segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

nu e cru

Foi numa terça feira, e eu estava doente. Contra a vontade da minha mãe, que me disse que seria melhor não ir às aulas, resolvi que iria mais tarde. E fui. Ou tentei ir.

Tinha chovido mais cedo.
Por essa altura, conduzia já há mais de dois anos, e estava mais do que habituada àquele percurso. Era o meu caminho de todos os dias mas, naquele em específico, tinha uma surpresa reservada para mim.

Aconteceu tudo muito rápido, e eu não tenho uma explicação: de um momento para o outro, perdi o controlo do carro e essa, posso jurar-vos, continua a ser a sensação mais aflitiva que algum dia tive na minha vida, e que ainda hoje é capaz de me deixar com o coração acelerado. Por mais que tentasse, o carro não me obedecia, não ia para onde eu queria. E, depois disso, o vazio.

Na recordação seguinte, estou descalça, na estrada. Tenho vários homens à minha volta, e eu não sei porquê. Estou confusa e assustada, as minhas botas estão no chão e dói-me muito a cabeça. Sinto uma pressão enorme do lado esquerdo e vejo tudo baço, como se fosse desmaiar. Pedi-lhes que ligassem à minha avó; disse-lhe que tinha tido um acidente, e depois fiz reset na memória: esqueci-me do acidente e do telefonema.

Mais tarde, estava dentro da ambulância a perguntar o que me tinha acontecido. Descobri três dias depois que estava em hipotermia, embora não me lembre de ter tido frio. Nem sequer me dei conta de que estava encharcada dos pés à cabeça, coberta de lama, com rastas no cabelo, até ter chegado ao hospital.

Tudo o que sei, foi-me contado mais tarde: havia uma óleo e lama na estrada molhada, o que foi a junção perfeita para que me despistasse na curva onde tantos e tantos outros se têm despistado. Mas não acontece só aos outros.

Capotei e caí num campo de arroz - o carro só parou quatro voltas mais tarde, e acreditem que é aterrador imaginar que a primeira foi de frente. Estive sempre consciente, apesar de o meu cérebro ter decidido que não valia a pena guardar essa informação - mal o carro se cansou de rebolar na lama, eu saí, calmamente, pelo meu próprio pé. Tudo o que era meu estava espalhado na lama, o meu computador debaixo do carro, a minha coragem estilhaçada como os vidros.

Saí ilesa. 
Meia dúzia de escoriações, vários hematomas, um braço com o dobro da grossura, uma dor de cabeça que não me deixava dormir e tonturas horríveis que só passaram um mês depois, mas estava bem. O carro faleceu ali mesmo; só tive coragem de o ver algum tempo depois, e não vos consigo descrever a sensação de o ver completamente destruído, saber que estava dentro dele quando aconteceu, e não me lembrar de nada. Zero. Deixem-me que reforce que o meu anjo da guarda é mais fixe do que os vossos.

Passou mais de um ano.
Na verdade, vai quase em dois mas pesa-me menos na consciência se não assumir para mim mesma que já era mais do que tempo de ter arrumado este assunto, de não o reviver de cada vez que conduzo, de não pensar nisto todos os dias. Mas é o que acontece. Não consigo evitá-lo.

Se o escrevo hoje, é porque este episódio continua a ser o elefante no meio da sala. É porque, por mais que tente, não consigo ultrapassar isto: todo este tempo depois, eu continuo com um medo absurdo de conduzir - e, mais ainda, de andar com qualquer outra pessoa a conduzir. A sensação de que não posso controlar o que acontece dá cabo de mim, muito embora - se culpados houver - eu tenha sido a única culpada do que me aconteceu. Mas não consigo.

Quase dois anos depois, eu ainda fico ansiosa em curvas, ainda me assusto se o vento me abana o carro e eu temo estar a perder o controlo, ainda acho que vou ter um acidente a qualquer momento. Imagino-o a toda a hora, para vos ser franca: vejo cada carro como uma ameaça, tenho crises de ansiedade em situações que deveriam ser naturais. Isto consome-me, de uma forma que não cabe em palavras e, na maior parte do tempo, sinto-me só ridícula por isto: caramba, há quem tenha acidentes bem piores, e na verdade eu nem sequer me lembro da pior parte. Como é possível não conseguir esquecer? 

Passaram-se quase dois anos, mas eu ainda hoje sonho com despistes.

4 comentários:

Agridoce disse...

Tive o meu primeiro, e único, acidente de carro há 12 anos e meio.

Ainda hoje, fico ansiosa. Ainda hoje, tenho muitas vezes medo. Ainda hoje, me custa andar de carro com algumas pessoas em cuja condução não confio a 100%. Ainda hoje, acho que os carros são armas mortíferas, que não deviam estar na mão de qualquer um.

O tempo ajuda, o tempo acalma, o tempo disfarça. Mas não sei se o elefante algum dia desaparece do meio da sala.

Jota Esse disse...

Eu tive vários acidentes de mota (num mês fui parar três vezes às urgências eheheh) e nunca tive medo da mota. No acidente mais grave, saí do hospital depois de me operarem para pôr um osso da cara no lugar e a primeira coisa que fiz, foi pegar na mota toda torcida e ir dar uma volta a ver se andava eheheh.
Muito mais tarde adormeci ao volante, atravessei a estrada sem bater em nada, acordei com elas aos gritos e ainda hoje me encolho todo no banco quando vou a conduzir e me lembro desse episódio.
A nossa cabeça às vezes tem coisas estranhas...
Depois daquele dia, adormeci mais três vezes e numa delas bati mesmo no rail da autoestrada, mas a que me vem sempre à memória é a daquele primeiro dia de férias de 1996.
A primeira vez é a que fica, nem sempre pelos melhores motivos. xD
Não desistas de conduzir. Quanto a mim, desistir é dar vantagem ao medo.

Anaa disse...

Eu percebo-te. Nunca tive um acidente de carro, por isso só posso imaginar o que é passar pelo que tu passaste, mas quando as coisas acontecem e são muito fortes - tanto para o bom como para o mau - deixam marcas e por muito racional que fosse pensar "já passou, está arrumado" não é assim que funciona, demora tempo, às vezes muito mais tempo do que nós pensámos que fosse ser necessário. Mas eventualmente melhora, a surpresa é quando é que será o eventualmente. Já é bastante bom que consigas continuar a conduzir e que não deixes que esse medo seja paralizante!

Houve uma altura em que me aconteciam coisas más a torto e a direito e eram coisas imprevisíveis de que eu não tinha culpa nenhuma nem tinha forma de controlar. Nenhuma delas teve a ver com condução, mas prai durante um ano eu mal peguei no carro porque pensava "se me acontecem estas coisas péssimas quando tenho os pés no chão, é igualmente provavel que me aconteçam quando tenho um carro nas mãos". Fui menos racional que tu, como podes ver. E entretanto passou, como tudo vai passando ;)

ernesto disse...

Ana, eu voltei a conduzir passados uns meses por uma questão prática. Sabia que precisava de conduzir, que um carro me fazia falta para ter alguma autonomia e porque não podia depender de boleias ou de transportes públicos.
O acidente aconteceu num ano em que tudo o que podia ter corrido mal, correu. Se calhar, tivesse eu feito como tu e nada me teria acontecido :)