14/11/15

(i don't) pray for paris

Ridículo.
É ridículo o que aconteceu em paris, é ridículo o que tem acontecido no mundo, mas é ainda mais ridículo que as pessoas continuem convencidas de que faz toda a diferença mudarem as fotos de perfil para pintarem o facebook com as cores da bandeira francesa, publicarem imagens da torre eiffel em barda, imagens com «i see humans but no humanity» a trambolhão, utilizarem hastags como se isso salvasse vidas e instaurasse a paz.

Tenho novidades: à semelhança daquela altura em que toda a gente decidiu mudar a foto para aquela de fundo preto com a inscrição «je suis charlie», não vai acontecer nada: os que morreram não vão ressuscitar, os que estão feridos não vão ficar miraculosamente fora de perigo, as famílias não vão sentir menos a perda e os terroristas também não vão parar por medo porque, afinal, milhares - milhões? - de corajosos mudaram a foto de perfil. As coisas não mudam só porque nós, revolucionários de sofá, achamos que fizémos a nossa parte por mostrarmos aos outros que estamos sensíveis a esta tragédia e que vamos mudar o mundo com um clique.

Estamos todos muito ralados mas é só até mudarmos de canal, pousarmos o jornal, fecharmos o site - depois, paris continua longe, nós continuamos vivos e os nossos, os nossos de lá, também estão bem. O que nos move é o medo de que um dia seja aqui e a necessidade de mostrar ao mundo que somos boas pessoas. Mas não somos.

Já não é de hoje que não entendo nem concordo com as religiões que apregoam o amor e semeiam o ódio; não consigo conceber que se mate e que se morra em nome de um deus qualquer, que se pense que há um motivo válido para exterminar todas as religiões que não a nossa. Mas nós não somos melhores do que estes extremistas islâmicos que saem por aí a matar volta e meia, nem as religiões são o nosso único problema.

A história da humanidade está cheia de raças, de religiões, de pessoas, que se acham superiores, as únicas dignas de viver neste mundo, e que tudo o resto não presta – anos e anos, séculos, a matarmo-nos uns aos outros a troco de nada e ainda não aprendemos. Nascemos, crescemos, morremos – não há outra forma de viver, não há escapatória. Tenho para mim que, se entendêssemos que não há cor de pele, língua, religião ou qualquer outro rótulo que usemos para nos diferenciar, que nos faça melhores, que nos faça diferentes e que seríamos todos mais felizes se vivêssemos, se soubéssemos, viver em comunidade sem guerrinhas inúteis, seríamos mais felizes e a vida seria mais proveitosa. Mas não, claro que não! Porque todos achamos que somos melhor do que o resto.

E hoje a culpa disto é toda dos sírios, claro - os sírios são os nossos novos ciganos, os novos pretos, os novos chineses. Os sírios são a nossa nova escumalha predileta, os principais culpados por todo o mal do mundo, aqueles com quem queremos correr à força toda e que merecem a maldade gratuita por estarem a ocupar a terra que não é deles. E vamos continuar a culpá-los, a julga-los, a torturá-los. Somos mesmo melhores do que os outros terroristas?

A culpa é de todos nós.
A culpa é de uma humanidade inteira que insiste em apostar em rótulos, que insiste em criar divisórias, que insiste em inventar hierarquias onde elas não deviam existir. A culpa é de uma humanidade incrivelmente estúpida que continua sem entender que, enquanto formos todos tripulantes do mesmo barco a remar para todas as direções possíveis, não chegamos a lado nenhum.

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