26/06/16

sobre os amigos pouco amigos

É um bocado triste este blog andar assim, mais para lá do que para cá, e eu voltar só para vir destilar um bocadinho de veneno, mas foi um post da agridoce que me deu vontade de escrever. Entenda-se que o veneno não é contra ela: na verdade, ela é boa moça e assim já fica a publicidade feita a um bom blog.

Ocorreu-me que também conheço sugadores de felicidade: infelizmente, tenho até mais contacto do que seria desejável com uma dessas pessoas que tem de ter sempre um problema que justifique andar com cara de mal fodida e, quando não arranja nada de seu, queixa-se dos problemas do resto da família, do vizinho da frente, do mundo no geral. And so on. 

No entanto, isto fez-me pensar sobre outra coisa. Já não é de hoje que eu acho que as pessoas desistem cada vez mais umas das outras: no amor e, neste caso, também na amizade. No amor, acho que as relações não duram porque ninguém está para se chatear. Na amizade, as pessoas fartam-se porque é chato ter amigos com problemas.

Digo-o porque o senti na pele: acreditem ou não, eu não fui sempre esta criatura que anda por aqui a arrastar-se pelos cantos. Não estive sempre triste, não é há muito tempo que deixo que alguém me veja a chorar. E - por mais que pareça impossível! - eu não gosto de estar assim. Não gosto de estar infeliz, de me sentir desesperada, de não saber para onde me virar. Guess what? Shit happens!

E escrevo-o porque eu também já perdi amigos por isso. Porque tem piada ter amigos felizes, amigos animados, amigos sem problemas - quando os dramas surgem, é só chato e alto lá que eu não estou para isso. Amigos que preferem que voltes só quando estiveres bem. Amigos que não querem saber se tens ou não problemas: resolve-te e volta feliz. Só isso.

Não escolhi o que me tem acontecido nos últimos meses e, sobretudo, não escolhi a forma como me sinto sobre isso. Não escolhi meses de angústia, de medo, de perdas - a sério que não. Mas eles aconteceram e agora eu não estou bem: isso reflete-se em tudo em mim. E, se há uns tempos eu era capaz de dançar no meio do holocausto, hoje em dia uma unha encravada já me parece o princípio do fim - não me queixo por prazer de me queixar. Queixo-me porque estou, como alguém lhe chamou, numa espiral destrutiva. Estou perdida, em desespero, sem saber que fogo devo apagar primeiro - por coisas que conto aqui, e por toda uma panóplia de coisas que guardo para mim. Por isso, hoje, por me sentir perdida, por me reconhecer no meio dessas vozes feitas de lamúrias, sei exatamente o que significam: são pedidos de ajuda. Pedidos de ajuda que ninguém se dá ao trabalho de ouvir.

E sim, a tendência das pessoas é afastarem-se, porque têm mais que fazer. Porque não estão para se preocupar com os problemas dos outros, porque pessoas infelizes são uma seca. No entanto, essas pessoas que são sempre as primeiras a saltar do barco, a irem às suas vidinhas felizes e confortáveis, também são as primeiras a dizer que nunca se aperceberam de nada quando alguém se suicida. São as primeiras a ficar escandalizadas e a lamentar a morte. A dizer que podiam ter feito mais. E podiam.

Podiam ter sido amigos na altura certa.

3 comentários:

homem do leme disse...

Ámen.

Agridoce disse...

Lamento muito que te sintas assim... Como te disse lá do meu lado, estas alturas são boas para triagem. Só se afasta quem não é verdadeiramente amigo.

Os amigos mesmo, estão lá sempre, ouvem esses pedidos de ajuda, apoiam, conversam, escutam... Os amigos pegam numa garrafa de vinho e aparecem em tua casa para te puxar para cima e não te deixam cair nessa espiral.

Sim, é muito melhor estar com pessoas felizes e contentes. Mas não é ainda melhor estar com as pessoas de quem gostamos, mesmo que estejam em baixo?

Não te culpes nem te sintas mal por estares assim. Procura alguém que te possa ajudar, alguém que te queira ouvir. Não vás por esse caminho!...

Força :)

Joana Sousa disse...

I get you. Às vezes sinto-me do outro lado da barricada - tenho um amigo "sugador" que, oh pá, eu sei que não é por mal, mas sinto que a minha amizade com ele é já uma obrigação e não um gosto. E fico-me a sentir uma amiga de merda por isso mas...pronto, estou lá. Engulo em seco e esforço-me por meter um sorriso na cara e tentar que tudo melhore. A ver vamos. Estou lá para o que for preciso...não quero com isto dizer que acho que as pessoas têm o direito de se afastar e só querer os amigos em fase boa, mas há que entender também o outro lado - às vezes não é por mal, todos temos momentos menos bons...