26/09/15

contornando o «vai à volta que por aí não passas»

Lembro-me de dizer em pequena, na inocência inerente à infância, que queria trabalhar num hospital, nem que fosse a fazer limpeza. Pode parecer uma loucura dada a quantidade de vezes que me queixo de lá passar a vida, mas fascinava-me a ideia de um dia estar do lado de lá, de conhecer os bastidores, de saber como era não ser sempre a paciente.

Passei o secundário a babar por um curso de enfermagem (ou de jornalismo, mas isso são outras andanças) - mas chumbei a matemática. Oh hell, o drama, o horror, a tragédia: wild bicha fica mais uma vez impedida de concretizar o seu sonho. E agora? 

Podia ter feito qualquer coisa - podia ter continuado a tentar passar no exame até me crescerem barbas brancas (isto porque, entenda-se, eu acredito cada vez mais que velha nenhuma se escapa a uma barba que pingue sabedoria e azeite) ou procurado outras soluções porque, afinal, o que importa não é tanto o caminho mas sim a meta. E, apesar de, por vezes, meter o pé em falso e dizer que não quero mais do que isto, sei que sou demasiado teimosa para me conformar e que a meta continua lá, à espera de que eu lá chegue, quer vá a correr, a andar ou a rebolar. Hei de lá chegar.

Decidi-me por um curso que me desse equivalência ao 12º ano, oportunidade de entrar na faculdade e alguma experiência na área de que gosto. Se implicou voltar atrás? De certa forma, sim. Mas cada vez mais tenho a certeza de que também me deu a oportunidade de dar dois passos à frente naquela que continua a ser a profissão que eu almejo.

Neste momento, sou uma mera estagiária de auxiliar de saúde, mas cada dia que passa tenho mais a certeza de que é esta vida que eu quero para mim - não a de auxiliar, entenda-se. Este é um contentamento temporário que me serve menos à medida que a paixão pela enfermagem aumenta e as minhas oportunidades também. E o saber que sou boa naquilo que faço apazigua-me e dá-me mais força para não desistir assim tão facilmente; sei que ganhei uma destreza que me será favorável um dia destes e que já passei por aquele que achei que seria o meu teste de fogo: feridas feias não me impressionam mas não sabia como lidaria com a morte e acabei por me surpreender a mim mesma pela positiva. 

Isto para dizer que o importante é não ficar parada a meio do caminho a choramingar porque aquele que eu sabia que me levaria mais rápido está interdito - é ir na mesma. É ir à volta, é escolher outro. E não ter medo de errar, de voltar atrás, de dar dois saltos. Ou três.
Se nunca pararmos, um dia destes, estaremos no sítio certo.

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