30/08/13

e eu posso escrever coisas estranhas se me apetecer.

Costumava vê-la passar pela minha rua. Não a conhecia de parte alguma, e pouco me importava de onde pudesse estar a vir - talvez da biblioteca, ali ao virar da esquina, já que a via sempre com dois ou três livros debaixo do braço.

Durante muito tempo, aquelas súbitas aparições da mulher, pouco ou nada me diziam, tirando os dias em que a vida me corria mal e os saltos altos dela me enervavam. Um dia, num desses dias maus, sentei-me na soleira da porta a olhar para o nada. Era um hábito meu, quando precisava de tomar decisões importantes. Simplesmente, não tomava, e esperava que alguém, nem que fosse o destino, as tomasse por mim.

Nesse dia, ela passou. Distraído do meu não pensar, reparei melhor nela e, pela primeira vez num desses dias fodidos, o barulho dos saltos altos dela não me enervaram. Olhei-a melhor. Não era bonita, mas havia algo nela que me prendia. Não conseguia deixar de olhá-la.

Descia a rua como se nem chegasse a meter os pés no chão. Não sei explicar. Tive de piscar os olhos várias vezes para me conseguir voltar a concentrar no som dos passos dela, ou estaria aqui agora a jurar que ela deslizava. O vestido negro parecia mal lhe roçar na pele, de tão solto que estava. E, no entanto, parecia ter sido feito para ela.

De repente, algo aconteceu. Ela deteve-se no meio da rua. Apercebi-me de que a tinha chamado, contra a minha vontade, ou talvez por vontade própria, o que justificaria a minha estranheza perante a ousadia em gritar ó menina! Ela começou a virar-se lentamente. Percebi naquele gesto demorado que ela devia estar a tentar imitar um filme qualquer, mas não desgostei completamente disso. Era mais frequente um filme com um final feliz do que a vida real, e eu só queria saber o que me prendia nela.

Quando ela me olhou nos olhos, senti um arrepio. Os olhos, que até então não tinha conseguido ver, eram ainda mais negros do que os cabelos, e de uma intensidade que me fez acreditar, ainda que por breves instantes, que me perscrutava a mente, que sabia exatamente o que eu queria. 

Não tinha um ar simpático, tinha antes um ar assombrado, de quem sofrera demasiados desgostos para ainda se dar ao trabalho de fingir que é feliz. Procurei, desesperado, por uma desculpa para a ter chamado e - oh, que maravilhosa oportunidade! - com a pressa, ela nem tinha reparado que tinha deixado cair uma folha que vinha entre os livros. 

Sorriu-me, talvez grata por lhe ter salvo um número de telefone ou uma morada importante, e foi-se embora sem dizer mais nada, com o rubor a fazer-se notar no rosto. 

Nos dias que se seguiram, sentava-me na soleira da porta à espera que ela passasse. Quando isso acontecia, fingia que não a via, de tão absorto que estava a ler o jornal - uma ou outra vez, de pernas para o ar. Creio que ela percebeu depressa a minha farsa, porque um dia se ajoelhou ao meu lado e falou-me, com um timbre estranhamente grave, para uma mulher tão delicada: há tantos anos que esperava pelo momento em que te apaixonarias por mim! Sabia que me reconhecerias, mais tarde ou mais cedo.

Devo ter ficado com um ar meio aparvalhado. Nunca tinha pensado muito no que me levaria a ficar horas sentado no chão, à espera dela. Sorri-lhe, até me ter apercebido de algo estranho. Espera lá... anos?! Reconhecer? Ela não pareceu embaraçada, antes pelo contrário. Sim, desde o 7º ano que te tentava dizer, mas tu nunca parecias interessado em mim, estavas sempre interessado em... O meu pensamento andava por longe, quase não a ouvia. Sempre tive uma excelente memória, lembrar-me-ia dela se a conhecesse. Desculpa, mas deves estar enganada, eu não te conheço de lado nenhum, disse-lhe, meio desapontado. Fez-se um silêncio constrangedor. Acho que nunca vou esquecer o que ela disse a seguir.

Conheces sim. Eu era o teu melhor amigo, na altura em que eu ainda me chamava joão.

6 comentários:

MV*T disse...

1º O texto está excelente!
2º Morri a rir na última linha, demais! :) **

somaijum disse...

Mesmo estranho.
Ao princípio pensei que estivesse a falar o gajo que existe dentro de ti, depois fiquei sem perceber se o João morreu e encarnou na mulher de preto, ou se a mulher de preto é o João, depois de ter mudado de sexo.
Bom, também não importa. O texto está muito bom, como sempre. xD

patrícia disse...

A mulher de preto é o joão depois de mudar de sexo xD
E obrigada aos dois :)

Itor M. disse...

Oki. Mas esta bem escrito, parabéns podes continuar :)

Cátia disse...

As palavras que me saíram da boca depois de terminar de ler o texto "oh my fucking God!". Mas a sério, amei do início ao fim. Mas diz lá, ele fica com o João? ;)

patrícia disse...

Ahahahah, obrigada!
Uhhhhm, essa é uma boa pergunta. Será que fica? Sinceramente, não tinha pensado nisso. Talvez mais tarde, faça um post a perguntar o que acham, se ele fica ou não com o joão, que agora é mulher, e posso pensar em escrever a continuação. Ou então fica assim, para não estragar, logo se vê :p