12/02/17

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[nós somos dois pólos opostos: na corrida da vida, és o que prefere caminhar lentamente para garantir que o piso é seguro e evitar quedas. eu prefiro lançar-me sem olhar porque me apetece ir; às vezes desacelero o passo, outras vezes sinto que vou parar a qualquer momento, mas nunca páro enquanto sinto que vale a pena correr. caio, choramingo um bocado mas volto a correr mesmo de joelho esfolado e dignidade ferida. tu cais e desistes.
trocas-me as voltas a toda a hora; fecho-te a porta mas deixo uma chave suplente, do lado de fora, debaixo do tapete. prometo a mim mesma que não te dou uma segunda oportunidade mas, não só a ofereço de bandeja, como começo logo a amornar a terceira e a quarta. somos dois opostos impossíveis: tu esmiúças a razão, eu deixo o coração berrar-me aos ouvidos e faço o que ele manda. 
gostar é simples e não cabem desculpas no verbo. pelo menos eu não as conheço porque gosto de usar tudo quanto sou em tudo quanto sinto. 
os sentimentos não cabem em regras, em tratados, em teorias - cabem na simplicidade genuina do sentir só porque sim. as barreiras são uma desculpa dos que não se esforçam para as ultrapassar; quem quer, realmente, ver como é o mundo do outro lado, nem nota que existem.
quando fecho os olhos, vejo-te comigo outra vez. faço de conta de que as últimas semanas não existiram e que ainda há um espaço para nós naquele outro tempo em que tudo estava bem. mas já só existe em memórias: se pudesse, escrevia-nos um final feliz. se pudesse, não te largava a mão, agora, para nunca mais a voltar a agarrar. mas não posso ficar e fingir que não aconteceu, que não fomos mais, que não quero mais, porque é isso mesmo: eu quero mais. gosto de ti e é impossível contrariar isso se continuar a gostar um bocadinho mais todos os dias. 
é por isso que não posso ficar.]

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