: sem presentes, com um bolo pequenino e a família à volta da mesa. A possível, a presente, a que resta. (Parte da) que importa. Alguém novo, sentado ao meu lado - e o coração cheio, as tormentas apaziguadas e a certeza de que, o melhor presente de todos, deu-mo a vida.

Agora que chega de coisas lamechas, parabenizem-me.

25/06/17

das coisas que não entendo

Há uns tempos, dediquei-me a ver vídeos de maquilhagem - a ideia era, única e exclusivamente, inovar e deixar de usar sempre a mesma combinação, que uma pessoa também enjoa. Como criatura básica e pouco prendada que sou, pesquisei por maquilhagens simples e looks naturais - é aqui que o drama começa. 

Caramba, no título diz "look natural para o dia a dia", e no vídeo a mocinha diz que precisamos de base, primer - desconhecia a existência de tal coisa - corretor de olheiras, iluminador, bronzeador, blush, rímel, eyeliner, quatro sombras diferentes, um revirador de pestanas, um lápis para contornar os lábios, um baton mate, um gloss para estragar o efeito mate, três mil oitocentos e quarenta e três pincéis diferentes, uma pena de galinha preta, um olho de lobo da alsácia e excrementos de morcego albino.

No fim, exibem uma cara de boneca de cera - simples e natural, não é?

Temo pelo dia em que vou ver um vídeo de uma maquilhagem elaborada.