09/12/16

devia ter previsto isto

- então e o curso, como está?
- quase a acabar! estive agora três meses no hospital.
- ai, a sério?! o que é que tinhas?

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Uma farda azul.
Era isso que eu tinha: uma farda azul.

08/12/16

o meu ódio de infância, para sempre.

Uma das muitas coisas que ninguém nos conta quando somos pequenos é que, independentemente da idade, a mãe vai continuar a fazer aquele xarope de cenoura horrível sempre que, por descuido, ousarmos tossir à frente dela.

E o filho da puta do xarope vai continuar a resultar.

07/12/16

é de família

Aproveitei a hora de almoço para ir a um supermercado trocar um artigo - à saída, tinha uma velha, com dois sacos de compras, parada ao pé do meu carro. Achei que ela estava à espera de alguém - e estava mesmo. À minha.

Começou por me pedir boleia para um sítio que eu nem conhecia - pela explicação, implicaria desviar-me do meu trajeto, coisa que não me seria muito favorável dado o facto de ser a minha hora de almoço e eu gostar muito pouco de me atrasar.  Em seguida, começou a fazer-me um interrogatório sobre a minha vida, porque não estava a acreditar que eu tinha mesmo de voltar rápido.

Com um sorrisinho filho da puta, mesmo de quem está a rogar pragas, disse-me que fosse com deus. Respondi-lhe «a senhora também», e consegui conter-me antes de a aconselhar a pedir boleia ao tipo.

Quando contei a história à minha mãe, respondeu-me que fiz muito bem, que nunca se sabe a quem se dá boleia hoje em dia, e sabe-se lá se não era um tarado mascarado de velhinha.

Vou para o inferno mas, pelo menos, vou continuar a ter a comidinha da mãe. Está visto.

30/11/16

r,

Esquecer alguém de quem gostaste muito é mais do que apagar um número de telemóvel e bloquear as redes sociais - é preciso que deixes morrer bocadinhos de ti que, sem querer, foste entregando ao outro. É preciso que reaprendas rotinas e que te habitues que aquele vazio, aquela falta tão igual à morte, será assim mesmo: definitiva. É preciso que te lembres de como era a vida antes de alguém, que aceites o cair do pano na vossa história, na tua história, e que assumas que não há nada a fazer. Seguir em frente, dizem. Esquecer.

Menti-te há uns meses - desculpa-me por isso, mas menti a mim mesma também. Quis crer que a raiva, a frustração e a mágoa eram sinónimos de esquecimento. Achei que poderia sarar uma ferida profunda se lhe tapasse a superfície e fingisse que ela não estava lá. Convenci-me de que, seguindo em frente, poderíamos voltar atrás. Sermos o que éramos antes desse tempo em que gostei demasiado de ti. 

Dois anos depois, dizer-te como acabei a gostar tanto de ti continua a ser similar a tentar explicar-te o sabor da água - nunca fez sentido nenhum, e talvez seja exatamente por isso que gostei tanto. Sempre contra as regras, sempre contra o mundo, não poderia ser de outra forma. E foi por isso que não te soube perdoar por te teres esquecido de mim tão depressa - gosto tão inteiramente que me custa compreender a leveza com que me deixaste ir. Ainda hoje me atormenta, ainda hoje me magoa - continuo à espera de uma explicação porque não sou capaz de aceitar o teu silêncio. Não sou capaz de lidar com a tua covardia.

Tu não sabes, mas continuas a ser a primeira pessoa em quem penso quando algo de bom ou de mau me acontece - ainda é contigo que eu quero partilhar a minha vida. Ainda é a ti que eu quero contar - já não sei quem és, mas lembro-me bem de como a pessoa que eras foi capaz de me arrebatar. De como eras tão desconcertantemente doce que eu acabei viciada em ti. Foste uma das minhas pessoas favoritas durante demasiado tempo, ricardo, para que eu consiga aceitar o ponto a que chegámos de ânimo leve.

Esquecer alguém é, provavelmente, uma das coisas mais tristes que temos de fazer - e eu não queria que tivéssemos chegado a este ponto. Queria que tivesses sido capaz de falar comigo, de me dizer a verdade. Que não me tivesses feito chegar a um ponto em que os pensamentos me sabem a automutilação, em que meto tudo em causa, em que coloco as memórias de dois anos em alvoroço e acabo, inevitavelmente, cada vez mais baralhada, cada vez mais zangada, e cada vez mais sedenta de respostas. E magoada, sim - continuas a ser demasiado egoísta para perceber o mal que me faz o teu silêncio. Continuas a achar que tens motivos válidos para não me falar. Continuas a não acreditar que gostei demasiado de ti para conseguir não sofrer com o facto de te ter perdido de vez - continuas a não conseguir compreender que nunca deixei de gostar. Nunca.

26/11/16

something about christmas time

Eu hei de ter netos - talvez bisnetos. Hei de ter sido enfermeira, hei de ter tido 29 gatos, hei de ter uma casa com vista para o mar e outra no interior, só para ver neve todos os invernos. Hei de ter escrito um livro, talvez dois, talvez vinte. Hei de ter ficado gira e magra, hei de ter ganho o euromilhões - hei de ter ganho a paciência necessária para aturar pessoas de quem não gosto sem respostas tortas. Hei de, enfim, mudar, ser outra qualquer, realizar todos os meus sonhos e morrer de velhice, lá para os cento e tal - e, mesmo assim, o sozinho em casa não vai faltar um único ano, por alturas do natal precoce.

Arranjem uma companhia para o cachopo e acabem com isto, for da lóbe ó god!

23/11/16

eu nasci para o embaraço

Há uns meses, quando experimentei o tinder, li sobre o happn - creio que o conceito seja semelhante mas neste último só se recebe um aviso quando nos cruzamos com alguém que esteja a usar a mesma aplicação. Na altura, instalei e desinstalei logo a seguir porque não havia ninguém perto de mim. Nunca mais pensei nisso.

Até hoje - esta cinderela, iluminada que só ela, pensou "será que há alguém nestas vidas no hospital?", e resolveu reinstalar, por pura curiosidade. O que este génio não pensou foi na possibilidade de haver realmente alguém a usar a puta da aplicação, e em como seria cruzarem-se.

Tal como aconteceu.
Assim que instalei, localizei um pokemon: um médico de 26 anos, assim bastante asseadinho que, por acaso, nunca me despertou grande interesse, e que - igualmente só por acaso - estava no mesmo espaço que eu. E passámos o dia a cruzar-nos.
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(sim, a avaliar pelo ar do moço, ele também já tinha reparado)

(in)coerência

Desde que emagreci que sou um tanto ou quanto obcecada por tudo o que me faça crer que vou recuperar os 19kg em duas dentadas e que me faz sentir à beira de ir parar ao inferno das lontras obesas se pecar dessa forma - mas depois compro gelado e como sem culpas, sem pensar nas calorias, sem me imaginar com cascatas de banha neste metro e sessenta e oito de gente que deus nosso senhor me deu.

(não, não como gelado todos os dias, nem perto disso, acalmem-se lá)