19 de janeiro de 2018

das pessoas

Costumava vê-lo a passar por aqui sem que algum dia tivesse realmente reparado nele; era só mais uma das pessoas do prédio.

Há umas semanas, recebi uma chamada; uma senhora, que era de cá mas agora vive longe, queria notícias dele, que há semanas que lhe ligava para o telemóvel e ele não atendia, não tinha o contacto da filha, não sabia mais que fazer, não sabia se não teria o senhor falecido, ou ido para um lar, nunca se sabe que desgraças poderão suceder a um idoso que vive sozinho, e lembrou-se de que eu estava no mesmo prédio. Respondi-lhe que não sabia quem era porque estou cá há pouco tempo, mas iria tratar de descobrir o que era feito dele.

Assim fiz: mal encontrei uma vizinha, perguntei-lhe quem seria ele, expliquei que me tinham ligado a saber dele, que estavam preocupados; quando a senhora voltou a telefonar, tinha para lhe dizer que afinal de contas estava tudo bem e que a senhora do prédio lhe ia dizer que alguém andava há muito tempo para lhe falar.

A minha parte estava feita. Só que não.
Acabei por perceber que se tratava, afinal, do velhinho cabisbaixo que aqui passa a toda a hora e, por um destes dias, fui à rua para me meter com ele; não tinha como saber se a vizinha teria ou não dado o recado e ele havia de gostar de saber que alguém se preocupa. Que sim, que até já tinha falado com a senhora, que me estava muito agradecido.

Depois disso, até já esperou por mim na rua para me falar, que a vida nem anda muito boa porque está constipado há umas semanas, que é para isso que o tempo está bom, para as doenças. É a vida, é sempre a puta da vida que nos trama até à morte.

De cada vez que por aqui passa, o velhinho cabisbaixo levanta a cabeça e sorri-me, em jeito de bom dia. Todos os dias. 

Agora sim, a minha parte está feita.

2 comentários:

Marisa disse...

E um pequeno sorriso faz toda a diferença para essas pessoas

Jota Esse disse...

"É a vida, é sempre a puta da vida que nos trama até à morte."

É verdade... quando estivermos mortos a vida já não nos volta a tramar.