23/01/14

texto corrido, desabafo agendado, grito de revolta, frustração, wtv. chamem-lhe o que quiserem

[hoje estou cansada. talvez não só hoje, talvez não de hoje, talvez sejam cansaços somados a outros cansaços e agora eu esteja no limite, mais esgotada do que nunca. estou cansada da monotonia dos dias, farta de me sentar aqui e ser sempre tudo igual; as paredes cinzentas, as mesas pretas. tudo tão simplista. quem decorou isto quase de certeza que era daltónico e teve medo de arriscar outras cores. às vezes eu gosto assim, desse mar preto e branco, perdão, preto e cinzento, que não me acrescenta nada de novo aos dias e me traz aquela estranha sensação de que qualquer ser que se perca aqui no meio se vai sentir tão sozinho quanto eu. às vezes é assim. o meio envolvente também influencia o nosso humor, dizem, mas talvez seja mentira. hoje nem me apetece usar maiúsculas, não quero letras que se destaquem, não quero palavras semi-gritadas. hoje são todas pequeninas, como eu me sinto. pequenina, minúscula, reduzida a nada - não fisicamente, leia-se, mas no geral. ok, chega. vou comer. esta é outra das coisas que, normalmente, me conforta. não o comer, digo, mas a forma como já sabem exatamente o que eu quero e como o quero. a nata mais torrada e o galão clarinho. sim, sim, um pacote de açúcar chega, gosto dele amargo. obrigada. mas se um dia eu pedir uma torrada, ninguém vai saber que eu não gosto de manteiga, e depois quero ver como é que eu me sinto em casa. e se for um café? nem quero pensar. quase me matam sem saber. talvez não me matem, quase de certeza que não me mataria, mas hoje estou chateada e isso vale o drama. volto lá para fora. felizmente isto está vazio, não há cá música foleira nos telemóveis sem fones nem gritos de pitas histéricas. muito obrigada, meu deus, por este momento de paz. mas como eu odeio esta minha tendência para me dirigir a um deus em quem nem sempre sei se acredito. que se foda. cá nos havemos de entender. agora é a televisão. foda-se, não entendo nada. não entendo a história do meco, não entendo como é que um puto com um ano e meio desaparece de casa, não entendo como é que os sportinguistas não se suicidam todos. não me levem a peito, já vos disse que hoje estou chateada. mas, se quiserem suicidar-se, não se prendam por mim, vão em paz que lá há de haver alguém que sobre para ler isto. onde é que eu ia? ah, sim. sozinha, aqui fora. vou enterrar-me no livro, para variar, até que passe alguém que me acuse de devorar livros ou o meu stôr de física e química para me mandar estudar. já lhe tentei explicar porque é que não estudo na escola, mas não me parece que ele entenda o facto de eu usar um desses calhamaços de apoio ao exame por terem a matéria explicada sem quilómetros de texto sem interesse, e que é óbvio que não vou andar com isso todos os santos dias atrás. estudo em casa, lide com isso. oh, daqui a pouco toca para sair. mais uma coisa para me irritar, céus, como eu odeio o som da campainha. mas depois ele vem lá, espero eu. pode ser que repare em mim. credo, que estou eu a pensar? mais facilmente ele se interessava pela belle dominique do que olhava duas vezes para mim. é melhor voltar a enterrar os cornos no livro e a deixar-me de fantasias porque eu já nem sei o que estou a fazer com a minha vida. mas claro que agora não me consigo concentrar na história; há pessoas que se esquecem de tudo e outras que, como eu, sofrem de uma memória demasiado boa. é horrível. quem me dera conseguir esquecer-me das insignificâncias que me assaltam o pensamento nos momentos mais inapropriados, como agora, vá-se lá saber porquê mas lembro-me do exato dia em que me apaixonei por ele, ou que me reapaixonei, ou que percebi que estava apaixonada, isso são pormenores insignificantes ao lado do que esse dia, o tal a que eu me refiro como o fatídico dia, acabou por representar. do mal o menos, perdi a fome durante uns dias, nem conseguia pensar em comida. a merda é que depois acabei por compensar, mas o mundo é mesmo assim, injusto. já me perdi outra vez. ah, sim. o gajo. foda-se, ele está tão giro. é um filho da puta bonito, este. uma encarnação do diabo que leva qualquer pessoa a querer pecar. ou, pelo menos, a mim. entretanto vejo o meu reflexo. o livro, o livro. é melhor concentrar-me noutra história que não a minha. é melhor desistir do mundo real antes que acabe doida. o jorge. o jorge que ama a sofia. a helena que ama o vítor. o jorge que é corno. o pedro que não tem sorte. a patrícia que... a patrícia que está cansada. a patrícia que não gosta de sentir. e hoje está chateada. prometo que um dia me encontro. prometo que um dia encontro uma saída para o abismo onde caí no fatídico dia. gostar dele só não foi má ideia porque não foi, de todo, uma ideia. foi um acidente de que me está a custar a recuperar. foi um problema técnico que só se resolve à pancada mesmo. foda-se. que estou eu a fazer? pode ser que ele me ouça se eu lhe gritar dentro da minha cabeça. estás a ouvir-me, cabeça dura? só quero perceber-te. nem precisas de me entender, nem precisas de saber o que se está a passar agora. mas explica-me, pelo amor da santa, porque tu és um pobre diabo que nem jeito para ser mau tens. hoje também estou cansada de ti e da tua passividade. acorda desse estado de dormência, pela tua rica saúde. seu merdas. vai-te foder. não gosto de gostar de ti. mas gosto, e não é pouco. ouviste? ouvisses. para mim, chega.]

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