26 de janeiro de 2018

a vitória da nanny

Há quase duas semanas que me é impossível abrir o feed sem levar com mais posts sobre a supernanny, vídeos, tentativas de boicote, eu sei lá. O povinho, constituído por todos aqueles que poderiam ser eleitos Os Pais do Ano se já alguém se tivesse lembrado de oficializar essa competição, está revoltado, preparadíssimo e munido das mais completas e certeiras teorias sobre como educar os filhos dos outros. Parabéns, meus geniozinhos adoráveis! Agora experimentem educar também as vossas próprias crias.

Eu não sei se já ocorreu a alguma destas criaturas iluminadas que esmiuçar o assunto em sete posts por dia cria exatamente o efeito contrário - as pessoas não vão deixar de ver só porque vocês já viram e decidiram fazer daquilo o show dos horrores, pediram para que ninguém visse, quiseram, enfim, tornar a vossa opinião universal, a única possível, a mais certa, a melhor. Pode até correr-vos bem com aquela cambada que adora seguir o rebanho, mas aqueles dotados de mais do que dois neurónios, que pensam sobre as coisas e gostam de opiniões fundamentadas, vão fazer o oposto - alapam o cu no sofá, e veem  o programa para, depois sim, poderem dizer o que pensam. E fazê-lo por eles, terem opiniões próprias, e não usar e abusar da opinião de outra qualquer pessoa que julga perceber disto como ninguém. E quem ganha? A supernanny, claro.

A minha opinião? Vale o que vale.
Vi o segundo programa exatamente pelos motivos supracitados. Se concordo com a exposição? Claro que não! Portanto, é muito simples: no dia em que tiver as minhas crias, não peço a uma senhora com ar de atriz porno para as ir educar lá a casa, muito menos para levar câmeras e mostrar ao mundo. Agora, a forma como os outros educam os filhos está bem longe de ser da minha conta. Somos todos diferentes e cada um faz o que pode.

Por mais errado, ou não, que nos possa parecer, a participação no programa foi uma escolha dos progenitores, foi a forma que eles encontraram de tentar domar os selvagenzinhos com quem vivem. Foi o que eles acharam melhor - e, apesar de agora se falar tanto nos direitos das crianças, sobre como esta não é uma escolha deles, sobre como os pais não têm direitos sobre a imagem dos filhos, lamento informar-vos que crianças são crianças e, quer vocês queiram quer não, até que eles consigam, de facto, tomar decisões, cabe aos pais decidir o que julgam ou não ser o melhor para eles - mesmo que o resto do mundo não concorde. Mesmo que vocês se revoltem e achem que seriam melhores a educar os filhos deles. Provavelmente, não seriam. 

Muito se tem falado sobre as crianças serem filmadas num momento de fragilidade, sobre como irão sofrer de bullying depois, sobre como é tudo tão injusto e nem sequer é bem o que as câmeras mostram. Ou é. E eu acho isto assustador: com quantas margaridas e com quantos martins não nos cruzamos nós na rua? Quantas vezes não assistimos nós todos, e sem escolha possível, a birras tamanhas que sentimos vontade de dar um par de tabefes às criaturas? Muitas vezes. Os meus pais educaram-me o melhor que sabiam e, sendo ou não o melhor modelo de parentalidade, garanto-vos que nunca fiz aquelas figuras, nem lhes dei pontapés ou puxei cabelos. A educação anda pelas ruas da amargura e não me espanta que haja tantos pais desesperados a criticar os filhos dos outros porque têm réplicas em casa. 

Quanto a sofrerem de bullying, deixem-me que os diga que me parece que vivemos numa época em que, entre crianças, só há duas opções: ou sofres de bullying ou és o bully - e, mal formadas como são as criaturas que eu vi, acho que elas vão ficar bem, não se preocupem. 

Agora deixem-se de falsos moralismos e tratem de não criar mais margaridas ou mais martins - o mundo agradece um bocadinho mais de educação. De miúdos e graúdos.

É tudo.

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