31/10/17

lógica

Gozava comigo na escola. Agora mete like em todas as minhas fotos.

(e a parte gira é que isto aplica-se a uns três ou quatro gajos.)

19/10/17

os cães e os gatos à mesa (ou como perder seguidores num só post)

Não ia voltar a sacudir o tapete agora que a poeira assentou, mas ontem dei por mim a ler os comentários a um texto de alguém que é contra a lei que permite a entrada dos animais domésticos em cafés e restaurantes, e fiquei ligeiramente enojada com aquelas mentalidades. Mais revolucionários de sofá, desejos de morte e juras de que nunca entrariam num restaurante onde ela estivesse. A dada altura, tive esperança de que se tratasse só de gente muito brincalhona mesmo, depois quis acreditar que era doença. É um perigo coexistir com gente assim.

Esclarecendo: eu também não concordo. De forma alguma.
Para começar, há que ter em conta que os animais de estimação não são só cãezinhos e gatinhos; quem tiver um porco como animal de companhia, tem todo o direito de querer fazer-se acompanhar da criatura ao jantar. E quem diz um porco diz uma ovelha, aquela ovelha que o Xico Zé diz que só lhe falta o falar e é a companheira dos dias tristes. Uma cobra de estimação. Um canário amarelo.

Sim, faço parte daquele grupo de pessoas pouco habituada a ver o cão passar da soleira da porta. Felizmente, enquanto tive cães, sempre tive espaço para os ter fora de casa. E não consigo imaginar-me a viver de outra forma.

Tenho todo o respeito por quem os tem, e na casa dos outros não é da minha conta se o cãozinho borra o tapete ou lambe o lençol do dono. Não sou eu quem vai limpar, não sou eu quem vai dormir naquela cama. No entanto, e perdoem-me os ofendidinhos - estou a brincar, podem apedrejar-me que eu 'tou nem aí -, eu não gosto do cheiro a cão. Não há nada a fazer quanto a isso; tal como eu gosto do cheiro a gasolina e muitos outros detestam, eu não suporto aquele odor natural do cão, intensificado quando o pêlo está molhado. (Nem vou falar do que sinto quando vejo donos babados porque o cão lhes lambe a cara. A boca.)

Apesar de, aparentemente, pessoas como eu parecerem alliens num momento em que os protetores dos animais surgem em massa, não sou caso único. Há mais gente como eu. E, entenda-se, já me custa ir comer fora e ter de lidar com os guinchos das criancinhas, quanto mais ter de estar a ouvir 34 cães a arfar à minha volta, os donos a darem-lhe a comidinha do próprio prato, a deixá-los lamber a mão que depois levam à boca para tirar o caroço da azeitona e aquele restinho de carne nos dentes. Pior: pagar por isto.

Ah, então podes sempre ir a outro restaurante.
Claro. Porque os restaurantes agora são feitos a pensar nos animais e sou eu que estou errada, logo, sou eu quem tem de se mudar. Eu e todos aqueles que sofram de alergias ou fobias: somos nós que temos de evitar os cafés e restaurantes, sendo ou não os nossos sítios preferidos, porque os cães vão usufruir muito mais do que nós. E o consumo? Oh oh. Nós íamos só beber um suminho de laranja, e o bicho, se for preciso, até a empregada come. Tudo lucro.

Além disso, tenho para mim que esta é só mais uma das atitudes egoístas de quem se diz proteger os animais. Eles não estão naturalmente habituados a frequentar cafés e restaurantes, e não lhes faz falta - metam-nos a correr no jardim, na praia, no campo, e certamente vão estar bem mais felizes do que fechados numa sala com não sei quantos desconhecidos e não sei quantos animais. Há bichos que não se dão bem uns com os outros. Há cães que tentam brincar com qualquer pessoa na rua e há cães que rosnam só porque não gostam da nossa camisola de capuz. Resta-me uma ténue esperança de que haja o bom senso suficiente por parte dos donos para perceberem se aquele cão vai estar ou não sossegado num sítio desses. No entanto, depois do que li ontem, temo que estejamos, literalmente, entregues aos bichos.

Não consigo ver benefícios em levar os animais para estes espaços - mas se o objetivo é mostrar que somos todos iguais, que os animais são da família e não há motivo para diferenciar, sugiro-vos que comecem a dormir nos hotéis para cães e gatos também.

16/10/17

a noite em que portugal não dormiu

Mais uma. Outra, entre tantas.

Desliguei a televisão há horas, convencida de que me seria mais fácil esquecer do que se passa para lá destas quatro paredes. No entanto, não fui capaz de parar de dar scroll nas redes sociais nem de fazer refresh no site dos fogos. É impossível dormir.

Há um misto de raiva, pânico e incredulidade dentro de mim. Não preciso dizer o quanto desejo uma morte lenta e dolorosa a cada criatura que se lembrou de contribuir para a fundação do inferno que hoje vivemos: creio que seremos mais de dez milhões a pensar o mesmo. Todos, menos os cabrões dos incendiários que escapam quase impunes enquanto destroem o país.

Estou desolada. 
Sinto-me pequena, inútil. Tenho cinzas na varanda e um nó no peito; aqui e ali vejo pedidos de pessoas que não conseguem contactar familiares encurralados pelo fogo - a dor e o desespero expressos em palavras de desconhecidos são tão reais que acho que se tornam de cada um de nós. Tomo-as como minhas. Apetece-me chorar por gente que nunca vi na minha vida.

Enquanto isso, estou aqui: sentada no meu quarto, incapaz de dormir, ciente da minha pequenez perante este monstro que continua a consumir vidas inteiras. Não há nada que possa fazer neste momento, senão esperar. Não há sítio onde possa ir, não há ninguém a quem eu possa ajudar. Resta-me assistir, à distância, e esperar que o dia de amanhã seja melhor. E que possamos todos fazer alguma coisa para corrigir o de hoje, dentro do possível.

Hoje, houve gente que perdeu o trabalho de uma vida inteira, e gente que perdeu a vida numa batalha inglória. Dizer que lamento não devolve nada a ninguém. Dizer que tenho vontade de chorar ao ver o rasto de destruição em sítios que conheço desde que me lembro de mim, e outros tantos onde ainda há tão pouco tempo me senti feliz, também não apaga incêndios nem cura feridas. Mas é a verdade. E é uma dor que não me deixa dormir.

Socorro-me de uma fé que não é a minha e imploro a um deus qualquer para que a tão apregoada chuva não se atrase, e para que todos aqueles que deixaram as famílias para ir combater os fogos possam voltar para os seus. Sãos e salvos.

13/10/17

sinking

Perdi-me. 
Cheguei a um beco sem saída e todas as portas onde bato estão trancadas a sete chaves e ninguém está disposto a abri-las. Noutras tantas, sou eu quem não pode usar o batente. Volta e meia vejo alguém espreitar através da janela, e deixo que o meu peito se encha de fé para, logo a seguir, cair de joelhos. Estou cansada. Exausta. Cheguei aqui de mochila às costas e o regaço cheio de esperança, mas já a gastei; tudo o que tento construir, destrói-se quando viro as costas - convenci-me de que podia ser feliz, de que não tinha de me limitar a sobreviver como tantos outros. Acreditei que tinha escolha - mas não tenho. As soluções estão sempre à distância do horizonte, tão longínquas e inalcançáveis que há dias em que acho que vou desistir.

A vida acontece devagar, como se alguém, em jeito de piada de mau gosto, se tivesse lembrado de a fazer passar diante dos meus olhos em câmera lenta. Não me faz sentido, nunca me faz sentido: as respostas chegam a conta gotas e os poucos sonhos que mantive comigo começam a derreter no fundo da mala. Eu queria que tivesse sido diferente, queria ter sido mais feliz. Queria ter valido mais, significado mais - mas perdi-me. No sítio onde estou, sou nada. Sou nada todos os dias.

De repente, já é outubro e o outono recém instalado parece ser o segredo mais bem guardado dos calendários confusos por um verão que teima em ir muito além do seu tempo. E a falta que me faz o som das folhas estilhaçadas por baixo das minhas botas quentes, e o cheiro a castanhas assadas no ar frio que parece pronto a rasgar-me os pulmões. A falta que me faz sentir-me viva, todos os dias, e sentir que viver vale a pena, por todas estas pequenas coisas.

Hoje não sinto isso.
Hoje não sinto nada.

02/10/17

amores rasgados ao meio

Eu estou aqui, joana. 
Vim àquela pastelaria onde vínhamos, religiosamente, todos os sábados de manhã, antes de eu ter deixado de ter tempo, mas hoje não pedi um café cheio, em chávena fria, nem um pastel de nata; hoje pareceu-me melhor quebrar o ritual e limitei-me a pedir uma garrafa de água só para ter uma desculpa para me sentar numa das mesas.

Escolhi a da janela, aquela que fica de frente para a igreja. Odiavas este lugar, porque te sentias sempre observada por quem passava na rua, apesar de a maior parte das pessoas passar cabisbaixa e com pouca vontade de ver o que estávamos a comer. Tu eras simples e não chamavas a atenção de quem não soubesse o mulherão que se escondia por baixo do ar humilde e acanhado.

Não conseguia deixar de olhar a porta daquela maldita igreja. Tinham-me dito que era hoje e não consegui resistir ao impulso de vir até aqui. Provavelmente, foi uma forma de me punir. De tentar acelerar o suicídio lento patrocinado pelos cigarros que se tinham tornado nos meus mais fiéis companheiros depois de te ter perdido.

Entre duas baforadas, peguei no telemóvel e marquei o teu número - tinha-o apagado da memória do cartão, mas nunca da minha. Não sei porque o fiz: não tinha nada a acrescrentar a tudo o que já te tinha dito, e nem tão pouco te queria estragar o dia, mas a perspetiva de ouvir a tua voz silenciou-me a razão. Confesso: também tinha alguma curiosidade de saber o que aconteceria. Nunca me tinha perguntado o que fariam os noivos no dia do casamento, se se limitavam a viver o momento ou se escondiam o telemóvel em sítios inimagináveis para poder dar uma vista de olhos no facebook e no instagram em cada ida à casa de banho. Ri-me. Nunca largavas o teu, e imaginei-te a escondê-lo no bouquet. Diverti-me a imaginar o ar de horror dos convidados quando ouvissem a música dos system of a down a sair diretamente do centro das rosas. Não atendeste. Claro que não.

Esmaguei o cigarro no fundo do cinzeiro enquanto sentia o mesmo a acontecer com o meu coração. Mais uma vez.

Já se tinham passado mais de dois anos desde o dia em que me disseste que ias sair de casa. Não acreditei; achei-te sempre demasiado fraca para que fosses capaz de arrastar uma mala pela gare com todos os teus sonhos. Com a tua vida toda - enganei-me bem. Levaste os teus e os meus. Levaste a tua e a minha.

Nos três primeiros dias, não voltei a casa. Mantive-me o mais ébrio que me foi possível para não me lembrar de nada, dormi num banco de jardim e numa pensão rasca com mais três espanhóis. Valia tudo para não ter de encontrar a nossa casa semi despida - mas depois, com a roupa imunda e meio rasgada, achei que era hora de voltar.

Quando entrei, quis arrumar as malas e sair de vez. Livrar-me da casa onde fomos felizes, recomeçar do zero - depois consolei-me com o pouco que me restava de ti. O teu cheiro na roupa de cama, a escova de dentes esquecida, o frasco de shampô quase vazio que não quiseste levar. Demorei mais tempo do que me orgulho a ter coragem de trocar os lençóis, e mais ainda a passar um dia sem chorar. Demorei demasiado tempo, minha joaninha. Demorei demasiadas lágrimas tuas a tentar perceber o que te fazia chorar.

Dizia-te sempre que não entendia em que medida te poderia estar a fazer mal: ao fim de nove anos juntos, dava-te tudo quanto podia, pagava todas as despesas, oferecia-te flores no vigésimo primeiro dia de cada mês para te mostrar que nunca me esqueci do nosso dia. E mesmo assim, queixavas-te - de que nunca te ouvia, de que nunca íamos a lado nenhum, de que nunca te ajudava em casa, de que nunca mais te tinha abraçado. A verdade é que às vezes mal dava por ti, e quase nunca reparava realmente nas coisas que fazias. Elas apareciam feitas, e isso bastava-me.

Amava-te como se ama a mulher das nossas vidas, mas via-te como a empregada doméstica a quem eu oferecia flores. Desculpa-me, meu amor, mas eu vivia com a cabeça no trabalho para te poder dar tudo, e esqueci-me de te dar o mais importante. Por mais anos que viva, nunca me hei de perdoar pela forma como te fui perder - percebi, quando te deixei no comboio, que não havia nada a fazer. Estavas cansada da forma como te tratei, e de nada me adiantaria prometer que seria diferente. O daniel com quem te mudaste, com quem pintaste paredes e estreaste os pratos, tinha ficado perdido no tempo. Já não existia. 

Há danos irreparáveis quando se lasca um amor assim. Eu tinha matado o nosso, lentamente.

De repente, a porta da igreja abriu-se. Vi os convidados a sair, a alinharem-se nas escadinhas, de ambos os lados da porta. Sorri. Sempre disseste que ias odiar que te enchessem o cabelo de arroz no dia do teu casamento, mas, ali, à distância, pareceu-me que estavas condenada. Rezei para que estivesses tão feliz que isso nem importasse - e, quando te vi, finalmente, tive quase a certeza, a avaliar pelo teu sorriso, de que as minhas preces foram ouvidas. Estavas mais bonita do que nunca. A felicidade fica-te muito bem, e lamento não te ter sabido vestir essa roupa, tanto quanto lamento não ser o homem que saiu contigo, de braço dado, da igreja. 

Acendi outro cigarro à saída da pastelaria, mesmo a tempo dos nossos olhares se cruzarem.
«Cheguei tarde, não cheguei?», perguntei, baixinho, a mim mesmo. Sei que não me ouviste, mas vi-te um sorriso matreiro nos lábios, como quem diz:

«tu nunca soubeste chegar a horas.»

E não mesmo. 
Que sejas muito feliz, amor da minha vida.

hoje, por alturas da tpm

A pessoa mete uma playlist bem deprimente a tocar e decide que hoje, só hoje, se pode dar ao luxo de debulhar-se em lágrimas porque as últimas 24h não foram nada fáceis e os últimos 22 anos foram piores ainda.