5 de dezembro de 2017

a primeira vez nunca se esquece

Comecei por ouvir gritos na rua. Inicialmente, pensei que se tratava de um casal e já estava a preparar-me para erguer o punho contra a violência doméstica, quiçá mostrar as mamas no meio da rua por nenhum motivo em especial, mas porque sou mulher e as mulheres tudo podem.

Para minha grande desilusão, eram mesmo dois homens, mas lá calha que um ainda consegue ter mais voz de pita do que eu, e olhem que é bem difícil.

Estava um senhor franzino, com idade para ser meu avô, a agarrar pelo colarinho um homem mais jovem que poderia, facilmente, ter arrumado o outro ao canto com um sopro, mas que perdia toda a credibilidade de cada vez que abria a boca e parecia uma maria amélia. Aparentemente, a maria amélia tinha entrado em casa do homem e tinha-lhe roubado dinheiro. Muito dinheiro.

Ali, do outro lado da estrada, a situação era tão ridícula que chegava a parecer encenada. A pobre maria amélia só dizia que não tinha roubado o que quer que fosse, e o velho oscilava entre propostas eróticas e violentas; num momento gritava "se sais daqui, fodo-te todo", para no momento seguinte gritar "eu mato-te!".

Tendo isto acontecido à porta de um café, seria de esperar que alguém defendesse a criatura. Contudo, as pessoas apressaram-se a entrar e a fazer de conta de que não estava a acontecer - ainda houve um senhor que, entre baforadas, foi dizendo ao velho para não bater ao outro, mas acabou por desistir e ir embora de bicicleta.

Cansado de segurar a amélia pelo colarinho, obrigou-o a sentar-se numa cadeira, senão fodia-o todo, enquanto fumava.

Portanto, depois de alguma hesitação, peguei no telemóvel e... não, não comecei a filmar para postar em tudo quanto é rede social, apesar de ser uma alternativa mais engraçada ao circo de natal. Resolvi fazer alguma coisa para acabar com aquilo e liguei à GNR (sejam todos cinderela, fáxabor!).

Expliquei atabalhoadamente onde estava, porque o meu sentido de orientação ainda hoje está a jogar à bisca com a minha beleza, lá no útero da minha mãezinha, e eu não faço a mais pequena ideia do nome da rua onde passo os meus dias. Ups.

Não percebi o que aconteceu, mas a maria amélia conseguiu esquivar-se para dentro do café e o outro ficou cá fora a olhar para a porta. Imagino que o pobre tenha ido chorar para a casa de banho, mas são só suposições.

Fiquei a pensar que tinha ido inquietar a GNR para nada, até que eles chegam. Não um, mas dois carros da GNR. Não pude conter uma gargalhada e pensar que talvez devesse ter sido mais específica nos desacatos à porta de um café. Mas depois eles saíram dos carros e eu percebi que foi deus nosso senhor quem mandou um par extra para me animar a vista. Bem podem andar à pancada no café todos os dias, que eu estou completamente disponível para ligar para a GNR as vezes que forem necessárias. E, se for preciso, até me entrego de boa vontade.

Quanto aos outros dois, falaram com os agentes e acalmaram os ânimos. Ninguém soube que tinha sido eu a ligar.

(se soubessem, acredito que o mulherio residente me começasse a idolatrar, e eu nem tenho a letra bonita para dar autografos)

1 comentário:

Jota Esse disse...

A GNR deve ter ficado com o teu número na central telefónica do posto.
Pode ser que um dia destes algum dos do par abençoado te ligue a marcar encontro. eheheh