31 de janeiro de 2018

nao será à toa que é dos meus preferidos.

Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprimindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram.

José Saramago,
a viagem do elefante

da saudade

Nos primeiros tempos é mais difícil.
A saudade recém instalada é mais dolorosa e tem tendência de nos trazer à memória os dias mais felizes para, logo em seguida, nos relembrar de que esse pedaço de mundo acabou para nós. Que aquele sorriso não volta, aquele par de olhos azuis não tornarão a fitar-te, aquela mão não mais se levantará para te acenar de lá de cima, da janela mais alta. E tens de viver com isso.

Vive-se. Custa a crer ao início, mas vive-se; a saudade bruta abranda e transforma-se numa dor miúdinha que não tira férias mas, com um bom jogo de cintura, é possível fingir que ela não está lá até que se canse de ser ignorada e volte a mostrar a sua força - continua-se. Em círculos, mas continua-se.

Com o tempo, deixei de assinalar as datas importantes porque me apercebi de que de nada me valem; nada me acrescenta somar meses aos meses intermináveis, à certeza irrefutável de que pouco interessa o tempo que passou desde que a vi pela última vez ao lado da consciência de que não a voltarei a ver. Mas às vezes finto a idade, e finjo que me esqueço de que a morte das coisas e das pessoas o mais irreversível de todos os males, tento acreditar que ainda a vou encontrar sentada no pátio, numa tarde quente, a ralhar-me por andar sempre descalça.

Já não me pesam os dias vinte e cinco, o último da nossa contagem decrescente que deveria ter culminado no nosso reencontro e não no dia em que a perdi, perto, tão perto, do abraço que lhe queria dar. Já não conto os vinte e oitos da minha vida a partir daquele em que me sentei, durante horas, diante do caixão e me permiti a chorar a morte de uma das minhas pessoas mais importantes, ciente de que seria a última vez que poderia olhá-la. 

Os dias importantes já não me pesam no peito mais do que qualquer outra data no calendário - estou certa de que sentirei a falta dela para sempre, mas que não há forma de a curar; deixo-me ser atacada, volta e meia, pelas recordações felizes. Às vezes, fazem-me sorrir, outras fazem-me chorar, mas também me fazem sentir grata por ter tido a sorte de ter uma avó extra, dessas boas avós que o sabem ser, e a saudade que lhe tenho é uma pequena consequência do amor que lhe guardo.

Como disse, deixei de dar uma importância especial aos dias que se tornam agora, e cada vez mais, banais - mas hoje, só hoje, apercebi-me de que há precisamente dois anos atrás, acordei, pela última vez, no quarto do fundo da casa dela - e quem me dera ter-me demorado um bocadinho mais na cama, e ter sabido que aquela seria a última vez que tomaria o pequeno almoço com ela, no cantinho da mesa, enquanto me contava as histórias antigas. Já as sabia todas de cor, mas nunca me cansava de as ouvir mais uma vez.

29 de janeiro de 2018

it's kind of a love story

Quando o conheci, tinha o coração de férias - e, talvez por isso mesmo, por, pela primeira vez na minha vida, não ter essa sede de me apaixonar, de sentir, de fantasiar com futuros risonhos que nunca chegaram a sair do sonho, aconteceu. Pela primeira vez, o meu coração estúpido soube apaixonar-se como deve ser: devagarinho, a sorver os pormenores antes de dar o sinal de alerta, a render-se antes de bater descompassado. E, por tudo isto também, eu não me dei conta de que estava a acontecer.

Há precisamente um ano atrás, não nos falávamos. 
Zangámo-nos uma semana depois do (tão esperado) primeiro beijo; não fomos capazes de nos entender quando a minha insegurança apareceu para dizer olá e a personalidade peculiar dele decidiu que não estava para socializar com essa puta que sempre me tramou a vida. As conversas longas transformaram-se em discussões tão ou mais longas ainda e, mais tarde, em silêncios pesados. Não havia nada mais a dizer; eu não sabia confiar e ele sabia que não tinha feito nada que alimentasse a minha desconfiança.

Fui incapaz de desistir. 
As lembranças iam surgindo a conta-gotas e as palavras encadeavam-se por forma a decifrar aquilo que eu nunca havia sido capaz de ver. Aprendi mais sobre ele nessa altura do que me tinha permitido a perceber até então; as mentes inseguras têm este condão de só verem o que querem ver.  Demorámo-nos em lágrimas, em lamentos, em nuncas mais, em alternativas que faziam doer. E, depois, no primeiro vinte oito a que podemos chamar nosso, encerrámos as discussões num abraço, secámos as lágrimas e refizémos os laços que se haviam desfeito, com dois nós cegos desta vez.

Não somos fáceis de concretizar, mas tornámo-nos muito bons a fintar as probabilidades e a sermos sem se que saiba como é possível ser-se assim. E somos, já há muito tempo.

Gosto dele, e gosto de nós - somo-lo sem limites e sem medos, com uma confiança que aprendi a construir, graças a ele, e com a alma mais posta a nu do que os próprios corpos. Somos amigos, em primeiro lugar - daqueles escassos a quem podemos dizer tudo, sem vergonhas ou moralismos, e eu acho que não há maior liberdade do que esta. Fazemos um bom par porque sabemos que não sabemos tudo e que vale sempre a pena dedicar um bocadinho a aprender mais. Um sobre o outro, principalmente.

Nem todos os dias são bons - às vezes discutimos e é quase sempre por coisas que não estão, ainda, ao nosso alcance mudar; uma ou outra vez, achei que não iríamos conseguir continuar a suportar as dificuldades, os obstáculos, as diferenças, até cairmos nos braços um do outro outra vez e limarmos as arestas, acertarmos o passo, encontrarmos o equilíbrio. E conseguimos - tenho para mim que há pouco que não se consiga quando o sentimento é suficiente, e o nosso é um muito bom, assim escrito em letras grandes e gordas.

Estreei-me como ele no amor e, assim de repente, tenho a dizer que é uma corrida com barreiras - ainda não falhámos nenhuma.

26 de janeiro de 2018

a vitória da nanny

Há quase duas semanas que me é impossível abrir o feed sem levar com mais posts sobre a supernanny, vídeos, tentativas de boicote, eu sei lá. O povinho, constituído por todos aqueles que poderiam ser eleitos Os Pais do Ano se já alguém se tivesse lembrado de oficializar essa competição, está revoltado, preparadíssimo e munido das mais completas e certeiras teorias sobre como educar os filhos dos outros. Parabéns, meus geniozinhos adoráveis! Agora experimentem educar também as vossas próprias crias.

Eu não sei se já ocorreu a alguma destas criaturas iluminadas que esmiuçar o assunto em sete posts por dia cria exatamente o efeito contrário - as pessoas não vão deixar de ver só porque vocês já viram e decidiram fazer daquilo o show dos horrores, pediram para que ninguém visse, quiseram, enfim, tornar a vossa opinião universal, a única possível, a mais certa, a melhor. Pode até correr-vos bem com aquela cambada que adora seguir o rebanho, mas aqueles dotados de mais do que dois neurónios, que pensam sobre as coisas e gostam de opiniões fundamentadas, vão fazer o oposto - alapam o cu no sofá, e veem  o programa para, depois sim, poderem dizer o que pensam. E fazê-lo por eles, terem opiniões próprias, e não usar e abusar da opinião de outra qualquer pessoa que julga perceber disto como ninguém. E quem ganha? A supernanny, claro.

A minha opinião? Vale o que vale.
Vi o segundo programa exatamente pelos motivos supracitados. Se concordo com a exposição? Claro que não! Portanto, é muito simples: no dia em que tiver as minhas crias, não peço a uma senhora com ar de atriz porno para as ir educar lá a casa, muito menos para levar câmeras e mostrar ao mundo. Agora, a forma como os outros educam os filhos está bem longe de ser da minha conta. Somos todos diferentes e cada um faz o que pode.

Por mais errado, ou não, que nos possa parecer, a participação no programa foi uma escolha dos progenitores, foi a forma que eles encontraram de tentar domar os selvagenzinhos com quem vivem. Foi o que eles acharam melhor - e, apesar de agora se falar tanto nos direitos das crianças, sobre como esta não é uma escolha deles, sobre como os pais não têm direitos sobre a imagem dos filhos, lamento informar-vos que crianças são crianças e, quer vocês queiram quer não, até que eles consigam, de facto, tomar decisões, cabe aos pais decidir o que julgam ou não ser o melhor para eles - mesmo que o resto do mundo não concorde. Mesmo que vocês se revoltem e achem que seriam melhores a educar os filhos deles. Provavelmente, não seriam. 

Muito se tem falado sobre as crianças serem filmadas num momento de fragilidade, sobre como irão sofrer de bullying depois, sobre como é tudo tão injusto e nem sequer é bem o que as câmeras mostram. Ou é. E eu acho isto assustador: com quantas margaridas e com quantos martins não nos cruzamos nós na rua? Quantas vezes não assistimos nós todos, e sem escolha possível, a birras tamanhas que sentimos vontade de dar um par de tabefes às criaturas? Muitas vezes. Os meus pais educaram-me o melhor que sabiam e, sendo ou não o melhor modelo de parentalidade, garanto-vos que nunca fiz aquelas figuras, nem lhes dei pontapés ou puxei cabelos. A educação anda pelas ruas da amargura e não me espanta que haja tantos pais desesperados a criticar os filhos dos outros porque têm réplicas em casa. 

Quanto a sofrerem de bullying, deixem-me que os diga que me parece que vivemos numa época em que, entre crianças, só há duas opções: ou sofres de bullying ou és o bully - e, mal formadas como são as criaturas que eu vi, acho que elas vão ficar bem, não se preocupem. 

Agora deixem-se de falsos moralismos e tratem de não criar mais margaridas ou mais martins - o mundo agradece um bocadinho mais de educação. De miúdos e graúdos.

É tudo.

23 de janeiro de 2018

quantas calorias tem um kiwi?

Este é o post mais a sério sobre uma das coisas que eu vos vou dizendo a brincar - não é uma inspiração, nem sequer um pedido de ajuda. É o que é, porque a realidade nem sempre é o que gostaríamos que fosse.

Sempre estive acima do peso. Sempre.
Lembro-me de que, durante todos, absolutamente todos, os anos em que estive na escola, ia a tremer para aquelas primeiras aulas de educação física em que sabia que nos iam pesar, um a um, quase sempre à frente de todos; se, por ventura, essa pesagem era adiada, saía da aula mais aliviada do que se me tivesse livrado da forca. Tinha vergonha do meu peso e, agora, analisando a situação a frio, não sei dizer se o que me assustava mais era ter toda a gente a gozar comigo ou se era eu própria ser confrontada com a realidade.

Rasguei todos os relatórios dessa avaliação que me foram entregues. Nunca me ocorreu fazer o que quer que fosse para mudar a minha situação; estava infeliz mas tinha aceitado como verdade absoluta a premissa mais irrefutável de todas: era gorda, ponto final. E a vida corria.

Fugi sempre de balanças. 
Nunca tive muita noção do meu peso porque não me pesava, até ter entrado num ginásio e ter percebido que era, oficialmente, considerada obesa. Ah, e foi por isso que emagreceste? Não; as avaliações eram feitas, mais coisa menos coisa, uma vez por mês. O meu peso variava em dois ou três quilos, mas continuava um iô-iô. Um iô-iô obeso, já agora - a dada altura, cheguei a descer de categoria e passar a estar só com excesso de peso, mas consegui recuperar o meu posto. Para consultas futuras, fica o apontamento: não é mito. Ir ao ginásio três ou quatro vezes por semana não vai fazer grande diferença se continuarem a comer que nem porcos.

Foi preciso um susto, claro. 
Aos 20 anos foi-me comunicado que uma das minhas peças de origem já não estava em condições de continuar e, na impossibilidade de encomendar outra para troca, ia ter mesmo de funcionar com uma peça a menos - quero aproveitar para mandar um beijinho grande à minha vesícula e dizer-lhe que me estou a aguentar muito bem com a nossa separação; bem podes ficar por aí, pelas terras do além das vesículas, mais 80 anitos sem mim.

Percebi que algo tinha de estar muito errado: não é propriamente incomum que as vesículas se avariem antes do tempo e tenham de ser retiradas, mas é assustador que isso aconteça em alguém tão jovem. Ainda por cima tendo em conta que a minha estava particularmente mal estimada - dizia-me a médica, já depois da cirurgia, que eu nem sabia o quão doente estava. Livrei-me de uma bomba relógio e percebi, finalmente, que era melhor não criar outra.

Começou por obrigação: no primeiro mês, é estritamente necessário que se siga à risca uma dieta rigorosa, para habituar o organismo a viver com um orgão a menos. Depois, foi porque gostei do resultado.

A brincar e sem grandes dramas, perdi 20kg. Comprei uma balança e comecei a pesar-me sem medo, sem vergonha, sem sentimentos de culpa. Não fiquei magra, entenda-se, pelo menos segundo os padrões da sociedade - mas cheguei a um ponto em que estava confortável, em que gostava da imagem que via ao espelho, em que gostava de me ver na roupa, em que sentia, enfim, orgulho na mudança. 

O que é que poderia correr mal, não é? Vindo de mim, qualquer coisa.
O peso torna-se numa obsessão. Eu gostava de conseguir ser mais descontraída, de assumir que é normal, por exemplo, que tenha engordado na época das festas, dado que só fechei a boca às gordíces para as mastigar, especialmente agora que o meu trabalho é bastante parado. Mas não sou; fiquei maluca quando vi que o peso tinha aumentado, piorou quando me disseram que eu estava mais gorda, e agora juntei isso à minha resolução de perder mais uns quilos.

Não acho que esteja propriamente errado ter reduzido a quantidade de comida, numa tentativa de ajustar o que como à energia que gasto, nem é assim tão mal pensado ter trocado o iogurte a meio da manhã por fruta - mas pesar-me todos os dias, frequentemente mais do que uma vez ao dia, é um absurdo. Ficar com a consciência pesada de cada vez que ponho alguma coisa à boca, é doentio. Pesquisar quantas calorias tem um kiwi só porque, por algum motivo, ando viciada em kiwis, é igualmente estúpido.

Escusado será dizer que em poucos dias estava de volta ao peso inicial, o tal de antes das festas, mas agora já não consigo estar satisfeita com o meu corpo outra vez. O estás mais gorda ainda não me saiu da cabeça.

E a obsessão saga continua.

19 de janeiro de 2018

das pessoas

Costumava vê-lo a passar por aqui sem que algum dia tivesse realmente reparado nele; era só mais uma das pessoas do prédio.

Há umas semanas, recebi uma chamada; uma senhora, que era de cá mas agora vive longe, queria notícias dele, que há semanas que lhe ligava para o telemóvel e ele não atendia, não tinha o contacto da filha, não sabia mais que fazer, não sabia se não teria o senhor falecido, ou ido para um lar, nunca se sabe que desgraças poderão suceder a um idoso que vive sozinho, e lembrou-se de que eu estava no mesmo prédio. Respondi-lhe que não sabia quem era porque estou cá há pouco tempo, mas iria tratar de descobrir o que era feito dele.

Assim fiz: mal encontrei uma vizinha, perguntei-lhe quem seria ele, expliquei que me tinham ligado a saber dele, que estavam preocupados; quando a senhora voltou a telefonar, tinha para lhe dizer que afinal de contas estava tudo bem e que a senhora do prédio lhe ia dizer que alguém andava há muito tempo para lhe falar.

A minha parte estava feita. Só que não.
Acabei por perceber que se tratava, afinal, do velhinho cabisbaixo que aqui passa a toda a hora e, por um destes dias, fui à rua para me meter com ele; não tinha como saber se a vizinha teria ou não dado o recado e ele havia de gostar de saber que alguém se preocupa. Que sim, que até já tinha falado com a senhora, que me estava muito agradecido.

Depois disso, até já esperou por mim na rua para me falar, que a vida nem anda muito boa porque está constipado há umas semanas, que é para isso que o tempo está bom, para as doenças. É a vida, é sempre a puta da vida que nos trama até à morte.

De cada vez que por aqui passa, o velhinho cabisbaixo levanta a cabeça e sorri-me, em jeito de bom dia. Todos os dias. 

Agora sim, a minha parte está feita.

15 de janeiro de 2018

os filhos dos outros

Uma das (muitas) coisas que me fazem confusão é constatar que, hoje em dia, há miúdos da escola primária a ter explicação. Claro que não me refiro a crianças que tenham, de facto, problemas cognitivos, dificuldades de aprendizagem, you name it - há casos e casos. Mas não consigo entender isto.

Dir-me-ão que as coisas estão diferentes, mais complexas, do que no meu tempo, ainda que o meu tempo ainda me esteja fresco na memória, mas lembrem-se de que, quanto mais novos, mais predispostos a aprender estamos. Não conhecendo o programa atual, arriscar-me-ia a afirmar que nele não constará nada que uma criança, com idades compreendidas entre os 6 e os 9 anos, não possa aprender.

O problema é que vivemos a era dos facilitismos, da inteligência artificial, e dos paizinhos raivosos, os mesmos das festas de aniversário espampanantes, que são incapazes de compreender que o joão, que tem suficiente a tudo, é tão válido quanto a maria que enche o peito de orgulho dos progenitores porque leva uma pauta corrida a muito bom para casa. Para quê sobrecarregá-los ainda mais? Em nome de quê?

Não tenho algo contra explicações a isto ou àquilo - nos últimos anos de secundário, eu própria tive ajuda para tentar resgatar a matemática, mas não surtiu grande efeito.  Contudo, e correndo o risco de acharem este argumento inválido, eu acho que há diferenças entre ter-se essa ajuda extra no secundário ou na primária: tenho sérias dúvidas de que uma criança que, logo no segundo ano, deixa de tentar procurar respostas para as suas dúvidas por si próprio, que deixa de estudar sozinho, algum dia o chegue a fazer.

Talvez isto nem vos faça sentido, talvez eu não tenha razão - para mim, é mais do mesmo: pais a tentar comprar a educação, a atenção, a ajuda, que deveria existir de forma gratuita e, principalmente, por vaidade. É sempre melhor exibir um filho que é o melhor da turma, não importa a que preço, assim feitos à pressa como quem engorda o porco antes de o matar.

Isto digo eu, que nem sou mãe nem quero arrendar o útero nos próximos tempos.

10 de janeiro de 2018

dramas capilares

Conhecem alguém que usa o mesmo penteado desde 1970 porque tem medo de mudar? 
Certamente essa pessoa não serei eu. Em primeiro lugar, porque só nasci 25 anos mais tarde e quase careca. Em segundo lugar, porque eu sofro do problema oposto: não consigo ter o cabelo igual muito tempo. Se o deixo crescer, logo o corto. Se acerto com uma cor que me permitiria não o voltar a pintar, logo me apetece outra cor qualquer. 

Desde os 16 anos que o pinto, e já o tive de várias cores: preto, roxo escuro, roxo claro, dos vermelhos mais escuros ao vermelho berrante do meu avatar, dos acobreados mais discretos ao laranja mais vibrante. Ora me chateio porque nunca mais cresce, ora me chateio porque dá demasiado trabalho tê-lo comprido e volto a cortá-lo pelos ombros. Estão a ver a cena, não é?

Então, em junho do ano passado, ou seja, há quase sete meses, eu achei que faria sentido adotar um estilo mais sóbrio e maduro, já que iria voltar a entrar na odisseia da procura de emprego. Portanto, além de o pintar de castanho, cortei-o. Muito. Assim tipo... pouco abaixo do nível das orelhas.

Respirem fundo, eu sei: para algumas de vocês, imaginar tal fado já é motivo para irem a correr pegar na cruz e na garrafinha da água benta, mas o que eu não consigo mesmo é ver-me com o cabelo igual durante muito tempo. Aborrece-me. E, na verdade, adorei o resultado - há lá coisa melhor do que um cabelinho que não dá trabalho? 

O problema é este: constatando o óbvio, e apesar de o meu cabelo até crescer rápido, demora muito mais tempo a ficar comprido do que a levar uma tesourada que o encolhe drasticamente. E, pela primeira vez na história da minha existência, está bonito, hidratado e tem as pontas fofas sem denunciarem estes meses todos sem verem a tesoura (já ouviram falar do óleo de pontas da cien? shhhh, nem digam que vão daqui). Com isto quero dizer que está perfeito para que eu continue a deixá-lo crescer, tal como era o meu plano por agora. Era, porque, entretanto, deu-me um ataquezinho qualquer e estou outra vez com aquela vontade de o ir cortar pelas orelhas, assim a destruir o trabalho de sete meses.

Ah, então mas se és assim tão decidida, porque é que ainda não foste?
Porque a pessoa é friorenta, anda sempre com golas/cachecóis e teme ficar a parecer um cotonete, daqueles para bebés. 

(já me fazia falta um dilema leve e fútil para aligeirar a quantidade absurda de dramas e resoluções que habitam esta cabeça neste momento.)

9 de janeiro de 2018

aqui

A vida acontece lentamente. Há dias em que mal chega a acontecer.
Aos meus olhos, esta é uma vila montada a retalhos, como se cada fragmento tivesse vindo aqui parar por mero acaso e não houvesse qualquer relação com o resto. Provavelmente serão todas assim, mas esta, por me parecer mais vazia e mais triste do que o resto do mundo, ganha destaque aos meus olhos.

Não sei quantas pessoas vivem neste prédio, mas estou certa de que algumas delas têm como principal ocupação pôr e tirar o carro da garagem -  entrada é tão absurdamente íngreme que me haveriam de pagar para lhes repetir a proeza. Há malucos para tudo. E medrosos para nada, suponho.

Os carros passam depressa, demasiado depressa; volta e meia, ouve-se o chiar característico de uma travagem brusca - os condutores querem tanto fugir daqui a sete pés, ou a quatro rodas, que não reparam na pobre da lomba que só existe para os tentar deter mais um bocadinho por estas terras de ninguém. Ou então sou eu quem gosta de poetizar o que de poético tem menos que nada.

Nos dias de sol, passeio por aí e, nos restantes, ou me esqueço do quanto adoro andar à chuva ou o peso da responsabilidade nos ombros cala essa vontade. Sento-me no café: a senhora é doce, pergunta-me se está tudo bem e serve-me um café cheio, forte, sem açúcar. Gosto de gente que nos aprende assim tão rápido. Gosto dela. Abro o livro e perco-me no primeiro trago.

Há vidas empilhadas: numa varanda, duas senhoras de pijama, a altas horas da manhã, cochicham, na janela de baixo, uma senhora pendura cuecas na corda, na varanda da frente, um homem olha para a rua e atira um cigarro para o chão que cai logo ao lado de um carro. Talvez se conheçam, talvez façam todos por não se conhecer. 

Continuo a andar.
Aqui e ali há casas em ruínas, que mantêm uma beleza triste como se ainda esperassem voltar a ser o lar de alguém. Por enquanto, contentam-se em albergar ratos e outros bichos, ignorando que são parte de uma maioria. A vida parece esgotar-se nestes recantos sombrios, devagarinho, tão devagarinho quanto acontece por aqui.

Cada coisa parece não pertencer a coisa nenhuma, tal como se, lá está, esta vila montada a retalhos fosse feita de fragmentos de histórias que não se cruzam na esquina. E por isso, principalmente por isso, nunca chega a ser uma história. 

Sentado no parapeito de uma janela, um gato observa quem passa, qual cão de guarda numa versão felina. Fotografei-o porque o achei bonito. E, logo a seguir, achei-o triste também - observava-me atentamente, sem fazer a mais pequena ideia de quem eu sou, sem a menor intenção de algum dia vir a saber. Observava-me, somente, nesta terra de ninguém, fragmentada, desfeita. Não importa quem eu sou, pois não?

No fundo, é isto: somos todos gatos na janela.


6 de janeiro de 2018

the not-so-happy days

Há dias que amanhecem pesados, assaltados por dores e medos que são lanças cravadas no peito quando se acorda de um sonho para a mais cruel das realidades.

Parece tudo mais simples quando não se pensa nisso, quando se vai continuando em frente, movidos por um combustível que parece sempre inesgotável até nos lembrarmos de que até as melhores coisas da vida conseguem ser letais se as não soubermos moderar. Tudo o que cura também mata, e até a água pode ser veneno - fará isto algum sentido? 

Nenhum.
Hoje a própria vida não me faz grande sentido porque lhe perdi o fio à meada - e agora? O que é que se faz quando não se sabe o que fazer? Por onde é que se sai quando não parece haver saída possível? Eu não quero isto, não quero esta angústia, esta certeza de que o amanhã nada terá de certo para mim. Quem me dera poder refazer um par de coisas, melhorá-las, e ter calado outras tantas que nada mais acrescentaram ao mundo senão o que hoje sinto. Não é justo, não faz sentido.

Estou perdida, outra vez. Perdida por entre decisões que não quero, não consigo, ter de tomar e palavras que não sou capaz de proferir - aperto as mãos no colo, uma e outra vez. As lágrimas caem sem que eu tente sequer detê-las - não valerá a pena, claro está. Deveria ter desconfiado, deveria ter aprendido: se me faz feliz, terá sempre, absolutamente sempre, arranjar forma de doer.                                

3 de janeiro de 2018

sobre o rancor

Nunca fui rancorosa: tenho, inegavelmente, feridas profundas que fui tapando com pensos rápidos ao longo do tempo, sem que nunca chegassem a sarar, e que condicionaram, em grande parte, a minha vida e as minhas relações interpessoais mas, ainda assim, não lhes desejo mal nem guardo ódios de estimação. Já nem quero saber.

Claro que não nos esquecemos do que nos marca e nos molda, e não confiaria cegamente em qualquer uma dessas pessoas que, no passado, me fizeram mal, mas essa é uma das vantagens do que nos fere: ensina-nos algo, se estivermos dispostos a aprender. No meu caso, levou-me a desaprender também - esqueci-me de como se faz para confiar, em mim e nos outros, e tem sido uma longa caminhada para tentar recuperar essa capacidade. Já surtiu efeito, em parte, mas não totalmente.

Em contrapartida, foi isto o que eu ganhei: há dias em que é uma bênção, e outros em que é uma praga. Acreditem quando vos digo que gostava genuinamente de conseguir afeiçoar-me e construir amizades sólidas com pessoas de quem eu goste, mas a verdade é que desconfio tanto de toda a gente que, na maior parte do tempo, eu nem quero saber. E são cada vez menos as criaturas de quem eu consigo gostar, também. A parte boa é que me são tão indiferentes que eu já nem quero saber do que me fizeram de errado.