sábado, 25 de maio de 2019

três anos depois.


[ninguém nos ensina na escola como se lida com a morte. não nos explicam o que fazemos quando as memórias se instalam e a saudade pesa no peito.
na última vez que a vi com vida, não era capaz de aceitar a sua morte como uma opção. não podia ser. era demasiado amada para que o cancro levasse a melhor. depois, levaram-na para França, e para longe de mim, na promessa de melhores cuidados de saúde. o meu até já mais doloroso. 
a maior mentira que tenho contado a mim mesma é que teria sido mais fácil se me pudesse ter despedido, se tivesse chegado a tempo. não seria, obviamente: como é que dizemos adeus a alguém que queríamos ter na nossa vida para sempre? como é que nos despedimos quando sabemos que uma parte de nós vai partir? 
as pessoas não nos são o que a árvore genealógica determina, são o que querem, como querem, na medida da posição que escolhem ter nas nossas vidas - ela era uma tia avó que me elegeu como neta mais velha no dia em que eu nasci. e, nos quase 21 anos em que coexistimos, não largou esse papel por um dia que fosse. a minha terceira avó, uma das minhas pessoas preferidas. a vida toda.
há precisamente 3 anos, estava numa ansiedade pouco contida: era o dia zero da contagem decrescente que tínhamos iniciado um mês antes. de viagem marcada e abraço mais do que pronto, nunca seria capaz de acreditar que o telefone iria tocar duas horas antes de as rodas da mala tocarem o chão atrás do meu passo ansioso. não podia ser verdade: eram só mais umas horas. há precisamente 3 anos, perdi a minha avó. deixou de ser suficiente atravessar a estrada, descalça, para encontrar o sorriso caloroso dela. acabaram-se as tardes inteiras a ouvir as mesmas histórias pela n-ésima vez, sempre com o mesmo deleite. esgotaram-se as chávenas de café, sempre cheias, que partilhacamos como se fosse uma coisa só nossa e o resto do mundo desconhecesse a sua existência. 
por muito tempo, não conseguia lidar com o facto de não me lembrar das últimas vezes. do momento em que me sentei no canto da mesa pela última vez, ou em que abri a gaveta para ir buscar uma colher. conhecia cada canto da casa como se lá tivesse vivido a vida toda, o que nem está tão longe assim da verdade: quando fecho os olhos, ainda consigo reescrever o cenário. ainda consigo sentir o cheiro da cozinha, e a posição exata dos pratos de decoração. ainda sinto que poderia preparar um café de olhos fechados.
a falta que me faz é proporcional ao amor que sempre lhe tive, e espero que, onde quer que esteja agora, saiba disso. que foi amada. e que nenhuma das vidas que ela cruzou ficou indiferente à sua partida.
há dias em que me esqueço de que não a vou voltar a ver. dias em penso nela como se estivesse viva e eu lhe pudesse contar alguma novidade, ou fazer perguntas pelo passado. se calhar, porque, dentro de mim, está mesmo viva.
talvez seja assim que se lida com a morte: deixando viver nos nossos corações.]

terça-feira, 9 de abril de 2019

about love

[no sábado, julguei que te perderia de vez - de repente, sentada na beira da cama, senti-me vazia. completamente vazia, como se um bocadinho de mim tivesse acabado de morrer para sempre. como se os dias nunca mais pudessem fazer sentido se não tivesse o teu abraço à minha espera. como se todos os sonhos que me permitia a construir depois de teres entrado na minha vida, estivessem definitivamente enterrados, no mesmo sítio onde os deixei durante os 21 anos em que não soube que me era permitido sonhar também. devo-te tanto do que sou, daquilo em que me transformei, que não sei imaginar esta caminhada sem a tua mão a ajudar-me nas subidas mais íngremes ou nos terrenos mais acidentados, mesmo quando não preciso, mesmo quando só me queres relembrar de que estás ali e não me deixas cair. e, naquele momento, senti que não era capaz de seguir a viagem sem ti ao meu lado.
encontrar-te, foi o mais próximo que estive de ganhar a lotaria. já o escrevi tantas vezes que se começa a tornar banal, mas ainda não deixou de me fazer sentido: não te trocava por nenhum (outro) prémio milionário. preferia viver a vida inteira a comprar roupa na feira e a comer massa com atum de marca branca, a ser rica e não te ter comigo. é esta a verdade. é a este ponto que uma pessoa chega. e perder-te seria, como só poderia ser, uma experiência de semi-morte. especialmente depois de nos ter trapaceado já tantas vezes e não ter percebido o essencial.
quero não me voltar a esquecer de que não és perfeito, de que não adoro tudo em ti, e que está tudo bem com isso. que, volta e meia, não vais corresponder às minhas expectativas, mas a culpa não será tua: não há um guião, e eu não posso esperar que saibas o que quero que digas ou faças em cada momento, porque eu decidi que assim seria. mais ainda quando sei que, mesmo que o houvesse, arranjarias sempre uma forma de lhe passar por cima e de fazer melhor ainda do que tinha planeado. arranjas sempre uma forma de me surpreender, e eu arranjo sempre uma forma de me esquecer da sorte que tenho.
és peça rara. não o posso dizer demasiadas vezes, porque às vezes sinto que - quase sempre - te meto num pedestal e faço de mim mesma um trapilho. é esta falta de filtros, que nunca me deixa esconder o que quero dizer, quer isso implique termos a discussão mais ridícula de sempre acerca de um canal de televisão, ou declarar-me a ti, uma e outra vez, como se ainda agora tivéssemos começado esta viagem e ainda nenhum de nós estivesse certo do que o outro sentia. não sei ficar calada. não sei esconder. se te acho especial, quero que o sintas em todos os momentos - mesmo quando não mereces. e sim, meu amor, às vezes não mereces - mas também é normal. não julgues que és mais fácil de entender ou de lidar do que eu - às vezes, é preciso manejar-te com as pontas dos dedos, com uma calma, uma precisão e uma paciência que eu não tenho. depois lembro-me de que tens de fazer o mesmo comigo na maior parte do tempo, mesmo quando escolho fingir que não sou um quebra cabeças. antes isso que um quebra corações, não?
eu e tu somos um par do caraças - não, não seria por sermos demasiado parecidos ou por nunca discordarmos que daríamos melhores companheiros de viagem. estes últimos dois anos foram um carrocel demoníaco, e eu não poderia ter pedido alguém melhor para andar nele comigo. obrigada por tudo. por todas as horas de espera, por todos os abraços apertados, por todos os beijos na testa. por todas as vezes em que me deste esperança só por olhar para mim, e que me fizeste acreditar que tudo era possível enquanto me seguravas a mão. 
no sábado, julguei que te perderia de vez e senti que estava a viver aquele velho clichê de perder a minha metade. foi ao que soube. foi o que pareceu. não estava a mentir quando, há umas semanas, te disse que, se pudesse, não hesitaria em trocar de lugar contigo e sentir as tuas dores, só para te ver feliz. e essa foi a primeira vez na minha vida em que eu tive a certeza de que tinha encontrado a minha própria definição de amor. e foi surpreendentemente bom, apesar de ligeiramente assustador, perceber que era possível criar uma conexão tão forte com outro ser humano. é o auge da minha vulnerabilidade, o pico da confiança - ao entregar-me assim, entreguei tudo o que tinha.
o que percebi, finalmente, é que nunca vai correr tudo bem, que nunca vou estar completamente satisfeita com todas as atitudes. que, muito provavelmente, eu vou continuar a revirar os olhos de cada vez que levar com programas de comentadores de futebol, mesmo que eu não veja televisão no dia a dia, e me vá limitar a fazer zapping porque, por algum motivo, qualquer outro programa merdoso me parecerá preferível aos relatos de futebol. e talvez nunca sejamos capazes de acertar os relógios a cem por cento, e estejamos condenados a viver por entre atrasos e discórdias padronizadas pelos horários do resto do mundo. e não faz mal - entendi que estava, inconscientemente, a cometer o mesmo erro do resto do mundo, a querer um amor perfeito sem espaço para que um espinho me pique o dedo e me faça gritar foda-se. tu não és perfeito, e eu também não. talvez nem vá conseguir gostar de ti todos os dias, por mais que te ame - e está tudo bem com isso. não vale a pena zangar-me sempre que não fizeres o que espero, porque sei que fazes sempre tudo para me fazer feliz; prometo-te o mesmo prato, meu amor. tudo para te fazer feliz, mas com um bocadinho de sal.]

sexta-feira, 5 de abril de 2019

os eternos estagiários

No início desta semana, tive uma entrevista de emprego para uma vaga deeee... operadora de call center.

Entenda-se que ofertas para call center é, literalmente, o que mais há em Coimbra, o que já me parece um claro indicador das condições de trabalho: diariamente - sem exagero: DIARIAMENTE - são colocados anúncios exatamente para a mesma função, mas com textos diferentes e com títulos mais ou menos originais, a ver se ainda alguém cai. Não me vou alongar sobre algo que só sei por relatos alheios, mas nunca me candidatei por ter consciência de que é trabalho precário ao mais alto nível.

Até que apareceu um novo anúncio, também para call center mas numa zona completamente diferente, e a pessoa lá envia o cv, como quem atira o barro à parede, e logo se vê no que dá.

Portanto, como comecei por dizer, tive uma entrevista.
Tenho a noção de que disse as coisas certas e de que os conquistei em poucos minutos. Isso ou o desespero deles é maior do que o meu e os restantes candidatos eram ainda mais merdosos do que eu - eu nunca saberei, vocês nunca saberão, mas em todo o caso... vamos dizer que tenho aquela lábia para convencer as pessoas de que sou capaz de vender as alminhas deles em troca de um bolicao.

A dada altura, o senhor diz: 

- sabe que num emprego na área comercial... há uma coisa que está sempre presente...

*fica a olhar para mim, à espera de que eu complete a frase como se fôssemos um casalinho*

- comissões! - respondo com os dois neurónios que ainda respiram.

Sorri ligeiramente. Entendo que fiz merda.

- também, mas eu estava a falar da pressão.

Apesar deste deslize, a coisa foi indo bem. Eu estava pouco convencida, devido a uma série de fatores que não vos interessam, mas disposta a tentar porque, assim como assim, era melhor do que nada. Até que eles dizem...

- não sei se reparou mas isto é para um estágio profissional! são 9 meses, o salário é quase o salário mínimo, essas coisas...

Não, não reparei porque não estava no anúncio - se estivesse, com toda a certeza de que este fat ass não se teria sentado naquela cadeirinha, e a pergunta que não quer calar é... para quando colocar limites nos estágios profissionais? 

Assim de repente, eu consigo entender os estágios profissionais em situações específicas, quando pessoas recém formadas em alguma coisa pretendem enriquecer o currículo, por forma a facilitar a entrada no mercado de trabalho (gostaram da inocência aqui? the truth is: em primeiro, 9 meses de experiência são uma gota no oceano quando as empresas pedem 5 anos, e em segundo, provavelmente só vão perder oportunidades em outras empresas que também queriam um trabalhador a custo zero, mas entretanto vocês já gastaram o vosso plafond de um estágio por vida.), mas não consigo entender que toda e qualquer profissão possa ter os ditos estagiários.

Por que caralho vai andar o povo a pagar a um estagiário de... operador de call center? O trabalho em si já não é precário e merdoso que chegue? É mesmo necessário trabalhar sem quaisquer direitos e acabar desempregado nove meses depois, para que a empresa possa repetir o processo e nunca chegar a pagar a alguém?

Isto se, entretanto, não tiver sido colocado na rua por não ter cumprido os objetivos de vendas. Aqui trabalhamos com estabilidade e sanidade mental, já se viu.

Também já vi anúncios a pedir candidatos, elegíveis para estágios profissionais, para estafetas. Empregados de balcão. Operários fabris. Pergunto-me para quando os varredores de rua estagiários.

Depois a parte mais triste é que estes estagiários nem sequer podem usar o estatuto para se negarem a alguma coisa, tipo faz tu isso que eu sou só estagiário - não, filhos, estas pessoas trabalham o dobro, a ganhar pouco e sem férias, na esperança vã de, ao fim de 9 meses, a empresa achar que era um bom negócio ficar com eles. E, na maior parte das vezes, não fica - vai buscar outro e repete-se o processo.

Até quando? 
Vale mesmo tudo para fazer de conta de que a taxa de desemprego diminuiu? Vale mesmo a pena não ter qualquer respeito pelas pessoas que vêem a estabilidade como um desejo inalcansável?

Acho que não.

como são os dias, cinderela?

Perco sempre seguidores de todas as vezes que ouso mostrar que há toda uma vida de deprimência por trás de uma criatura que, na maior parte do tempo, só diz disparates pontuados por palavrões, mas continuarei a escrever sobre o que me dói as vezes que forem necessárias para deixar de doer. Cada post, é uma lambidela na ferida. Um dia, ela há de fechar.
O meu estado atual é o nervosismo permanente; sinto-me sempre a fervilhar nos piores sentidos possíveis e, na maior parte do tempo, sinto-me confusa, sem saber muito bem para onde me virar. Não há um ponto da minha vida que me pareça cem por cento certo, não há absolutamente nada que não me deixe com a sensação de que há alguma coisa por resolver. Estou desapontada. A remar contra uma maré que talvez acabe por me afogar, a tentar o melhor possível em vão. E a colecionar desilusões que não confesso em voz alta para nem assumir que estou magoada e a perder o norte.
Levanto-me sem vontade. Tenho feito mil e uma coisas, resolvido mil e um assuntos para evitar ter alguma coisa pendente na hora do tão esperado sim- mesmo assim, chego ao final do dia com a mesma sensação de inutilidade e de cansaço desmerecido. Estou cansada, já o terei dito?
Há semanas, encontrei algo no meu corpo que não deveria lá estar - conversei com uma médica que me disse para não entrar em histeria, que não parece algo complicado, mas o meu novo entretém é passar a vida a tocar-lhe, numa tentativa vã de perceber se está igual ou se mudou alguma coisa. Que mudasse - não seria em meia hora. A paranóia é tal que sou capaz de começar a ter dores onde não existem, ou de o sentir muito maior mesmo que esteja exatamente igual: been there. O respeito que tenho pela saúde é tanto que não consigo ficar descansada. Vai ser um longo mês e meio à espera da consulta, e na altura talvez já tenha de pedir um bilhete de ida para psiquiatria também.
Está tudo errado.
A ansiedade, a minha velha amiga, voltou a instalar-se. Volta e meia, dou por mim ofegante a fazer nada, de repente todo o ar do mundo não é suficiente para encher o meu peito onde um coraçãozito bate descompassado. Já tive muito medo destes sintomas, mas hoje já aceitei que, muito provavelmente, conviverei com eles para sempre. O que eu não sei mesmo é viver com a incerteza constante, com sonhos arrumados ao canto.
Eu, que nunca gostei da vida traçada a régua e esquadro, eu que nunca gostei muito de planear o que vinha a seguir, dei por mim transformada numa control freak que é incapaz de lidar com um plot twist. Tinha planos mais engraçados para esta altura, mais felizes. E sonhos para concretizar que, volta e meia, já duvido que algum dia venham a ser possíveis.
Estou cansada... cheguei a escrevê-lo antes?

quarta-feira, 27 de março de 2019

de obesa a modelo plus size

Para ti, que és obeso, e sentes que não há volta a dar, só tenho duas palavras: eu também.

Eu também usei, durante anos, a desculpa de que até o ar me fazia engordar, e não conseguia emagrecer por mais que me esforçasse, até que a saúde me puxasse o tapete e eu acabasse por entender que, afinal, não me estava a esforçar o suficiente. E que o ar era, nada mais nada menos, que todas as porcarias que eu comia sem a mínima noção das facadas que estava a dar em mim mesma.

Sinto uma pontada de desespero de cada vez que leio um post de uma pessoa obesa - e aqui confesso que só tenho visto mulheres - a dizer que é uma gorda saudável - meu deus, eu também. Eu também dizia isto! E... era mentira. Embora eu não fizesse ideia.

Se se estiverem a perguntar, a resposta é não: não comento este tipo de publicações. Reviro os olhos e sigo com a minha vida porque, por mais que eu julgue ter razão, sei que o meu comentário seria sempre visto como algo desnecessário e maldoso. Gordofobia, como o povo agora adora dizer. Só que não. O meu problema é estar de fora e conseguir ver o que elas não conseguem.

Cinderela, agora excedeste-te.

Deixem-me contar-vos um segredo: eu não fazia ideia do corpo que tinha. Sinceramente. Choramingava por ser gorda, odiava ver-me na roupa - que, aliás, era um 31 para encontrar algo que me servisse - mas posso garantir-vos que só tive consciência do quão gorda era, quando mudei. Quando coloquei duas fotos lado a lado, numa daquelas montagens que eu antes julgava serem exibicionismo, e me obriguei a ver o quanto tinha mudado. 

O que me causa alguma comichão não é o facto de esta ou aquela pessoa ser mais gorda, ou ser obesa - francamente, passa-me ao lado. O que me chateia é esta tentativa constante de se normalizar a obesidade, de se chamar a alguém, com 30 ou 40kg a mais, modelo plus size. Ou, pior ainda, mulher real.

Já escrevi sobre isto, mas não me canso de o repetir: acho tão nocivo darem a entender que não há nada de errado em ser-se obeso, quanto aquela velha moda de que o corpo ideal é ser-se tão esquelética que dá para fazer da coluna vertebral um reco-reco. A grande diferença entre eles é que, se até para a magreza extrema as pessoas encontravam um limite, na obesidade parece não haver teto. Não importa se tem 5kg a mais, ou 45kg. Tudo entra no conceito, tudo é bonito. E, o pior de tudo, tudo é aplaudido por outras pessoas em condições semelhantes. 

Entra-se na onda de que, se aquela pessoa, com tanto peso a mais, é bem sucedida, vista como um modelo, uma mulher real, então eu também posso ser. Esforçar-me para quê, se o que importa é aceitar-me?

Aceitarem-se, sim. Amarem-se, sempre. Mas o amor próprio deve incluir, em primeiro lugar, a saúde. 

Há fatores genéticos, hereditários, hormonais, tudo o que quiserem, que aumentam a predisposição para engordar, sim - mas existem também muitas pessoas penduradas nesta desculpa para não terem de se esforçar por mudar. Afinal, nem sequer estão sozinhas no mundo, e cada vez mais há roupa plus size.

Uhm uhm.

Acho importante clarificar que eu não sou um exemplo para ninguém: apesar de falar imenso no quanto gosto de comer, a verdade é que, neste momento, tenho uma péssima relação com a comida. Na maior parte do tempo, todo e qualquer prazer que possa sentir ao comer algo de que goste muito, é abafado pelo sentimento de culpa. E, quando a culpa não é pelo que comi, é pelo simples facto de sentir fome quando eu decidi que não ia comer.

Para metermos os pontos nos is, quero deixar claro que este post foi escrito por alguém com excesso de peso: são 72kg de sensualidade distribuídos por 1,68m de gente. Já pesei 96kg. E esta informação é medianamente irrelevante mas é inegavelmente libertador sentir que sou capaz de o escrever. Pela primeira vez na minha vida, eu não sinto vergonha do meu peso. Mesmo que não esteja onde quero, mesmo que continue a lutar com a balança.

Perder peso não resolveu todos os meus problemas, não sou uma pessoa melhor só porque passei das calças 48 para as 40, ou porque a maior parte das camisolas que compro agora são o S. Não é disso que se trata, de todo. Mas posso garantir-vos que, mesmo nos dias em que barafusto com a minha imagem, gosto mais de mim hoje do que fui capaz de gostar durante os primeiros 21 anos da minha vida, se fosse possível compactar todo esse desamor e transformá-lo num só. E o amor próprio não tem preço.

O que quero que retenham deste post é isto: vale a pena fazerem algo por vocês. Vale a pena tentarem mudar. E, quando o fizerem, mesmo que às vezes duvidem, vão sentir-se melhor do que nunca.

Para quem tiver curiosidade, no instagram poderão encontrar um antes e depois: @quemdeuervaacinderela.

terça-feira, 26 de março de 2019

cinderela e as vinganças não cozinhadas

A melhor parte de se estar desempregado e inscrito no iefp é que, com uma frequência absurda, recebemos uma convocatória para uma sessão coletiva que não serve para muito mais do que para nos fazer sentir que estamos em regime de identidade e residência. Pergunto-me para quando a pulseira eletrónica para localizar desempregados, não vão eles fugir do país com o subsídio milionário. Especialmente pessoas que, tal como eu, recebem a módica quantia de zero euros com zero cêntimos.

Como é do conhecimento geral, esta pessoínha está desempregada há perto de dois meses - na primeira semana, recebi duas convocatórias de uma só vez, para duas reuniões em semanas consecutivas. A primeira foi um insulto tão grande à inteligência dos presentes que cheguei a começar um post sobre isso, mas nunca o publiquei. A segunda, foi mais do mesmo: sessão ilucidativa sobre a importância de ter um currículo. Pode parecer uma piada, mas não é.

No final de cada um destes encontros regionais de desempregados, entregam-se as convocatórias a quem a dirigiu, como prova de que estivemos presentes. Assim o fiz, em qualquer uma das duas vezes. Entenda-se que eu só me dou ao trabalho de comparecer para poder manter a minha inscrição, devido à quantidade de empresas que recorrem aos estímulos à contratação que exigem isso mesmo dos candidatos. 

Foi ontem, por ter começado a estranhar estar há mais de um mês sem ficar a ferver por dentro, que fui verificar o estado da minha candidatura: anulada. Alegadamente, não compareci a uma convocatória. Gravíssimo. Devo ter fugido do país.

Ora, eu sabia que isto só podia ser uma de duas coisas: ou a convocatória em questão nunca chegou até mim, ou algum dos seres geniais a quem as entreguei, no fim da sessão de humilhação, usou a minha folha para outros fins que não para confirmar a minha presença. Foi a segunda hipótese: misteriosamente, marcaram-me falta apesar de eu ter estado lá.

Portanto, aqui estou eu, com a minha inscrição anulada e impossibilitada de me reinscrever até ao dia 29 de maio, por um erro que não foi meu. Escrevi uma carta à diretora do centro de emprego, a explicar o sucedido e a pedir que me deixem voltar a inscrever sem esse castigo de 90 dias, mas não sei qual será a resposta.

Irritadíssima desta vida por saber que este é um ponto contra mim, aos olhos de muitas empresas, e mais ainda por saber que não tenho culpa alguma disto... recebi um email, do próprio iefp, a pedir-me que avalie o meu último contacto com a instituição. 

Afinal, deus até me curte um bocadinho.

quarta-feira, 20 de março de 2019

[aconteceu no sábado, pela primeira vez, e hoje repetiu-se: comecei a chorar descontroladamente. queria parar, queria acalmar-me mas, sempre que parecia ter recuperado a capacidade de respirar, era acometida por uma nova onda de pensamentos que trazia ao cimo mais uma enxurrada de lágrimas que eu não sabia existirem dentro de mim. era impossível secá-las.
tenho, neste momento, a mesma sensação que experimento num elevador: mesmo que queira, mesmo que precise, não tenho como fugir. estou encurralada. e é tão sufocante que não consigo perceber onde encontrei fôlego para chorar. para reagir.
contrariamente ao que se diz, o pior não é não ter esperança - o que é mesmo difícil, é tê-la e perdê-la. é dizerem-nos as palavras certas, exatamente o que queremos ouvir, vermos o brilho a voltar ao nosso olhar, o sorriso a surgir, depois de semanas e semanas de ausência, para depois voltarmos à estaca zero. ou menos um.
ficam as dúvidas, acima de tudo, acerca do meu próprio valor. das minhas capacidades. ou do que terei de tão errado assim, para que nunca nada dê certo.
quase dois meses depois, esgotei aquela réstia de esperança. e sinto que desisti daquilo em que mais acreditava, daquilo que mais defendi durante todo este tempo, porque não me restam forças para lutar por isso. não dá mais. não posso continuar a fingir que mereço o que ninguém me quer dar.
hoje morreu aquela réstia de esperança que ainda me ia mantendo sã. paz à sua alma.]

domingo, 10 de março de 2019

5 dicas para encomendarem o amor perfeito

Mea culpa: estão a ver aqueles programas merdosos que têm passado na sic e na tvi, de encontros e arranjinhos e cenas? Tenho papado o carro do amor quase-quase com a mesma sagacidade com que devoro uma embalagem de filipinos brancos, só para que vejam o que o desemprego faz às pessoas.
Poderá parecer-vos uma perda de tempo mas, pessoalmente, tenho achado bastante educativo. 

A conclusão é óbvia: as pessoas já não gostam de cozinhar em casa, e ir acrescentando ingredientes e temperos até a coisa ficar em condições - agora é mais fácil requisitar um daqueles serviços em que os estafetas vão buscar a comidinha ao restaurante, e está pronta a comer. Não dá trabalho e vem tudo no ponto. No amor, querem o mesmo tratamento.

Fico um bocado em choque: ah, é giro mas é muito baixo; ah, é boa pessoa mas não gosto de olhos claros; é simpático mas demasiado romântico.

Gente: podem mandar fazer roupa e sapatos à medida, mas com pessoas não funciona bem assim. Aquela criatura linda e maravilhosa, cheia de características excecionais, por quem vocês se apaixonaram... também vai vir com defeitos e pontos de discórdia. Ou lidam com isso, ou nem vale a pena. 

Ainda assim, e já que estes programas existem, dei por mim a olhar para o monsieur e a pensar no que é que eu acho que poderia funcionar melhor entre nós e que, por isso mesmo, daria um bom item para incluir quando se está a encomendar um eventual futuro parceiro, e elaborei uma lista para ajudar os possíveis interessados:

Ponto Número Um: O Frango

É engraçado porque ainda não ouvi ninguém a referir isto, embora me pareça um ponto absolutamente crucial: é importante perceber, desde o início, se gostam ou não das mesmas partes do belo frango de churrasco. Acredito que o par ideal é aquele em que um só gosta da metade inferior, isto é, das coxas, e o outro é feliz a comer aquele peito completamente seco e a chuchar as asinhas.
No nosso caso, temos os dois uma predileção por coxas e acabamos por ter de, desconsoladamente, dividir o frango ao alto para que nenhum saia prejudicado. Nunca seremos plenamente felizes.

Ponto Número Dois: A Cama

Acho muito importante saberem de antemão em que tipo de cama é que a vossa presumível futura cara metade está habituada a dormir. Se estivermos a falar de uma pequena cama de solteiro, deverá ser uma pessoa mais modesta e recatada, facilmente domesticada para dormir no seu canto, e só no seu canto, quando em casal. Agora, meus amigos, quando ambos estão habituados a dormir em camas grandes, é a rebaldaria total! É ver-me com 20cm de espaço para me mexer, quando eu sou uma pessoa espaçosa, é vê-lo a dar-me cotoveladas porque entretanto já estamos os dois com a cabeça na mesma almofada.
É muito complicado. Tem de ser conversado logo desde o início, para perceberem se há alguma hipótese de o espaço ser bem gerido. Casos como o meu... saltem fora. Nem tentem!

Ponto Número Três: A Televisão

No primeiro encontro, devem começar por questionar imediatamente quais são os programas a que a pessoa gosta de assistir. Se forem incompatíveis, corram o mais depressa que puderem. Ou rebolem.
Imaginem um casal em que ele é um aficcionado por desporto, devora todos os programas do género, e ela é uma pequena baleia com uma paixão sobrenatural por bolos que preferia estar a ver programas de culinária. Acham que vai correr bem? Pois. Nem vale a pena estarem a chatear-se. Vão comer e esqueçam essa cena do amor.

Ponto Número Quatro: As Pipocas

Tão ou mais essencial do que descobrir as partes do frango favoritas, é perceber como é que o outro gosta das pipocas. Eu sei, eu sei - para casais não-modernos que ainda se dão ao trabalho, a coisa é simples: compra-se o milho, faz-se as pipocas na panela e depois cada um faz como lhe apetecer. Mas como a generalidade de nós prefere aquelas que é só meter o pacotinho no microondas e faz-se a magia, pode ser um drama gigante haver incompatibilidade de sabores.
Se um só gosta das doces e o outro só gosta das salgadas, está a puta armada porque ninguém vai querer ter de comer um balde de pipocas sozinho. Pelo menos, eu não quero ter de comer um balde de pipocas sozinha, mas não tenho grande fé de algum dia o conseguir converter às salgadas. É mesmo complicado.

Ponto Número Cinco: A Música

Está em quinto lugar nesta lista, mas é um tema deveras fraturante que devia ser conversado ainda antes de se ter perguntado o nome. Neste caso, não basta haver uma compatibilidade parcial, essa coisa de gostarem os dois das mesmas músicas mas depois cada qual gostar de um género completamente diferente, que o outro não suporta.
Nada poderia ser mais dramático numa relação do que um deles, no carro, passar o caminho armado em dj botão, correr todas as estações pré-gravadas na rádio, resmungar que nunca passa nada de jeito, e recomeçar a clicar nos botõezinhos todos outra vez, do início, na fé de que entretanto todas as músicas anteriores já tenham acabado e que alguma lhe agrade ao ouvido. Enquanto isso, o outro chora baixinho porque só queria ter tido a hipótese de berrar a shallow a plenos pulmões. Já vi relações acabarem por muito menos.

Assim de repente, estes parecem-me pedidos muito razoáveis para se incluir quando, afinal, se está à procura da pessoa com quem iremos passar o resto das nossas vidas. Se tudo correr bem, e se um dia não houver um motim porque já ninguém suporta comer asinhas de frango. Oremos por esses casos complicados.

Se se lembrarem de mais características cruciais para o par ideal, sintam-se à vontade para acrescentar a lista. Ñão sejam modestos a exigir pedir, príncipes e princesas!

sexta-feira, 8 de março de 2019

porque é que me devias contratar?

É verdade, amigos: estou em casa há coisa de cinco semanas e já sinto que, não tarda, estou a atingir a idade da reforma sem ter tido sequer a oportunidade de ir preparando o tachinho para a altura em questão. E isto nem é tão descabido assim, se pensarmos que estamos demasiado velhos para a maior parte dos postos de trabalho a partir dos 40 - talvez seja uma sorte ter este arzinho de menor de idade aos 23 mas, se continuo em tamanho stress, sou capaz de começar a envelhecer precocemente muito em breve.

A verdade é que o mercado de trabalho é cada vez mais uma selva competitivo: quando não se tem a sorte de ser prima direita do dr Cunha, é mais fácil ficar milionária a pedir esmola à porta de uma igreja do que conseguir um emprego em condições, onde a pessoa não acabe explorada ou à beira do suicídio. 

Depois existo eu, uma teimosa do caraças que não acredita nos vai-se andando e quer mesmo é ser feliz e levantar-se todos os dias com vontade de ir trabalhar. Já viram coisa mais absurda para se querer? Eu sei, eu sei: sou pouco dada a modas e a tradições. Sei que é mais comum querer ser-se infeliz e resmungar todos os dias da má sorte e do euromilhões que nunca mais sai, do que querer realmente fazer algo que nos complete e nos faça felizes. Espantem-se: o que eu quero mesmo é não encarar aquelas 40h semanais como uma constante ida ao dentista. Ou, pior, como uma ida ao dentista para extrair o siso! 

Infelizmente, os recrutadores/empregadores/gente à procura de funcionários, estão com alguma dificuldade em perceber isso, portanto eu vou deixar abaixo uma lista a explicar porque é que já me deveriam ter contratado ontem. Ora vejam:

Boa apresentação
Gente, vamos lá ver: eu não sou bonita, que não sou, mas fui feita com muito amor e carinho. Isso conta, ou não?
Apesar desta tromba, que podia ter dado uma boa máscara de carnaval, não posso deixar de referir que tenho os dentinhos todos no sítio, ou já teria enveredado pela carreira de arrumadora de carros e não estaria a candidatar-me a vagas mais, digamos, fancy.


Assiduidade e pontualidade
Isto é muito simples de explicar: sou demasiado ansiosa para correr o risco de chegar atrasada. Quando tenho um compromisso, minha vida é cronometrada ao minuto para garantir que chego a horas. Se, ainda por cima, implicar estacionar num sítio onde estou pouco à vontade, chego duas horas antes e ainda vos tiro um café.
Quanto à assiduidade, mais simples ainda: fiz uma cirurgia e, no dia seguinte a ter tido alta do hospital, com mais buracos na barriga do que um crivo, estava de volta às aulas. Querem mais? Era sexta feira. Quem mais teria voltado às aulas, apenas três dias depois de ter perdido uma das suas peças de origem e, ainda por cima, a uma sexta feira? Exato: eu. Contratem-me.

Experiência em softwares que nunca nesta vida ouvi falar
Não tenho experiência mas, graças a deus nosso senhor, tenho um cérebro. E, melhor ainda: consigo usá-lo. Ensinem-me o básico para começar e, em menos de nada, vão ficar chocados com tudo o que eu já descobri. Sou mulher, pessoas, e mulher que é mulher tem uma costela de FBI, que tanto serve para desencantar os podres dazinimigas quanto para investigar e assimilar informação em tempo record. 

Jovem e com 30 anos de experiência na área
Vou contar-vos um segredo: experiência não faz, necessariamente, um bom funcionário. Já trabalhei com pessoas que, de facto, tinham mais de 30 anos de experiência na área e continuavam a ser maus funcionários - não por não saberem fazer, mas porque nem sempre isso é o mais importante.
Trabalhei em três áreas completamente distintas e, garanto-vos, dei o meu melhor em qualquer uma delas, porque não sei ser de outra forma. Não participo em nada onde não esteja disposta a entregar-me a 100%, a vestir a camisola - e nem numa altura em que já não estava feliz nem a gostar do que fazia, deixei de desempenhar as minhas funções com brio.
Portanto, a experiência adquire-se trabalhando, há sempre espaço para aprender coisas novas e, garanto-vos, dou uma funcionária do caraças.

Conhecimentos matemáticos
Este não costuma ser um ponto muito presente nos anúncios mas, em entrevista, já passei pelo momento constrangedor em que explico o meu percurso escolar e como acabei num curso profissional alternativo porque chumbei a matemática no secundário, e ouvir um ahhhh, mas os conhecimentos de matemática eram importantes para a função. Vamos lá clarificar a coisa: eu não consegui passar no exame, mas não sou necessariamente acéfala ou inválida para o o mundo do trabalho por isso. Ou ponderavam dar-me uma equação trigonométrica para eu calcular o horário de uma reunião?

Vontade de trabalhar
Eu gosto sempre deste ponto porque uma pessoa não tem como se defender. Como é que explico? Acrescento na carta de apresentação que já queria ter começado a laborar ontem? Digo que mal posso esperar para *copiar e colar neste espaço todas as funções descritas no anúncio*? Se não estivesse com vontade de trabalhar, não me candidataria. Mas às vezes tenho vontade de acrescentar que, pelo menos, não vou fazer trezentas pausas para fumar/tomar café/olhar para o teto, porque tenho a síndrome da menina certinha e esse tipo de comportamentos nunca me fez sentido. Ainda por cima, nem sequer fumo. Porque é que não perguntam isso? Deve contar como vontade de trabalhar, ou não?

Carta de condução
Esta é sempre a minha favorita - para todos os efeitos, sim, tenho carta de condução, e veículo próprio. O problema é que sou sovina, não adoro conduzir e, podendo, não conto fazer outra coisa que não usar transportes públicos - numa época em que toda as pessoas se preocupam mais em ter uma vida sustentável e poupar o ambiente parece-me, no mínimo, irónica a obsessão pela carta, ou não, pelo carro, ou não.
Já cheguei a ser descartada de uma oferta de emprego porque, quando me começaram a questionar sobre a distância a que vivia daquele posto de trabalho, eu respondi que nunca seria um problema porque, sendo mesmo ao lado da estação, poderia facilmente utilizar o comboio como meio de transporte. Que não, que não podia ser, que um dos requisitos era a carta de condução e viatura própria - entendam que estamos a falar de uma vaga para rececionista. RECECIONISTA.

Conhecimentos informáticos na ótica do utilizador
Fico sempre um bocadinho baralhada com esta - é para dizer que sei ligar o computador? Que sei o que é um browser e que até me safo muito bem em meia dúzia de programas que não uso no dia a dia? Que gosto de explorar? De qualquer forma, tenho um blog, ando nisto há quase 9 anos desta vida, acho que encaixo, ou não?

Perfil comercial
Também gosto muito desta, especialmente quando surge em anúncios que, à primeira vista, nada teriam a ver com a área comercial. Mas o que é, afinal, ter um perfil comercial? É ter lábia para, se for preciso, vender as vossas mãezinhas? Sim, as vossas. A minha é que não, de certeza, que quem quer vendas são vocês.

Domínio do inglês
You'll never know if you don't ask - i already had a job interview in french, but i was never asked to say a single word in english, wich is curious if we think that most of them want me to be fluent. Ok. I am. Even though i can get a bit nervous and, don't even know, end up telling you that i want to eat your mother, i promess you that i can really talk and have a decent conversation.

Agora a sério: por que raio é que eu estou desempregada? Não veem o que andam a perder?

quinta-feira, 7 de março de 2019

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Há duas ou três semanas, ao ver-me a correr, uma daquelas senhoras especialistas na vida alheia achou por bem pôr-se aos gritos, no meio da rua, para me perguntar se ainda estava a trabalhar no mesmo sítio. Irritou-me pelo absurdo da situação: eu não iria parar de correr para conversar com ela, fosse qual fosse o motivo, muito menos entendi a necessidade daquela pergunta quando eu já estava largos metros à frente. Despachei-a com um não atirado por cima do ombro e escrevi um post a resmungar com o assunto.

Só que, depois, percebi que sentia vergonha. Vergonha de me assumir desempregada porque, por mais que eu não tenha tido a culpa, o sentimento é sempre o mesmo: falhei. Falhei às expectativas dos outros, mesmo daqueles que não parecem ter motivo algum para ter expectativas sobre mim. E isso dói.

A vida segue exatamente igual, sem outra emoção que não o desespero, e cada dia, parece ser só a extensão do anterior. É difícil fazer os outros perceberem o porquê de estar desanimada ou de não ter nada de novo para contar. É meio complicado colocar em palavras o sentimento de inutilidade ao chegar ao fim de cada dia, de cada semana, sem uma única resposta positiva. Sem uma luzinha que seja ao fim do túnel. 

Para os outros, eu ainda nem estou em casa assim há tanto tempo e tenho de ter paciência - para mim, passou uma eternidade desde a última vez que eu soube o que era ter uma rotina. E que bem que sabe uma puta de uma rotina que implique sair de casa e fazer coisas que resultam em dinheiro ao fim do mês! Que bem que sabe poder fazer planos, poder ter coisas a acontecer, poder seguir com a vida.

Todos os dias aumenta o peso no peito e a sensação de que isto não tem fim à vista, de que ninguém vai ser capaz de entender o verdadeiro conflito que vive na minha cabeça e o quanto me sinto a sufocar. Ou que é mais uma facada de cada vez que voltam a falar-me do hospital, como se tudo o que aconteceu depois me tivesse, ou devesse, feito lamentar a decisão de sair de lá - não fez. For god's sake, ainda não me arrependi por um segundo que fosse, e duvido um bocadinho de que vá fazer em algum dia.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

deux

[ia falar-de de como a minha vida era antes. do quão desencantada eu era pelo mundo, e por mim mesma. de todos os dias tristes em que achei que não valia a pena, que nunca preencheria as medidas, que nunca seria suficiente - mas, de repente, dei-me conta de que essas memórias, se vão perdendo e já não é tão simples assim construir esses paralelismos. de alguma forma, renasci quando te conheci. e a minha vida começou a contar aos 21 porque, finalmente, comecei a viver.
obrigada. e desculpa: não sou sempre a melhor namorada, não sou sempre a mais paciente, e talvez não te diga as vezes suficientes a reviravolta que deste na minha vida, a forma como me forçaste a olhar para mim de outra forma. a sonhar tão alto quanto todas as outras pessoas, porque podia, porque o mundo não me estava vetado. e porque eu não sou menos do que qualquer outro ser humano. obrigada por me teres obrigado a ver que merecia mais do que as migalhas que me iam satisfazendo a carência de afeto e de atenção.
volta e meia, pergunto o que fiz para te merecer. poderá soar a modéstia exagerada ou a tentativa de redenção por todas as vezes que pus o pé ao lado, mas não é: dois anos depois, eu ainda não descobri como é que te ganhei. eu, que acho sempre que não tenho sorte, ainda sinto que ganhei a lotaria de todas as vezes que olho para ti. mesmo quando estou zangada contigo pela maior patetice do mundo. zangarmo-nos também sabe bem - aprendemos sempre qualquer coisa nova um sobre o outro. e eu diria que é de estranhar duas pessoas serem tão idênticas que nunca entram em discórdia: gosto da nossa resmunguíce, também. do bater o pé, do querer levar a sua avante. de não fazer de conta só para evitar confusões. e, depois, gosto de me sentar contigo para encontrar o meio termo. ninguém ganha, ninguém perde. ou talvez eu ganhe mais vezes do que tu porque fazes batota para me ver feliz. e eu amo-te. mesmo quando perco.
há quem duvide da existência de amores perfeitos. eu só acredito porque, há coisa de duas semanas, me ofereceste uma saqueta de sementes - e eu relembrei-me do porquê de gostar tanto de ti: és diferente de todas as pessoas que eu conheci. e, se há momentos em que me apetece apertar-te o pescoço por isso mesmo, não há um único momento em que eu não tenha a certeza de que, se me fosse dado a escolher por quem me apaixonaria, mesmo com todos os dramas de um namoro à distância, mesmo depois de tudo o que passámos até chegar aqui, não hesitaria em escolher-te a ti. sempre. acima de tudo. acima de qualquer coisa.
estou contente por poder continuar a dizê-lo mesmo depois de o namoro ter perdido aquele cheirinho a novo e os defeitos terem ficado a descoberto: há coisas que não gosto em ti, e outras tantas em que eu acho que nunca vamos acertar o passo. literalmente: esses teus 20cm de perna a mais fazem-te andar, normalmente, a um ritmo que me obriga a correr para te acompanhar; nem eu o faço, nem tu abrandas e preferes parar, para me deixar chegar a ti, ao meu ritmo. e recomeçamos. mas chegamos sempre, sempre, ao mesmo tempo - acho que o amor é um bocado isso também.
obrigada por estes vinte e quatro dias vinte e oito das nossas vidas. atrevo-me a dizer que és a pessoa que melhor me conhece - talvez mais ainda do que eu própria. obrigada por não teres fugido.


mas sim, meu amor, eu meto sempre mais sal na massa quando tu não estás a ver.]

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

cinderela e as entrevistas traumáticas

Depois de toda a odisseia para chegar à entrevista, subi as escadas, completamente encharcada e com a dignidade ferida, e dirigi-me à senhora da receção. Pedi desculpa pelos dois minutos de atraso porque me perdi, mas disse-me que não fazia mal, que tinha chegado muito a tempo e encaminhou-me para o fundo do corredor, para uma sala onde já estavam três senhoras sentadas, também elas para entrevista.

Nada de estranho até este ponto, só extremamente desconfortável - um dos meus problemas foi ter-me esquecido da confiança no útero da minha mãezinha, e sinto-me sempre extremamente desencorajada quando vejo os outros candidatos à vaga porque, mesmo que lhes faltem três dentes à frente ou pareçam dealers em part-time, eu acho que terão mais hipóteses do que eu. E, neste caso, tinham todas o dentiçal completo e aquele ar fancy que deixa uma pessoa a questionar as decisões que tomou, em relação à vestimenta, desde a camisola até às cuecas. Fui perscrutada com o olhar, especialmente pela moça mais nova, a única que não tinha idade para ser minha mãe. 

Confesso que o que senti naquele momento roçou a humilhação: tinha andado imenso tempo à chuva e, apesar do cabelo seco, estava encharcada da cintura para baixo e parecia que a base me tinha dado aquele ar suado de quem tinha ido correr antes de ir para ali, e trocado de roupa sem tomar banho. Um must. Uma clara candidata. Só que não.

Até que aparece o senhor e nos encaminha a todas para a mesma sala: eu já tive entrevistas muito distintas, algumas delas muito esquisitas mesmo, desde as presenciais às por skype, desde chegar lá e descobrir que metade da entrevista seria em francês, àquela em que me chamaram barbie e que poderia muito bem ter sido para algo na indústria pornográfica. Mas, em grupo, apesar de saber que era possível, foi a minha primeira vez. Uma estreia em grande.

Inicialmente, quis acreditar que o senhor se limitaria a explicar as condições do emprego e, depois sim, falaria connosco em privado. Não demorei a perceber que não iria ter essa sorte.

Gente, poderá haver coisa mais desconfortável do que, além de já se estarem a sentir inferiorizadas por terem nascido com esta tromba que deus nosso senhor estava a guardar especificamente para uma máscara de carnaval e vos deu por engano, ainda estarem a ouvir o percurso profissional incrível das pessoas com quem estão a competir por uma vaga? 

De repente, sentia que ainda estava a arrotar ao bolo do meu próprio batizado e que, de facto, é uma loucura tentar procurar um trabalho antes de se ter 20 anos de experiência ou um mestrado numa área completamente diferente daquela a que me candidato mas que, ainda assim, dá quatro milhas de avanço a qualquer outro ser que tente a mesma vaga com o 12º ano. Independentemente de tudo o resto. Sempre.

Não fiquei com o lugar, como é óbvio, coisa que foi percetível que aconteceria mal confessei que, sim senhor, ao contrário de todas as outras senhoras presentes, eu já trabalhei a recibos verdes. Aliás, uma delas chegou mesmo a perguntar que raio de modalidade de contrato era aquela, porque só tinha ouvido falar em contrato a termo certo ou incerto, nunca de recibos verdes - por onde andou estes anos todos, senhora? Em que gruta se escondeu, que também estou interessada em esconder-me por uns tempos?

Ah, Cinderela, mas qual é o interesse desta história?
Absolutamente nenhum, para ser franca. Foi só mais um episódio deprimente dos tantos que eu gosto de relatar. Esta entrevista aconteceu no meu último dia de trabalho na empresa de onde fui despedida - e, mesmo que tenha durado pouco, ainda foi a luz ao fundo do túnel durante algumas horas. Vale a pena só por isso.

E o resto, olhem... é (des)esperar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

cinderela, que espécie de pessoa és tu no mundo?

A desorientada. A que nunca sabe muito bem onde está. A perdida. Aquela que vive na mesma casa há mais de 23 anos e continua a experimentar todos os botõezinhos dos interruptores até acertar na merda da luz que quer ligar/desligar. E também sou a que procura o estacionamento mais fácil nem que tenha de percorrer 20km a pé, só para chegar à conclusão de que tinha um parque à porta. Prazer.

Eis que esta adorável criatura teve uma entrevista de emprego, numa zona com um ar tão abandonado que chegou a temer ser confundida com um traficante de orgãos ou algo do género. Estou a exagerar, claro - se não encontro o meu carro num estacionamento, como que raio poderia encontrar o orgão encomendado?

Fiz o óbvio: morada no gps, e vamu lá.
Não conhecia a zona, nunca por lá tinha passado e o fazer, pela primeira vez, ao volante, não ajudou - tenho a carta há mais de 5 anos e, mesmo assim, sempre que estou fora da minha zona de conforto, continuo a sentir-me aquela tia que tirou a carta aos 63 anos para correr os bailes das velhas todos da região centro. Estão a ver o cenário.

Vejo um estacionamento: fácil, grátis e o gps indicava que estava apenas a 500m do meu destino. O que é que uma atoleimada pobre pode querer mais?

Estacionei.
Chapéu de chuva numa mão, currículo na outra - gente, se eu enviei, por que caralho tenho de o levar impresso também? Para a próxima mando por correio registado, para vos poupar ao trabalho de o imprimir - e o telemóvel a mandar-me seguir em frente. Confiei nele, porque deus nosso senhor sabe que na minha capacidade de orientação é que não se pode confiar.

Andei. Andei muito - talvez tenha sido mesmo só meio quilómetro mas estava a chover torrencialmente, os minutos continuavam a passar e eu queria chegar a horas. Até que aquele filho da puta diz "chegou ao seu destino". Say what? Cheguei onde?

Estava no meio do nada e não parava de chover. Na verdade, parecia que chovia cada vez mais e a única coisa de que me lembrei foi de ligar para a moça - que vim a perceber ser a rececionista - que me tinha ligado no dia anterior a marcar a entrevista. Disse que estava perdida, que o gps me tinha levado para outro lugar qualquer - prestável e simpática, a senhora ajudou-me. 

Para ser franca, ao início não estava a perceber, talvez por não querer acreditar na minha estupidez - depois, comecei a andar. 

E onde era, Cinderela?

Ahhhhhh... precisamente no sítio onde tinha deixado o carro.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

cinderela vai à segurança social

Cheguei pouco depois da hora de almoço, ainda nem todas as senhoras tinham tido tempo de regressar aos seus postos de trabalho.

Tirei a senha: quatro pessoas à minha frente. Ok. Tudo bem.
Vamos clarificar uma coisa: apesar de até ser um bichinho simpático, não sou sociável por aí além nem gosto muito deste tipo de repartições onde uma pessoa se sente quase que obrigada a saber das maleitas alheias ou das desgraças financeiras da vizinha da frente. Posto isto, sentei-me na cadeira mais ao cantinho da sala e, três nanossegundos depois, tinha a senhora que se sentou ao meu lado a esticar o pescocito para ver o número da minha senha, porque era a seguir a mim. 

Não percebi o que se passou entretanto: num momento, estava tudo medianamente calmo e, no momento seguinte, a segurança social parecia o pingo doce naquele fatídico primeiro de maio em que as pessoas se agrediam pelo melhor rabo de bacalhau. De todos os lados, não paravam de chegar pessoas.

Chegou uma miúda grávida - sério, com que idade é que os miúdos começam a pinar agora?! -  acompanhada daqueles que, pelo ar, poderiam ser os pais e uma avó (?!), e assentam arraiais a um canto numa espécie de confraternização familiar que poderia ser muito bem feita na sala de casa. Entretanto, já tinha dado o meu lugar a um velhotito que tinha chegado e estava ao canto, em pé, a rezar para chegar rápido a minha vez.

Ao meu lado, um senhor chuchava nos próprios dentes como se estivesse à procura de algum resto do almoço, escondido nos recônditos do dentiçal, para se ir entretendo na espera. Deve ter sido nesta altura que eu senti uma gota de suor a formar-se no canto direito do meu farto bigode.

Entrou mais um casal que resolveu instalar-se por baixo do sensor que fazia as portas automáticas abrirem. Comecei a hiperventilar, mas baixinho para não acharem que era uma crise e chamassem ajuda, que eu ainda tinha de voltar ao trabalho. A cada gingar da anca do senhor, as portas abriam, numa dança interminável. A senhora dizia ai credo, isto irrita! mas passaram uns bons 15 minutos nisto até que se lembrassem de que, talvez, a culpa fosse deles.

Enquanto isto, ia lançando olhares assassinos ao real chuchador que continuava ao meu lado e de quem eu não tinha grande hipótese de me afastar, enquanto me apegava a todos os santinhos em que nem sequer acredito para ver se me livrava daquele cenário traumático.

Fui atendida por uma senhora mega simpática mas depois acabei por sair de olhos pregados no chão, porque as gentes, as outras gentes que não eu, têm a mania esquisita de se despedir sempre neste tipo de locais, como os que nunca saem do centro de saúde sem desejar as melhoras, nem que seja às cadeiras ou às plantas que por lá estão, mas na segurança social não se deseja as melhoras. Talvez um RSI para todos? Sei lá, a vida é difícil e eu não gosto de falar alto neste tipo de ajuntamentos. 

Isto era tudo muito mais giro quando o único sítio sério onde tínhamos de ir era à secretaria da escola.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

como vai a vida, cinderela?

Na semana passada, fui despedida.
Antes de ter tido tempo para pensar, lembrei-me de que tinha sido contactada no dia anterior e tinha uma entrevista daí a coisa de duas horas. Saí a correr do trabalho, fui trocar de roupa, disfarçar o ar de morta-viva, e meti-me a caminho.

A entrevista nem foi má de todo, mas eu percebi que a coisa nunca poderia funcionar quando me explicaram que implicava conduzir de norte a sul - longa vida a quem faz anúncios de emprego claros e honestos, you rock! Assim como assim, tive aquela oportunidade única na vida de responder a um mas está a trabalhar? com um na verdade, fui despedida há cerca de duas horas, sempre naquela onda play it cool, super compreensiva porque sabia que despedirem-me tinha sido a decisão mais sensata, tendo em conta a situação atual da empresa. 

Só chorei quando cheguei ao carro.
Há meses que ia enviando o currículo amiúde, por estar mais ou menos ciente de que isto poderia acontecer - há meses que vou adiando a minha vida, que vou deixando para depois algo que já queria ter feito ontem, e, agora que sinto a sua concretização ainda mais distante, estou particularmente desmotivada. 

Depois disto, os dias têm sido lentos. 
Continuar a trabalhar quando se foi despedido, deve ser o mais semelhante que há, na vida adulta, a ter de continuar a ir às aulas quando já se sabe que não há nada a fazer e estamos mais do que chumbados. É uma merda, portanto.

Arrasada, desmotivada e com pouca vontade de sair da cama, esta semana também incluiu duas idas ao centro de saúde com um espaço de quatro dias entre elas: tenho este condão de ter sempre manifestações físicas quando a parte psicológica está nas ruas da amargura, e aqui estou eu com mil e um sintomas inespecíficos, embaraçosos e que me fazem sentir meio ridícula, mas que não passam por nada deste mundo porque, para isso, é preciso que eu seja capaz de me acalmar e acreditar que vai ficar tudo bem.

Hoje, ainda não é o dia.
Era suposto que esta fosse uma fase carregada de ansiedade boa, não de incertezas e de esperas intermináveis por um sim que me permita, finalmente, viver a minha vida como era suposto.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

o post que vocês vão mostrar às vossas amigas grávidas

Eu não sei quando a vocês mas, no último ano, de cada vez que ouvi falar na taxa de natalidade baixa, tive vontade de ligar (não sei para quem, não levei o plano tão longe assim) para começar a denunciar uns quantos bebés que, para continuarem a dizer que não há crias a nascer em Portugal, só podem não estar declarados. Uma espécie de mercado negro de bebés, tipo "pari mas o governo não sabe", que ainda está sob a minha investigação atenta.

É que o povo anda todo de barriga cheia! As que não estão grávidas, é porque já expeliram a criança, e as outras que não se enquadram numa categoria nem na outra, é porque ainda não fizeram o teste - como é óbvio, eu estou só a fazer de detetive e não vou dar o meu contributo para a natalidade tão cedo.

Portanto, isto leva-nos a um problema óbvio: só se fala em bebés por todo o lado. Já estamos todos fartinhos de papas cerelac e promoções da dodot no feed de tudo quanto é rede social, e isto é  meio chato porque começa a dar uma certa vontade de desamigar as pessoas quando já damos por nós a passar a mão na própria barriga só de tanto ler sobre gravidez.

Para vos ajudar, decidi escrever uma lista com as coisas que as grávidas deste planeta precisam de saber.

1 - todos sabemos que as crianças passam 9 meses na barriga da mãe, portanto não é necessário um lembrete diário de que que têm a cria no bucho - a não ser que, por qualquer motivo, a criança tenha migrado para uma perna ou coisa que o valha, nós vamos saber exatamente onde ela está só de saber que estão no estado de graça;

2 - quando alguém - no caso, eu - pergunta de quanto tempo estão, respondam em MESES, repito, ME-SES, que essa cena das 23 semanas é muito gira mas eu chumbei a matemática;

3 - não façam de conta de que a gravidez é só fantástica e maravilhosa - ao invés de frases feitas e imagens pirosas, façam posts sobre as noites sem dormir, os enjoos, as hemorróidas, a incontinência, etc, que pelo menos sempre torna a coisa um bocadinho mais educativa e - quem sabe? - atua como método contracetivo nas não-prenhas;

4 - se já eram pequenas orcas antes de engravidarem, não usem a cria como desculpa para parecerem duas grávidas numa;

5 - só meto gosto na tua publicação na página da dodot se jurares a pés juntos que fazes o mesmo na durex;

6 - tens uma criança na barriga, ok, fixe - mas isso não te dá equivalência a um mestrado em maternidade avançada e continuas a não ter voto na matéria na educação dos filhos dos outros. Faz o melhor que puderes com a tua, educa-a o melhor que souberes, mas não te aches um ser superior só porque fizeste xixi num pauzinho e deu positivo;

7 - ainda bem que achaste que era o momento certo para procriares, mas isso não faz de ti a proprietária do útero das outras e portanto não o tentes arrendar por elas - não, nem todas as tuas amigas te querem seguir os passos, e não, nem todas estão ansiosas para ter a roupa bolsada, lida com isso;  

8 - faz um bocadinho de confusão imaginar-te a manejar um recém nascido com 5 cm de unhas-garra bicudas e cheias de berloques gigantes e saídos - tipo coroas e laços e merdas do género - mas uma pessoa tenta nem se meter (corta essa merda antes que tires uma vista a alguém).

Se tiverem mais alguma sugestão para fazer às grávidas vossas conhecidas, sintam-se à vontade para partilhar e acrescentamos a esta lista. Parecendo que não, isto é serviço público.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

cinderela, a benanosa - take 2

Ainda só vamos no segundo dia do ano, e eu já tomei uma decisão importante e inovadora, que irá mudar toda a educação das minhas futuras crias: sempre que não quiserem comer a sopa, que fizerem uma birra descomunal, que não me deixarem dormir, não as vou ameaçar com a história do papão. Vou dizer-lhes que, se não se comportarem, o pai vai começar a usar aquilo a que a malta fancy chama man bun, mas que para mim é só azeite mesmo.

E porquê? 
Porque estamos em 2019 e hoje eu cruzei-me com um destes aspirantes a teletubbie da loja dos chineses.

A cinderela explica: se fores um gajo e tiveres uma cabeleira farta, podes prender o cabelo. Se fores um gajo e tiveres menos cabelo na mona do que a madonna tem nos sovacos, vais ficar só ridículo. É mais ou menos como quando as mães têm monstrinhas de berço quase carecas e lhe tentam fazer aquela palmeirita no alto da pinha, onde só se vê o elástico com dois ou três fiozitos de cabelo a tentar resistir à pressão - só que, no caso das crianças, até pode ficar mais ou menos fofinho.

No vosso, não. 
That's not how you'll get laid.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

cinderela, a benanosa

Há coisas que me ultrapassam, e a questão da moda é, claramente, uma delas. Alguém que me explique o fenómeno:

A passagem de ano aconteceu, como sempre, em dezembro, o que, só por acaso, coincide com o pico do inverno. Para agravar, os meios de comunicação avisaram uns dias antes que esta seria uma noite particularmente fria - posso dizer que foi, e consideremos ainda o pequeno pormenor de estarmos à beira mar/rio. Já estão a sentir um arrepiozito, certo? Pois.

E como é que o povo foi? Vestidinho curto, justo, cravejado a glitter e lantejoulas porque, por motivos que me ultrapassam, parece haver uma correlação esquisita entre a passagem de ano e parecer uma bola de espelhos.

Ali estava eu, chourição style, collants, calças de ganga, três camisolas, um casaco, gorro, luvas, e cheguei a um ponto em que já nem conseguia falar em condições porque o frio me estava a começar a paralizar o maxilar - no meio de tudo isto, olhava para as criaturas a fingir serenidade e sentia-me a dar aquele passinho que faltava para a hipotermia.

Onde estava a mãe daquelas mocinhas, que não lhes disse para levar um casaco porque iam ter frio? Mas afinal é só a minha que tem essa obsessão?