25/06/17

4 mois plus tard

[antes de ti:
eu era má no amor. era mesmo, de verdade - se calhar eu era mesmo má na verdade, por levar uma vida regida pelo desamor próprio, pelo desamor pelo próximo, pelo desamor pela vida. antes de ti, eu dizia sempre que era mito, que isso do amor era coisa rara. era fruta cara diante do olhar de um pobre - uma dose de ceticismo e duas de cobardia. tinha medo de assumir que ambicionava um amor para a vida toda. tinha medo de crê-lo possível. e era.

antes de ti, eu não conhecia esta forma de ser feliz. não fazia ideia de que era possível gostar de alguém de uma forma tão livre, tão leve, tão sem medida, como se tivéssemos feito isto a vida toda. está tudo errado mas eu e tu batemos certo: temos virado as costas a todas as adversidades e prosseguido de mãos dadas. temos vencido obstáculos, temos ido ganhando medalhas atrás de medalhas na corrida em que se transformaram as nossas vidas; às vezes caminhamos, lado a lado, com a tranquilidade de quem já se acostumou a viver no holocausto. nos teus braços, meu amor, tudo parece possível.

antes de ti, eu tinha palavras guardadas no armário para mais tarde, todas elas por estrear. e acho que pensei sempre que nunca me chegariam a servir - depois apareceste tu e assentam-me que nem uma luva. assentam-nos. de repente, eu já não estava muito preocupada com o tempo, já não me desculpava com a história da paixão, já não dizia que não passava de tesão. percebi que o que sentia ia muito além dos meus limites. era algo que nunca antes havia experimentado - sentia-me atacada, de forma desmesurada, por um gostar para o qual eu não tinha nome. ou tinha.

perdi o medo. usei a palavra que melhor se adequava à situação - e volta e meia repito-a, certa de que se torna mais verdadeira a cada dia que passa.

antes de ti, eu já era eu - mas era indiscutivelmente menos feliz. e, quase todos os dias, digo que estou mortinha para te abraçar.
adivinha só: é sempre verdade.
sempre.]

23/06/17

a land of confusion

Eu cá não sei, mas creio que o demo tem mão - ou um corno - nisto: de alguma forma, é sempre na altura de decidir que todas as certezas se tornam em dúvidas, que o mundo parece dar mil e uma voltas de uma só vez e damos por nós exaustos e sem saber muito bem onde pára a sanidade mental.

É assim que me sinto neste momento, mais coisa menos coisa. Não sei para onde ir, não sei o que escolher: reparo que fui guardando sonhos na manga e escondendo as decisões debaixo da almofada. Agora tenho de assistir ao confronto, o tête-à-tête final, os prós e os contras de qualquer caminho que eu escolha. Em boa verdade, a minha vida nunca bateu tão certo mas também nunca esteve tão desacertada; tenho o coração no sítio e a cabeça perdida. Fazer o quê?

Sinto-me em contra relógio: o que quer que eu decida, exige que seja rápida e que não me lamente no fim. Passo os dias a mudar de ideias e a sonhar com várias versões de um mesmo futuro: não sei para onde ir. Numa altura em que todos os caminhos me parecem certos e errados ao mesmo tempo, não faço a mais pequena ideia do que escolher.

E sento-me.
Amanhã penso nisso.

16/06/17

2017

O mundo está minado por pseudo-feministas raivosas de sofá; popicam os posts referentes às criaturas asquerosas que os homens são, montam-se manifestações a proclamar a igualdade de direitos, mulheres querem-se com pêlo, mulheres querem-se a arrotar em público, mulheres querem-se a mijar em pé. Não faz sentido mas, se os homens podem, nós podemos! *palmas de um público histérico*

Somos tão boas quanto eles - perdão! -, somos mil vezes melhores do que eles! Tudo porque não deixamos a tampa da sanita levantada, sabemos de cor dois mil truques para tirar nódoas com vinagre branco e até já nascemos a saber que os putos não se podem lavar na máquina. Mulher que é mulher faz o que lhe apetecer, usa o que lhe apetecer, faz o que lhe apetecer, mas ai do cabrão do homem que a olhe durante mais de cinco segundos seguidos - elas juntam-se todas e gritam violação. Aparece a cmtv, aparece a polícia, aparece o marcelo e ainda vem o papa dar um ar de sua graça: tudo porque, aquele homem nojento, com idade para ser pai dela, violou os seus direitos ao observá-la. Sentiu-se violada, ultrajada, uma puta, coitada, sem ter feito nada por isso. E o pobre homem, que por acaso até via mal ao longe, vai preso, ela sente-se vingada e vem para as redes sociais escrever sobre como não precisa dos homens para nada.

No entanto, depois disto tudo... experimentem, mas experimentem só, serem o gajo e não se oferecerem para pagar a conta da princesa.
Ah, meus amigos, já se foderam - a gaja gosta muito de independência mas é só para o que convém.

(quase quase 22 anos depois... continuo a achar que devia ter nascido gajo)

09/06/17

pára tudo!

Não foi por acaso - há uns meses que andava a choramingar que queria voltar para o ginásio mas, na roda viva em que ando, não tenho tempo. E também há uns meses que me diziam ah, mas podes sempre fazer exercício em casa!, e podia, que podia, mas, respondia eu, não é bem a mesma coisa.

Talvez tenha ensandecido, talvez tenha esgotado o lote de desculpas: incentivada pelo moço, que por acaso é um moço das corridas, fiz-me à estrada e comecei a correr. Deixem-me que vos diga que foi meio louco inicialmente - eu, a eterna lontra obesa, a gorda que era sempre a última a ser escolhida, a primeira a ser apanhada no futebol humano, aquela que não dava duas voltas ao campo seguidas sem quase cuspir um pulmão e desistir da vida, estava a correr. Por gosto. Wow.

Entenda-se que, nos tempos de ginásio, a corrida só me servia de aquecimento e eu levava a coisa pouco a sério - em boa verdade, andava mais do que corria, porque simplesmente não me apetecia e eu dava-me ao luxo de me arrastar para passar o tempo. Agora é diferente: desafio-me todos os dias. E já (me) falhei algumas vezes, mas também já me senti estupidamente orgulhosa de mim mesma - para quem não conseguia correr dois minutos seguidos sem caminhar durante os dez minutos seguintes para se recompor, vinte minutos sem parar já é uma maratona. 

Há quem diga que agora todos querem correr porque é moda - tanto me faz. Desde que vi sapatilhas com pompons que tenho a certeza de que há modas bem piores; eu demorei, mas acabei por perceber porque correm eles. Acabei por descobrir que há um prazer especial na superação dos próprios limites, nas pequenas vitórias, nessa quase loucura que é correr-se para lado nenhum quando se passa os dias a correr para todo o lado. 

E - como ele diz - agora é sempre a melhorar. E não desistir, nunca.

26/05/17

deixem-me que vos diga

Uma das perguntas que me fazem mais vezes, quando me veem a trabalhar no hospital, é se não quis estudar mais. Conto-lhes que quis ir trabalhar antes, que quero poder financiar o meu futuro - e esta, apesar de ser a verdade, nunca deixou de ser o meu calcanhar de aquiles.

Fui procurar emprego com um sonho empoeirado guardado numa caixa trancada a sete chaves, com ânsias de me realizar profissionalmente e de me esquecer de que sou pessoa fora do trabalho - percebo-o agora. Cresci a querer ocupar-me, a tentar não desejar uma vida normal, um amor, uma família. Mascarei a solidão de felicidade e aprendi a querê-la acima de qualquer outra coisa. E, um dia, a minha vida mudou - exatamente no meu primeiro dia de trabalho.

Talvez isto não faça sentido - ainda não escolhi o que quero mas, com algum traquejo e uns meses de caos, percebi exatamente o que não quero - aos 21 anos sinto-me incapaz, pela primeira vez, de responder à pergunta o que queres ser quando fores grande? Aos 21 anos, vi as minhas ideologias desmoronarem-se como um castelo de cartas e dei por mim a sonhar com uma vida diferente daquela que imaginei desde que me lembro de mim.

Sinto-me perdida, na maior parte do tempo; há uns dias, dei por mim cansada, desmotivada, a correr em direção ao mar. Só parei quando senti a água a enregelar-me as pontas dos dedos e a entorpecer-me os sentidos; os meus pés eram os únicos desenhados na areia molhada e o meu rasto desesperado em direção ao único sítio que me acalma, fez-me lembrar de que, onde quer que eu vá, hei de ter sempre para onde voltar.

As ondas não me trouxeram respostas, mas foram o analgésico perfeito para as dores da alma - estou grata pelo que tenho agora. Um dia destes descubro o caminho que quero explorar a seguir - e enquanto houver mar, há de correr tudo bem.

insólitos

Quando uma pessoa acha que já viu de tudo, eis que a esposa de um dos doentes aparece com um garrafão de água vazio e me explica que ele gostava de fazer xixi no garrafão, tal como faz em casa.

(mas depois a senhora é doce, tão doce, que parte o coração ter de explicar que aquilo é um hospital e não podemos ter garrafões com urina no meio de uma enfermaria)

esgotei a imaginação para os títulos

[eu e ele: 

volta e meia desentendemo-nos, levados pelo cansaço e a frustação de uma situação que não nos é favorável, mas encerramos qualquer luta num abraço e somos felizes outra vez. diria que até somos bons nisto: de termos três ou quatro datas possíveis, nem sequer temos uma data nossa, a data das datas, o início de nós. foi um dia destes, há uns meses atrás - importa-me bem menos do que o facto de conseguirmos antecipar as piadas um do outro, de termos a capacidade de debater qualque tema e de não haver tabus entre nós. em qualquer situação, eu sei que ele estará lá, de mão estendida, a agarrar a minha, tal como eu estou lá para ele.
somos uma boa dupla: não temos limites, não temos medo. juntos, podemos ir até ao fim do mundo e voltar - seja lá isso onde for.

eu e ele não temos a relação ideal, não nos entendemos sempre à primeira e quase nunca gostamos da mesma música: mas, posso garantir-vos, quando - quase 20 centímetros mais abaixo - encaixo a cabeça no peito dele e o sinto a apertar-me contra si... não há qualquer outro lugar no mundo onde eu pudesse sentir-me mais feliz.]