10/02/17

não tenho jeito para esperas

[o mal das esperas é que não te deixam ir a lado nenhum: ficas parado, na esquina do tempo, a espreitar para um lado e para o outro sem saber para onde ir. de um lado vejo o passado, o que fomos no tempo em que éramos alguma coisa, e do outro vejo um rol de sonhos e uma história fantasiada cheia de felicidade. vejo-nos a nós.
não tenho coragem de ir porque prometi que esperava; enterro as mãos nos bolsos para disfarçar o nervosismo e entretanho-me a embaciar, com o meu bafo quente, os pedaços de vidro que restam nas janelas geladas de uma casa qualquer tão abandonada quanto eu. sinto a tua falta. se não sentisse, não estaria aqui.
ouço passos e penso sempre que és tu. uma ou outra vez perguntam-me se preciso de alguma coisa, eu sorrio-lhes e minto: não. mas preciso; preciso de ti.
perdemos demasiado tempo, sabes? com teses, com teorias abstratas, com medos infundados e pensamentos fúteis. deliberamos demasiado, metemos demasiado nos pratos da balança e nunca chegamos a perceber para que lado pende e se isso nos importa assim tanto. complicamos demasiado, atribuímos regras desnecessárias e que nunca nos levam a lado nenhum. e aqui estou eu, à tua espera. às vezes mudo de posição e ensaio poses para que chegues e tenhas a certeza de que queres ficar. outras vezes sento-me no chão, derrotada, sem me preocupar com os rastos de lama que começam por me cobrir as roupas: não fará diferença, pois não?
olho para o relógio e ele não pára; mais depressa se cansa a pilha do que o tempo que parece inesgotável quando a ideia é manter-nos em suspenso. hoje queria o teu colo: estou rabujenta. os comprimidos prometem aliviar-me as tonturas mas não me curam as saudades nem a vontade de te abraçar. isso... ah, isso ninguém me tira.
tenho sonhado com um reencontro. sonho acordada, a toda a hora, que ainda volto a sentir o cheiro da tua pele e a sentir o teu coração descompassado a bater contra o meu próprio peito. quando me distraio e esqueço que as probabilidades não estão a nosso favor, sonho que fazemos sentido outra vez, que acabas por voltar e me puxas para ti. ficar à tua espera sem saber se vens é a minha mais recente forma de tortura: se quiseres vir, o teu lugar no meu coração continua intocável. se não quieseres, também.
penso muitas vezes em tudo o que te quero dizer: tenho o discurso pronto e os braços abertos para te receber. por favor... vem. vem e não te demores - mal posso esperar para me perder em ti.]

Sem comentários: