4 de dezembro de 2017

a saga das entrevistas: de cinderela a barbie

Há uns meses, tive uma entrevista de emprego num local onde eu sabia de antemão que iria trabalhar rodeada de homens. Isso não me desagradou, bem pelo contrário, porque - a verdade tem de ser dita -, as mulheres são quase sempre umas cabras umas para as outras e eu não sou a pessoa com mais pachorra neste mundo para aturar os mexericos desnecessários. Uma pessoa fica cansada só de tentar acompanhar o jornal do maldizer.

Posto isto, lá estava eu, ainda antes da hora marcada, sentada numa cadeira confortável à espera de que o senhor chegasse. E nervosa, claro está. Bem vestida, como se quer numa entrevista de emprego, ainda que simples - com uma camisola do lidl - e maquilhada como em todos os outros dias em que me apetece maquilhar: base, sombra castanha, eyeliner e rímel, no more, no less. E esta informação só me parece relevante porque, de facto, não quero que imaginem uma boneca de cera deste lado, para o que se passou a seguir.

Os minutos passavam e eu continuava a não entender muito bem o que se estava a passar. As pessoas - tudo macho, quase todos jovens - iam passando por lá, mas eu não fazia a mais pequena ideia de quem era quem e por quem deveria aguardar. 

Entretanto, passa um senhor com idade para ser meu avô; pensei que seria O Tal. Sorri quando o jovem simpático, e giro, da receção lhe diz que eu estou para a entrevista. O ansião comenta:

- Ah, não, não pode ser. Eu estou velho e o meu coração está fraco, não me podem meter aqui estas coisas lindas, senão acabam comigo.

Tudo bem. 
A pessoa lida mal com elogios, mas não é de vidro. Eu sei que isto já era capaz de fazer saltar umas quantas Capazes para o caminho, a gritar assédio e porco nojento, mas até achei piada na altura.

Mais tarde, finalmente, chega um casal que se dirige a mim: eram eles, os recrutadores. Depois de ter deixado o nervosismo a fermentar durante um século e meio, estava no ponto. Mal se tinham apresentado, o senhor voltou. Repetiu a ladainha, dizendo que coisas lindas acabam com ele e acrescenta:

- Os rapazes iam ficar todos excitados. O que talvez fosse bom, trabalhavam mais, não sei...

Para aumentar o meu nível de conforto, o recrutador decide responder, como se eu não estivesse a ouvir, e diz:

- Barbies há muitas. Vamos ver o que ela sabe fazer.

Não fiquei com o trabalho, mas nunca cheguei a descobrir se por não ser uma barbie competente ou por, na entrevista, ter sido sincera quanto a algumas das condições não me serem, de todo, convenientes. Para vos ser franca, não posso dizer que fiquei triste por não ter sido a escolhida. Muito menos agora que, ao recordar a situação, me apercebi de que esta entrevista poderia muito bem ser para um lugar na indústria pornográfica.

(nada temam, seres desse lado, que esta pessoa trabalha vestida e as únicas câmeras são as de vigilância)

2 comentários:

i. disse...

Tudo muito bem quanto ao senhor velhote (vá, kind of), mas... Barbies há muitas? Epá, essa frase é só ofensiva neste contexto. Enfim...

A Extraterrestre disse...

Eu trabalho só com homens e digo te que não são anjinhos!! Falam mal uns dos outros e andam sempre de faca na mão para a enfiar nas costas do "grande amigo"... E ainda tenho que ouvir as tretas à gajo, a toda a hora...