21/02/16

outras dores

Custa-me aceitar que possa estar a perder alguém. Não consigo obrigar-me a entender que o cancro, o cabrão do cancro, pode estar mesmo a mastigar as vísceras de alguém que me viu crescer e a quem eu sou demasiado ligada para me imaginar a dizer-lhe adeus. Não há idade certa para morrer. Não há isso de «pelo menos já tinha uma idade avançada» quando é dos nossos que estamos a falar. E, então, relativizo; digo que as dores que ela diz sentir, as dores que já nem sabe diferenciar, são obra da cabeça, da crença de que já não dura muito, da ideia de que tem os dias contados. Fico zangada e embruteço sempre que alguém choraminga ao meu lado e me diz que não a tornaremos a ver; não quero que me façam pensar nisso, sentir isso, embora o pense e o sinta todos os dias e isso me amedronte. «Temos todos os dias contados desde que nascemos», disse-lhe um dia, não tanto por ser verdade, apesar de o ser, como para lhe afastar da ideia (da dela ou da minha?) de que, em breve, não poderemos voltar a sentar-nos à mesma mesa, a beber o café que eu me habituei, desde muito nova, a chamar de meu preferido, não tanto por ser francês e impossível de encontrar cá mas por ser o que mais me ligava a ela. Essa paixão eterna pela frança e pelo café.

É difícil habituarmo-nos à ideia de que, um dia, quem esteve sempre ao nosso lado já não nos voltará a aquecer as mãos, as nossas mãos eternamente geladas, entre as suas quentes, quentinhas, cheias de amor. E talvez até se dê o caso de as nossas mãos se gelarem de propósito, só para se voltarem a instalar naquela concha onde as vidas parecem eternas e o mundo parece não me querer roubar um pedaço de mim.

Despedi-me dela há umas semanas. Levaram-na para longe, para demasiado longe, para tratarem melhor dela. Essa distância é um vazio no peito e um medo constante; chorei da última vez que a vi. Chorei muito nesse momento, e nas horas que se seguiram - ainda choro, para vos ser sincera. Choro porque é difícil vermos alguém a definhar ao nosso lado, mas é ainda mais difícil termos alguém a definhar longe. E choro porque morro de medo de não a voltar a ver em vida, por mais que essa seja uma ideia que eu não aceite. Por mais que a imagem dela a perder-se dentro das roupas junto com todo o vigor que lhe era característico me diga que ela nunca mais vai voltar para mim como eu a conheci, como sempre foi.

Despedi-me dela há umas semanas e não sei se ela sabe o quanto ainda me dói o abraço forte que não lhe dei por já não ter coragem de apertar os ossos frágeis dela. Disse-lhe adeus mas ainda rezo para que tenha o significado de um até já - esperá-la-ei com uma caneca de café, cheia, a fumegar; foi sempre assim, e é assim que será para sempre.

3 comentários:

esperto que nem um alho disse...

:'(

Agridoce disse...

Que p*t* de doença!... Um abraço. Gigante!

Joana Sousa disse...

É difícil pôr a saudade em palavras, mas aqui está ela...e as memórias que ela traz. Obrigada. Eventualmente vai-se o que há de memórias más e ficam as boas.

Jiji

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