09/04/15

quase auto-ajuda

Não me inscrevi no ginásio porque estava na moda, ou porque ficava bem no meu status e muito menos para ir tirar selfies em frente ao espelho - inscrevi-me no ginásio porque, um dia qualquer, cismei que ainda havia de ficar magra. Ainda havia de, imaginem-me lá a loucura, vestir um bikini sem me sentir embaraçada e usar um daqueles vestidos bonitinhos que só fica bem em meninas esqueléticas. Mas não tanto - não quero ser esquelética, quero gostar de mim.

Tenho consciência de que não sou tão gorda quanto me descrevo por aqui (ah, o espanto!) mas descrevo-me como me vejo e é aí que começa o problema; mas não, caríssimas alforrecas, se me imaginam de banhas quase a roçar os joelhos, quatro fileiras abaixo das mamas e uma data de pregas de gordura à bulldog, desenganem-se: na realidade, sou uma gorda com as curvas no sítio e tenho a barriga - dizem as invejosas, que eu cá nunca me vejo assim - lisa. Arrisco-me a dizer que gosto das formas que tenho e que era uma gaja feliz se conseguisse emagrecer e mantê-las tal qual estão; e um dia decidi que era isso mesmo que queria.

Não sou nenhuma atleta nem nasci com o bichinho do desporto e há dias em que não me apetece; ora está frio, ora está calor, ora está de chuva, ora o sol está forte. Há dias em que me arrasto para o ginásio porque me lembro de toda uma panóplia de coisas que preferia estar a fazer em vez de estar ali a transpirar que nem uma porca e que me cansariam muito menos; mas, na generalidade dos dias, vou porque me apetece e nem me importo muito com o facto de ter de deixar quase tudo o resto para trás porque o tempo me é curto. E porque, se não for, sinto a falta.

É verdade que - e nunca pensei algum dia vir a concordar com esta premissa - vicia. Quando entro no ginásio, esqueço-me das coisas que queria estar a fazer e já não vou poder e só saio de lá quando acabar o plano, mesmo que isso inclua sentir-me ali à beira do falecimento. Aprendi a não desistir nem à lei nem à bala. Aprendi a desafiar os meus limites todos os dias - e faço-o, não por obrigação, mas por puro prazer. Porque, como alguém disse por lá no outro dia, na maior parte do tempo é a cabeça que nos pede para parar, e não o corpo. Está tudo aí: é só não deixar a cabeça vencer. É só mostrar-lhe que aguentamos mais.

De alguma forma mágica, a passadeira deixou de ser a minha pior inimiga e passou a ser uma das coisas de que eu mais gosto; deixei-me de 15 minutos de pura tortura a caminhar e a correr lá pelo meio para não parecer mal, e passei a correr 20 minutos enquanto planeio conversas, tenho pensamentos profundos acerca de coisas que se passaram quase na era dos dinossauros, alinho posts que nunca chego a escrever e ainda mato mentalmente umas três ou quatro pessoas, enquanto ouço música. Quase sempre puns-ka-punz-ka-punz ou metal. 

Se hoje corri 3km e é uma vitória, amanhã já não me chega - obrigo-me a correr mais a cada dia que passa. E a comemorar cada pequena vitória porque, por mais que quem está de fora possa achar insignificante, eu sei quem fui e a mudança que esta minha nova faceta representa na minha vida. Não podia estar menos do que orgulhosa de mim mesma; e estou. Se hoje o treino me corre muito bem, amanhã não me enterro no sofá para compensar; amanhã eu vou e tento fazer ainda melhor. Ou, no mínimo, igual. 

Hoje foi um desses dias em que não me apetecia ir, mas acabei por ir e fazer um treino ainda mais puxado - não saio do ginásio de maquilhagem e cabelo intactos, nem de roupinha seca mas até confesso que me soube mesmo bem ouvir um dos mocinhos gotosos a dizer que bastava olhar para a minha camisola para perceber que não ando ali a brincar - não ando mesmo. Posso não ficar magra, mas sinto-me estupidamente bem, até quando saio de um treino quase a rastejar. E quase todos os dias eu digo que vou sair de lá pior do que se me tivesse passado um camião por cima e não volto no dia a seguir.

Mas volto.
Volto e faço ainda pior.

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