19/12/13

cartas que não vou enviar

Tenho uma facilidade incrível em apaixonar-me e em desapaixonar-me. Pelo meio, sofro como se tivesse chegado a sentir um desses amores incomparáveis e o mundo fosse acabar. Depois passa. Arruma-se o mundo outra vez e estou pronta para recomeçar.

Contigo, foi diferente. Por mais que não entenda sequer o que raio me liga a ti, não consigo esquecer-te. E demorei mais tempo do que me orgulho a aperceber-me disto; nunca me esquecia de ti, mesmo quando ocupava os dias a fingir que já não me importava contigo. Tu farias qualquer outro desaparecer da minha vida em menos de dois minutos - e não merecias tal poder. Nem mereces.

O que se passa é que gosto demasiado de ti. Não ouso chamar-lhe amor - nem poderia fazê-lo, de jeito algum -, mas o que sinto por ti é demasiado peculiar. E posso vir a gostar mais de alguém, posso vir a experimentar conjugar o verbo amar na primeira pessoa, mas estou certa de que nada será igual ao que poderia ser contigo. 

Não consigo isolar em ti uma qualidade que me sirva de justificação plausível para estar apaixonada por ti há tanto tempo. Com sorte, arranjo-te mais facilmente meia dúzia de defeitos e, ainda assim, é de ti que eu gosto. É a ti que eu confundo com um trilião de outros rapazes porque, ainda que inconscientemente, é por ti que eu procuro. E também é contigo que sonho uma e outra vez - porque os meus sete derradeiros segundos antes de adormecer te são quase sempre dedicados. É de ti que eu gosto, e isso aterroriza-me. Ao contrário do que me disseram um dia, não és o meu porto seguro. És talvez o sítio mais perigoso onde algum dia atraquei - mas, ainda assim, é para ti que eu insisto em voltar.

Não consigo imaginar sequer o dia em que terei de te dizer adeus, sem ter direito a pronunciá-lo. Não consigo imaginar o dia em que terei de assumir que acabou e que não posso fazer nada quanto a isso. Não me quero afastar de ti - preciso dessa tua presença certa, ainda que silenciosa, na minha vida. E que se alguma coisa tiver de mudar, que seja esse silêncio cortante - porque eu acredito que hajam amores maiores, amores melhores, mas estou certa de que nunca mais vou encontrar ninguém que me desperte as mesmas sensações que tu, que consiga despertar dois lados opostos de mim mesma e deixá-los num eterno conflito, até que um deles mate o outro e eu perceba se fico ou se fujo.

E por mim, ficava contigo eternamente - um eternamente redesenhado todos os dias, que tanto podia durar duas semanas como para sempre. Bastava-me que tivéssemos direito a ele; a uma promessa de que tudo isto tinha valido a pena. À certeza de que não nos íamos perder.

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